O crime do Cartaxinho

Ao mesmo tempo, porém, que altamente nos pronunciamos contra

os individuos que praticaram tão grande crime, temos obrigação

de declarar em testemunho á verdade que na sociedade dos

«divodignos» não se decidiu nem se tratou da morte dos membros

das deputações.

Joaquim Martins de Carvalho—«Apontamentos para a historia

contemporanea.»

Os primeiros actos de D. Miguel como regente, conjugados com o

enthusiasmo popular que o saudava como rei, deram rebate nos arraiaes do

constitucionalismo, causaram uma anciosa desconfiança nos espiritos mais

exaltados.

Entre as sociedades secretas de Coimbra avultava a dos _Divodignos_, que

funccionava na rua do Loureiro, junto ao Arco de D. Jacinta, e que na sua

maior parte era constituida por estudantes.

José Maximo, disputado por todos esses clubs revolucionarios, a todos

pertencia, e não poucas vezes teve de arriscar a sua influencia pessoal

para conter os animos fogosos dos confrades e evitar inuteis desatinos de

paixão politica.

A chegada de D. Miguel, os seus primeiros actos como chefe do estado e as

manifestações calorosas com que a opinião publica o recebêra, atiçaram a

indignação das sociedades secretas de Coimbra, onde todas as noites eram

proferidos discursos violentos e gizados planos audaciosos.

Os lentes absolutistas, a cujos ouvidos chegavam os eccos ameaçadores

dos clubs maçonicos, tratavam, por sua parte, de cortar os vôos aos

estudantes demagogos, como elles os classificavam.

Assim pois, sob pretexto de dar as boas-vindas a D. Miguel, resolveram,

de accôrdo com o cabido, enviar deputações a Lisboa.

Mas logo correu entre os estudantes que a fim occulto da jornada dos

cathedraticos era apresentar a D. Miguel uma relação dos academicos

liberaes, que deviam ser riscados e perseguidos.

Reuniram-se immediatamente todas as sociedades secretas para tratar do

assumpto.

José Maximo entendeu dever assistir, de preferencia, á sessão dos

_Divodignos_, por ser o club mais ardente e numeroso, portanto aquelle

que offerecia maior perigo de desvairamento.

Accrescia tambem uma circumstancia especial para inquietar o espirito de

José Maximo com relação á assemblea dos _Divodignos_.

Antonio Maria das Neves Carneiro, seu patricio e amigo, então alumno do

segundo anno de mathematica, era não só um dos academicos liberaes mais

exaltados, mas tambem inimigo pessoal de um dos lentes da deputação.

Ora se taes motivos o faziam temido e perigoso, na materia que se

ventilava, ninguem melhor do que José Maximo podia dispôr de auctoridade

bastante a reprimil-o e contel-o.

Portanto, de combinação com o sextanista da faculdade de leis, Francisco

Cesario Rodrigues Moacho, que era o presidente da sociedade dos

_Divodignos_, José Maximo, então no seu quinto anno, concorreu á sessão

de animo feito para abafar as tempestades de colera, que certamente

esbravejariam na bôca de Antonio Maria.

Como se esperava, foi este estudante que apresentou e arrebatadamente

sustentou uma proposta incendiaria, cuja summula se cifrava em que

uma delegação dos _Divodignos_ fosse arrancar das mãos dos lentes, no

caminho, não só as felicitações de que eram portadores, mas tambem, e

principalmente, a lista das proscripções academicas.

José Maximo combateu tenazmente a proposta.

—De que servirá, perguntava elle, apprehendermos os papeis que nos

denunciam culpados, se esses papeis podem ser facilmente substituidos por

outros, com a circumstancia aggravante para nós de havermos violentamente

inutilisado os primeiros? Pensais, acaso, que a deputação se não

defenderá á mão armada contra a nossa investida? O que irá, pois, fazer

a commissão dos _Divodignos_? Matar ou morrer: eis o triste dilemma, a

deploravel consequencia a que forçosamente havemos de chegar.

—Terás tu mêdo pela primeira vez na tua vida? atalhou ironicamente

Antonio Maria. Se tens mêdo, fica.

A assembléa não applaudiu a ironia, mas, fanatisada pela eloquencia do

violento orador não a castigou com o menor signal de reprovação.

