N’um dos ultimos dias de fevereiro de 1826, Jayme de Carvalho, que havia
mais de um anno tinha estabelecido banca de «lettrado» na cidade d’Evora,
para onde fôra advogar por suggestão de um alemtejano seu contemporaneo
em Coimbra, apresentava-se na portaria do mosteiro de Arouca, acompanhado
de uma senhora, a reclamar a entrega de sua prima Ernestina.
A senhora que o acompanhava era a mãe da secular.
Jayme, que se estreiára com felicidade, e estava fazendo importantes
interesses, podéra preparar com um certo conforto o seu lar conjugal.
Depois requereu ao respectivo prelado a licença indispensavel para
Ernestina sahir do convento. O prelado despachou favoravelmente, e Jayme,
munido d’essa licença e acompanhado de sua tia, que tinha deixado o
Porto para ir viver com elle em Evora, foi a Arouca buscar a prima que
queria desposar.
A abbadeça, irritada, como todos os miguelistas, pelo exilio do infante,
refinára em odio aos liberaes, e enfureceu-se sobremodo com a visita
d’um pedreiro-livre, que, de cabeça alta, com orgulhosa altivez, ia
dizimar-lhe o sagrado rebanho, arrancando uma victima ás vinganças da
politica monastica.
De mais a mais, creando difficuldades á sahida de Ernestina, obstava á
constituição odiosa de uma nova familia maçonica, no que julgava prestar
um dedicado serviço á causa do absolutismo e da santa religião.
Portanto, vindo á grade receber essa impertinente visita,
peremptoriamente declarou que o documento apresentado, salvo o respeito
devido ao despacho episcopal, não era bastante a justificar a entrega da
educanda.
Disse que Ernestina de Carvalho fôra recebida por ordem do governo,
medeante auctorisação do prelado. Ora, o documento que lhe apresentavam,
se tinha authenticidade ecclesiastica, carecia de sancção civil.
—Nos tempos que vão correndo agora, accrescentára a abbadeça com rispido
azedume, a desordem nas coisas publicas não pode ser maior, porque todos
querem mandar. Tenho aqui, é certo, a auctorisação do nosso reverendo
prelado. Mas se eu deixar sahir a menina sem mais formalidades, e amanhã
o governo do reino se lembrar de perguntar-me o que fiz eu de uma secular
que por elle me fôra entregue, não sei o que hei de responder. Vá pois
Vossa Mercê entender-se em Lisboa com os ministros d’estado, traga da
chancellaria da côrte uma ordem que invalide a que me enviaram para
receber a educanda, e eu lh’a entregarei então sem o menor impedimento.
Nós, que fômos educadas a respeitar o poder real, não estamos habituadas
nem dispostas a fazer côro com os revolucionarios que o pretendem abalar.
Jayme de Carvalho ficou fulminado com esta recusa formal. Quiz
argumentar, discutir com a abbadeça, que, sem mais explicações, inclinou
levemente a cabeça, e sahiu da grade.
—Não ha que ver! disse Jayme a sua tia. Tenho de ir a Lisboa! José Maximo
parece que adivinhava! Espero que não terei mais demora do que chegar
e voltar. Por isso resigne-se minha tia a ficar aqui em qualquer casa
que por alguns dias a queira receber, evitando assim, na sua idade, os
incommodos de uma segunda jornada. Eu sou novo e forte, não me fatigarei,
nem demorarei muito.
Nenhuma das familias pobres de Arouca quiz receber a tia de Jayme de
Carvalho, quando se soube que ella era a mãe da secular constitucional,
originaria de maçons. Receiavam a colera da abbadeça, e da communidade.
Entre as familias nobres uma lhe daria certamente pousada, era a da
quinta do Outeiral; mas José Bernardo Pereira de Vasconcellos estava
a esse tempo em Cezár no solar do Outeiro. Só em Sobrado de Paiva foi
possivel encontrar hospedagem, graças ao silencio que tia e sobrinho
aprenderam a guardar sobre o motivo da sua jornada.
Jayme de Carvalho chegou a Lisboa em tão má hora, que foi encontrar
agonisante, nos primeiros dias de março, el-rei D. João VI.
Os ministros não davam audiencia, nem despacho. Passavam o dia na
Bemposta, muito preoccupados com a magna questão politica da successão ao
throno.
Fóra do Paço boquejava-se que o rei já estava morto, mas que o governo,
para fazer vingar a hereditariedade de D. Pedro IV, e ter tempo de nomear
a regencia interina, occultava a sua morte.
Os constitucionaes contradictavam este boato, e os miguelistas
mostravam-se muito exaltados contra a postergação dos direitos de D.
Miguel, por isso que D. Pedro, depois da independencia do Brazil, não era
para Portugal mais do que um principe extrangeiro.
