A experiencia das cousas, foi a que descobriu a natureza
d’ellas, e dos effeitos que viu, apropriou a muitas, os
significados que teem. Os das plantas d’aqui tiveram sua
origem, ainda que os mais d’elles não foram tão descobertos,
por industria humana, como sabedoria divina: porquanto quando
esta em diversos logares da sagrada Escriptura falla de plantas
e flores, mais quer que por ellas se entendam as significações
que teem, que as palavras que soam.
Frei Isidoro Barreira—«Tractado das significações das plantas,
flores e fructos, etc.»
José Maximo foi encontrar Coimbra no apogeu do enthusiasmo absolutista.
A maioria dos lentes e dos estudantes delirava com o triumpho alcançado
em Villa Franca pelo infante D. Miguel.
O claustro pleno resolvêra celebrar a restauração dos _inauferiveis
direitos_ com grande pompa religiosa, a que não faltaria a organisação
procissional de um prestito academico, especie de cortejo patriotico, que
nascêra da engenhosa imaginação do lente de canones José Caetano da Silva.
A faculdade de theologia propunha-se gargantear _Te-Deums_ e declamar
panegyricos com o intuito de fazer crêr que o Todo Poderoso interviera na
quéda do constitucionalismo.
E as outras faculdades, salvas algumas excepções pessoaes, fraternisavam
com os lentes de theologia, arrastando no enthusiasmo restaurador os
respectivos cursos universitarios.
Os cathedraticos e estudantes liberaes viam-se esmagados pela corrente
triumphante do absolutismo; não ousavam reagir contra adversarios ébrios
de gloria, que pareciam insaciaveis de commemorações festivas.
José Maximo, que sahira do Porto aborrecendo a politica, não tratou no
primeiro momento senão de habilitar-se ao exame do ultimo preparatorio
que lhe era exigido, a geometria.
Estudava com grande applicação, procurando abster-se de versar assumptos
extranhos áquella disciplina. Mas não o fazia sem sacrificio, porque o
seu temperamento era irritavel, como sabemos, e a sua paixão politica tão
sincera como exaltada.
Não obstante, dominou-se a ponto de assistir á famosa procissão dos
lentes, em julho, e apparentemente sereno, se bem que intimamente
indignado, viu desfilar, caminho de Santa Clara, essas duas longas
álas de cathedraticos, que iam agradecer a Deus a restauração do poder
absoluto.
No dia seguinte, porém, deixou-se ficar em casa, sobre os livros, á hora
em que a maioria dos estudantes se apinhoava n’aquelle templo para ouvir
a oração evangelica recitada pelo doutor frei Manuel de Almeida, monge de
Alcobaça, lente de prima na faculdade de theologia, e prégador de fama.
A sua falta foi notada por um estudante, primeiranista de direito, que
espionava na sombra todos os passos de José Maximo.
Era Manuel Rodado, o filho do brazileiro de Mattosinhos, que procurava
occasião de vingar o desaire soffrido no Campo de Santo Ovidio e que,
como todos os poltrões, planeava entrincheirar-se nas suas prerogativas
de primeiranista em relação a um caloiro do Collegio das Artes, para
realisar impunemente a vingança.
Todos aquelles que aspiravam a honrarias nobilitadoras abraçavam
interesseiramente a causa da restauração, cujo triumpho lhes abria
estrada larga por onde chegassem a conquistar os favores da Corôa.
Manuel Rodado estava n’este caso. Ao dinheiro do pai apenas faltava a
consagração nobliarchica de um habito de Christo.
O infante D. Miguel, que voltára de Villa Franca como um vencedor a quem
D. João VI nada poderia negar, acalentava indirectamente as aspirações
dos plebeus ambiciosos dando o exemplo de admittir á maior intimidade,
como Luiz XI, pessoas de humilde, senão rasteira origem.
Manuel Rodado teria talvez esquecido o seu encontro com D. Anna de
Vasconcellos, no adro da egreja de Mattosinhos, como effectivamente
esquecêra tantas outras pequenas aventuras amorosas, que se repetiam
todos os dias, se não se relacionasse com esse encontro o facto de um
pobre diabo como José Maximo, que não tinha onde cahir morto, o haver
preterido e de mais a mais maltratado.
