ANNUNCIAÇÃO (Thomaz José d’)

Começa o catalogo com este nome, acompanhado da seguinte designação:

«Professor da academia real de bellas-artes.»

É nome applaudido e festejado. Impõe o titulo responsabilidade pesada.

Importa-me pouco o titulo e o nome. Nada temos por agora com elles.

A responsabilidade dos applausos e incensos com que por ahi atrophiam

muitas intelligencias promettedoras, muitas reputações que surgem,

cabem antes a quem baloiça o thuribulo e bate as palmas do que a quem

se deixa asphixiar n’um ambiente de vaidade esteril e balofa para onde

foi empurrado.

Causam-me menos indignação ou tedio os ídolos anões do que nojo

e compaixão as rans impertinentes que fazem de sereias e seduzem

velhacamente os que no estudo aturado e consciencioso procuram

elevar-se acima dos grasnos do atoleiro e que vão cahir n’elle,

attrahidos pelas malditas.

Compaixão para ellas, porque por mais que se entufem nem conseguem a

ridicula gloria da ran da fabula.

Nojo, por que a inveja e o ciume as faz malvadas e traiçoeiras. Falla

quem bem por experiencia as conhece. Avesinha liberrima que lhes passe

por cima da morada, em busca de novos horisontes, ha de receber-lhe

o improperio. E n’este canto da Europa a ran impera como Bobeche no

repertorio de Offenbach.

A sciencia é uma heresia. O estudo é o pobre _cocu, battu, pendu_

da criticasinha parva que por ahi se estafa no canto-chão do

_elogio-mutuo_.

Não discuto se Annunciação é ou não o nosso primeiro artista.

Concluira-se simplesmente uma vulgaridade: que era pobrissima a nossa

arte. Não, que elle não tenha notaveis merecimentos. É talvez o nosso

primeiro _animalista_. Podera dizer-se que é o unico. Vê-se pois

que seria uma qualificação condicional, se qualificação fosse, esta.

Nem podera deixar de ser assim Christino com o seu quadrinho: _Um

sendeiro de 40 annos_, annuncia poder disputar tal titulo.

Mas emfim Annunciação é um _animalista_ estudioso como poucos

artistas nossos o são, adorador do desenho como um discipulo d’Ingrès e

mostrando ás vezes que sabe amar a côr como um fanatico de Delacroix.

A eschola ou genero d’animalistas filia-se talvez na revolução

pantheistica da arte que começa porventura em Van Eych.

Quando os _fundos-d’ouro_ do bysantino e do gothico, ou antes do

mysticismo, cedem o logar aos _fundos-panoramas_, a vida jorra

em ondas sobre a concepção artistica e a arte não desdenha mais,

manifestação alguma da _mater naturam_, que a arte ascetica

renegara. Expande-se a paizagem até absorver quasi a figura humana.

A natureza é a grande fonte d’inspirações. Mas a natureza não é

simplesmente o mar, a terra, os céos. É a vida em todas as suas

manifestações, em toda a sua fecundidade, revelação e evolução.

O animal, a _besta_, encontra na arte um sorriso de sympathia. Até

ali fôra simplesmente um accessorio lendario, fantasioso ou grutesco.

E depois, como o aspirar mystico vae cedendo o logar a preoccupações

e inspirações mais positivas, mais humanas, se póde dizer-se assim, o

homem assim como fixa na tela os horisontes e panoramas que o rodêam ou

que o impressionam, e as scenas da vida real e commum, estuda tambem a

_besta_ que o acompanha, auxilia, ou alimenta.

O homem conversa com os seus irmãos e companheiros das classes

inferiores. Quando a arte se faz biologica,--deixem-me dizer

assim,--alargam-se indefinidamente os horisontes da concepção

artistica. Desapparecem as hierarchias convencionaes.

O animalista vale tanto como o pintor de deuses e heroes perante a

esthetica positiva. Tem tantos direitos este genero como a pintura

d’apparato de que falla Émeric David, pintura tantas vezes metaphysica,

heroina, principesca e que tantas vezes tambem se reproduz na apotheose

que desvaira na allegoria e se estorce no enthusiasmo retrospectivo,

estudado e falso.

E quando o pincel se faz bistori, e quando em vez de parar na fórma,

vae estudando fibra por fibra, nervo por nervo a estructura intima

da vida animal, quando ausculta as pulsações do coração da besta,

as vibrações do cerebro inculto, o fluxo e refluxo das torrentes

nervosas, quando emfim fixa na tela não a materia bruta, mas a materia

relativamente intelligente e sensivel, quando dá ao pobre animal a

_alma_,--para me servir d’uma expressão consagrada,--que o homem

na sua concepção methaphysicamente egoista monopolisara,--o animalista

tem realisado uma boa e grande acção, a arte tem sahido nobilisada do

esforço supremo, e a natureza, sua mãe, ha de sorrir-lhe satisfeita e

grata, por que a filha não a renegou e mentiu no meio dos esplendores

do genio.

