Á Porta Férrea

É inveterado costume, e lei Academico-Escolastica, que todo e

qualquer Novato leve a sua investida, e pague a sua patente:

Não resista vossa mercê a nenhuma d’estas cousas; o que deve

pedir é, que seja suave: para o que quanto aos dicterios e

injurias bôca tapada, e quanto á patente, mão á bolsa.

Silveira Malhão—«Vida e feitos», tomo II.

Matriculado na faculdade de leis e canones, cujo curso era commum até

ao terceiro anno, José Maximo não passou impunemente pela Porta Férrea,

segundo a tradição academica.

Já Nicolau Tolentino havia dito referindo-se a Coimbra e ás caçoadas, por

que os novatos tinham de passar:

Povo revoltoso, e ingrato

Dentro em seus muros encerra;

Em vão de adoçal-o trato,

É um titulo de guerra

A chegada de um novato.

José Maximo conhecia de sobra a vida de Coimbra, e esperava por isso a

troça; mas, pelo facto de ser já conhecido, julgava-se a coberto das

maximas torturas de que o _Palito metrico_ fallava:

........... tum cœtera turba

Rodeat miserum; truxque investida comecat.

Principio quatuor mandat aparare sopapos,

Et simul haud cessant miseri cuspire bigotes,

Donec sella chegat lumbo imponenda rebeldi.

Manuel Rodado combinára porem com outros segundanistas que José Maximo

fosse o principal alvo da _troça_ feita aos novatos. Queria iniciar

a sua vingança, e, como era rico, remunerava bisarramente a adhesão

dos condiscipulos aos seus planos. Era elle quem na _borga_ pagava as

despezas de comes e bebes, as merendas de manjar branco «no fresco

pateo de Cellas», as ceias na estalagem do Paço do Conde ou na tasca do

Alexandre Ramalhaes ao fundo da rua das Sollas; d’aqui o seu prestigio,

porque em primasias de intelligencia não se assignalava Manuel Rodado. A

academia, sempre alegre e epigrammatica, pozera-lhe uma alcunha feliz,

que ao mesmo passo alludia á garridice e á pecunia do sujeito: era o

_Narciso doirado_.

José Maximo passou á Porta Férrea por entre duas filas de segundanistas,

entre os quaes estava o filho do brazileiro.

Não reagiu contra a tradição academica do _canellão_, no primeiro dia

de aulas, apesar de perfeitamente ter distinguido, na hilaridade dos

trocistas, as risadas alvares, muito sarcasticas, de Manuel Rodado, o

qual, vendo a submissão de José Maximo, julgou que podia exceder-se sem

perigo de resistencia.

Não obstante ter grande amor ás costellas, entendeu que José Maximo,

a julgar pelo seu retraimento e submissão, não era homem que tivesse

coragem de repetir em Coimbra, no seio da academia, a pimponice valentona

do Campo de Santo Ovidio.

Por isso, no immediato dia lectivo, quando José Maximo recebia, á Porta

Férrea, a segunda dóse de _canellão_, ouzou passar-lhe a mão pela cara.

Teve resposta prompta. José Maximo fez pé atraz, e descarregou-lhe na

face uma sonora bofetada, que deixou aturdido o filho do brazileiro.

Armou-se uma baralha de mil diabos. Muitos segundanistas cahiram sobre

José Maximo, que, cego de colera, respondia energicamente com murros e

pontapés. Tamanha coragem exhibiu no maior apêrto do tumulto, fazendo

frente ao grupo dos aggressores, que alguns estudantes dos ultimos annos

intervieram em favor de José Maximo, defendendo-o.

Um d’elles, que se chamava Jayme de Carvalho, quintanista de direito, por

alcunha o _Sam Bartholomeu_, cobriu José Maximo com a pasta.

A academia temia o valor d’este quintanista, cujas idéas liberaes

justificavam a alcunha que os estudantes absolutistas lhe pozeram por

allusão ironica ao dia 24 de agosto, em que a Egreja celebra a festa

de Sam Bartholomeu, e em que, trez annos antes, rebentára no Porto o

movimento constitucional.

José Maximo, quando a pasta protectora de um quintanista temido lhe

permittiu explicar o seu procedimento, disse que tinha dado sobejas

provas de submetter-se á _troça_ e de sujeitar-se ao _canellão_, mas que

a sua dignidade não lhe permittia tolerar as provocações de um inimigo

pessoal, que, para vingar-se de um incidente particular occorrido entre

ambos, se acobertava cobardemente com a tradição academica e com o

auxilio dos condiscipulos.