Rodado tratára de colhêr informações a respeito do homem a quem D. Anna
de Vasconcellos distinguia com o seu amor. Essas informações obteve-as
principalmente de pessoas absolutistas, que lh’o inculcavam como um
aventureiro miseravel, que em 24 de agosto de 1820 andára atirando o
chapeu ao ar pelas ruas do Porto, e a quem os vencedores constitucionaes
haviam dado por compaixão um ôsso para roer.
E fôra este bohemio sem eira nem beira que se atrevêra a baldear sobre
a relva do Campo de Santo Ovidio o mais acabado peralvilho da romaria
de Mattosinhos, o filho do rico brazileiro das Casas-Novas, pintadas de
verde-gaio!
Não importava muito a Manuel Rodado que D. Anna de Vasconcellos
continuasse a mostrar-se-lhe esquiva; o que lhe importava, e por isso se
lembrava d’ella tantas vezes, era vingar o insulto que recebêra da mão do
supposto aventureiro, que não traria um chavo na algibeira.
Affigurou-se ao filho do brazileiro que o retraimento de José Maximo
em Coimbra era devido ao receio de qualquer aggressão por parte dos
estudantes absolutistas, especialmente d’elle proprio.
Deu, pois, esta interpretação ao facto de o não vêr na egreja de Santa
Clara, quando a fina flôr da mocidade tradicionalista se agglomerava
deante do pulpito onde frei Manuel de Almeida fazia a apotheóse da
auctoridade dos reis como delegação do poder divino.
Mas, na duvida, não era Manuel Rodado homem que, para desaffrontar-se, se
aventurasse a arriscar pela segunda vez as costellas.
Esperava cautelosamente a occasião de poder vingar-se, quando tivesse as
costas quentes, e essa occasião, se não se tinha azado n’aquelle dia,
facilmente a poderia encontrar na vida de Coimbra, em algum inevitavel
conflicto travado entre estudantes absolutistas e liberaes.
José Maximo recebêra uma carta de frei Simão, que lhe dava duas noticias
agradaveis: participava-lhe que D. Anna já estava na casa do Outeiro, e
felicitava-se de ter obtido um subsidio da Intendencia, com cujo auxilio
José Maximo poderia frequentar a Universidade sem maiores privações e
trabalhos.
Feito o ultimo exame de humanidades, com um prodigioso esforço de
intelligencia e applicação realizado em pouco tempo, José Maximo foi a
Cezár agradecer mais aquelle testemunho de estima, que frei Simão tão
espontaneamente lhe havia dado.
E o desejo de tornar a vêr Anninhas comprazia-se de encontrar um tão
justificado pretexto, como era o da gratidão e reconhecimento pelo favor
recebido.
José Maximo sentia-se um homem feliz ao entrar na casa do Outeiro.
Suppunha-se nobilitado aos olhos de D. Anna de Vasconcellos pelo proximo
ingresso á carreira universitaria, que lhe promettia uma posição social
digna da consideração publica. Por occasião da romaria do Senhor de
Mattosinhos achava-se ainda n’um plano inferior ao de Manuel Rodado;
agora, sendo pobre, ia nivelar-se litterariamente não só com os filhos
dos ricos, mas até com os filhos dos nobres.
Frei Simão louvou-lhe o esforço intellectual com que em tão pouco tempo
conseguira desembaraçar-se das disciplinas professadas no Collegio das
Artes.
José Maximo allegou modestamente que já não era hospede em geometria, por
isso que mais ou menos a versára antes de abandonar Coimbra.
—Agora, disse-lhe frei Simão, precisa Vossa Mercê pôr todo o seu
cuidado em evitar os perigos da politica de Coimbra, que, segundo o
que me consta, está mais brava do que nunca. Os lentes são fanaticos,
os estudantes são moços, e, como taes, exaltados: o exemplo dos lentes
estimula-os, e a certesa da impunidade torna-os destemidos. O que fazer
então? Evitar com prudencia todo o pretexto para um conflicto, em que a
victoria seria d’elles, que em Coimbra não teem quem os reprima, e que
em Lisboa teem quem os proteja. Olhe Vossa Mercê para isto que lhe digo,
como sendo o conselho de um amigo sincero, que lhe quer como a pessoa de
familia.
