Na sala grande dos actos, José Maximo e Jayme de Carvalho, sentados um ao
pé do outro, assistiam ao _outeiro_.
N’um dos bancos anteriores estava Manuel Rodado no meio de um grupo
de estudantes absolutistas, que denunciavam uma superabundancia de
enthusiasmo, suspeita de copiosas libações intencionalmente liberalisadas
pelo filho do brazileiro.
Todo este grupo se voltava frequentes vezes para traz, olhando
zombeteiramente para os dois academicos constitucionaes, sorrindo e
fallando d’elles com escarneo.
José Maximo disse para Jayme de Carvalho:
—Eu cá faço de conta que não é nada comnosco.
—E eu tambem.
Quando os poetas absolutistas subiam ao estrado, a facção liberal
arrastava os pés ruidosamente.
O obéso conservador _Cabaças_, alcunha que resultára do seu feitio
espheroidal, rompia logo coxia acima, á frente dos verdeaes, para
surprehender em flagrante delicto os pateantes. Mas a pateada cessava,
para começar depois.
Ouviam-se vozes de—Fóra! fóra!
E o grupo de Manuel Rodado, pondo-se de pé, olhava acintosamente para
José Maximo e Jayme de Carvalho, como se quizesse indicar ao conservador
que elles eram os cabeças de motim.
Mas os dois mantinham-se imperturbavelmente serenos, facto que aliás era
notado pelo corpo cathedratico, que occupava as tribunas de honra. Uma
vez aconteceu que o proprio reitor, vendo que o _Cabaças_ observava os
dois amigos, lhe fizera signal de que o tumulto partia de outro ponto da
sala.
Os poetas liberaes eram festejados pelos seus correligionarios com
enthusiasticas manifestações de applauso. José Maximo e Jayme de Carvalho
abstinham-se, mas abriram excepção para Castilho, a quem deram palmas, e
que fôra obrigado a repetir muitas vezes o _Sonho de Fénelon_.
Cresceu com esta ovação a colera dos absolutistas, a breve trecho atiçada
pela noticia, que logo circulára na sala, de que tinham sido despedaçados
os emblemas que ornamentavam o páteo da Universidade.
O reitor entendeu que era mais prudente encerrar o _outeiro_, e a onda
dos estudantes galgou desordenada para o páteo, onde se travaram pequenos
conflictos, a que a ronda universitaria, _Cabaças_ á frente, logo
acudia, varrendo adeante de si a multidão.
José Maximo e Jayme de Carvalho passaram indifferentemente atravez
da turba, seguidos a pequena distancia pelo grupo de Manuel Rodado,
que, vendo-os caminhar pausadamente, como quem vae prevenido para uma
aggressão, não ouzava atacal-os.
José Maximo chegára a dizer para Jayme de Carvalho:
—Não estamos armados. O melhor é irmos para casa.
—Pois vamos, mas de vagar. Salvo o caso...
—Bem sei que caso é, atalhou José Maximo; salvo o caso de nos aggredirem.
Mas a aggressão não veio. José Maximo entrou em sua casa com Jayme de
Carvalho e, apenas acabavam de entrar, quando todas as vidraças estalavam
com uma rajada de pedras. Uma bala, entrando por uma das janellas, zuniu
sobre a cabeça de Jayme de Carvalho.
—Isto agora é mais serio! exclamou José Maximo. O ficarmos aqui
encurralados já não seria prudencia, era vergonha.
Foi direito ao quarto de um condiscipulo, onde sabia haver um bacamarte.
—Está carregado, felizmente! disse elle apossando-se da arma.
—E eu? perguntou Jayme de Carvalho.
—Tu? Procura por ahi um punhal, uma bengala, qualquer coisa.
Nova saraivada de calhaus bateu contra as portas das janellas, fazendo
tinir o pouco que restava das vidraças.
José Maximo desceu de um salto a escada, e abriu a porta. Jayme de
Carvalho, armado de um cacete, seguiu-o immediatamente.
Apenas José Maximo assomou ao limiar, foi agarrado pelos estudantes
absolutistas, que se perfilavam ás hombreiras. Jayme de Carvalho,
brandindo o cacete por sobre o grupo, descarregava bordoada a torto e a
direito n’um rapido sarilho de esgrima. José Maximo poude libertar-se,
mas o grupo, sentindo a pequena distancia um extranho tropel, largou a
fugir em debandada.
Vinham fugindo, em sentido opposto, alguns estudantes, que corriam
gritando:—Fujam! fujam! Mataram o _Cabaças_ ao Arco do Bispo.
Toda a caterva desappareceu como por encanto, e José Maximo e Jayme de
Carvalho entraram precipitadamente em casa, fechando a porta.