Esta leal explicação causou no auditorio uma impressão excellente.

Todos os _veteranos_, Jayme de Carvalho em primeiro logar, applaudiam o

procedimento de José Maximo. E muitos dos segundanistas, que o tinham

aggredido, acabaram por dar-lhe razão.

Discutia-se animadamente o caso nos grupos da Porta Férrea, quando

appareceu um verdeal que, por ordem do conservador _Cabaças_, vinha

averiguar o que se tinha passado de extraordinario.

Como José Maximo estivesse ainda rodeado pelo grupo mais numeroso, que o

escutava com agrado, foi a José Maximo que o verdeal se dirigiu, abrindo

caminho atravez do grupo.

Interrogado, José Maximo respondeu que por sua parte nada sabia do que

se tinha passado, mas que estavam alli muitos estudantes que poderiam

informar, querendo, o sr. conservador. Nenhum se mexeu; todos encolheram

os hombros sorrindo, menos Manuel Rodado. Jayme de Carvalho acabou por

dizer ao verdeal que se fosse em paz, porque não havia motivo para

qualquer procedimento.

A academia, onde o elemento aristocratico era sanhudamente absolutista,

deixou-se impressionar de uma subita sympathia por José Maximo, a quem,

desde essa hora, ficou conhecendo pela alcunha de _Martim Moniz_, em

memoria da sua façanha da Porta Férrea: façanha que no enthusiasmo do

primeiro momento fôra pelos estudantes igualada á do heroe da porta do

Castello de Lisboa no tempo de Affonso Henriques.

Manuel Rodado sentiu-se corrido. Desappareceu. Mas nunca o seu rancor

a José Maximo fôra maior do que quando, ao pensar nos acontecimentos

d’aquelle dia, percebeu que tinha indirectamente concorrido para dar

vantajosa evidencia ao novato, que pela segunda vez o desfeiteára.

E fôra effectivamente assim. Durante o resto do dia e á noite não se

fallou em outra coisa nos varios cenáculos de conversação academica.

José Maximo tornára-se conhecido de todos, e estimado de muitos. Era

já, na linguagem escolastica, geralmente designado por «Martim Moniz».

Alguns estudantes absolutistas, com a versatilidade propria da juventude,

pareciam querer mudar de opinião, qualificando de insolente reacção o

procedimento de José Maximo, que tinha esbofeteado a academia na pessoa

de Manuel Rodado. Mas outros, mais persistentes na primeira impressão

recebida, replicavam que José Maximo respeitára as praxes universitarias

submettendo-se ao _canellão_, e que apenas tomára como offensa pessoal

a provocação que partira de um seu antigo inimigo. Accrescentavam que

não era no meio da collectividade academica que deviam liquidar-se as

pendencias individuaes. Posta a questão n’estes termos, ninguem ouzava

quebrar lanças em publica defesa de Manuel Rodado, suspeito de cobarde.

A pusillanimidade é o sentimento que mais repugna ao espirito dos novos,

sejam quaes fôr as suas tendencias politicas e sympathias pessoaes.

Alem d’isto, os apologistas de José Maximo punham em relevo a correcção

da sua resposta ao verdeal, quando appellára para o testemunho da

academia; e contrastavam esse nobre procedimento com o de Manuel Rodado,

que nem sequer tivera a coragem apparente de sorrir disfarçando um

mesquinho resentimento.

O incidente da Porta Férrea estabelecêra ligações de amisade entre Jayme

de Carvalho e José Maximo. A intimidade cresceu de pressa, porque não é

proprio de gente moça moderar as suas expansões.

E cada dia uma nova revelação vinha estreitar os laços de amisade

que uniam aquelles dois academicos, attraidos um para o outro pela

coincidencia das suas inclinações politicas e valorosas aventuras.

José Maximo contou a Jayme de Carvalho a historia do seu amor por D. Anna

de Vasconcellos para explicar a causa remota do conflicto com Manuel

Rodado. Dezenhou-lhe o perfil insinuante de frei Simão, o destemido

liberal de Cezár. Jayme de Carvalho ouvia-o sorrindo, sem comtudo

mostrar-se surprehendido.

—Esse frade, disse Jayme, tem um irmão que está agora preso em Aveiro por

vingança de um silveirista de Chaves, que se tem valido da politica para

o perseguir por motivos particulares. Não é verdade?