O que frei Simão disséra com tão bom juizo, repetira-o pouco depois
Anninhas com maviosa ternura.
Fôra o proprio frei Simão que proporcionára aos dois namorados o ensejo
de poderem fallar sem testemunhas.
—Vamos ali ao pomar, gozar a sombra, dissera elle. Anda d’ahi, Anninhas,
para fazeres as honras da casa ao nosso hospede, emquanto eu vou regar as
minhas flôres.
O pomar da casa do Outeiro, ao qual se descia pela escada de pedra
do páteo, era pequeno. Hoje quasi não existe. Encostado á parede do
edificio havia um canteiro, onde frei Simão cultivava algumas flôres. Sob
uma macieira, um banco de cortiça era o poiso predilecto do frade.
Anna de Vasconcellos e José Maximo, tendo descido as escadas, ficaram por
algum tempo de pé, junto á macieira, cuja sombra cobria o banco.
Frei Simão pareceu desde logo muito entretido em regar as flores do
pequeno canteiro, que era em Cezár a mais alegre das suas distracções.
De costas voltadas para os dois, andava curvado, simulando dar a maxima
attenção ao que estava fazendo.
Anninhas entretanto dizia a José Maximo:
—Eu não te sei aconselhar com os argumentos do mano frei Simão, mas
peço-te que sigas os seus conselhos, e que não queiras saber mais de
politica. Ah! como eu detesto a politica, que tanto nos faz soffrer aqui
pela hostilidade de quasi todos os nossos visinhos!
—Podes estar certa, respondia José Maximo, de que apenas pensarei em ti
por amor dos livros, e nos livros por amor de ti.
N’este momento frei Simão voltou-se e fingiu-se muito admirado de os vêr
ainda de pé.
—Então, disse elle, não teem ahi esse banco de cortiça para sentar-se?!
Olhem que eu, em começando a jardinar, esqueço-me do tempo, e fal-os-hei
aborrecer com a demora.
Frei Simão, que nunca tinha experimentado as doçuras bucolicas do amor,
comprehendeu-as n’esse momento, adivinhou-as.
Sobre o banco de cortiça cahia a sombra fresca da macieira, onde as
andorinhas pipitavam n’uma alegria discreta, parecendo que, n’esse feliz
parlamento aereo das aves, cada orador alado pedia a palavra por sua vez,
para não perturbar o colloquio do amor humano.
Sobre o pequeno canteiro, matizado de côres vivas, em que a florescencia
da vegetação accentuava tons variados e nitidos n’uma polychromia
risonha, as flechas doiradas do sol incidiam, aqui e além, por entre as
franças das arvores, na corolla das flores, que as abelhas procuravam.
Na orla extrema do pomar, onde a sombra era mais espêssa, passavam na
verdura da horta grandes borboletas brancas volitando aos pares n’uma
chorea infatigavel.
A agua cahia n’um improvisado tanque, de que já não restam vestigios, por
uma calha de barro, cantando como uma ama somnolenta, que, já fatigada,
acalenta uma creança rebelde ao somno.
Uma branda sensação de mollesa parecia cahir da sombra do arvoredo e do
despenho monotono da agua sobre o tanque. A paz campesina envolvia a
atmosphera no longo espreguiçamento d’um corpo são que adormece entre
branco linho muito fresco depois de um banho consolador.
Anninhas tinha nos labios côr de rosa a eloquencia espontanea que as
mulheres namoradas possuem na primeira inspiração do amor—volata do
coração que accorda em extasi.
José Maximo, como todos os homens que surprehendem os encantos d’essa
eloquencia maravilhosa n’um colloquio tranquillo, ouvia-a n’uma
embriaguez de fascinação.
As palavras que até ahi havia trocado com D. Anna de Vasconcellos,
no Outeiro ou no Porto, sempre a medo e de relance, não lhe tinham
annunciado essa verbosidade apaixonada, essa fluencia de phrases simples
e carinhosas, que affluem aos labios de uma mulher quando pela primeira
vez pode dizer, n’uma liberdade honesta, quanto tem sentido e sonhado.
