Havia na casa do Outeiro um criado, que a familia de frei Simão
distinguia entre todos os outros.
Chamava-se Francisco José Marques, mas era sempre tratado pelo appellido.
Natural da freguezia de Sanfins, comarca da Villa da Feira, entrára
muito novo ao serviço de José Bernardo Pereira de Vasconcellos, e pelo
seu genio alegre e humilde fizera-se estimar pelos amos, que o mandaram
ensinar a ler e a escrever.
Ninguem tinha tido tanta paciencia como elle para trazer ao collo e
adormecer nos braços a pequenina Anninhas durante os dias da primeira
infancia.
Quando a menina chorava, o Marques acudia muito solicito e dedicado a
distrail-a e acalental-a. Passeiava-a longo tempo, cantarolando:
Dorme, dorme,
Minha menina Rú-Rú.
Cantam os anjos
E dormes tu.
Era elle sempre o primeiro a desculpal-a nas suas perrices, e procurava
entretel-a contando-lhe historias, que ella a principio ouvia com pouca
attenção, depois com muito interesse. E quando os olhos da menina
amorteciam na languidez do somno, o Marques, já cansado de contar
historias, ia dizendo de vagar, espacejando lentamente as palavras, ás
vezes até as syllabas:
Era uma vez
Uma menina chamada Victoria.
Morreu a menina...
Acabou-se a historia.
Anninhas já o não ouvia: tinha adormecido.
De todas as pessoas da casa a mais estimada pelo Marques era, pois, a
_sua menina_, como elle dizia orgulhosamente. Mas toda a familia do
Outeiro o considerava, pela sua dedicação á casa, como o primeiro dos
criados,—mais um amigo do que um serviçal.
O genio alegre do Marques, a agudeza de espirito que revelava em muitas
observações e muitas phrases de uma graça desaffectada, quasi ingenua,
tornavam-n’o agradavel no trato domestico, as pessoas da casa riam-se de
ouvil-o, chegavam a puxar-lhe pela lingua, quando estava de maré, o que
quasi sempre acontecia.
Identificado com a familia do Outeiro, o Marques era liberal como
os amos, sem comtudo saber muito bem no que consistia a liberdade
constitucional, e quaes fossem as suas vantagens politicas sobre o
absolutismo. Mas seguiria frei Simão para onde elle fosse, prompto a
defender a causa que elle defendesse.
Depois que veio D. Miguel, o Marques disse uma vez a frei Simão:
—Papeis, nas mãos de ignorantes como eu, apenas costumam servir para
embrulho; mas se fôr preciso, deixar-me-hei embrulhar por um certo
_papel_.
Este _papel_ era a Carta.
—O quê?! perguntou frei Simão. Eras capaz de assentar praça?
—Se Vossa Reverencia me dissesse—_Marcha_, eu faria logo: Um, dois, trez.
E fingia marchar, pondo ao hombro um cabo de vassoura, á laia de
espingarda.
No dia 20 de março andava frei Simão regando as flores do seu pequeno
jardim; o Marques trabalhava no pomar contiguo.
Anninhas estava debruçada no parapeito do pateo, que sobranceava o pomar.
Na casa do Outeiro, uma atmosphera de perigos e sobresaltos cerrava-se
ameaçadora em torno da familia Vasconcellos. A vida era ali mais triste
do que nunca.
Depois que D. Miguel chegára, e dissolvêra as côrtes, os absolutistas
de Cezár tinham levado a sua ousadia até ao ponto de propositadamente
irritar frei Simão. Se não iam mais longe, se não tinham chegado ainda
á provocação directa, era porque temiam a valentia do frade. Elles
bem sabiam que frei Simão fôra uma vez a Macieira de Cambra, terra de
valentões, castigar por sua propria mão um homem, que acintosamente lhe
havia enredado um pleito de familia. Fôra, castigára o homem, e voltára
incolume a Cezár. Como esta façanha, contavam-se outras. De modo que os
visinhos absolutistas, apesar de espicaçados por Ignacio da Fonseca, não
tinham passado ainda da provocação indirecta.
