Tencionava o author abrir este _Segundo Livro de Critica_ com a
resposta ás apreciações e objecções feitas ao primeiro.
Uma exclusão teria que fazer, é claro, por dignidade propria e respeito
pelos aquilatadores e contradictores sérios. Não responderia a uns
estendaes typographicos de imbecillidade malévola, nem a uns grunhidos
de rancores tisnados, que por muito honrados se devem dar já,--ella e
estes,--com o conceder-lhes a gente o mais profundo e sincero desprezo.
Circumstancias complexas, muito alheias á vontade do author,
obrigaram-n’o porém a não avolumar mais a obra com a resposta em
que entraria uma parte importante de gratidão propria, que protesta
singelamente aqui, e de congratulação pelo protesto alheio. E consistiu
este, não tanto em haver quem désse pela obra e a fizesse rapidamente
desapparecer das estantes dos livreiros, apesar da real e positiva
«conspiração do silencio», machinada por uns pobres homens em quem o
máo senso pleiteia pujanças com o máo caracter,--como em haver quem
provasse que não desdenhava o trabalho consciencioso e não descurava a
litteratura séria e a critica-sciencia pela vida airada da litteratura
banal e mandriona e pela lithurgia cynica dos cavalleiros do
_reclame_, do _elogio mutuo_, do elogio proprio e do elogio
pago.
O primeiro _Livro de Critica_, foi simplesmente uma tentativa, ou
antes uma expansão. Disse-se. Não perde nem ganha com o dizer-se.
Aquillo sentia-se, pensava-se e sabia-se: escreveu-se.
Aquillo para certas almas pequenas e para outras tantas grandes
vaidades foi um escandalo.
Mal avindo com ellas andava de ha muito o author ou antes ellas com
este que não devia ignorar as infamias com que á mingua de coragem e em
abundancia de policia para expedientes mais decisivos, costumam manejar
as supracitadas contra quem as fere, piza ou despreza.
Poupemos ao leitor a retrospecção do lodo que por ahi se tem erguido
contra os que teem a ingenua coragem de affirmar a verdade da sua
consciencia, e commettem o escandalo de lidarem por illustrar esta com
o estudo, e de a concentrar no culto do trabalho honesto, quando lhe
podiam comprar por modico preço uns fatos lantejoulados de arlequim com
que fazer embasbacar as turbas em confraria de adestrados sujeitos.
Deixemos isto: o nojo é communicativo: poupemol-o aos leitores,
calando-o.
Mas sejamos até caridosos,--se póde dizer-se assim n’este caso,--com os
que o odio, e o desejo de vingança rala.
Se lhes dá alguma satisfação o saberem que algum mal hão feito,
confessemos-lhes que o hão conseguido; confessemos-lhes que tem feito
soffrer muitos dissabores, muitos desgostos, muitas injustiças, muitas
amarguras e desalentos a quem trabalhando em boa fé e em boa vontade,
podia contar com adversarios leaes, mas não cuidava encontrar na sua
vida publica, como na sua vida particular, tanta malquerença rancorosa,
vingativa, desleal, infame.
Orgulhem-se!
Orgulhem-se os conspiradores do silencio, os infamadores das intenções,
dos actos, dos caracteres e das intelligencias, os incitadores e
provocadores de soluções escandalosas, os intrigantes cobardes,
os invejosos anonymos, os salteadores do trabalho honesto, os
denunciadores das consciencias firmes, os atravessadores do pão que a
gente ganha honradamente com o suor do seu rosto.
Orgulhem-se, já que não podem orgulhar-se de vêr dobrar a espinha
dorsal a quem se preza de a conservar direita perante os odios, como
perante as injustiças.
Iamos, porém, dizendo que o primeiro _Livro de Critica_ fôra uma
expansão, uma tentativa.
Não se mirava a fundar eschola, nem a destruir egrejas litterarias, nem
sequer a amolgar quaesquer fetiches de crendeira litteratura.
Affirmavam-se, de feito, certas doutrinas, estabeleciam-se certos
principios, mas nem a precipitação do trabalho e exiguidade da obra
permittiram dar-lhes amplo desenvolvimento e comprovação--e d’ahi
muitas falsas interpretações e muitas suppostas divergencias;--nem
a affirmação d’uma doutrina implica questão de personalidades ou
fanatismo e exclusivismo de crença, nem é para desprezar a doutrina
pelo pouco correntio d’ella ou pela pequena valia de quem a affirma e
sustenta.
Mal vae ás egrejas dominantes que desdenham a idéa opposta que lhes
brota ao lado. Uma idéa é como uma semente: germina, desenvolve-se,
expande-se, floresce, fructifica, é arbusto, é arvore, é mãe de muitos
arbustos e de muitas arvores depois.
Ide-lhe lá discutir a obscura humildade do nascimento! E depois quem
crê affirma o que crê, defende o que crê, combate pelo que crê. Isto
não é a insinuação d’um conselho ou d’uma ameaça. Vem a proposito do
silencio d’uns, e do antagonismo franco de outros. Folgamos com este.
Houve quem contestasse, houve quem discutisse. Bem foi. O facto não
é vulgar n’esta nossa sociedade atoniada, para quem as questões de
principios passam desapercebidas ou indifferentes.