D. João VI fallecêra antes ou depois de ter apparecido o decreto, que
reconhecia a successão de D. Pedro e nomeava a regencia provisoria. Mas a
sua morte fôra declarada officialmente, e seguira-se o funeral e o luto
da côrte, de modo que Jayme de Carvalho não poude obter uma audiencia da
infanta regente.
Procurava todavia os ministros, expunha-lhes o estado da «sua questão»,
e os ministros, que estavam a vêr no que paravam as modas e que não
queriam indispôr-se abertamente com nenhum dos dois partidos militantes,
respondiam que o assumpto era melindroso, e que não podiam dar despacho
sem levar primeiro o negocio ao conhecimento da «senhora infanta D.
Isabel Maria».
Jayme estava ainda em Lisboa, sem conseguir uma resolução do poder
executivo, quando chegou, pela corveta _Lealdade_, a noticia de ter D.
Pedro outorgado a Carta Constitucional.
Apesar de muito contrariado por tão extranha demora, agora prolongada
pela ausencia da regente, que estava em tratamento nas Caldas da Rainha,
Jayme saudou com enthusiasmo a resurreição do constitucionalismo que ia
inaugurar, pensava elle, uma nova epocha de felicidade para Portugal.
O ministerio e a regente receberam com dolorosa surpreza a constituição
que viera do Brazil, e adiavam de dia para dia não só o juramento
da Carta, mas tambem todos os negocios que podessem augmentar o
descontentamento dos miguelistas.
De modo que não foi possivel a Jayme de Carvalho obter um despacho,
simples na apparencia, mas que certamente desagradaria á communidade de
Arouca, porque era transparente a intenção dilatoria da abbadeça.
De repente, porém, Saldanha, governador das armas no Porto, Saldanha que,
um anno antes, havia cavalgado em triumpho, na volta de Villa Franca, ao
lado do infante D. Miguel, arvorou-se em defensor da Carta e principal
propulsor do seu immediato juramento.
Logo que isto constou em Lisboa, surprehendendo o espirito intransigente
das primeiras familias da nobreza absolutista, com as quaes Saldanha
estava aparentado, Jayme de Carvalho metteu-se n’um vapor, e sahiu de
Lisboa para o Porto.
O seu fim era obter a protecção de Saldanha, a quem logo tratou de
procurar.
Foi recebido sem demora, e expôz ao general o «estado da questão».
Saldanha, caracter impressionavel e coração ardente, muito impetuoso
e algo romanesco, acolheu com viva sympathia o jovem advogado, que
implorava o seu valimento.
O general disse resolutamente a Jayme de Carvalho:
—Vou fazel-o acompanhar por um official da minha confiança, que irá
encarregado de dizer á madre abbadeça o seguinte: «Ou ella entrega já a
menina que acintosamente retém ou eu pessoalmente a vou lá buscar».
Jayme cahiu de joelhos deante do general, abraçou-lhe as pernas,
beijou-lhe a mão, não obstante Saldanha forcejar por levantal-o.
N’aquelle momento historico, Saldanha era o papão dos miguelistas, que o
odiavam mas temiam.
A abbadeça de Arouca, vendo na grade um official bigodoso a intimar-lhe
a ameaça de Saldanha, tremeu como varas verdes, amaldiçoou a Carta, mas
entregou Ernestina de Carvalho, e o casamento effectuou-se alguns dias
depois, em Evora.
Jayme escreveu para Coimbra uma longa carta a José Maximo contando-lhe
miudamente os trabalhos que passára para arrancar Ernestina do convento,
a intervenção magnanima de Saldanha, e o triste destino de Margarida
Candida que, segundo Ernestina lhe revelára, fôra illudida para professar.
Acabava por congratular-se pela outorga da Carta, e estimulava-o a mais
do que nunca exercer a sua influencia sobre a academia para combater á
mão armada, se tanto fosse preciso, a opposição que, segundo se dizia,
os reaccionarios preparavam.
Saldanha conseguira impor-se á regente de modo a fazer jurar a Carta e a
ser chamado ao poder como ministro da guerra.
Os absolutistas preparavam, effectivamente, um golpe de mão. O norte e
o sul do paiz, agitado por elles, acclamavam D. Miguel rei de Portugal.
Em Traz-os Montes o marquez de Chaves soprava á fogueira da reacção.
O Algarve, imitando o Alemtejo, fazia um pronunciamento militar, que
Saldanha, já ministro da guerra, fôra suffocar pessoalmente.
A academia de Coimbra não assistia indifferente ás luctas politicas do
momento.
José Maximo, o chefe constitucional da academia, entendera-se com o
deputado Alvares Pereira, que tinha ido áquella cidade expressamente para
mover os estudantes a armarem-se pela defesa da Carta.
Não é facil imaginar a actividade, o zelo, o enthusiasmo, que José
Maximo desenvolveu na organisação do batalhão de voluntarios academicos,
cujo commando fôra confiado ao major de milicias de Tondella, Feio de
Figueiredo.