Por exemplo. Uma tarde passava frei Simão á Fonte da Pipa, perto do matto
de Algiboa, quando uma voz rompeu a cantar ironicamente:
É certo, e mais que certo
D. Miguel ser nosso rei.
É certo, e mais que certo,
Que assim é que manda a lei.
Pareceu a frei Simão que era a voz do Manel Zarôlho. Parou logo,
procurando descobrir a pessoa que cantava. Mas a voz calou-se, e o frade
seguiu pausadamente seu caminho.
Eram prenuncios de tempestade imminente, que a ninguem da familia do
Outeiro passavam despercebidos. A todos se antolhava ameaçador o futuro.
Era visivelmente chegada a vespera de graves acontecimentos.
Por isso tambem Francisco Marques parecia agora, mais do que nunca,
empenhado em desviar os tristes presentimentos e vagos receios, que
pesavam sobre o espirito da familia do Outeiro.
Vendo Anninhas debruçada no parapeito do pateo, disséra jovialmente o
Marques:
—Olha a minha menina como está tristonha! Pois antes das vindimas ha de
estar mais alegre. Ó sr. frei Simão, por que será que chamam _cabra_ ao
sino que em Coimbra manda os estudantes?
Anninhas sorriu levemente.
—Como sabes tu isso? perguntou frei Simão.
—Foi o sr. José Maximo que m’o disse uma vez. Mas eu fiquei a scismar
n’aquelle nome. Será porque os cinco annos dos estudos teem tantos
espinhos como as silvas, que as _cabras_ costumam roer?
Frei Simão e Anninhas riram do jovial desconchavo.
—É porque o sino berra como uma _cabra_, disse alegremente o frade. Se
não fôr isto, é porque está empoleirado na torre como as _cabras_ no
pinaculo dos rochedos.
—Ah! tornou o Marques, isso quadra-me. Mas pena é que não esteja tão
alto, que se não possa vêr de Cezár!...
Tiniu agora mais crystallino o riso de Anninhas, a quem as facécias do
Marques distraíam das vagas apprehensões com que ella pensava no futuro
e sempre em Coimbra desde que José Maximo tornára a envolver-se nas
questões politicas da academia.
Bateram á _Porta vermelha_. Anninhas retirou-se para dentro de casa.
—Vae vêr, ó Marques, disse frei Simão baixando a voz.
Mas como o criado se demorasse a conversar fôra da porta com a pessoa que
tinha batido, frei Simão perguntou de rijo:
—Ó Marques! quem está ahi?
—É o Zé de Oliveira, por causa da réga.
—Diz-lhe que pode levar a agua amanhã.
O Zé de Oliveira era um visinho, um amigo, a quem frei Simão cedia,
alguns dias na semana, a agua precisa para a réga.
Voltou o Marques, apparentemente tranquillo.
—Ora o diabo do homem! disse elle olhando para as janellas sobranceiras
ao pomar, não esteve comigo ás voltas, que sim e mais que tambem, que ha
ahi uma certa cachopa, que me quer fallar casamento?!
—Ainda ias a tempo! respondeu frei Simão.
Mas como reconhecesse que ninguem os estava ouvindo, o Marques disse a
meia voz:
—Ó sr. frei Simão, faça favor de vir aqui vêr esta amendoeira como se vae
a pôr bonita. Está aqui está toda coberta de flor.
—Tenho mais que fazer agora.
—Mas faça favor, que tem aqui uma _cursidade_ (curiosidade).
Frei Simão foi, um pouco contrariado, por comprazer com o Marques.
—Então o que é? perguntou elle entrando no pomar.
—Faça favor de vir vêr ao perto.
E como frei Simão se aproximasse, disse-lhe baixinho:
—O Zé de Oliveira trouxe uma ruim noticia.
—O que foi?! perguntou frei Simão com interesse.
—Disse constar que os estudantes de Coimbra mataram ha dois dias em
Condeixa uns lentes que iam para Lisboa.
—Ora essa! exclamou frei Simão. Será isso verdade?!
—Ha de ser, senhor, porque as ruins novas são sempre certas.
—E fallou-te no sr. José Maximo?
—Não, senhor. Disse que tinham sido os estudantes.
—Cala-te, e vae ouvir o que se diz por ahi.