José Maximo, a quem a popularidade faltára n’esse momento, como sempre

tem acontecido aos chefes politicos, por mais adorados que hajam sido,

ficou profundamente maguado com o áparte ironico de Antonio Maria. Ter

mêdo, elle! Nunca o tivera; não o teria jámais. Tantos annos de prestigio

estavam a pique de ser prejudicados por uma simples phrase. Repelliu-a,

pois.

—A minha lealdade, exclamou elle com grande vehemencia, obrigou-me a

mostrar-vos os perigos da empreza; mas o meu brio pessoal, injustamente

aggredido, obriga-me tambem a dizer-vos que, aconteça o que acontecer,

estou prompto a acompanhar-vos.

Estas palavras causaram um movimento de applauso na assembléa.

José Maximo sahiu d’ali rehabilitado, mas triste, apprehensivo.

A deputação mixta da universidade e do cabido partiu de Coimbra na tarde

do dia 17 de março.

Á noite, depois das dez horas, partiram por sua vez os estudantes.

Antonio Maria, alma d’aquella empreza, tratou de evitar que não faltasse

nenhum dos que para desempenhal-a se tinham offerecido. Á ultima hora,

o estudante Urbano de Figueiredo parecia arrependido, pretextou ter

muito que estudar para se habilitar a fazer acto. Antonio Maria replicou

offerecendo-se para leccional-o, e allegando que seria apenas ida por

volta.

José Maximo partira só, pensativo, contrariado por um presentimento

doloroso.

Davam onze horas na Sé quando Antonio Maria sahia pela estrada de Lisboa,

acompanhado do estudante Domingos Joaquim dos Reis. Ambos levavam

espingardas, para justificar o disfarce de uma supposta caçada na

Arrifana.

Antonio Maria vestia esse celebre fato, que tanto o havia de comprometter

depois: fardêta de saragoça prêta, á caçadora, calças brancas, chapeu

redondo de copa alta; dois punhaes no cinto.

A deputação dos lentes e dos conegos foi pernoitar a Condeixa.

Os estudantes chegaram por alta noite á quinta do Freitas, proximo á

villa, e ahi esperaram que amanhecesse.

Nenhum d’elles sentia cansaço nem somno: e José Maximo menos que nenhum.

Estava inquieto.

—Somos treze! pensava attribulado, n’uma torturada excitação nervosa.

Notára que os companheiros levavam armas de munição, com cartuxos

embalados, e punhaes. O aspecto d’este arsenal ambulante confrangera-o.

—Tu não vens armado? perguntou-lhe Antonio Maria.

—Não pensei n’isso, respondeu José Maximo. Não venho para matar.

—Mas, segundo o teu famoso dilemma, podes vir para morrer. Péga sempre um

punhal para te defenderes, se fôr preciso.

Isto disse Antonio Maria tirando do cinto um dos dois punhaes e dando-o

a José Maximo, que o recebeu com indifferença.

Aos primeiros alvores da manhã, os estudantes sahiram da quinta para

antecipar-se á passagem dos lentes.

José Maximo lembrou-se de que esse dia era uma terça feira, e esta ideia

mais contribuiu para inquietar o seu espirito propenso a superstições.

Chegando ao Cartaxinho, uma legua ao sul de Condeixa, os estudantes

fizeram alto. Tapadas as caras com lenços, esperaram emboscados.

Das sete para as oito horas da manhã, avistaram quatro caléças, ladeadas

por cavalleiros, e acompanhadas por gente de pé.

Na primeira caléça ia o deão Antonio de Brito e Castro com um criado, e

outro á estribeira; na segunda, o conego Pedro Falcão Cotta e Menezes com

um sobrinho, e outro a cavallo; na terceira o doutor Matheus de Sousa

Coutinho, lente de canones, com o doutor Jeronymo Joaquim de Figueiredo,

lente de medicina, acompanhando-os a cavallo José Candido, sobrinho do

doutor Matheus; na quarta ia o doutor Antonio José das Neves e Mello,

lente de philosophia, com um filho, já bacharel. Seguia-se a cavallo

o official da imprensa da universidade, Francisco de Assis e Mattos.

Fechava a comitiva a récova das bestas de carga, que os arrieiros e

criados acompanhavam a passo.

Quando a deputação se aproximou, os estudantes correram sobre ella,

investindo com as armas engatilhadas.