O author d’este livro acredita que a critica póde e deve ser, aqui como
lá fóra, uma cousa séria, conscienciosa, scientifica. Tem tido muitos
desalentos e muitas amarguras no seu trabalho. Tem feito pouco e terá
feito mal. Outros virão que façam mais e melhor. Mas faça-se isto.
Com este pensamento abriu o author ha tempos uma _Revista critica_
na _Revolução de Setembro_. Uma grande parte d’essa Revista é o
que constitue o presente Livro.
São trabalhos geralmente deficientes em si e deficientes no conjuncto.
As mesmas razões que houve para não juntar a este _Segundo Livro de
Critica_ a resposta ás apreciações do primeiro, imperaram para não
juntar aos trabalhos que se publicam outros sobre livros por mais d’um
titulo importantes.
Assim é que ficam reservados para outra occasião os estudos sobre a
_Historia da Liberdade_, de Barros e Cunha; _O Christianismo e o
progresso_, por D. Antonio da Costa; a _Instrucção nacional_,
pelo mesmo; _Apontamentos historicos_, por Martins de Carvalho;
_Leituras populares_, por J. Dubraz; a _Hostia de Ouro_, e
_Peninsulares_, por Simões Dias; _Tasso_, por Candido de
Figueiredo; _Campo e Cidade_, por J. C. Machado; _Contos côr
de rosa_, por J. Ramalho Ortigão; _Physica_, por Benevides;
_O papa rei_ e as cartas justificativas, por Geraldes; _La
litteratura portugueza_, por Ortiz (Romero); _Visão dos Tempos_
(2.^a edição) e _Historia da Litteratura portuguesa_, por
Theophilo Braga; _Eva_, de Santos Nazareth; _Apparições e
Radiações da noite_, por Guilherme d’Azevedo_; Rosas e Nuvens_,
por Souza Viterbo; _Solidões e Narrativas poeticas_, por Ernesto
P. d’Almeida; _Os musicos portuguezes_, por J. de Vasconcellos;
_Peregrinações d’Aldeia_, por Alberto Pimentel; _Versos_,
de Costa Goodolphim; _Quadros de Historia portugueza_, por
Silveira da Motta; _Tolices e escandalos d’hontem e hoje_, por
F. Terencio (pseud.); _Os Reprobos_, por Adriano Anthero de
Sousa Pinto; _A Phenix ou a Immortalidade_, por J. M. da Cunha
Seixas; _Contos_, de Alvaro do Carvalhal; _Versos_, de M.
R. C. Cadet; _Romanceiro do Algarve_, por Estacio da Veiga;
_Theatro_, de F. G. d’Amorim; _Horas de Campo_, por A.
Silva Pereira; _Peregrinas_, por Victoriano Palhares; _Eccos
democraticos_, por P. Larra (Pernambuco); _Miniaturas_, por
Antonio Candido Gonçalves Crespo; _Á beira mar_, por A. Loureiro;
_Fructos verdes_, por F. Xavier da Silva; _Goivos da Aldêa_,
por Fonseca Junior; _A Violeta_, por F. Gonçalves, e outras
tantas obras por cuja offerta se reiteram aqui aos seus authores os
agradecimentos.[1]
Principalmente sentimos não poder incluir n’este volume sequer os
estudos sobre:
_O Christianismo e o progresso_, de D. Antonio da Costa, de quem
quasi se pode dizer que inaugurou um genero novo e serio na nossa
litteratura, que incita ao estudo das grandes questões de exegese
religiosa e de politica social tão ventiladas lá fóra; bem como o
_Papa-rei_, etc., etc.;
_Historia da litteratura portugueza_, primeiro monumento e
monumento verdadeiramente notavel,--unico no genero entre nós,--erguido
por um talento robusto e corajoso, por um trabalhador incansavel,
que seria gloria e veneração em qualquer paiz medianamente sensato
e illustrado, pelo vulto mais saliente emfim da moderna geração
litteraria, e um dos primeiros da nossa litteratura moderna: Theophilo
Braga;
E finalmente sobre os homens da nova geração, que tanto,--alguns--hão
feito já, que tanto promettem e tanto podem fazer; imaginações
valentes, corações generosos, boas vontades, estudiosos
moços--bastantes emancipados já das mais banaes, ignorantes e malevolas
theocracias litterarias de que ha memoria.
Por circumstancias que é facil suppôr sahiu o primeiro _Livro_,
com numerosos erros typographicos, alguns dos quaes serviram de thema
a certos sujeitos de tão boa fé quanto profundo criterio. N’este
volume alguns erros passaram ainda, que obrigaram a uma designação de
_erratas_ que o ha-de acompanhar.
Houve um doutor brazileiro que por nome não perca que esperdiçou
tinta, papel e algumas columnas d’um jornal a demonstrar que o author
não conhecia a litteratura brazileira porque no seu livro tres vezes
apparecera Gonçalo Dias, por Gonçalves Dias, o que não podia ser assim
repetidamente erro typographico affirmava o mesmo illustre sujeito, em
cujo escripto appareciam ao mesmo tempo alterações muito maiores do que
aquella.
Ora não vale a pena investigar agora se foi erro typographico ou não.
Podia não ser, e depois? Concluira-se simplesmente que o author não
fazia litteratura de catalogo e importava-se pouco com os nomes e
mais com as obras, etc., etc. Tranquillize-se pois o illustre doutor
brazileiro, e vá-se entretendo com outras péchas, que não faltarão de
certo.