Começa o catalogo com este nome, acompanhado da seguinte designação:
«Professor da academia real de bellas-artes.»
É nome applaudido e festejado. Impõe o titulo responsabilidade pesada.
Importa-me pouco o titulo e o nome. Nada temos por agora com elles.
A responsabilidade dos applausos e incensos com que por ahi atrophiam
muitas intelligencias promettedoras, muitas reputações que surgem,
cabem antes a quem baloiça o thuribulo e bate as palmas do que a quem
se deixa asphixiar n’um ambiente de vaidade esteril e balofa para onde
foi empurrado.
Causam-me menos indignação ou tedio os ídolos anões do que nojo
e compaixão as rans impertinentes que fazem de sereias e seduzem
velhacamente os que no estudo aturado e consciencioso procuram
elevar-se acima dos grasnos do atoleiro e que vão cahir n’elle,
attrahidos pelas malditas.
Compaixão para ellas, porque por mais que se entufem nem conseguem a
ridicula gloria da ran da fabula.
Nojo, por que a inveja e o ciume as faz malvadas e traiçoeiras. Falla
quem bem por experiencia as conhece. Avesinha liberrima que lhes passe
por cima da morada, em busca de novos horisontes, ha de receber-lhe
o improperio. E n’este canto da Europa a ran impera como Bobeche no
repertorio de Offenbach.
A sciencia é uma heresia. O estudo é o pobre _cocu, battu, pendu_
da criticasinha parva que por ahi se estafa no canto-chão do
_elogio-mutuo_.
Não discuto se Annunciação é ou não o nosso primeiro artista.
Concluira-se simplesmente uma vulgaridade: que era pobrissima a nossa
arte. Não, que elle não tenha notaveis merecimentos. É talvez o nosso
primeiro _animalista_. Podera dizer-se que é o unico. Vê-se pois
que seria uma qualificação condicional, se qualificação fosse, esta.
Nem podera deixar de ser assim Christino com o seu quadrinho: _Um
sendeiro de 40 annos_, annuncia poder disputar tal titulo.
Mas emfim Annunciação é um _animalista_ estudioso como poucos
artistas nossos o são, adorador do desenho como um discipulo d’Ingrès e
mostrando ás vezes que sabe amar a côr como um fanatico de Delacroix.
A eschola ou genero d’animalistas filia-se talvez na revolução
pantheistica da arte que começa porventura em Van Eych.
Quando os _fundos-d’ouro_ do bysantino e do gothico, ou antes do
mysticismo, cedem o logar aos _fundos-panoramas_, a vida jorra
em ondas sobre a concepção artistica e a arte não desdenha mais,
manifestação alguma da _mater naturam_, que a arte ascetica
renegara. Expande-se a paizagem até absorver quasi a figura humana.
A natureza é a grande fonte d’inspirações. Mas a natureza não é
simplesmente o mar, a terra, os céos. É a vida em todas as suas
manifestações, em toda a sua fecundidade, revelação e evolução.
O animal, a _besta_, encontra na arte um sorriso de sympathia. Até
ali fôra simplesmente um accessorio lendario, fantasioso ou grutesco.
E depois, como o aspirar mystico vae cedendo o logar a preoccupações
e inspirações mais positivas, mais humanas, se póde dizer-se assim, o
homem assim como fixa na tela os horisontes e panoramas que o rodêam ou
que o impressionam, e as scenas da vida real e commum, estuda tambem a
_besta_ que o acompanha, auxilia, ou alimenta.
O homem conversa com os seus irmãos e companheiros das classes
inferiores. Quando a arte se faz biologica,--deixem-me dizer
assim,--alargam-se indefinidamente os horisontes da concepção
artistica. Desapparecem as hierarchias convencionaes.
O animalista vale tanto como o pintor de deuses e heroes perante a
esthetica positiva. Tem tantos direitos este genero como a pintura
d’apparato de que falla Émeric David, pintura tantas vezes metaphysica,
heroina, principesca e que tantas vezes tambem se reproduz na apotheose
que desvaira na allegoria e se estorce no enthusiasmo retrospectivo,
estudado e falso.
E quando o pincel se faz bistori, e quando em vez de parar na fórma,
vae estudando fibra por fibra, nervo por nervo a estructura intima
da vida animal, quando ausculta as pulsações do coração da besta,
as vibrações do cerebro inculto, o fluxo e refluxo das torrentes
nervosas, quando emfim fixa na tela não a materia bruta, mas a materia
relativamente intelligente e sensivel, quando dá ao pobre animal a
_alma_,--para me servir d’uma expressão consagrada,--que o homem
na sua concepção methaphysicamente egoista monopolisara,--o animalista
tem realisado uma boa e grande acção, a arte tem sahido nobilisada do
esforço supremo, e a natureza, sua mãe, ha de sorrir-lhe satisfeita e
grata, por que a filha não a renegou e mentiu no meio dos esplendores
do genio.