Frei Simão ficou muito inquieto. O Marques sahiu, e voltou ao cabo de uma
hora.
—Está tudo cheio do tal feito dos estudantes. Fallei com o _Bréca_ (era
um criado de Ignacio da Fonseca) que me contou que o amo, ao saber
a noticia, tinha dito que o sobrinho ainda havia de passar grandes
trabalhos por causa da politica. Longe vá o agouro!
—Mas fallou-te no sr. José Maximo?
—Não, senhor. Só me disse isto, e eu voltei-lhe as costas.
—Ó Marques, tem paciencia, vae a Coimbra saber o que se passa, disse frei
Simão muito apprehensivo.
O Marques obedeceu como um cão; dir-se-hia que d’ali a Coimbra era um
pequeno passeio, tanto á pressa o Marques se preparou para sahir.
As noticias que elle trouxe, vinte e oito horas depois, eram más. No
dia 19 tinham chegado a Coimbra, presos, nove estudantes por terem
assassinado dois lentes no Cartaxinho. Segundo ouviu, o povo, quando
elles chegaram no meio da escolta, enchia a Ponte, e seguiu-os pela
Couraça de Lisboa acima em tamanha quantidade, que não caberia um
alfinete. Nenhum dos presos era o sr. José Maximo, mas elle não estava
em Coimbra, diziam que tinha fugido.
—Mas está criminoso tambem?
O Marques respondeu com desalento:
—Dizem que sim, senhor.
—Que desgraça! que desgraça! exclamou frei Simão.
—Eu fallei até com a servente. Disse-me que o sr. José Maximo tinha
sahido de casa no dia 17 á noite, e que ainda não tinha voltado, porque,
segundo os estudantes contavam, andava a monte.
—Meu Deus! Olha, Marques, eu vou a Coimbra. Toma sentido. Aqui, na minha
ausencia, não entra ninguem. É preciso que as senhoras não fallem com
viv’alma.
—Vá Vossa Reverencia descansado, respondeu o Marques abafando de tristeza.
—Descansado! repetiu frei Simão.
O Marques não tivera coragem para dizer o mais, para contar tudo. Elle
tinha ouvido em Coimbra que José Maximo e outro estudante, tambem do
Fundão, foram os primeiros a assaltar as caléças em que os lentes iam.
Preferia ter morrido pelo caminho, arrebentado de tristesa, mas Deus não
lhe fizera a vontade. Vêr assim desgraçada a sua querida menina, quando,
d’ali a mezes, devia ter o seu noivo formado! Eram pragas, deviam por
força ser pragas de Ignacio da Fonseca.
E cuspia trez vezes no chão.
—Ó Santa Virgem do ceu! pensava elle com os olhos afogados em lagrimas,
pelas dores que atormentaram no Calvario o vosso sagrado coração, valei
á minha pobre menina, levae-me d’este mundo se eu tenho de vêl-a infeliz.
E ficava encostado ao cabo da enxada a scismar n’aquella grande desgraça.
De uma vez Anninhas viu-o da janella, e disse-lhe:
—Ó Marques, estás a pensar na cachopa, que quer ser tua mulher?
—Ah! a menina ouviu? Pois é mesmo: estou a pensar na cachopita, que não
pode ser mais infeliz.
—Porque?
O Marques corrigiu-se sorrindo e dizendo:
—Porque ella que se vira para um velho, é porque já nenhum moço a quer.
—Pois vê lá se te resolves, e casaremos no mesmo dia.
Frei Simão, chegando a Coimbra, foi hospedar-se na estalagem do Paço do
Conde.
Principiou ahi mesmo a colher informações, que o aterraram. O
estalajadeiro asseverou-lhe que Antonio Maria e José Maximo estavam
implicados no crime. Contou, segundo a versão dos estudantes presos,
que tinham sido aquelles dois os que primeiro atacaram as caléças. E
accrescentou que, tendo José Maximo combatido, nos _Divodignos_, a
proposta de Antonio Maria, para irem esperar os lentes ao caminho, muita
gente se admirava de que elle se avantajasse aos outros, com Antonio
Maria, na arremettida, se bem que alguns explicassem que o fizera para
não ser alcunhado de cobarde.