Não é Annunciação um grande _animalista_, mas procura sel-o,

pelo estudo consciencioso não simplesmente, da _linha_ e da

_côr_, mas da _expressão_, que com tudo descura bastantes

vezes tambem, por ventura por que o não acompanha no labor difficil uma

intelligencia mais cultivada, uma esthesia mais robusta e original,

um desprehendimento maior da _convenção_ e do _processo_.

O processo é o grande vicio de Annunciação. A tyrannia da fórmula

technica, atrophia-lhe a concepção. Comtudo o _processo_

d’Annunciação é fecundo em merecimentos. No primeiro quadro por

exemplo, que o catalogo indica, devemos-lhe a profundidade de luz que

é o principal merecimento d’esta pintura. Denomina-se ella: _Um

aprisco_. O aprisco porém é um pretexto. É um accessorio quasi. O

effeito de luz jorrada por uma janella rustica é que prende e em que se

concentra a attenção. É o _caracter_ do quadro, se póde dizer-se

assim. Defeito de composição que póde fazer-se perdoar pela sua boa

execução technica do que devera ser accessorio e é elemento principal,

mas defeito que não abona muito a verdade esthetica de qualquer quadro

e que é por vezes artimanha d’officio. Mal vae ao artista que no

interior da sua officina procura mais que tudo produzir nas turbas

um effeito immediato e enganador que desvie ou vicie a critica da

concepção artistica. Falsêa a arte. Redul-a a uma simples _besogne de

practicien_, como diria Prudhon.[7]

A lei da _convergencia dos effeitos_ não é apenas um principio de

eschola. É uma lei natural do pensamento humano. É a logica espontanea

da concepção artistica. Vem a proposito citar aqui as palavras de

Taine.[8]

«Nenhum elemento deve ficar inactivo ou desviar para outro objecto

a attenção; seria uma força perdida ou uma força empregada

contraproducentemente.»

Não creio eu que Troyon, que como animalista, Annunciação parece querer

imitar, nem Jadin que talvez lhe fornecesse ensinamento mais proficuo,

mirem simplesmente áquelle genero de effeito, que impõe muitas vezes o

sacrificio da verdade e implica naturalmente a ausencia de profundo e

vasto sentimento esthetico por parte do pintor.

Como paizagenista, Troyon é um nome respeitavel que vale tanto como os

de Dupre e Cabat. Como animalista, se anda aquilatado inferiormente

aos Desportes e Jadin, nem por isso o eximio pintor é um fazedor de

quadros de falso effeito, sem concepção nem harmonia esthetica, antes

as suas obras são technica e estheticamente consideradas como soberbos

exemplares naturalistas no dizer de entendedores.[9]

Descrevamos rapidamente o quadro. Um rebanho de ovelhas e carneiros

recolhe ao aprisco. Preside ao acto uma aldean que se é a pastora tem

alguma cousa de descuidada por que não ficou lá fóra para evitar o

tresmalho. No fundo, onde se percebem alguns utensilios rusticos, ha

uma especie de janella, dando entrada a um jacto de luz que corta

obliquamente o quadro n’um quasi parallelogramo. Algumas hervas e

traves, e ahi está o quadro.

Singelo assumpto! Estrophe encantadora da odyssea rural!

Como disse, o effeito de luz absorveu o pensamento do quadro, se o

havia. Observando detidamente, acha-se certa dissonancia na gradação da

luz, certo contraste demasiado brusco talvez, do jacto de luz que entra

pela janella, com a claridade geral.

Não se exigia de Annunciação que tivesse a gradação delicada de Vinci

ou Corregio. Parece porém querer parodiar Rembrandt. O tom geral do

quadro, é, creio, complementar do tom do jacto de luz e deve ter com

elle uma consonancia natural.[10]

Além d’isso a parte principalmente illuminada é salpicada,

_picotada_ ou repintada de mais, como queiram. Nas paredes da

janella é que este exagero se torna bem saliente. Ha ali de mais umas

manchas côr de carne que lhe estão mal. Provavelmente quiz-se pintar

tijolos. E já que estamos na janella acrescentaremos que as ramas das

arvores são miserrimas e que a nesga de céo é simplesmente uma pasta de

carregado azul. Tão cuidadoso foi o artista n’outras minuciosidades,

n’outros _details_ como diria um francez, e tão pouco n’este.