Os primeiros a avançar foram Antonio Maria e José Maximo, ambos por

differente motivo: o primeiro, por não poder conter a sua impaciencia; o

segundo, para não parecer cobarde.

Fizeram apeiar os viajantes, e obrigaram-n’os a subir uma collina,

protegida por um vasto pinhal, a léste da estrada. Ahi retiveram os

caleceiros, arrieiros e criados, emquanto os lentes e demais pessoas eram

conduzidos para uma baixa, a maior distancia, sitio sombrio e solitario.

Escoltados uns e outros, foram os criados e arrieiros intimados a ir

buscar todas as cargas, malas e bahús para junto do pinhal.

Obedeceram. E os estudantes revistaram as bagagens, apprehendendo os

papeis e valores que ellas continham.

José Maximo, immovel, não tocou nas bagagens; nem olhava para ellas.

Era tamanho o terror dos assaltados, que nenhum d’elles ouzava resistir.

Derrubada e manietada com cordas a criadagem, voltaram-se as attenções

dos academicos para o pessoal superior da caravana.

Uma voz perguntou:

—Devem tambem ser amarrados?

—Não! gritou José Maximo.

Mas outra voz replicou com azedume:

—Devem ser seguros a punhal e tiro.

E logo explodiram trez descargas á queima-roupa, fulminantes. O doutor

Matheus e o doutor Figueiredo cahiram varados instantaneamente.

O instincto de conservação sobrelevou então a surpreza, o terror dos

restantes assaltados, que travaram desesperada lucta com os assaltantes.

Fôra medonha a carnificina, successivas as descargas, e os golpes de

punhal.

Os dois membros do cabido conimbricense, o deão e o conego, defendiam-se

com valoroso desespero.

Por isso o grosso do bando academico convergiu sobre os dois: o deão

recebeu vinte e sete ferimentos, feitos com quartos, alguns grãos de

chumbo e punhal triangular; o conego foi alcançado vinte vezes pelas

armas dos _Divodignos_.

José Maximo, n’uma allucinação de intrepidez, cobria com o seu vulto

o corpo do doutor Neves, para livral-o da morte, e ao mesmo tempo

furtava-se aos golpes com que era atacado, por supporem alguns dos da

deputação que elle disputava esse lente como prêsa em que quizesse

cevar-se.

A sangrentissima lucta foi presenceada, do alto de um outeiro, por uma

mulher da Venda Nova, que principiou a gritar.

Como era dia de mercado em Condeixa, passava gente, boieiros e

lavradores, que logo acudiu. O povo corria, vozeando, na direcção do

logar do conflicto.

Os estudantes, vendo-se ameaçados de perto, trataram de fugir, mas como

casualmente transitasse pela estrada real o general da Beira Alta,

Agostinho Luiz da Fonseca, acompanhado pelo filho e escoltado por alguns

soldados de cavallaria, foram perseguidos pelos soldados e povo.

Nove dos academicos cahiram, não sem alguma resistencia, em poder

dos seus perseguidores. Nenhum d’elles era José Maximo. O povo e a

cavallaria, com o general á frente, bateram em todas as direcções os

arredores do Cartaxinho, procurando os outros quatro estudantes, que não

poderam ser encontrados.

Os presos foram recolhidos á cadeia de Condeixa, e vigiados por uma

enorme multidão, que a todo o momento ameaçava linchal-os. O mercado da

villa e as granjas mais proximas tinham-se despovoado completamente, logo

que soou a noticia d’essa horrorosa tragedia.

O general Fonseca, reconhecendo que não era possivel encontrar os quatro

fugitivos, mandou para junto da cadeia alguns soldados da sua escolta,

a fim de conterem o povo, e enviou uma ordenança a Coimbra, a pedir o

immediato auxilio de uma força de caçadores, que aliás não se fez esperar.

José Maximo da Fonseca fugiu só, como tinha sahido de Coimbra.

Foi correndo n’uma carreira cega, desesperada. Por muito tempo ainda

ouviu o clamor do povo, que perseguia os fugitivos.

Depois, como a distancia augmentasse, rodeiava-o apenas o grande silencio

de montanhas, que elle não conhecia. Corria sem destino, evitando sempre

as povoações, e obliquando instinctivamente para éste como a procurar

salvação na fronteira de Hespanha.