Mas o coração humano contém em si mesmo o segredo de atormentar-se na
felicidade, que nunca chega a ser completa por isso mesmo.
O homem, mais do que a mulher, obedece a uma fatalidade torturante, que
o leva a procurar as preoccupações dolorosas nos momentos em que a paz
e a esperança pareciam apostadas em sorrir-lhe. Uma subita desconfiança
invade-lhe a alma, como um veneno de lento effeito, que vae a pouco e
pouco anesthesiando a sua victima.
Foi José Maximo quem se lembrou de consultar o oráculo, que, segundo a
superstição dos amantes, falla nas folhas das plantas, quando consultadas
por elles.
Estava ali perto um tufo verdejante de trevo, que adivinha os segredos do
amor.
—Para nós sermos inteiramente felizes, dissera José Maximo, só é preciso
que as folhas do trevo confirmem as tuas doces palavras.
E o oráculo, consultado folha a folha, affirmára o amor de D. Anna de
Vasconcellos.
Ella rira crystallinamente no seu triumpho como uma alma sincera, que
não se teme do segredo dos oráculos. José Maximo riu tambem, entre
envergonhado do riso de Anninhas e contente do resultado da consulta.
Frei Simão voltou-se de subito, sorrindo por contagio, com um olhar
alegremente investigador.
—É o sr. José Maximo, disse Anninhas, que está consultando as folhas do
trevo como cá fazem os camponezes.
E, de repente, como que arrependida da sua propria franqueza, córou de
pejo.
Frei Simão ficou encantado com o primitivo bucolismo d’aquelle casto
idyllio amoroso e, para salvaguardar a sua auctoridade de irmão mais
velho, procurou illudir o sentido da resposta, dizendo:
—Ah! o sr. José Maximo lembrou-se de consultar o futuro! Pois o futuro,
meu amigo, pertence a Deus.
E Anninhas acudiu de prompto como se quizesse valorisar a resposta do
oráculo, que lhe tinha sido favoravel:
—Mas quem faz nascer as plantas senão Deus?
Frei Simão, comprehendendo o lance, respondeu:
—Tens razão, Anninhas!
E curvou-se de novo a regar as flores e a pensar em que jámais, na sua
vida monótona e árida, tinha tido motivo para consultar os oráculos do
amor.
José Maximo disséra baixinho a Anna de Vasconcellos:
—É verdade! Consultemos o futuro.
E, desfolhando o trevo, dizia: _Feliz, infeliz_.
A ultima folha respondeu: _Infeliz_.
—É notavel! exclamou José Maximo, lembrando-se subitamente da cantiga que
tinha ouvido ali em Cezár, quando descansára por alguns momentos, havia
seis annos, sob a sombra de uma faya, na estrada. É notavel, repisava
elle, a insistencia de um ruim agoiro!
E repetiu a Anninhas a cantiga que então tinha ouvido:
Quem quer ver um infeliz,
Que nasceu ao pé da faya?
Não ha desgraça nenhuma,
Que n’este infeliz não caia!
Anna de Vasconcellos, para dissipar as apprehensões aziagas de José
Maximo, procurou rir com esforço.
Frei Simão perguntou de longe:
—Tornou a fallar o oráculo?
E Anninhas respondeu:
—O mano quer saber?! O sr. José Maximo ficou agora muito triste porque o
trevo lhe disse que não havia de ser feliz!
—Nunca vi homem intelligente, replicou frei Simão, que não fosse
supersticioso. Chega a parecer ás vezes que a intelligencia, descontente
de si mesma, quer nivelar-se com a fé céga dos ignorantes ingenuos!
—Ouviste? perguntou Anninhas a José Maximo.
José Maximo não respondeu, de preoccupado que estava.
Angustiava-o a tortura que elle proprio inventára. A serenidade rural em
que o pomar umbroso pareceria adormecido no fundo de um stereoscopo, se
não fosse o vôo inquieto das borboletas brancas e das abelhas loiras,
encontrava no peito de José Maximo uma forte resistencia, que já lhe não
deixava tranquillo o coração como meia hora antes.