José Maximo escreveu a frei Simão de Vasconcellos narrando-lhe tudo o
que se estava passando em Coimbra, e o frade, muito exaltado pelo novo
advento do constitucionalismo, respondia-lhe de Cezár:
«Se o batalhão academico carecer de um capellão, aqui estou eu, não
precisam procurar outro. Tanto me faz ir combater inimigos ao longe como
arcar com os de ao pé da porta, que não levam comigo a melhor.»
Já não era o mesmo homem prudente, que tinha aconselhado José Maximo a
abster-se das luctas politicas. Renascêra n’elle o fogoso revolucionario;
a liberdade embriagava-o como um vinho capitoso. A perseguição que lhe
faziam os seus visinhos absolutistas de Cezár irritava-o, enfurecia-o.
Na casa do Outeiro havia uma pessoa que, no fundo do coração, amaldiçoava
a liberdade resuscitada: era Anninhas, que tremia pela sorte de José
Maximo ao aferil-a pelos acintes com que os visinhos de Cezár inquietavam
o frade.
Mas não ouzava expôr os seus receios na presença do irmão e das irmãs,
a quem o espectro de Joaquim Maria, a victima da liberdade, a todo o
momento clamava: «Vingança! vingança!»
O deputado Alvares Pereira, que era tambem coronel do exercito, dizia
vendo dia a dia o infatigavel ardor com que José Maximo trabalhava na
organisação do batalhão academico:
—Que pena que este rapaz não seja militar! É uma vocação perdida!
Manuel Rodado, bem como outros estudantes absolutistas, fugiu de Coimbra.
Quando se notou a sua falta, disse José Maximo:
—O _Narciso_ fez mal em fugir: eu nem dava por elle!
O batalhão dos voluntarios academicos marchou para Vizeu, a reunir-se, na
Beira, ao exercito de operações.
Os reaccionarios foram batidos, e tiveram de refugiar-se em Hespanha,
onde achavam protecção. Voltaram de novo, avançando pelo Minho,
ameaçando o Porto. Foram batidos segunda vez pelos constitucionaes
portuguezes, porque a divisão ingleza, que o governo reclamára, chegou
até Coimbra, parou ahi, e d’ahi tornou para Lisboa sem tomar parte na
lucta.
A Carta triumphára, e o batalhão academico recolheu a Coimbra, coberto de
louros.
José Maximo, que se tinha batido com louco denodo, era o heroe do dia, o
alvo de ruidosas manifestações por parte dos academicos.
Corações enthusiastas, poetas da politica, como esses generosos rapazes
se illudiam com o seu proprio triumpho!
O systema constitucional apenas vigorava nominalmente. Funccionavam todas
as velhas molas do antigo regimen. Saldanha, affastado temporariamente do
ministerio por motivo de uma longa doença, já não era um obstaculo, que
impedisse o passo á reacção descarada.
José Maximo, o grande vencedor academico, e os seus collaboradores nas
victorias do batalhão dos voluntarios, soffreram, dentro de pouco tempo,
a primeira disillusão.
O conservador _Cabaças_ recusou-se a pagar aos estudantes subsidiados as
mezadas que elles recebiam pelos cofres da Intendencia e da Casa Pia. O
reitor não quiz mandar-lhes abonar as faltas.
Que atormentado triumpho! Os vencedores pareciam vencidos, e os vencidos
vencedores.
Mas Saldanha, restabelecido, voltára de novo á gerencia da pasta da
guerra, para se demorar pouco tempo, porque nas regiões do poder a
corrente predominante era a absolutista.
José Maximo lembrou-se de escrever a Jayme de Carvalho pedindo-lhe que
sem demora fosse a Lisboa interceder pelos estudantes junto de Saldanha.
Jayme partiu immediatamente. Saldanha reconheceu-o, e perguntou-lhe com
alacridade ironica:
—O que?! Tornaram-lhe a roubar sua esposa?! D’isso são elles capazes!
Jayme sorriu, e explicou a triste situação dos estudantes de Coimbra.
Saldanha obrigou os collegas a consentirem, muito contra sua vontade, que
fossem abonadas as faltas e pagos os subsidios aos estudantes.
Mas esta e outras imposições do ministro da guerra exasperaram a tal
ponto os séctarios do absolutismo, e a propria regente, que Saldanha
foi demittido e os tumultos, a que a sua demissão déra logar em Lisboa,
duramente reprimidos.
A perseguição aos liberaes era aberta, clara, e temerosa. O miguelismo
triumphava á sombra da Carta. Mais um passo, e o absolutismo derrubaria o
anteparo da Carta, por traz do qual se acobertava.
Esse passo deu-o imprudentemente, talvez forçado pelas exigencias da
diplomacia, o proprio D. Pedro, nomeando D. Miguel seu logar-tenente no
reino e escolhendo-o para marido de sua filha.
D. Miguel jura a constituição, assigna o contrato esponsalicio, e chega a
Lisboa no dia 22 de fevereiro de 1828.