Exhausto, arquejante, faminto, com os pés golpeados escorrendo sangue,

anoiteceu-lhe n’um pinheiral cerrado. O cansaço vencera-o.

Atirou-se para o chão. Pouco lhe importaria n’aquelle momento que o

encontrassem e prendessem.

Mas devia estar já muito longe de Condeixa, comquanto não soubesse onde

estava.

Estendera-se sobre a terra dura, eriçada de cardos, especie de leito de

Procusto, mas as dores da alma sobrepujavam, n’aquella hora tremenda, as

dores do corpo.

Deitado de recovo, não podia adormecer, apesar de extenuado. Pensava,

começava a fazer-se-lhe nitida a desesperada situação, que o destino lhe

preparára.

Todos os trabalhos da sua revôlta existencia desfilavam n’um cortejo

funebre, redivivos por uma grande lucidez de memoria, e a imagem de

Anna de Vasconcellos, triste e lacrimosa, n’uma angustia abafada, sem

blasphemias e desesperos, apparecia como no topo de um Calvario ideial,

ao lado de outra mulher, que suspirava n’um anceio profundo, como o

do naufrago que respira a custo. Esta mulher conhecia-a José Maximo,

divisava-lhe as feições, via-a como se estivesse ali presente: era sua

mãe. E entre elle e ellas estava um abysmo sombrio e vasto como o fundo

do mar. Era a eternidade, o «nunca mais», o impossivel, a morte em nome

da lei, mais hoje ou mais ámanhã, em qualquer parte, por denuncia,

perseguição, ou acaso.

A noite estava escura. O rumor dos campos dezertos, esse sussurro, vago

e confuso, que parece ser a respiração da terra adormecida zumbia-lhe

aos ouvidos, aturdia-lhe o cerebro como o revolutear de um vespeiro. De

espaço a espaço a aragem ullulava na rama dos pinheiros imitando os

gemidos de alguem que devia estar chorando ali perto...

Eram ellas, as duas mulheres queridas, acorrentadas em espirito ao seu

infortunio inexcedivel.

José Maximo só a si proprio accusava da sua desgraça. Deus avisara-o, por

muitas bôcas e por muitos prenuncios, mas elle não lhes déra ouvidos,

nem mesmo ás meigas supplicas de Anna de Vasconcellos. A cantiga que

fallava da faya, a folha do trevo, o numero 13, a coincidencia da

terça feira tinham sido, de certo, pensava elle, outros tantos avisos,

que despresára. Despenhára-se voluntariamente, e, no fundo do abysmo,

sentia-se abandonado de Deus, que não podia absolvel-o depois de o ter

avisado.

A fadiga fizera-lhe perder a consciencia de si mesmo. Cahira n’uma

somnolencia povoada de visões sinistras, cortada de sobresaltos e

convulsões, de gemidos angustiosos.

Como se fosse accordado por surpresa, abriu os olhos cheio de afflicção,

circumvagou um olhar espavorido, attentando nos pinheiros que no primeiro

momento lhe pareceram outros tantos aguazis gigantes, que o tivessem

cercado durante o somno.

Vinha rompendo a manhã.

Levantou-se a custo, estonteado por vertigens, que o cegavam. Sentia fogo

no cérebro. Palpou a fronte, que escaldava.

Forcejou por caminhar, fugir. Durante meia hora arrastou-se a passos

incertos, agarrando-se por vezes ás urzes do caminho para não cahir ao

chão.

A região montanhosa da Beira Baixa devia denunciar-se já na corda sinuosa

dos montes, no relevo macisso das serras.

Mas José Maximo não via, não podia olhar fito. Os olhos fechavam-se-lhe

n’uma languidez nublosa, vidrada.

Iria cahir prostrado por um grande desfallecimento, quando avistou um

pastor, sentado no alto de um rochedo.

Acenou-lhe com a mão, chamou-o. Depois sentou-se, recostou, exanime, a

cabeça.

O pastor, vendo-o desfallecido, ergueu-o ao hombro, levou-o para junto

dos penedos, que davam sombra a um trecho do monte. Deitou-o ahi.

José Maximo dormiu longas horas. Quando ao fim da tarde accordou, tinha

sêde. Bebeu agua da cabaça do pastor. Reanimou-se. Sentia-se fatigado,

mas a febre tinha diminuido.

