BARRADAS, (Augusto Cezar de Sousa e Castro)--CAMARA, (D. José
Hermenegildo da)--CHAVES, (José Ferreira)
Não quero ser injusto para com ninguem. Para muita gente os dois
quadros de Barradas serão simplesmente uns _estudos_; os de
Camara, uma _tentativa_, e de Chaves uma _estreia_. Não erram
os que pensam assim.
Erram porém se julgam que deve a critica passar desdenhosa e altiva
por um estudo d’artista novato, por uma tentativa d’artista amador, por
uma estreia d’artista estudioso, para ir esbarretear-se apenas entre as
theocracias cá da terra, de merecimentos e direitos muito contestaveis
por vezes.
Ha por ahi uns sujeitos que se dizem criticos, que assim pensam e assim
obram.
São os que venderam ao demonio da popularidade a dignidade da critica e
converteram de ha muito a escassa consciencia e a sciencia esfarrapada
que possuiam, nos incensos thuribulados aos idolos piegas e occos
que o _elogio-mutuo_ traz na rua em apotheosica procissão. São
como _la gente dolorose ch’anno perduto il ben del intelleto_,
que falla Dante: no embasbacamento ante as popularidades que por ahi
se pavoneiam, perderam o amor pelo estudo, se alguma vez o tiveram,
a veneração pelo trabalho, que vae sem estrondo construindo na
obscuridade humilde um palacio ou formigueiro, ao qual,--como diz
algures Dumas,--só a posteridade marcará a verdadeira altura, fixará a
verdadeira duração.
Pela minha parte, n’esta viagem de _tourist_, importando-me pouco
com os _nomes_ e as _reputações_, não desprézo o arbusto
humilde da planice pelo cedro enorme da montanha e registro egualmente
no meu album a flôr modesta que me envia a medo os seus effluvios
odorosos como arvore possante que me encanta e assombra, e em cujas
ramas entoam as ventanias soberba melopéa.
Seja dito de passagem que não encontrei por emquanto arvores taes, nem
espero encontral-as em ambiente tão acanhado. Barradas expõe apenas
duas composições que são dois _estudos_. A primeira é o proprio
retrato do artista: tintas soffriveis, desenho consciencioso e certo
_maneirismo_ no conjuncto. A segunda é o retrato d’uma senhora
idosa;--«Cabeça de estudo»,--diz o author e bom estudo de cabeça é
decerto. Ignoro se o artista se dedica especialmente ao _retrato_.
É genero difficil em que por vezes naufragam boas reputações. Mais
adiante fallarei d’elle. Mas com estudo aturado vencem-se maiores
difficuldades.
Formosa tentativa é de certo a de Camara, com o quadro: _A
sentinella_.
É noite e á beira-d’agua. A lua inunda em effluvios explendentes um
céo profundo e sereno e pratêa as aguas adormecidas. Esperaes vêr os
Elfos e as Nixes banhando-se n’este ambiente de luz e azul. Julgaes
vêr o nenufar surgir do seio das vagasinhas para receber nas folhas
melancolicas os osculos do alvissimo luar. Parece-vos que vae assomar
á tona da agua a desditosa Ophelia, exhalando, com a ultima nota da
balada, o derradeiro suspiro d’aquella existencia quasi-_feerica_.
Engano. É que tem profundo e communicativo sentimento, este
quadrosinho. Á beira das aguas erguem-se os muros sombrios d’uma
fortaleza. Junto das ameias, encostado á espingarda, está um soldado,
illuminado no perfil pelo clarão da lua e com a vista e com a
imaginação talvez, perdida nos horisontes indecisos ou vagos. Quem sabe
se a pobre sentinella não julga descobrir além o vulto triste e meigo
d’uma mãe ou d’uma amante?
Quem sabe se a terra da patria não lhe envia n’aquellas ondas de
luz os échos do balar das ovelhas, os arômas do pinhal, os cantares
domingueiros, o ruido d’azenha da aldeota onde o pobre homem nasceu e
amou?
Quem sabe se debaixo do capote grosseiro, a nostalgia lhe segreda as
reminiscencias da infancia, os folgares e amores da mocidade que a
lei absurda e cruel e a sociedade atiraram para os ares empestados da
casérna ou do presidio?
Pobre homem! Por que te quebraram a enchada com que talvez alimentavas
tua mãe e irmãs? por que te esmigalharam a alegre viola que te
amenisava as agruras da vida? por que te arrancaram da horta, da
eira ou da cabana, e te arrojaram, com uma libré ás costas, com um
instrumento assassino nas mãos, para as plagas inhospitas e selvagens
da Africa e te disseram: «Aqui é o teu posto. Aqui é o teu mundo, o teu
futuro, a tua vida; não penses, não sintas: vigia e mata; não és um
homem, és um instrumento do homem contra o homem!»
Fallei da Africa. Cahiu-me a palavra e não a risco. Disse-me alguem que
Camara andara em tempo pelas nossas possessões africanas. Quem sabe
se foi lá, em noite de luar tropical, encostado ás ameias derrocadas
d’algum presidio, a conversar com algum _degradado_, que o quadro
_A sentinella_ nasceu no pensamento do author? Quem sabe se é uma
reminiscencia ou uma saudade? Uma lagrima ou um protesto? Ha nostalgia
ali.
O que todos podemos saber é que o quadro é uma tentativa brilhante.
Tem a mais do que muitos sentimento e expressão. Technicamente é
bastante imperfeito. Falta-lhe certa diaphaneidade no céo que é anilado
de mais e deve o author-amador corrigir o processo, por maneira que
obtenha d’elle certo macio de tintas. O desenho, que em muitos pontos é
bom, o é n’outros indeciso. A perspectiva quasi sempre excellente.
E agora a transição não é disparatada. Da _Sentinella_ de Camara
passamos ao _Alabardeiro_ de Chaves.
Soberba pintura. É um retrato ou uma phantasia? Não sei. O que é certo
é que não ha ahi, ou se ha não se percebe, concepção esthetica. O
que podera ser cousa para censurar, é infelizmente uma vulgaridade
na Exposição. A arte é quasi sempre substituida pelo officio. Nem
isto é uma censura. Presuppõe esta pintura a voluntariedade no facto.
É um lamento. O _Alabardeiro_ é uma figura bem modelada a que
não falta,--bem observada,--certa expressão energica. O desenho é
excellente e consciencioso. A cabeça é a melhor da Exposição. Admiravel
trabalho! Por equivoco annunciei atraz estes quadros de Chaves como uma
estreia. Não são. Não podiam ser. Os cabellos e barba do alabardeiro,
o desenho da figura, os fundos, o colorido energico e harmonico, a
afoitesa do pincel, o excellente _patte_, como dizem os francezes,
tudo denuncia Chaves como um artista de primeira plana, entre nós, já
se vê.
Não pertence aos _poetæ minores_ da nossa arte. Não foi uma
estreia. Expõe producto de muito estudo, de consciencioso tirocinio e
de aprimorado pincel. Outro quadro: _Flores_, do genero geralmente
conhecido pelo nome de _natureza morta_, é inferior a outros
do mesmo auctor que me lembra agora ter visto. Tem _durezas_
intoleraveis, falta de frescura, desenho por vezes incorrecto e
desharmonia de côres, prejudicando o effeito. As _côres_ formam,
como diz Taine, pela sua aproximação, como as notas musicaes pela sua
successão, uma harmonia. «Por si mesmo e fóra do seu emprego sensitivo
as côres como as linhas tem uma significação.»[11]