—É verdade! Mas como sabes tu isso?

—Esse irmão do frade ama uma menina, que está no convento de Arouca. Não

é tambem verdade?

—É verdade! Mas explica-te! Como sabes tu isso?

—E essa menina tem no convento uma unica amiga, que, alem de minha prima,

é minha noiva. Sabias?

—Não sabia!

—Pois é isto mesmo.

—Ó homem, dá cá um abraço! exclamou «Martim Moniz» caminhando de braços

abertos para «Sam Bartholomeu». Não ha coincidencias absurdas. O acaso é

mais engenhoso nas suas combinações do que a chimica!

E depois d’esta affectuosa expansão de recente amisade, que parecia já

tão solida como se fosse muito antiga, entraram em pormenores.

José Maximo disséra a Jayme de Carvalho:

—Põe-me ahi a tua vida em pratos limpos. Quero saber tudo.

—Eu sou pobre, disse Jayme.

—E eu tambem, disse José Maximo.

—Mas eu sou mais pobre do que tu.

—Mais pobre do que eu não ha ninguem: nem mesmo tu.

—Recebo subsidio da Casa Pia.

—E eu da Intendencia. Quem t’o arranjou?

—Foi o conde de Rio Maior. E a ti?

—Foi frei Simão de Vasconcellos por intervenção de um frade absolutista

de Alcobaça.

—Outra coincidencia: somos dois pobretões subsidiados.

—É verdade! Parece que tinhamos nascido para ser amigos!

—Tens razão. Eu sentia-me só em Coimbra, disse Jayme de Carvalho, no meio

d’esta grande récova de _burros_ arreatados á Universidade.

—Mas vamos á historia dos teus amores com a amiga da _Flor do Támega_.

—Quem é a _Flor do Támega_?

—É a menina de Chaves tão desgraçadamente amada pelo irmão de frei Simão

de Vasconcellos.

—Eu sabia apenas que se chamava Margarida Candida.

—Pois chama. Mas foi Antonio da Silveira, o apóstata de Canellas, que lhe

poz a alcunha de _Flor do Támega_.

—Não sabia. E pôde sahir do bestunto de um Silveira uma tão delicada

alcunha?

—Parece incrivel, mas é verdade!

—Por morte de meu pae achei-me na impossibilidade de concluir o curso.

—Que pena seres já tu quintanista, quando eu ainda sou novato!

—Deixa lá! Quando dois homens nascem fadados para amigos, não é a

formatura que os pode separar.

—Tambem tens razão.

—Mas se a morte de meu pae me prejudicou, maior prejuizo causou ainda a

minha tia e minha prima Ernestina, de quem meu pae era o unico amparo.

Minha prima, graças ainda á protecção do conde de Rio Maior, entrou no

mosteiro de Arouca, aonde eu, logo que possa, a irei buscar para ser

minha mulher. Olha que é uma linda rapariga, minha prima!

—Faço ideia.

—Fazes ideia? Pois eu não faço.

—Como assim?!

—Não faço ideia como ella estará agora, atormentada, flagellada pelo

despotismo politico das venerandas madres de Arouca, que nem sequer a

deixam escrever-me só porque minha prima pertence a uma familia liberal,

apezar de eu ser o seu noivo.

—E apesar de seres o seu noivo, talvez que te não seja facil tiral-a

do convento quando a quizeres ir buscar. Pelo menos hão de empregar

dilações, exigir longas formalidades só para contrariar-te e

contrarial-a. O absolutismo é como as feras: não larga facilmente uma

victima.

—Ora essa! Minha prima pertence á sua familia! Para que servem então

as leis, que nós vimos estudar em Coimbra?! O convento de Arouca não

é uma cadea legal; não tem maiores privilegios do que as outras casas

monasticas.

—Em conventos, meu amigo, não ha que fiar e escolher: são todos mais

absolutistas do que o infante D. Miguel e sua mãe.

—Nem minha prima poude escolher, porque veio de Lisboa licença para

entrar no de Arouca. Precisava ir para um: foi para aquelle que lhe

designaram.

—Mas se tua prima não póde escrever-te, como sabes tu o caso da _Flor do

Támega_?

