O imperador, esvelto, moreno, queimado do sol dos tropicos, com a barba
crescida, o olhar incisivo e luminoso, denunciava comtudo na physionomia
um certo cansaço e o que quer que fosse de amargurada expressão.
—Como te chamas? perguntou D. Pedro ao frade.
—Frei Simão de Vasconcellos.
—A que convento do Porto pertences?
—A nenhum, meu senhor. Sahi ha dezeseis annos de Alcobaça por um breve
pontificio. Desde então não tenho feito senão amar a liberdade e soffrer
por ella. Mas estou prompto a dar a vida por Vossa Magestade e pela causa
da Rainha, que é a causa da liberdade e da patria.
O imperador, em cujos olhos passára um relampago, que lhes augmentou o
brilho, mostrava-se cada vez mais surprehendido e interessado.
—Bem está! disse D. Pedro. O que tiveste n’esse braço? perguntou
reparando que o frade movia com difficuldade o braço esquerdo.
—Fui ferido pelas costas quando tentava escapar ao destacamento que
cercou a minha casa, e que me perseguiu a tiros.
—Mas, apesar de ferido, podeste fugir?
—Cahi e apanharam-me. Da segunda vez não fui tão feliz como da primeira,
em que consegui salvar-me.
—Estiveste então na cadea?
—Sim, meu senhor, na da Villa da Feira, mas evadi-me e tenho estado
escondido desde então.
O imperador trocava com o marquez de Loulé um olhar de profunda surpresa.
—Tens então, meu frade, passado muito?
—Nem Vossa Magestade pode imaginar! A minha familia está desgraçada.
Malvados! Um só de meus irmãos, frei José, prégador geral da ordem de
S. Bento, foi realista, mas esse, em vez de perseguir alguem, morreu de
desgosto em Lisboa, o anno passado, quando soube que tinha entrado no
Tejo a esquadra franceza, e que o barão de Roussin havia sido mandado a
Portugal para calcar aos pés o direito das gentes e vexar uma nação, cujo
governo, cobarde perante o extrangeiro, apenas sabia ser tyranno com os
naturaes que politicamente o hostilisavam.
—Frei José, teu irmão, replicou o imperador, podia ser um realista, como
tu dizes, mas era principalmente um portuguez, que zelava a honra da sua
patria.
—É certo, meu senhor. Ao menos resgatou pela morte o erro das suas
opiniões politicas, aliás inoffensivas.
—Quero ouvir-te com mais vagar. Volta cá ás sete horas da manhã.
—Ás sete horas?! perguntou frei Simão espantado de que um principe lhe
marcasse uma hora tão matutina.
—Sim, amanhã ás sete horas. Adeus.
Durante o dia, D. Pedro tornou a lembrar-se do frade, com essa agudeza de
memoria, que é peculiar aos Braganças. Apesar das graves preoccupações
que lhe agitavam o espirito, o imperador pediu novas informações a
respeito de frei Simão de Vasconcellos.
Contaram-lhe a historia, muito conhecida, da resistencia á escolta, da
prisão e da fuga. Descreveram-lhe o energico perfil moral do frade já
legendario pelo seu valor, e dedicação á causa da liberdade.
D. Pedro, que via enublado o futuro apesar da facilidade com que entrára
no Porto, consolou-se até certo ponto com a certeza d’essa dedicação
pessoal, que podia valer muito como exemplo.
E, no dia seguinte, cumprindo a sua promessa, recebeu frei Simão, que, ás
sete horas da manhã, já encontrou as salas do palacio cheias de officiaes
superiores. Estavam ali, entre outros, o marechal conde de Villa Flor,
commandante em chefe do exercito, o coronel de cavallaria D. Thomaz de
Mascarenhas, que se dizia ia ser nomeado governador militar da cidade, o
tenente-coronel José Baptista da Silva Lopes, chefe do estado-maior, o
tenente-coronel Diogo Thomaz de Ruxleben, director da intendencia geral
de viveres e transportes, e alguns officiaes extrangeiros, taes como o
sr. de Saint-Léger, ajudante de campo do imperador, e o sr. de Lasteyrie,
neto do general Lafayette.
Quiz D. Pedro ouvir a narrativa das perseguições soffridas pelo frade e
sua familia.
—Apenas posso conceder-te vinte minutos, mas desejo ouvir-te, disse o
principe.
Frei Simão resumiu as violencias politicas de que seu irmão Joaquim
Maria fôra victima, e impressionou o imperador, quando contou como havia
promettido ao moribundo ir arrancar Margarida Candida ás grades do
mosteiro de Arouca no dia em que a liberdade resurgisse.