Subindo á sala, disse Jayme sentando-se, muito fatigado, n’uma cadeira de
pinho:
—Ora aqui está no que vieram a dar os nossos planos de prudencia!
—É verdade! Mas fomos provocados. Só se não tivessemos sangue nas veias!
—E se effectivamente mataram o _Cabaças_, teremos alçada, pagará o justo
pelo peccador, quem sabe se não seremos tambem arrastados na rêde?
—Nós?! exclamou José Maximo. Mas o que temos nós com isso?!
—Temos que somos constitucionaes, e é o peior que podemos ser n’esta
occasião. Estamos á mercê das vinganças e das delações de todo o fiel
patife absolutista, como o _Narciso doirado_, e quejandos. Pois olha que
qualquer complicação me faria agora differença, no quinto anno!
—E a mim, no primeiro! disse desalentadamente José Maximo, que se lembrou
de Anna de Vasconcellos, dos seus ternos pedidos para que se abstivesse
de politica, bem como dos prudentes conselhos de frei Simão. Melhor eu
não tivesse ido ouvir o Castilho!
—O que está feito, está feito! apostrophou Jayme de Carvalho. Vou embora,
preciso dormir.
—É mais prudente que fiques. Se mataram o _Cabaças_, e se te apanham na
rua, corres o risco de ser preso para investigações.
—Mas olha que não deixa de ser compromettedor o facto de não ficar em
casa!
—Tambem é verdade. Vou acompanhar-te.
—Não quero!
—Mas quero eu.
—É tolice. Dado o caso de eu encontrar a ronda, que necessidade tens tu
de ser tambem preso?
—Seguirei o teu destino.
—Muito obrigado. Mas se fôr preso, prefiro que tu o não sejas, porque
poderás mais facilmente justificar-me.
Perante este argumento, José Maximo deu-se por convencido. Ficou.
Deitou-se. Mas não poude conciliar o somno. A imagem de Anninhas
apparecia-lhe lacrimosa a lastimar-se de não terem sido attendidas as
suas supplicas. E a folha de trêvo, consultada como oráculo, revoluteava
no cerebro de José Maximo á semelhança de uma borboleta negra, presaga.
Jayme de Carvalho não teve pelo caminho qualquer mau encontro. As
ruas estavam desertas, dir-se-ia que o terror fizera dispersar toda a
academia, n’uma noite de festa e de luar, vespera de feriado.
—Alguma coisa grave se passou effectivamente! tinha pensado Jayme de
Carvalho.
Os seus companheiros de casa, que já haviam recolhido todos, contaram-lhe
que a ronda da Universidade fôra atacada a tiros de bacamarte no Arco do
Bispo, mas que o _Cabaças_ não morrêra, como a principio constára. Apenas
o meirinho e alguns verdeaes tinham ficado feridos. O caso, porém, não
deixava de ter gravidade.
—Quem foi que atacou a ronda? perguntou Jayme de Carvalho.
—Vá lá saber-se! Fomos nós, foste tu, foram todos os que não são
absolutistas. É o que ha de dizer-se.
—Eu não ataquei ninguem; mas olhem que fui atacado.
—Foste atacado?? perguntaram-lhe.
—Pelo grupo do _Narciso doirado_, que apedrejou a casa de José Maximo.
As pedras não passaram das vidraças, que ficaram partidas, mas eu senti
zunir uma bala por cima da cabeça.
—Patifes! disse um estudante.
—Vamos nós fazer o mesmo ás janellas do _Narciso_? propoz outro, mais
exaltado.
—Não sejam tolos! respondeu Jayme. Eu vou mas é deitar-me. Boa noite,
rapazes.
No dia seguinte corria em alguns circulos absolutistas a seguinte versão:
Manuel Rodado e outros estudantes, que recolhiam do _outeiro_, tendo
encontrado ao Arco do Bispo um grupo que lhes pareceu suspeito,
perseguiram-n’o para reconhecel-o. Dois individuos d’esse grupo entraram
em casa de José Maximo, e como ahi mesmo fossem vigiados, sahiram á
rua armados de bacamarte e cacete. Esses dois individuos tinham sido
reconhecidos: eram José Maximo e Jayme de Carvalho. O primeiro não poude
fazer uzo do bacamarte, porque o seguraram. O segundo descarregou muitas
cacetadas contra os seus perseguidores, um dos quaes, Manuel Rodado,
ficára ferido na cabeça.
Esta versão tinha por fim insinuar que José Maximo e Jayme de Carvalho
não eram extranhos á emboscada do Arco do Bispo.
A versão liberal contava os factos como elles realmente se tinham passado
e preconisava o denôdo dos dois amigos, que fizeram frente a um grupo
numeroso, abrindo a cabeça a muitos absolutistas.