—Deve ter sido assim, pensou frei Simão.
Proseguindo, o estalajadeiro disse mais:
—Que toda a indignação dos presos era contra Antonio Maria, que fôra
quem os perdêra. Que era uma pena vêr tantos rapazes de boa familia
desgraçados por a loucura d’um só; não só desgraçados, mas tambem
infamados pelo roubo das bagagens.
—Duvido, observou convictamente frei Simão, que José Maximo se associasse
a essa infamia. É preciso não o conhecer.
—Lá isso assim é, commentou um criado, o Agostinho, porque o doutor Neves
veiu dizer que conheceu perfeitamente José Maximo pela voz, apesar de
elle ter a cara tapada como os outros, quando gritou que não maltratassem
os lentes, e diz que não sabe ao certo, pela atrapalhação em que estava,
se José Maximo era um que o cobria com o corpo, mas que lhe parece que
sim.
—Tudo isso são attenuantes. Melhor elle se tivesse apresentado á justiça.
—Qual! replicou o estalajadeiro. Fez muito bem em fugir, porque o castigo
ha de ser severo para exemplo de todos. Dos estudantes que faziam parte
da loja da rua do Loureiro já não está em Coimbra nem um unico. Fugiu
tudo. Até fugiram os que não foram a Condeixa. O Moacho, que era o
presidente, e estudava para capello, já desappareceu tambem.
N’isto entrou na casa do jantar, e pediu o seu candeeiro para recolher-se
ao quarto, um sujeito de boa apparencia.
O estalajadeiro piscou o olho a frei Simão, como a recommendar-lhe
silencio.
O criado Agostinho deu o candeeiro ao hospede, e o estalajadeiro, após
alguma pausa, disse quasi ao ouvido de frei Simão:
—Este sujeito é de Lisboa, e dizem que veiu cá para vêr se salva um dos
presos.
—Qual preso?
—Domingos Joaquim dos Reis, que é filho do capitão-mór de Cintra: muito
rico. Veja Vossa Reverencia! uma creança de vinte annos! Mas parece que
nem o dinheiro o salvará, porque consta que o ministro das justiças
mandou ordem ao _Cabaças_ para activar as averiguações. Isto é uma grande
desgraça! Bem faço eu que me não metto em politica: em primeiro logar,
porque tenho de viver com todos; em segundo logar, porque não quero
desgraçar a minha familia.
Frei Simão estava fulminado pelas más noticias que lhe déra o
estalajadeiro, e que foram confirmadas pela voz de todas as pessoas a
quem poude ouvir sobre o assumpto.
Recolheu ao Outeiro mergulhado em profunda tristeza, mas resolvido a
contrafazer-se para que nenhuma de suas irmãs soubesse o que se tinha
passado.
Apenas se abriu com o Marques dizendo-lhe em segredo:
—Pobre rapaz! está perdido! É certo que fugiu. Mas occultaremos a
verdade. Nem uma palavra, entendes? Nem uma palavra.
E nem Anninhas nem as outras irmãs de frei Simão tiveram noticia da
tragedia do Cartaxinho.
Ahi por abril, frei Simão disse que ia a Coimbra visitar José Maximo.
Receiava que D. Anna notasse a falta de cartas d’elle. Ausentou-se
por trez dias: esteve em Oliveira de Azemeis. Quando voltou, deu boas
noticias de José Maximo: que se havia desculpado de não ter escripto
por se aproximar o fim do anno lectivo, e estar muito sobrecarregado de
trabalho. Mas que gozava perfeita saude.
—O peior, pensava frei Simão, é quando o fim do anno lectivo chegar.
Pobre Anninhas!
A 16 de maio rebentou no Porto a revolução contra o governo de D. Miguel.
Frei Simão estava no segredo do movimento. Fôra prevenido por Frederico
Pinto, que a junta revolucionaria nomeára commandante da companhia dos
_Matutos_ e officaes de tanoeiro de Villa Nova de Gaya.
A revolução alastrou desde o Porto até Coimbra.
Em Cezár, o frade, armado á frente dos seus criados, sahiu a proclamar a
rebellião contra a auctoridade do regente. Ninguem ousou oppor-se-lhe.