Não é Annunciação um grande _animalista_, mas procura sel-o,
pelo estudo consciencioso não simplesmente, da _linha_ e da
_côr_, mas da _expressão_, que com tudo descura bastantes
vezes tambem, por ventura por que o não acompanha no labor difficil uma
intelligencia mais cultivada, uma esthesia mais robusta e original,
um desprehendimento maior da _convenção_ e do _processo_.
O processo é o grande vicio de Annunciação. A tyrannia da fórmula
technica, atrophia-lhe a concepção. Comtudo o _processo_
d’Annunciação é fecundo em merecimentos. No primeiro quadro por
exemplo, que o catalogo indica, devemos-lhe a profundidade de luz que
é o principal merecimento d’esta pintura. Denomina-se ella: _Um
aprisco_. O aprisco porém é um pretexto. É um accessorio quasi. O
effeito de luz jorrada por uma janella rustica é que prende e em que se
concentra a attenção. É o _caracter_ do quadro, se póde dizer-se
assim. Defeito de composição que póde fazer-se perdoar pela sua boa
execução technica do que devera ser accessorio e é elemento principal,
mas defeito que não abona muito a verdade esthetica de qualquer quadro
e que é por vezes artimanha d’officio. Mal vae ao artista que no
interior da sua officina procura mais que tudo produzir nas turbas
um effeito immediato e enganador que desvie ou vicie a critica da
concepção artistica. Falsêa a arte. Redul-a a uma simples _besogne de
practicien_, como diria Prudhon.[7]
A lei da _convergencia dos effeitos_ não é apenas um principio de
eschola. É uma lei natural do pensamento humano. É a logica espontanea
da concepção artistica. Vem a proposito citar aqui as palavras de
Taine.[8]
«Nenhum elemento deve ficar inactivo ou desviar para outro objecto
a attenção; seria uma força perdida ou uma força empregada
contraproducentemente.»
Não creio eu que Troyon, que como animalista, Annunciação parece querer
imitar, nem Jadin que talvez lhe fornecesse ensinamento mais proficuo,
mirem simplesmente áquelle genero de effeito, que impõe muitas vezes o
sacrificio da verdade e implica naturalmente a ausencia de profundo e
vasto sentimento esthetico por parte do pintor.
Como paizagenista, Troyon é um nome respeitavel que vale tanto como os
de Dupre e Cabat. Como animalista, se anda aquilatado inferiormente
aos Desportes e Jadin, nem por isso o eximio pintor é um fazedor de
quadros de falso effeito, sem concepção nem harmonia esthetica, antes
as suas obras são technica e estheticamente consideradas como soberbos
exemplares naturalistas no dizer de entendedores.[9]
Descrevamos rapidamente o quadro. Um rebanho de ovelhas e carneiros
recolhe ao aprisco. Preside ao acto uma aldean que se é a pastora tem
alguma cousa de descuidada por que não ficou lá fóra para evitar o
tresmalho. No fundo, onde se percebem alguns utensilios rusticos, ha
uma especie de janella, dando entrada a um jacto de luz que corta
obliquamente o quadro n’um quasi parallelogramo. Algumas hervas e
traves, e ahi está o quadro.
Singelo assumpto! Estrophe encantadora da odyssea rural!
Como disse, o effeito de luz absorveu o pensamento do quadro, se o
havia. Observando detidamente, acha-se certa dissonancia na gradação da
luz, certo contraste demasiado brusco talvez, do jacto de luz que entra
pela janella, com a claridade geral.
Não se exigia de Annunciação que tivesse a gradação delicada de Vinci
ou Corregio. Parece porém querer parodiar Rembrandt. O tom geral do
quadro, é, creio, complementar do tom do jacto de luz e deve ter com
elle uma consonancia natural.[10]
Além d’isso a parte principalmente illuminada é salpicada,
_picotada_ ou repintada de mais, como queiram. Nas paredes da
janella é que este exagero se torna bem saliente. Ha ali de mais umas
manchas côr de carne que lhe estão mal. Provavelmente quiz-se pintar
tijolos. E já que estamos na janella acrescentaremos que as ramas das
arvores são miserrimas e que a nesga de céo é simplesmente uma pasta de
carregado azul. Tão cuidadoso foi o artista n’outras minuciosidades,
n’outros _details_ como diria um francez, e tão pouco n’este.
