O quadro de Lessere tem o que Balzac chama _le brio des belles
choses_. É esplendido. N’este genero:--_bodegones_, ou
natureza-morta,--é a obra prima da Exposição. Intitula-se: _Flores e
fructos_.
Em quadros taes a ordenação dos objectos é geralmente illogica, a
composição é quasi sempre absurda, por que difficilmente é natural.
A unidade é attingida antes pela gamma das côres, pela harmonia dos
tons, do que pela expressão, que é absorvida pela exacção e verdade do
colorido e desenho. O pintor póde provar-nos que tem excellentes olhos,
consciencioso pincel e fecundo sentimento da harmonia das côres.
Não vae muito além d’este a manifestação da faculdade esthetica do
pintor que enche as suas telas de fructos e flôres. É claro que
só aos quadros n’estas condições me estou referindo e não aos de
natureza-morta na sua totalidade.
Feitas estas restricções póde afoitamente dizer-se que a pintura de
Lessere é uma magnifica obra e faz a gloria do author. Colorista
delicado e harmonico, desenhador excellente e minucioso nos primeiros
planos e desmazelado nos ultimos como que para nos provar a verdade do
verso:
_Tout se commence en vers e tout s’acheve en prose._
Lessere sabe copiar a natureza sem a offender; dá ás suas flôres uma
certa frescura que geralmente perdem na passagem do vergel para a tela
quando as mãos que as transportam não teem como estas a pericia e mimos
que a operação exige, e realisa-lhes o agrupamento sem esforço nem
dissonancia como a mais habil e delicada ramalheteira.
Flôres, parras, uvas, estão magistralmente estudadas; ás massas de
verdura do solo falta muitas vezes miudezas de desenho e sobeja
intensidade de côr; as aguas--que veem ali, creio, para o artista
provar que sabe pintar uma rosa fluctuante n’ellas,--teem um _tom_
falso e o verde intenso dos _accessorios_ vegetaes á direita
do quadro destôa com o colorido do assumpto principal e prejudica a
unidade d’este. O fundo é descuidadosamente tractado. Parece-me por
elle que Lessere pertence a certa _eschola_ franceza, cujos
artistas, diz About, _ont la maladie d’acumuler des nuages pour
obtenir des effectes de couleur_. É deploravel defeito em quadro de
tão excellentes qualidades.
Dizem os velhos: «Perdigão perdeu a penna, não ha mal que lhe não
venha.» É o que aconteceu, parece, com Lupi.
Depois d’aquella verdadeira catastrophe artistica, que nem pelas
notaveis bellezas de desenho se fez desculpar, e que a Academia
registrou sob o titulo de _Beijo de Judas_, é um novo desastre o
_Retrato del rey D. Luiz_.
A _portraiture_, como dizia Rabelais, e como Voltaire queria que
se dissesse, a _retratura_ como nós podemos muito bem dizer,
é genero difficil e perigoso, para qualquer artista, que se chame
Holbein, Ingrès, ou Hypolite Flandrin, _quand même_.
De Flandrin, dizia Ed. About, que nascera pintor de _retrato,--c’est
á--dire: peintre de première force_.
No retrato symbolico,--e ninguem como Ary Scheffer o realisou nos
tempos modernos,--no retrato symbolico que não é o verdadeiro retrato,
o pincel move-se ao impulso da inspiração da ideia actual,--individual
ou collectiva.
Nos retratos á Dubufe, extremo opposto, póde dizer-se, e inferior
á _portraiture_ á Alberto Durer, retratos mercantís de que a
burguezia faz enorme gasto, o artista pretende corrigir a natureza,
_embellesando_ segundo as proprias impressões pessoaes o
_original_ ou segundo as exigencias e caprichos d’este, e só
consegue falsear natureza e arte.
Retratistas ha tambem,--mesmo n’esta exposição os encontramos,--que
põem a arte exclusivamente ao serviço do _incidente_, do que
é um momento, um estado d’equilibrio instavel por assim dizer, uma
anormalidade ás vezes na individualidade do _modêlo_, e esquecem
completamente esta.
O _incidente_ é uma modificação, attesta e confirma a
individualidade, mas não a constitue, como das theorias estheticas
do Dr. Vercher e d’outros podera deduzir-se. Acompanha-a, é um
_accessorio_ fatal, mas não realisa isoladamente a unidade do
_caracter_, a personalidade que o retratista é encarregado de
estampar na tela.
Por tudo isto, por muito mais que haveria a dizer, por muito ainda que
está decerto no espirito de todos, se vê, quanto difficil e perigoso
é este genero, que tão fecundo tem sido em aberrações e erros e onde
teem naufragado tantas reputações, aliás justamente laureadas n’outros
campos.
E comtudo a regra é simples: Representae o homem, o individuo, tal qual
elle é, na sua feição normal e predominante, e como os elementos e
instrumentos da arte vos permittem, e tereis feito um _retrato_.
Tendes para isso, linhas e côres, planos e tons.