Este acontecimento vinha coroar a reputação de valente, que José Maximo
tinha ganho á Porta Férrea. Pelo que respeitava a Jayme de Carvalho, a
sua reputação estava feita, e fôra elle proprio que engrandecera a gloria
do seu amigo divulgando os serviços prestados á causa da liberdade no
Porto e era Lisboa. José Maximo havia-lhe contado, no decorrer do tempo,
todos os episodios da sua aventurosa existencia.
De todos esses episodios o que mais exaltara a imaginação da rapaziada
havia sido a metamorphose em criado de servir sob o disfarce de _Fresca
Ribeira_.
Muitos academicos liberaes foram a casa de José Maximo felicital-o; entre
outros, estivera ali Antonio Maria das Neves Carneiro, natural do Fundão,
seu patricio e amigo de infancia.
N’esse improvisado parlamento constitucional discutiram-se durante longas
horas os acontecimentos da vespera. Reconheceu-se a necessidade de uma
forte concentração de elementos partidarios como nucleo de resistencia
contra as insidias e perfidias da facção contraria. Foram indicados os
nomes de José Maximo e Jayme de Carvalho como sendo os dos academicos que
inspiravam maior confiança para a organisação e direcção dos trabalhos
do partido. E d’esta acclamação unanime resultou achar-se José Maximo
envolvido nos negocios politicos da academia, que vinte e quatro horas
antes estava resolvido a evitar completamente.
Um dos ultimos estudantes que sahiram foi Antonio Maria das Neves
Carneiro.
José Maximo, muito pallido, chamou-o de parte, e disse-lhe:
—Ó Antonio, tu viste por lá minha mãe?
E rebentaram-lhe as lagrimas, embaciando-lhe a vista.
—Vi, sim, respondeu Neves Carneiro. Vive muito atormentada por tua causa.
E encarregou-me, a occultas de teu pae, de te dar um abraço, quando
estivessemos sós.
José Maximo abriu os braços, e apertou Neves Carneiro contra o coração.
N’esse momento, chorava copiosamente. Parecia-lhe que tinha sentido
palpitar, na dôr e na desolação, o coração de sua mãe.
O governo mandára uma alçada a Coimbra para syndicar dos acontecimentos
de fevereiro, que, segundo a phrase de um chronista consciencioso[1], os
odios e malevolencia do partido absolutista adrede exageravam para se
vingar dos seus adversarios.
Sabia-se, apesar do segredo da alçada, que José Maximo da Fonseca e Jayme
Henrique de Carvalho tinham sido compromettidos pelo depoimento de Manuel
Rodado e outras testemunhas absolutistas.
Foram horriveis de anciedade os dias que para aquelles dois estudantes
decorreram, desde que chegou a alçada e morosamente funccionou para
que não ficasse por averiguar o menor delicto, até que em 30 de abril
se mallogrou em Lisboa o novo movimento promovido pelo infante e pela
rainha, recolhendo-se D. João VI a bordo da nau ingleza _Windsor Castle_
e sendo D. Miguel obrigado a retirar-se para o extrangeiro.
O mallogro da _abrilada_ pela intervenção da diplomacia causára dolorosa
impressão a todos os absolutistas, incluindo os de Coimbra, que tinham
julgado aberto o caminho da reacção sanguinaria pelo assassinato do
marquez de Loulé em Salvaterra.
Lastimavam a ausencia do infante, e receiavam que se robustecesse a
politica moderada e conciliadora, adoptada nos processos governativos
depois da restauração de Villa Franca, e que fôra a causa determinante do
segundo movimento tentado por D. Miguel.
Tinham razão para receiar, porque assim veio a acontecer.
A amnistia de 5 de junho de 1824 suspendeu as perseguições politicas;
deteve o gladio da vingança.
Ficaram por este motivo sem effeito os processos instaurados nas
devassas a que a alçada, que em fevereiro tinha ido a Coimbra, procedeu
rigorosamente.
José Maximo e Jayme de Carvalho poderam respirar desafogados. Mas esse
mesmo facto, que significava um tenue triumpho obtido pelos liberaes
sobre os absolutistas de Coimbra, fez augmentar o prestigio politico de
José Maximo, deu-lhe maior importancia partidaria.
Estava livre, graças á amnistia, mas, infelizmente, a politica havia-o
empolgado de novo, fazia-se em torno do seu nome, de preferencia a Jayme
de Carvalho, uma atmosphera de celebridade capitolina, porque José
Maximo, como primeiranista, era o sol que nascia, e Jayme de Carvalho,
estudante do quinto anno, era o sol que ia desapparecer.
A politica é sempre a mesma em toda a parte.