O desenho é geralmente correcto e consciencioso.
Na figura da aldean que está de costas para o publico, ha muito
_maneirismo_: uma pastorinha de Florian, de porte altivo e
elegante. Annunciação está ainda com Leopoldo Robert. Pinta camponezes,
é verdade, mas camponezes _adonisados_ como diz um critico. Um
dia conversará com o pincel de Courbert. E apezar de tudo a aldean
do _Aprisco_ tem grandes defeitos anatomicos. Cito um: a cabeça
é chata. N’algumas figuras do rebanho, o desenho e o colorido são
admiraveis pelo realismo consciencioso que denunciam. Ha porém uma
cabeça sahida do meio da carneirada que parece pertencer antes a um
camello. O solo é monótono.
Emfim os dous melhores quadros de Annunciação n’esta galeria são o
_Aprisco_ e o _Reparo_. Fallemos d’este. A mesma singeleza
e naturalidade d’assumpto e aproximadamente as mesmas bellezas e
defeitos de execução. Dois bois, uma vacca, um vitello, parados
n’uma clareira, e olhando,--curiosos ou desconfiados,--para o sitio
d’onde lhes vem por ventura ruido estranho ou onde descobrem objecto
que os impressiona a todos. Desenho admiravel nos bois e na vacca,
notando-se n’esta o _maneirismo_ habitual em certas figuras já
conhecidas de Annunciação. O vitello tem mau desenho e mau colorido. O
_processo_ obrigou a pintal-o com tintas diaphanas quasi, de fórma
que o animalsinho parece encravar-se na vacca, cuja cabeça é pintada
_a corpo_.
O effeito do quadro faz lembrar Claude Lorraine. Como já apontei, ao
_processo_ e á _convenção_, sacrifica-se ás vezes a verdade.
Comparem-se os horisontes, nos pontos em que o arvoredo deixa vêr o
céo d’azul carregado,--que indicaria ser noite, se fosse sequer ...
céo,--com o illuminado do grupo, a cujos pés parece vir bater um
raio de sol. Egualmente nas _tintas_ do arvoredo se falsêa a
verdade da natureza. Abstenção feita d’estes defeitos, temos um desenho
excellente, por vezes bom colorido, e a perspectiva bem estudada.
Nem tudo isto acontece n’outro quadro de Annunciação intitulado: _O
mercado_. No primeiro plano um velho aldeão de manta e cajado,
encosta-se a uma vacca passando a mão direita por sobre o pescoço
d’ella. Por baixo d’este vê-se um vitello. Em frente uma vendilhona
com um burrico de ceirão pela arreata. N’outro plano um ribatejano
a cavallo, em traje local, parece esperar que uma mulher que lhe
está ao lado em pé, e com uma canastra aos pés, lhe restitua o troco
d’algum dinheiro que d’elle recebeu e que está contando. Ao fundo
varios grupos, arvores, barracas e carros, horisontes bem delineados
e que melhor effeito apresentariam se a geometria aeria não estivesse
brigando com a geometria linear. Ha grande monotonia de _brancos_.
Os _ares_ são bons, a _mancha_ tem muitas durezas, unidade e
expressão não existem quasi, o desenho incorrecto, principalmente na
vacca e no vitello, e o colorido frouxo.
Todos estes defeitos se revelam em muito maior escala, no quadro
_Ovarinas_, que é um verdadeiro disparate artistico.
Compõe-se de varios grupos de gente pescadora, que dariam para
differentes quadros mediocres. Agrupamentos de _poseuses_, tons
frios, desenho imperfeito, colorido frouxo, solo e ares monótonos.
Soffrivel perspectiva aeria é o que o quadro tem de melhor.
Tencionava demorar-me algum tempo mais com este pintor e fallar
n’algumas composições d’elle que não apparecem agora na exposição.
Nota-se em Annunciação uma alteração do pincel, que não chamarei com
certeza progresso e que antes me parece tendencia para uma deploravel
arte que amarrota no _processo_ e sacrifica ao _effeito_
immediato, a originalidade e a inspiração natural e espontanea.
Sem uma imaginação de notavel pujança e fecundia, Annunciação estudava
ao menos conscienciosa ou apaixonadamente o _natural_. E estuda
ainda, mas como que o vemos já vacillar entre a grande eschola da
natureza e as composições dos pintores contemporaneos francezes que
tantas vezes parecem adoptar com Delacroix por finalidade da arte, a
_illusão_ e a _impressão pessoal_ simplesmente.