Ninguem póde seguramente dizer qual seja o _estylo_ de Lupi, na
verdadeira accepção da palavra. O _processo_ parece absorvel-o.
O que póde afoitamente dizer-se é que não nasceu retratista como
Flandrin, nem longes tem da concepção de Scheffer, nem da fina execução
de Dubufe; é que não é retratista.
Amontôa os planos, falsêa os tons, não estuda o modêlo, não tem
o sentimento da carne, nem da expressão. E comtudo,--curiosa
cousa!--n’alguns quadros parece nada d’isto faltar a Lupi, antes se
revela verdadeiro artista; conserva aqui ou ali a naturalidade dos
planos,--permittam-me a expressão;--realisa uma certa harmonia de tons,
uma gamma suave de colorido; e denuncia por vezes uma esthesia fecunda
e delicada. O seu quadro, por exemplo, de Tintoreto retratando a filha
morta, se lhe faltam os primeiros merecimentos teem estes ultimos. Como
explicar isto? Simplesmente pela diversidade e porventura antinomia dos
generos, pela irregularidade ou incompleto da esthesia, ou por outras
circumstancias particulares e pessoaes? Não sei.
No retrato do Rei D. Luiz I, o rosto tem _vida_, mas não tem
similhança. Aqui ou ali a musculatura tem naturalidade, mas o desenho
é na quasi totalidade incorrecto. Não tem continuidade. «Uma cabeça
bem pintada,--diz um critico,--apresenta uma superficie não sómente
_unida_ mas _una_.»
O desenho do nariz é mais alguma cousa: é incorrectissimo. A carnadura
tem certo frescor, mas colorido geralmente monotono e falso. O empaste
dos cabellos é de principiante. Tem _vida_, disse, o rosto: Uma
vida vulgar, indefinida, a expressão elementar da vida, por assim
dizer, que não póde hoje faltar á arte na representação da figura
humana, sob pena de ... não ser arte. Mas não a vida condensada, a
vida propria, a vida determinada, caracteristica, _individual_,
que constitue isto que se chama vulgarmente _feições_ d’este ou
d’aquelle,--do _original_ n’este caso. Aqui é que reside a suprema
difficuldade e o grande perigo da _retratura_.
No vestuario e accessorios, Lupi não cahe n’uma especie de fethicismo
do panno, da sêda e das joias, que é o vicio de muitos retratistas,
mas esquece o preceito de Raphael, que dizia que o pintor devia pôr
_todo_ o seu cuidado em _todas_ as cousas, e se o seu
desenho aqui não augmenta em incorrecção, a _côr_ é como diria
o critico acima citado _crue, disparate, et injurieuse_. Os
_amarellos_ que fingem de douraduras na farda, são intoleraveis.
A _mise-en-scene_ é banal e de convenção. N’isto todos os nossos
retratistas que retratam _reis_ são eguaes. Parece que querem
retratar ... a _realeza_. Posição e dimensões tem affectação e
erro. O fundo e os accessorios são mal pintados: as _tintas_ mal
postas. Defeito este talvez do _processo_. N’este ponto póde
dizer-se d’este e d’outros quadros de Lupi, o que About, já tanto
citado, dizia d’um ou outro retrato de Chaplin. «... _vu d’une
certaine distance, a l’aspect martelé d’un travail de chandronnerie ou
l’on pout compter les coups frappés par l’ouvrier. Ce n’est pas une
vérité nouvelle que l’art doit cacher ses secrets_.»
Lupi é um artista muito estudioso, mas _trabalha_ demais os seus
quadros.
Creio que Herculano Machado se dedica exclusivamente ao retrato.
Apresenta tres n’esta Exposição. O primeiro _Retrato de B. P._,
tem excellente fundo, musculatura demasiado geometrica, expressão
affectada senão pedante. O desenho e o colorido são bons, menos talvez
no fato.
É um retratista do _incidente_ e de certo estampa-o bem na tela,
qualidade excellente para outro genero de pintura.
Dá-nos este artista, como poucos, a expressão momentanea, passageira,
anormal, se póde dizer-se assim; mas o _retrato_ soffre com isto.
A representação d’um individuo encolerisado, assombrado ou inebriado
pelo enthusiasmo d’um instante, não é rigorosamente um _retrato_.
E depois nota-se um curioso defeito nos retratos de Machado, pelo
menos nos tres que expõe e é que se reproduz aproximadamente a mesma
_expressão_ incidental, que diga-se sempre, não é facil definir. É
expressão de _pose_, se póde dizer-se assim:
_Mimi Pinson n’a qu’une robe._
No quadro: _Um ancião_, a cabeça do velho está muito bem estudada,
os cabellos teem cuidadoso desenho e natural colorido, a carnadura é
soffrivel, o pescoço parece alongado de mais.
O quadro: _Uma menina_, parece representar um rapaz; tem bom
fundo, _tintas_ bem postas e os tons bem harmonisados.