O desenho é geralmente correcto e consciencioso.

Na figura da aldean que está de costas para o publico, ha muito

_maneirismo_: uma pastorinha de Florian, de porte altivo e

elegante. Annunciação está ainda com Leopoldo Robert. Pinta camponezes,

é verdade, mas camponezes _adonisados_ como diz um critico. Um

dia conversará com o pincel de Courbert. E apezar de tudo a aldean

do _Aprisco_ tem grandes defeitos anatomicos. Cito um: a cabeça

é chata. N’algumas figuras do rebanho, o desenho e o colorido são

admiraveis pelo realismo consciencioso que denunciam. Ha porém uma

cabeça sahida do meio da carneirada que parece pertencer antes a um

camello. O solo é monótono.

Emfim os dous melhores quadros de Annunciação n’esta galeria são o

_Aprisco_ e o _Reparo_. Fallemos d’este. A mesma singeleza

e naturalidade d’assumpto e aproximadamente as mesmas bellezas e

defeitos de execução. Dois bois, uma vacca, um vitello, parados

n’uma clareira, e olhando,--curiosos ou desconfiados,--para o sitio

d’onde lhes vem por ventura ruido estranho ou onde descobrem objecto

que os impressiona a todos. Desenho admiravel nos bois e na vacca,

notando-se n’esta o _maneirismo_ habitual em certas figuras já

conhecidas de Annunciação. O vitello tem mau desenho e mau colorido. O

_processo_ obrigou a pintal-o com tintas diaphanas quasi, de fórma

que o animalsinho parece encravar-se na vacca, cuja cabeça é pintada

_a corpo_.

O effeito do quadro faz lembrar Claude Lorraine. Como já apontei, ao

_processo_ e á _convenção_, sacrifica-se ás vezes a verdade.

Comparem-se os horisontes, nos pontos em que o arvoredo deixa vêr o

céo d’azul carregado,--que indicaria ser noite, se fosse sequer ...

céo,--com o illuminado do grupo, a cujos pés parece vir bater um

raio de sol. Egualmente nas _tintas_ do arvoredo se falsêa a

verdade da natureza. Abstenção feita d’estes defeitos, temos um desenho

excellente, por vezes bom colorido, e a perspectiva bem estudada.

Nem tudo isto acontece n’outro quadro de Annunciação intitulado: _O

mercado_. No primeiro plano um velho aldeão de manta e cajado,

encosta-se a uma vacca passando a mão direita por sobre o pescoço

d’ella. Por baixo d’este vê-se um vitello. Em frente uma vendilhona

com um burrico de ceirão pela arreata. N’outro plano um ribatejano

a cavallo, em traje local, parece esperar que uma mulher que lhe

está ao lado em pé, e com uma canastra aos pés, lhe restitua o troco

d’algum dinheiro que d’elle recebeu e que está contando. Ao fundo

varios grupos, arvores, barracas e carros, horisontes bem delineados

e que melhor effeito apresentariam se a geometria aeria não estivesse

brigando com a geometria linear. Ha grande monotonia de _brancos_.

Os _ares_ são bons, a _mancha_ tem muitas durezas, unidade e

expressão não existem quasi, o desenho incorrecto, principalmente na

vacca e no vitello, e o colorido frouxo.

Todos estes defeitos se revelam em muito maior escala, no quadro

_Ovarinas_, que é um verdadeiro disparate artistico.

Compõe-se de varios grupos de gente pescadora, que dariam para

differentes quadros mediocres. Agrupamentos de _poseuses_, tons

frios, desenho imperfeito, colorido frouxo, solo e ares monótonos.

Soffrivel perspectiva aeria é o que o quadro tem de melhor.

Tencionava demorar-me algum tempo mais com este pintor e fallar

n’algumas composições d’elle que não apparecem agora na exposição.

Nota-se em Annunciação uma alteração do pincel, que não chamarei com

certeza progresso e que antes me parece tendencia para uma deploravel

arte que amarrota no _processo_ e sacrifica ao _effeito_

immediato, a originalidade e a inspiração natural e espontanea.

Sem uma imaginação de notavel pujança e fecundia, Annunciação estudava

ao menos conscienciosa ou apaixonadamente o _natural_. E estuda

ainda, mas como que o vemos já vacillar entre a grande eschola da

natureza e as composições dos pintores contemporaneos francezes que

tantas vezes parecem adoptar com Delacroix por finalidade da arte, a

_illusão_ e a _impressão pessoal_ simplesmente.

Segundo livro de crítica · 第 29 / 103 题