—Minha prima escreveu á mãe apenas dois bilhetes desde que está em

Arouca, e se o conseguiu fazer foi porque um almocreve e um pastor

levaram os bilhetes ao seu destino. No primeiro, contava a perseguição

politica de que estava sendo victima dentro do convento; na segundo

insistia sobre o assumpto e participava que já tinha uma companheira de

desgraça, certa menina de Chaves, Margarida Candida, que ali entrára

por castigo de namorar um capitão de dragões, muito liberal, irmão de

um celebre frade, tambem liberal, residente em Cezár. Minha tia recebeu

esses dois bilhetes, e não tornou a receber nenhum outro. Mandou saber da

abbadeça se minha prima passava bem de saude. A abbadeça respondeu que

Ernestina gosava a melhor saude d’este mundo, que estava excellentemente,

e que em havendo alguma novidade a participaria, mas que só a ella, na

qualidade de prelada, pertencia avaliar a opportunidade das relações

epistolares das suas subordinadas com os respectivos parentes. Dize-me

agora se acabaram realmente os carceres e torturas da Inquisição ou se

continuam funccionando, sempre em nome de Deus, no mosteiro de Arouca,

para honra e lustre da religião catholica, apostolica, romana.

—Ha effectivamente ainda muito que derrubar e combater! accrescentou José

Maximo, pensativo. A arvore da tyrannia, comquanto abalada desde o seculo

passado pelos vendavaes revolucionarios, tem raizes profundas, que não

poderão ser extirpadas facilmente. Mas eu já não me proponho auxiliar

essa empresa demolidora. Toda a minha ambição é obter pacificamente

uma carta de bacharel em leis e ir depois esconder-me n’algum canto

da provincia com Anninhas e com a tranquilla felicidade da minha

consciencia.

—Meu amigo, tu ainda cá tens que ficar durante cinco annos, e olha que

te não ha de ser facil resistir impunemente a todas as provocações

politicas, a todas as insolencias irritantes com que os altaneiros

realistas, que ahi passeiam de grimpa levantada, procuram açular a nossa

colera para esmagar-nos depois.

—Hei de conseguil-o; sabel-o-has.

—Elles não pensam senão em irritar-nos com successivos reptos. Agora

lembraram-se de imitar o exemplo dos lentes secundando o famoso prestito

de José Caetano com um _outeiro_ na sala grande dos actos e não sei que

mais festanças provocadoras.

—Deixal-os! Eu não quero saber d’isso.

Effectivamente, os academicos absolutistas planearam commemorar

solemnemente a quéda do constitucionalismo. O plano vingou, de accôrdo

com os lentes.

Em fevereiro de 1824 um triduo de ruidosas festas foi como um novo

cartel arremessado á face dos estudantes liberaes pelos absolutistas.

A provocação chegou a ponto de convidarem o famoso dominico Rochinha,

muito constitucional, e cathedratico de theologia, para recitar a oração

congratulatoria. Queriam compromettel-o pela recusa. Mas o doutor Rocha

acceitou, comquanto o machiavelismo do convite irritasse profundamente o

animo dos liberaes. D’este propositado rastilho nasceu o incendio.

Emquanto na sala grande dos actos se celebrava o annunciado _outeiro_

com tumultuosos incidentes, no páteo da Universidade, vistosamente

illuminado, a festa era perturbada pela expansão do despeito liberal.

Ao passo que no _outeiro_ os estudantes constitucionaes, como um que se

chamava Antonio Feliciano de Castilho, recitavam composições poeticas,

em que o amor da liberdade transparecia ouzadamente, promovendo tumulto

entre as duas facções adversarias, no páteo da Universidade os retratos

da familia real e os emblemas allusivos á Restauração eram derrubados por

mão desconhecida.

Castilho tinha conquistado um logar saliente no seio da academia pela

circumstancia de ser cego e poeta. Estudava pelos olhos dos irmãos,

e avantajava-se aos irmãos no boleio dos versos e na delicadesa da

inspiração, sendo que todos os Castilhos eram apaixonados cultores das

bellas-lettras.

Antonio Feliciano descobrira a veia poetica de José Maximo, e instou-o

para que concorresse com elle ao _outeiro_. Procurou demovel-o com a

leitura do _Sonho de Fénelon_, que escrevera expressamente como protesto

contra os intuitos absolutistas d’aquella commemoração litteraria. José

Maximo resistiu, desculpando-se com a insufficiencia do seu éstro indigno

de hombrear com o do joven Milton portuguez. Mas prometteu a Castilho ir

ouvil-o, e foi.

A guerrilha de Frei Simão: romance historico · 第 30 / 71 题