Encarando então no perfil duro das montanhas, que se desenhavam ao longe,

perguntou ao pastor que serra era aquella.

—É a Gardunha, senhor.

José Maximo ficou espantado. Não tinha reconhecido essa longa serra, que

é uma ramificação do Herminio, e que se ergue alterosa no Fundão, sua

patria.

Obedecendo á suggestão inevitavel que a terra natal exerce sobre os

criminosos, foi caminhando na direcção d’essa serra longinqua sem comtudo

querer demandar o Fundão, onde tinha uma familia que perdêra.

Comeu o pão negro e umas azeitonas, que lhe tinha dado o pastor. E ganhou

forças para andar durante quasi toda a noite.

Quando amanheceu o dia 20 de março, emboscou-se n’um pinhal, para

descançar, e para evitar a luz do dia.

O sol, ascendendo n’uma serena effusão de luz, dava-lhe o desespero que

sentem as almas attribuladas quando se defrontam com a paz eterna da

natureza, insensibilidade ou despreso, que justifica a eternidade da

creação. Se ella compartisse das nossas dôres quotidianas, acabaria por

soffrer e envelhecer como nós mesmos.

Passou ahi todo o dia pensando na sua desgraça irremediavel. Parecia-lhe

que a visão de Anna de Vasconcellos ficava já a uma distancia infinita,

insuperavel, mas como que sentia bater mais perto o coração de sua mãe.

Quando anoiteceu, poz-se de novo a caminho, sem saber ao certo para onde.

Ao romper da manhã do dia 21 tornou a esconder-se. Ao fim da tarde,

seguiu jornada. Teria andado meia legua, quando sentiu a certa distancia

o trote pesado de um cavallo. Saltou da estrada para o monte, e poz se á

espreita, agachado.

Viu que o cavalleiro trazia calças brancas e chapeu redondo de copa

alta. Lembrou-se de ter visto alguem assim vestido, havia pouco tempo.

Continuou a espreitar, e reconheceu Antonio Maria. Levantou-se. O

fugitivo, que cuidadosamente vinha olhando a um e outro lado da estrada,

viu-o logo. Reconheceu-o tambem. A surpresa dos dois foi igual.

—Como ficaste tu para traz?! perguntou José Maximo.

Antonio Maria parou o cavallo, depois de se ter certificado bem de que

não era seguido. Contou que tinha ficado escondido na quinta do Freitas,

d’onde sahira no dia anterior, já de noite, acompanhado até ao romper da

manhã por um guia. Historiou como perdêra no pinhal de Palha Canna a sua

fardeta, que levava ao hombro quando fugia, os seus papeis, o punhal, e

a bolsa de coiro, e como esses objectos poderam ser encontrados por dois

homens, que dedicadamente o haviam protegido.

—Para onde vais tu? perguntou-lhe José Maximo.

—Para o Fundão. E tu?

—Eu sei lá para onde vou?! Tu tens familia no Fundão, mas eu posso dizer

que a não tenho já.

Insistiu Antonio Maria para que montasse com elle no mesmo cavallo.

—Vais derreado. Anda comigo, que este cavallo poderá por emquanto com nós

ambos.

Fraca resistencia oppoz José Maximo. Aquelles dois homens eram attraidos

pela mesma suggestão.

Em caminho, não trocaram uma unica palavra sobre os acontecimentos do dia

18. José Maximo evitou esse doloroso assumpto, causa da sua desgraça. Que

differença entre José Maximo e os estudantes presos, que a essa mesma

hora, na cadeia de Coimbra, onde tinham entrado no dia 19, só lembravam o

nome de Antonio Maria para o amaldiçoar!

—Malvado homem, que nos metteu n’isto! diziam elles carpindo a sua

propria desgraça.

Seriam dez horas da noite, quando chegaram ao Paul. Viram a cabana

solitaria de um cantoneiro.

—Precisamos descançar aqui algum tempo. Se não fôr assim, disse Antonio

Maria, o cavallo acabará por negar se. Vamos bater á porta.

Bateram. O cantoneiro perguntou quem era. Responderam que dois rapazes do

Fundão, que pediam pousada. O cantoneiro, a quem aquella voz não pareceu

extranha, accendeu a candeia, pendurou-a, e veio abrir.

—Aqui tens o nosso cavallo em penhor da nossa boa fé, disse Antonio Maria

entregando-lh’o.

