REZENDE (Francisco José)

Rezende é uma charada.

Se para _conceito_ me derem o seu quadro: _A procissão das

almas_, injusta e vergonhosamente deprimido pelo _conselho dos

competentes_, não hesitarei apesar d’um ou outro defeito do quadro

em achar como _decifração_ um artista notavel, um verdadeiro

artista como poucos o são n’esta terra.

Se me derem o _Camões salvando os Luziadas_, encontrarei n’elle um

artista mediocre.

Que grande distancia! Percorrendo-a porém cuidadosa e imparcialmente, a

conclusão critica será um _mezzo termine_:

Rezende é um verdadeiro artista, mas não é nem um artista eximio nem um

artista mediocre.

Professor de pintura _historica_, a pintura historica,--tomada

n’um sentido restricto que não é porventura o exacto,--póde dizer-lhe,

como se diz no _Bajezet_:

«_Tu ne saurais jamais prononcer que tu m’aimes._»

O «Camões salvando os Lusiadas» é um _pastiche_ mentiroso e feio.

Imaginem um homem corpulento, um naufrago,--diz o pintor,--sem

expressão adequada, segurando-se com uma mão á borda d’um rochedo

mal desenhado e mal colorido, e com o pé commodamente collocado n’um

madeiro que sahe _ad hoc_ das suppostas aguas revoltas ao sopro

da tempestade. O homem está voltado de frente para o publico e tem na

mão direita convenientemente atirada para o que deve ser céo, como é do

estylo, um rolo que póde imaginar-se ser de pergaminho.

Adivinha-se que está alli o poema, e fica-se sabendo,--lendo o

catalogo,--que aquelle homem é Camões. Ainda d’esta vez o pobre poeta

não tem que agradecer aos artistas da sua terra.

Depois do Camões do Loreto....

A espuma das ondas que por _convenção_ quebram somente a um canto

do quadro, é um empaste de tinta d’um absurdo inexcedivel.

A _mancha_ em geral é má e o desenho é parcialmente bom.

O colorido é falso como a composição.

«Jeremias» e «S. Paulo», são duas cabeças de estudo, estudos cheios de

exaggeros e falsidades myologicas, mas onde não faltam tambem algumas

bellezas.

Os titulos são uma arbitrariedade artistica que seria insignificante e

pueril se não representasse uma arrojada pretenção _manquée_.

Quiz-se talvez condensar n’aquellas duas cabeças dois caracteres,

dois genios, duas naturezas profundamente distinctas, acentuadas e

exuberantes.

«A Procissão das almas», é um quadro admiravel. Ha cinco ou seis

figuras alli que bastam para fazer a reputação d’um artista. É um

dos melhores quadros da Exposição. Mas n’este mesmo quadro manifesta

Rezende a irregularidade de esthesia e de technica que é o principal e

lamentavel defeito do talentoso artista.

E note-se que não sou dos que mais se revoltam contra uma pequena

_boneca_ que Rezende collocou a meio da sua composição, uma

creança _cidadan_ que poderia servir de soffrivel contraste, se

mais cuidado tivesse o auctor empregado n’elle.

Ha aqui ou alli pequenos defeitos de desenho e composição, e soberbas

difficuldades de harmonia vencidas por mão de mestre.

«A caridade filial», «Camponezas de Braga e Vianna», «A indigencia»,

têem grandes incorreções de desenho e solidas bellezas de colorido e

composição, apresentando um cunho sympathico e vigoroso de naturalismo

que não é vulgar entre nós.

Segundo livro de crítica · 第 65 / 103 题