Rezende é uma charada.
Se para _conceito_ me derem o seu quadro: _A procissão das
almas_, injusta e vergonhosamente deprimido pelo _conselho dos
competentes_, não hesitarei apesar d’um ou outro defeito do quadro
em achar como _decifração_ um artista notavel, um verdadeiro
artista como poucos o são n’esta terra.
Se me derem o _Camões salvando os Luziadas_, encontrarei n’elle um
artista mediocre.
Que grande distancia! Percorrendo-a porém cuidadosa e imparcialmente, a
conclusão critica será um _mezzo termine_:
Rezende é um verdadeiro artista, mas não é nem um artista eximio nem um
artista mediocre.
Professor de pintura _historica_, a pintura historica,--tomada
n’um sentido restricto que não é porventura o exacto,--póde dizer-lhe,
como se diz no _Bajezet_:
«_Tu ne saurais jamais prononcer que tu m’aimes._»
O «Camões salvando os Lusiadas» é um _pastiche_ mentiroso e feio.
Imaginem um homem corpulento, um naufrago,--diz o pintor,--sem
expressão adequada, segurando-se com uma mão á borda d’um rochedo
mal desenhado e mal colorido, e com o pé commodamente collocado n’um
madeiro que sahe _ad hoc_ das suppostas aguas revoltas ao sopro
da tempestade. O homem está voltado de frente para o publico e tem na
mão direita convenientemente atirada para o que deve ser céo, como é do
estylo, um rolo que póde imaginar-se ser de pergaminho.
Adivinha-se que está alli o poema, e fica-se sabendo,--lendo o
catalogo,--que aquelle homem é Camões. Ainda d’esta vez o pobre poeta
não tem que agradecer aos artistas da sua terra.
Depois do Camões do Loreto....
A espuma das ondas que por _convenção_ quebram somente a um canto
do quadro, é um empaste de tinta d’um absurdo inexcedivel.
A _mancha_ em geral é má e o desenho é parcialmente bom.
O colorido é falso como a composição.
«Jeremias» e «S. Paulo», são duas cabeças de estudo, estudos cheios de
exaggeros e falsidades myologicas, mas onde não faltam tambem algumas
bellezas.
Os titulos são uma arbitrariedade artistica que seria insignificante e
pueril se não representasse uma arrojada pretenção _manquée_.
Quiz-se talvez condensar n’aquellas duas cabeças dois caracteres,
dois genios, duas naturezas profundamente distinctas, acentuadas e
exuberantes.
«A Procissão das almas», é um quadro admiravel. Ha cinco ou seis
figuras alli que bastam para fazer a reputação d’um artista. É um
dos melhores quadros da Exposição. Mas n’este mesmo quadro manifesta
Rezende a irregularidade de esthesia e de technica que é o principal e
lamentavel defeito do talentoso artista.
E note-se que não sou dos que mais se revoltam contra uma pequena
_boneca_ que Rezende collocou a meio da sua composição, uma
creança _cidadan_ que poderia servir de soffrivel contraste, se
mais cuidado tivesse o auctor empregado n’elle.
Ha aqui ou alli pequenos defeitos de desenho e composição, e soberbas
difficuldades de harmonia vencidas por mão de mestre.
«A caridade filial», «Camponezas de Braga e Vianna», «A indigencia»,
têem grandes incorreções de desenho e solidas bellezas de colorido e
composição, apresentando um cunho sympathico e vigoroso de naturalismo
que não é vulgar entre nós.