—Vou desapparelhal-o, respondeu o cantoneiro, e amarral-o áquelle

pinheiro acolá.

—Não, replicou Antonio Maria, deixa-o estar sellado, mas dá-lhe umas

sopas de vinho, se podes.

O cantoneiro foi preparar as sopas. Quando entrou, fez maior reparo nos

dois viajantes, que já estavam deitados sobre uns molhos de palha sêcca,

ao lado de um caldeireiro ambulante, profundamente adormecido.

A cabana do cantoneiro era um albergue de viajantes miseraveis.

—Mas não me engano! apostrophou elle, pegando na candêa, e elevando-a á

altura dos olhos. Vocês são...

Antonio Maria poz sobre o nariz o dedo indicador da mão direita,

intimando silencio.

Pouco depois da meia noite, José Maximo, que não pudera adormecer,

rastejou sobre a palha para accordar Antonio Maria e o cantoneiro.

Sahiram os trez a desamarrar o cavallo.

—Aconteceu-nos uma grande desgraça, disse Antonio Maria ao cantoneiro.

Não nos denuncies.

E, descalçando um dos sapatos, tirou d’elle dinheiro em papel,—um papel

humedecido e rôto.

—Isso chega, disse José Maximo ao cantoneiro, para repartires com o

caldeireiro o que elle entender que vale a sua ferramenta, porque a vou

levar comigo. Dás licença, Antonio? Eu não trago dinheiro.

—Trago eu. Mas para que queres tu uma tão incommoda bagagem? observou

Antonio Maria.

José Maximo não respondeu.

O cantoneiro prometteu guardar silencio: lembrou que conhecia os dois

desde pequenos, e que por caso algum quereria perdel-os, visto ter-lhes

acontecido uma grande desgraça.

Os dois estudantes montaram a cavallo. Partiram.

Pelo caminho Antonio Maria tornou a perguntar a José Maximo para

que levava elle os utensilios do caldeireiro, que eram pesados e o

embaraçavam.

—É porque tu, no Fundão, tens familia, que te proteja, e eu não tenho.

Seguirei logo para Hespanha, feito caldeireiro ambulante.

Entrando ainda de noite no Fundão, foram bater á porta da familia de

Antonio Maria, cujo pae, medico do partido ali, ouviu com dolorosa

attenção a narrativa da desgraça do filho, sem todavia o repellir.

Combinou-se que ambos fossem ficar, por cautella, a casa de uma

visinha, e que ambos seguiriam depois para Hespanha, cada um por caminho

differente.

—Eu acompanhar-te-hei para guiar-te, disse amoravelmente o pae de Antonio

Maria ao filho.

—Só eu não tenho quem me guie! pensou José Maximo.

E, n’um relance de pungentissima angustia, disse, muito commovido, ao

medico:

—Vossa Senhoria vae fazer-me decerto o ultimo favor que tenho a

pedir-lhe. Diga a minha mãe, sem que meu pae o suspeite, que fujo para

Hespanha, e que esteja á janella logo que nasça o sol. Quero vel-a pela

ultima vez.

O pae de Antonio Maria sahiu immediatamente.

Ao romper da manhã José Maximo passou, de ferramenta ao hombro, por

deante da casa em que nascêra.

A mãe, immovel d’encontro ao peitoril, viu o filho, e cahiu desamparada

no chão.

José Maximo ouviu o baque do corpo, e quiz abrir a porta da sua casa,

entrar.

Mas, sentindo n’esse instante a voz sobresaltada do pae, deitou a fugir.

N’uma _posada_ da fronteira, amarrou uma faixa sobre os olhos, deitou

polvora no fundo de um prato, incendiou-a, e inclinou o rosto sobre a

chamma.

Queimou as faces para desfigurar-se.

—Do homem que eu fui e que não posso tornar a ser, disse elle comsigo

mesmo, nada mais restará do que a consciencia da propria desgraça.

Se minha pobre mãe e Anninhas forem obrigadas a vêr a minha cabeça

pendurada da forca, não me reconhecerão ao menos, duvidarão de que seja

eu...

E, pegando d’um canivete, retalhou com fundos golpes, estoicamente, as

faces crestadas.

Depois internou se na Extremadura hespanhola.

A guerrilha de Frei Simão: romance historico · 第 38 / 71 题