Todos os visinhos absolutistas trataram de esconder-se.
Foi porém ephemero esse movimento, que terminou tristemente, e que teve a
_Belfastada_ como vergonhoso epilogo.
Esmagada a revolução, os absolutistas de Cezár sahiram da tóca, mas o
frade esperou-os resolutamente. Não fugiu. Acceitou a sua posição de
vencido, e preparou-se para resistir aos odios que, contra elle, se
desencadeáram então aberta e ostensivamente.
Preveniu-se andando de espingarda ao hombro e substituindo o habito por
uma jaqueta, para não ser tão facilmente reconhecido de longe.
Uma vez, em Pedra-Mar, frei Simão encontrou um dos seus adversarios. Iam
ambos armados. Instinctivamente metteram a espingarda á cara um do outro.
Estava de per meio uma arvore, um pinheiro, que ambos queriam aproveitar
como resguardo. O absolutista, a tão pequena distancia do frade,
receiou-o. Frei Simão não queria disparar senão em legitima defesa. E
assim andaram por algum tempo á volta da arvore, dizendo um ao outro
«Dispara tu», «Dispara tu primeiro», sem que nenhum dos dois disparasse.
O frade não se acobardava, nem retraía. Ia aonde precisava ir. Tinha que
fazer em S. João da Madeira, e foi. Demorou-se ali, no logar mais publico
da povoação, conversando á porta do ferrador. Era na praça actual, agora
modernisada pela construcção de um chafariz. S. João da Madeira faz
muita differença do que então era. A egreja, por exemplo, tinha, n’esse
tempo, voltada para o mar a porta, que actualmente olha para os montes
escalvados de Macieira e Nogueira. Mas o alpendre do ferrador ainda lá se
conserva, na praça.
Pois bem. O frade, depois de ter tratado os seus negocios, recolhêra a
Cezár pela estrada solitaria.
No caminho, passou por uns trabalhadores, que andavam n’uma segada, e que
se atreveram a resmonear, quando elle passava: «Frade fóra».
Frei Simão saltou da estrada para o campo, correu para os trabalhadores,
parou deante d’elles. Calaram-se, assombrados de tamanha audacia e
coragem.
Ignacio da Fonseca e os outros absolutistas de Cezár reconheceram-se
pessoalmente impotentes para esmagar o frade. Recorreram, portanto, ao
auxilio das auctoridades, sempre dispostas a perseguir os liberaes.
Ainda assim, as auctoridades não foram d’essa vez tão audaciosas, que
investissem logo com o frade. Começaram por fazer um rodeio. José
Bernardo de Vasconcellos estava então na casa do Outeiral em Arouca, em
companhia do filho Antonio. Maria Henriqueta, a filha mais nova, havia
entrado no mosteiro d’aquella villa, a titulo de educar-se. As freiras
não ousaram oppôr-se á admissão da filha do fidalgo do Outeiral, seu
proximo visinho, e Maria Henriqueta de preferencia escolheu aquelle
mosteiro attraida ali pela presença da mulher, que o tio, Joaquim Maria,
tinha amado até á morte.
Na tarde de 17 de setembro d’esse anno de 1828, José Bernardo de
Vasconcellos foi procurado na quinta do Outeiral pelas justiças da
comarca de Arouca.
Sahiu a recebel-as na sala nobre do edificio.
Disseram-lhe ao que iam: sequestrar os bens, que achassem pertencer a
Frederico Pinto como implicado no mallogrado movimento do Porto, de 16 de
maio.
Serenamente, José Bernardo contrapoz que era verdade ter elle doado
aquella quinta, e outras, a seu filho Frederico, mas que por contrato
tinha reservado os rendimentos d’essa propriedade como alimentos seus,
dos dois filhos mais novos, e de uma sua irmã.
Para justificar o que dizia, apresentou o contrato assignado por
Frederico Pinto.
O juiz, ouvidas as declarações de José Bernardo, mandou proceder a
sequestro na propriedade, de que constituiu depositario o proprio José
Bernardo, com reserva dos rendimentos.
Era o inicio das perseguições officiaes contra a familia Vasconcellos.