Newton não é simplesmente um bom pintor, é um pintor de bem.
_Rara avis!_ É mais: um pintor modesto, tranquillo, inspirado.
Tem porém uma vulgaridade: falta de illustração, de conhecimentos, por
conseguinte apoucamento de força, de exuberancia concepcional.
Póde usar da divisa de Jan Van Eych:
_Como posso._
Póde muito; muito nos promette.
As suas paizagens este anno denotam já um grande estudo technico, uma
grande consciencia e um grande progresso.
Ha ali alguma cousa do pintor de Harlam: uma melancolia
melodiosa,--permittam-me a expressão,--e um como que extasis tambem
no meio d’esta atmosphera do meio-dia, turgida de luz, d’aromas; de
sensualidade. Extasis, que prolongado, póde ser monotono.
Ha nas suas paizagens uma certa suavidade de luz, uma liberdade de
pincel, uma tranquillidade de imaginação que encanta devéras. A côr
raramente falsêa a natureza, o desenho por pouco que não póde dizer-se
irreprehensivel. O quadro a _Serra de Minde junto a Torres Novas_
é admiravel nos longes, tem bellas massas de verdura,--porventura
picotadas mais aqui ou ali,--o colorido é geralmente bom, menos n’umas
penedias á esquerda em que é falso, e nos ares aos quaes escacêa além
d’isso uma certa diaphaneidade, que até a consummados mestres fallece.
No quadro: _O valle de Bomfim_, ha um riacho de incorrecta
perspectiva e longes e ares excellentes; boas massas de verdura, côr
bem estudada e tintas magistralmente postas.
Um outro: _A serra de Monsanto, arrabaldes da Lisboa_, que
melhores titulos tinha á _medalha de prata_ que o conselho dos
_competentes_ concedeu ao primeiro, tem soberba illuminação, bella
perspectiva, aguas bem estudadas, mas onde os claros são falsos por
vezes, bellos ares e massas d’arvoredo.
O _Tejo em Tancos_, é quadro muito inferior aos precedentes,
patenteando porém algumas das excellentes qualidades que elles
manifestam e que fazem com que Newton seja o paizagenista de melhores
esperanças que tem apparecido entre nós.
Oxalá não fique em esperanças ou não fique simplesmente no que é. Póde
ser muito, mas não é bastante. Procura impregnar as suas telas da
coloração natural, _copía_ muito bem e muito conscienciosamente,
póde dizer-se que é um pintor naturalista,--para me servir d’uma
magnifica phrase de Max. de Camp a respeito de Brin,--_de ceux
qui, comme Van Everdingen, s’imprégnent fortement de la nature, et,
n’osant point l’interpréter cherchent à la rendre telle qui’ils la
voient_.[23]
Isto que poderia ser um systema talvez, póde ser uma impotencia
concepcional, e não é decerto a mais larga manifestação da faculdade
artistica.
Entre a paizagem de pura phantasia e a paizagem de pura cópia, entre o
conjuncto caprichoso de côres, de tons, de linhas, de objectos que teem
a sua lei d’harmonia, de correlação, de existencia, de _realidade_
emfim só na mente, na convenção ou no processo do artista,--e a
reproducção, a cópia servil, paciente e repetida, em que o esforço,
a persistencia, a habilidade technica supprem a intenção esthetica,
a concepção, o sentimento, a communicabilidade e a finalidade moral;
em que o artifice póde revelar-se superiormente, mas em que o artista
póde completamente desapparecer: entre estes dois extremos perigosos,
ha um vasto campo em que a arte póde energicamente affirmar-se
n’uma exuberancia sadia e fecunda, nobre, inspiradora, sincera,
communicativa, verdadeira, _naturalista_.
Percorrendo a exposição parisiense de 1863, dizia o critico atraz
citado:
«Um artista deve conceber a sua obra, vêl-a em si mesmo: a natureza
vem em seu auxilio para esclarecel-o, para lhe dar o apoio dos seus
innumeraveis documentos e rectificar-lhe as ideias. Collocar-se
ingenuamente diante d’uma arvore, diante d’uma mulher, diante d’um
cavallo, copiar isto o melhor que se póde, é simplesmente a missão
d’artifice (_œuvrier_) e desgraçadamente é o que cada qual parece
fazer hoje. O que mais dolorosamente impressiona quando se contempla
as telas expostas, é a ausencia completa de composição. Os paizagistas
enviam os seus _estudos_: um sitio, um aspecto, uma excepção da
natureza impressionou-os de passagem: esboçam isto, terminam o trabalho
na officina, enviam-n’o á Exposição e julgam ter feito um quadro:
engano; fizeram uma _cópia_, e confesso que pela minha parte
prefiro o original.»
