Christino é um colorista _enragé_, como dizem os francezes.
Mergulha o pincel nos horisontes de fogo, nos céos de profundo azul,
nos prados de esmeralda. Cobre a tela de tintas _quentes_,
divide-a n’um mosaico de raios multicores e fascinantes, esboça-lhe ás
vezes em cima alguns d’aquelles soberbos _magots_ de Van Ostade,
mas no meio d’este delirio, que tem alguma cousa de pantheistico,
nem sempre perde o sentimento da fórma, quasi sempre attesta uma
sensibilidade delicada e intelligente, uma imaginação vigorosa, como
não é facil encontrar nos nossos artistas, e constantemente comprova
o sentimento da harmonia das côres, a despretenção e a liberdade do
pincel, liberdade que redunda ás vezes em licença e absorve a arte
na impressão pessoal do artista, como acontecia ao chefe da eschola
romantica da pintura franceza, Delacroix.
Com as suas bellezas e os seus muitos defeitos, com as suas valentias e
aberrações, o pincel de Christino, --vê-se,--é um dos que mais poderiam
fazer e dar, dos quantos possuimos. Ha muita consciencia nas suas
valentias e muita imaginação nas suas aberrações. Ha ali uma vigorosa
alma d’artista, como costuma dizer-se.
Um dos melhores quadros d’este pintor, que se encontra n’esta
exposição, é incontestavelmente o «_Sendeiro de 40 annos_.»
Onde Christino foi buscar a certidão de edade do pobre animal, não
sei. Sei que a transcreveu na tela. O _Sendeiro_ é uma reliquia
archeologica que mais acatamento inspira do que muitas que conheço.
Quarenta annos de trabalhos e provações, quarenta annos passados entre
o arrocho e a mangedoura, com uma resignação mais que heroica, que nem
as impertinencias da senilidade desmentem!
Amen, dicas, asine;
Jam satur de gramine.
Amen, amen itera,
Aspernare vetera;...[12]
Com que serenidade de justo, espera o sendeiro a hora em que será
arrojado por um despenhadeiro ou fornecerá aos corvos um banquete!
O cerebro inculto não se lhe agita em tempestades philosophicas. Se por
lá trabalha a ideia da immortalidade, vale ella mais como esperança
d’uma alimentação melhor e de mais folgada vida, do que como receio de
castigo eterno ou de peior passadio. Que maior castigo do que ter sido
40 annos sendeiro!
N’este quadro, Christino aproxima-se de Landseer. Conhecem Landseer? É
o psychologista dos cães, dos bois, dos cavallos, de todos os animaes
que não são homens e que são ás vezes menos animaes do que elles.
É um psychologista que de pincel em punho descobre maiores horisontes
á intelligencia e ao sentimento do que muitos dos compendios
methaphysicos por onde nos ensinam nas aulas a renegar a natureza e a
insultar a vida animal.
«Landseer dá aos seus queridos animaes a alma, o pensar, a poesia,
a paixão. Fal-os viver uma vida intellectual quasi semelhante á
nossa; com mais alguma audacia tirava-lhes o instincto e dava-lhes
o livre-arbitrio; o que o inquieta não é a exactidão anatomica, as
_attaches savantes_, a solidez da _mancha_, a mestria do
_toque_:--é o _espirito_ do animal, e sob este ponto de
vista nenhum pintor o eguala; devassa o segredo d’aquelles cerebros
obscurecidos, sabe o que faz pulsar aquelles corações inconscientes, lê
nas retinas embaciadas a vaga admiração que produz ali o espectaculo
das cousas.»[13]
Volvamos do quadro. Não é necessario descrevel-o. O titulo e o que fica
dito, basta. O desenho é correcto, porque é verdadeiro, a perspectiva
boa e o colorido vigoroso, harmonico e natural. Esta ultima qualidade
nem sempre se encontra nos quadros d’este artista. As tintas são bem
postas e os accessorios bem estudados.
O quadro: «_O lago de Thun com o Grendelnald_» ao fundo, uma
recordação de viagem, é um dos mais originaes de Christino e até da
Exposição. Ignoro se foi por isto que o reprovou o _conselho dos
competentes_. O colorido, que nos parece falso, tem exactamente
o merecimento de se aproximar da verdade da atmosphera da Suissa,
como é permittido a um pintor que não é _esmaltista_. Só
estes é que traduzem verdadeiramente aquella pela intervenção da
_madreperola_. O pinheiro do norte, que se destaca no quadro, é
pintado com notavel mestria. Os _longes_ são soberbos, como os de
quasi todos os quadros de Christino.
No quadro que representa: «_Uma familia de pescadores do Tejo_» ha
excellentes tintas, bom desenho ás vezes, mas escacez de expressão.
O quadro n.^o 14 intitula-o o catalogo: «_Um episodio do Pilate junto
a Lucerna._»
Um episodio! Representa o quadro um vallesinho onde brincam duas
cabras, se bem me lembro, e bordado por enormes rochedos tapetados
de verdura. Alguns d’estes rochedos são admiravelmente desenhados e
pintados. Um pinheiro do norte, que tambem n’este quadro apparece, não
é inferior ao que já mencionei. Tons ... _madreperola_, tintas
bem manejadas, _ares_ que exigem maior estudo e colorido exagerado
n’alguns pontos.
Os melhores quadros de Christino, aqui, são estes: O que representa:
«_Margens do Ribatejo_,» tem bom desenho e boa tinta aqui ou ali,
bellos _longes_, mas muitos defeitos.
«_Visita do Palacio de Cintra_», por pouco que não é um esboço.
Do «_Costume nacional_» melhor é não fallar. Não resiste á critica
mais comesinha e indulgente.
Christino é um artista intelligente e exuberante como poucos, e algumas
vezes pouco consciencioso como muitos. Verdadeiro artista como quasi
nenhuns.