N’estas jornadas pelos campos das _bellas-artes_ tenho topado por
mais d’uma vez, com pobres arbustosinhos que, mal brotados do solo,
pendem logo para elle, estiolados e tristes á mingua de rocio e calor.
Tenho lido em muitas telas, das que povoam as exposições, um verdadeiro
martyrologio de trabalho, sem glorias, nem incitamentos, de corações
que pulsaram obscuramente ao bafejo da inspiração artistica, no
isolamento e nas trevas; de intelligencias que mal desabrochadas nos
vergeis da arte, fecham a sua epopeia de esperanças e amor á mingua
d’um raio de sol que a illumine e santifique.
É isto bem triste.
Para quem tem por noites mal dormidas, entre as paredes nuas d’um
pardieiro, pendida a cabeça sobre o livro,--confidente de tantas dôres
obscuras, companheiro de tantos trabalhos e de tantos revezes,--e
sentido o sopro gélido da desesperança bater-lhe na fronte immurchecida
em prematura senilidade; para quem sabe o que são esperanças que se
estiolam ao desamparo, energias mortas por decepções atrozes, trabalhos
d’annos esphacelados pelo desalento d’um minuto e recomeçados pela
illusão d’outro, o martyrologio obscuro do trabalho alheio, é cousa
santa e veneravel como a recordação do beijo extremo e veneravel da mãe
que se finou.
Quem escreveu já todo aquelle poema d’horrores e de esperanças,
d’amores e desalentos, de energias inauditas e desesperos, de esforços
sublimes e torpissimas injustiças?
Quem uma vez lhe soletrou as estrophes humedecidas com o suor do
sangue que atormentava as insomnias de Luthero, nunca lhe esquecerá os
amargores da pungentissima leitura. Desculpem a divagação que vae longa.
Tudo isto, porém, me suggeriu o nome d’um artista obscuro e
trabalhador, que eu não conheço pessoalmente, mas que sei que é uma das
victimas d’aquelle fatidico poema. Chama-se Antonio José Nunes Junior.
Não lhe anda aureolado o nome pelo _conselho dos competentes_
cá da terra, e apenas d’um ou d’outro canto da imprensa lhe vae ao
encontro dos esforços obscuros, uma palavra de esperança ou incitamento.
O seu _Retrato do padre Antonio Vieira_, é um excellente retrato.
O quadro tem defeitos; mas ha em todo elle um estudo tão consciencioso,
uma despretenção de pincel tão pouco vulgar, tanto cuidado no estudo e
execução _de todas as cousas_, como aconselhava Raphael; que é um
verdadeiro modêlo e uma bella lição aos nossos retratistas e uma gloria
artistica para um novel e obscuro pintor.
Tres ou quatro linhas do padre Barros, segundo indica o catalogo,
suppriram o modêlo, que Nunes só poderia talvez encontrar em gravuras
deploraveis.
Dizem aquellas assim: «Foi o padre Antonio Vieira de não pequena
estatura; rosto comprido e magestoso; o nariz aquilino; bôca
proporcionada; muita barba; o cabello na edade vigorosa, preto; todo
branco na velhice; a côr morena; os olhos sobremaneira vivos, e que
pareciam scintillavam.»
Com isto fez-se o retrato. Está o respeitavel velho sentado n’uma
poltrona de couro, com um papel n’uma mão e a outra descansando sobre
modesta mesa onde se vêem uns livros e um crucifixo. Retratista haveria
que traduzisse a magestade do rosto e o scintillante dos olhos por
expressão e _pose_ pedante e affectada, escabichando nos exageros
de Dubufe ou no symbolismo de Scheffer.
O moreno da pelle, estragada pela edade, pela labutação e pelos sóes
de differentes climas, apresenta, para os que não metterem em linha de
conta estas circumstancias, uma certa aspereza que poderia denunciar
impericia do pincel.
Talvez alguma cousa haja d’isto, junto a um certo tom archaico de que
se resente o quadro todo.
As rugas da edade são demasiado geometricas, se póde dizer-se assim,
mas a cabeça está muito bem modelada. As mãos, principalmente
a direita, são _duras_. Os accessorios e as roupas estão
excellentemente tractados. Os planos ou a perspectiva careciam de maior
estudo, e é boa a _mise-en-scene_, porque tambem a tem um quadro
de retrato.
Em dois outros retratos expostos (n.^{os} 49 e 50) ha aspereza de
tintas, boa musculatura e expressão natural.
Uma _Cabeça de estudo_, é um excellente estudo e uma boa cabeça. A
distribuição da luz e a musculatura são boas. As barbas reclamam maior
cuidado de desenho.
D. Elisa d’Oliveira, expõe dois quadros _a pastel_ que são bem
promettedora estreia, e nem eu sei quem é mais feliz: se J. P. de Sousa
em ter tão excellentes discipulas, se estas em o terem a elle por
mestre. Habil mestre, é.