Pondo de parte as doutrinas espiritualistas de Max. Decamps, que não
vem para agora discutir, este trecho é de rigorosa verdade.
De Vernet se conta que costumava dizer, embora não costumasse fazer
talvez: «Quando quero pintar abro a janella e olho», e Rembrandt dizia:
«Quando cesso de pensar, cesso de pintar.»
Duas grandes advertencias são estas que valem por dois principios que
se completam, se não por completo systema.
Disse ao começar este capitulo que os quadros de Izaias Newton
apresentavam algumas vezes uma certa melancolia suave que nos encantava.
É necessario não exagerar isto.
É o sentimento esthetico, o elemento idealista a irromper do rigorismo
systematico da _cópia_.
Esta porém predomina no criterio inculto e na execução habilissima de
Newton.
Procura elle um _local_, um aspecto da natureza que reuna um
certo numero de condições adequadas a certos effeitos e bellezas
technicas, com que encha uma tela, mais do que traduzir uma concepção,
uma acção esthetica, do que communicar um sentimento, do que assimilhar
a natureza a uma idealisação, a um modo de ser psychico, a uma
intenção, a uma finalidade moral. A intima e fatal alliança do ideal e
da realidade sensivel na arte é que dá o que a principio notamos.
Este systema porém, se de systema merece o nome, é ainda aggravado pela
reproducção, pela exploração circumscripta e persistente d’aquelles
effeitos e bellezas.
A illuminação das paizagens de Newton, por exemplo, é sempre a mesma,
posto seja sempre natural a coloração d’ellas. Variam os panoramas
_copiados_, e parece-nos estar vendo o mesmo quadro com pequenas
variantes. Fallar d’um é fallar de todos: excellentes massas de
verdura, penedia, céos claros, muito sol; o mesmo dia ou a mesma hora,
um mesmo aspecto da natureza rural. O animal poucas vezes apparece.
Comprehende-se que a composição artistica poucas vezes exista.
Newton póde vir a ser um excellente artista se não quizer ficar-se n’um
copista excellente.
O ter conseguido reproduzir a coloração natural, e adquirir uma
firmeza, uma bravura, deixem dizer assim, de desenho, notavel,
junto á consciencia do seu trabalho, são cousas muito importantes
e aproveitaveis, e que o fazem avultar distinctamente na turba dos
nossos pintores. Oxalá não estacione nem deixe atrophiar-se. Diga-se
ainda, apezar do que fica observado: (que nem ha contradicção)
póde affirmar-se que Newton se apresenta já n’esta Exposição como
verdadeiro paizagista na accepção commum, e attenua a estreiteza
de systema pela excellente escolha de _localidade_. Ha tambem
n’algum quadro tentativa de composição e pela exagerada e systematica
exploração d’esta, tambem póde vir grande mal ao artista.
Em conclusão, como diz Chaignet, «a paizagem é o genero mais seductor e
mais perigoso da pintura....
«A natureza é o theatro da vida do homem, e os seus aspectos parecem
harmonisar-se com os nossos pensamentos. Ha mais: por uma illusão
voluntaria, mas instinctiva, prestamos uma alma aos objectos,
imaginamol-os á nossa semelhança, reflectimo-nos n’elles; ha pois,
ao menos por nós e para nós, um ideal na natureza: a arvore medita,
a fonte soluça, o vento suspira, a luz brinca e ri. Somos nós que
depomos a vida na natureza e ali a admiramos depois. É pois já um
acto esthetico, um acto d’artista, gozar as bellezas da natureza,
e attribuir um caracter moral ás suas producções e aos seus
espectaculos.»[24]
NOTA.--Algumas considerações que alteram em parte a apreciação
feita e publicada em 1868, foram suggeridas posteriormente por outros
quadros. N’outros pontos, porém, não ha mais que o desenvolvimento das
ideias então mal enunciadas, por causa das exigencias e condições d’uma
publicação periodica.