—Chegou essa hora, disse-lhe D. Pedro. Pois não crês que a nossa causa ha
de triumphar?
—Creio, meu senhor, mas é preciso não poupar nem deixar em descanço o
inimigo. Elle é poderoso pelo numero. Não se illuda Vossa Magestade com o
dia de hontem.
O imperador, visivelmente triste, ficou a olhar no frade, muito fito.
Depois frei Simão bosquejou os infelizes amores de José Maximo, o
liberal exaltado, com Anninhas, cuja doença descreveu tambem a traços
largos.
—Pobre senhora! disse commovido o imperador. Eu tive na minha familia
um triste exemplo do que são as doenças nervosas. Minha avó... Mas não
sabes—perguntou com subita transição—o que é feito do estudante?
—Não sei, meu senhor. Comtudo José Maximo era tão brioso, que receio não
lhe soffresse o animo resistir á nodoa do roubo feito aos lentes.
—Foi effectivamente um desatino, disse D. Pedro, que nada aproveitou á
nossa causa. Melhor elles viessem agora defendel-a com as armas na mão.
Ahi trago eu um dos estudantes, o Solano, que é alferes de caçadores 5,
e que procura resgatar pelo arrependimento e pelo valor a memoria do
passado.
Frei Simão roçou muito de alto pelos seus proprios soffrimentos e
trabalhos, mas voltou a fallar no juramento que tinha feito ao irmão
moribundo.
—E como pensas em cumpril-o?
—Com os meios que Vossa Magestade se dignar fornecer-me.
—Quaes?
—Dezoito ou vinte homens á minha escolha para organisar uma guerrilha.
Nós não temos guerrilhas, e comtudo são um excellente meio de propaganda
para levantar a opinião nas provincias.
—Tens rasão. Vou dar ordem para que te sejam concedidos os homens que
escolheres. Mas lembro-te que não podêmos distrair muita gente.
—Poucos me bastam, meu senhor, comtanto que eu os escolha.
—Concedido. Até á vista, frei Simão, e boa fortuna. Enthusiasma-me bem
essas aldeas. Vou dar ordem. Espera, que te será entregue agora mesmo.
O frade sahiu, e D. Pedro veio á porta, chamando para fóra:
—Ó Villa Flor! vem cá.
N’esse mesmo dia, frei Simão principiara a recrutar os seus companheiros
de aventura pelas boas informações, que a respeito d’elles podera colhêr.
Dois, como que lhe cahiram do ceu. Um era o Marques, que por caso nenhum
se dispensou de seguir o destino do amo. O outro era José de Oliveira,
que já conheciamos da casa do Outeiro, e que as irmãs de frei Simão,
inquietas pela demora do Marques, tinham mandado ao Porto para saber
noticias.
No dia 15 de julho a guerrilha estava prompta a marchar.
O desejo do frade seria dirigir-se logo a Cezár, para tranquillisar as
irmãs e justar contas com os seus adversarios, seguindo depois para
Arouca a cumprir o juramento que fizera.
Chegára a dizer a Francisco Marques:
—Vamos n’um pulo ao Outeiro socegar as senhoras. Se encontrarmos a geito
Ignacio da Fonseca, pedir-lhe-hei que restitua a saude a minha irmã
Anninhas...
Mas frei Simão foi despedir-se do imperador na noite d’esse dia.
D. Pedro, que, como sabemos, se levantava muito cedo, jantava tarde,
nunca antes das oito horas, porque primeiro cuidava dos negocios da
guerra que de si mesmo. A vida trabalhosa do Porto veio a ser a principal
causa da sua morte prematura.
O imperador recebeu frei Simão quando acabou de jantar. Estava no Paço o
conde de Villa Flor, que assistiu á audiencia.
Então D. Pedro lembrou ao frade a conveniencia de se demorar algum
tempo pairando nas cercanias do Porto para facilitar a passagem dos
fornecimentos e limpar do terreno as pequenas guerrilhas, que se
entregassem á pilhagem.
Teremos occasião de vêr que esta indicação era previdente; mas podêmos
saber desde já que ella contrariou a impaciencia do frade.
Pouco antes da guerrilha partir, Francisco Marques perguntou a frei Simão:
—Sempre vamos então a Cezár?
O frade respondeu de mau humor:
—Fica sabendo que não tens d’aqui em deante o direito de fazer perguntas.
És soldado, cumpre-te obedecer-me, como eu tambem obedeço aos meus
superiores. E mais nada, ouviste?