Separação inesperada

Cuida que por fugir a um mal mais forte

Se offereceu esta alma a ti captiva,

A soffrer este mal da tua ausencia

Que me consume o siso, e a paciencia.

Francisco d’Andrade—«O primeiro cèco de Diu».

Ardia José Maximo em impaciencia de chegar ao Porto e saber de D. Anna de

Vasconcellos o que se tinha passado durante o caminho.

Á meia noite, hora aprazada para a troca da correspondencia amorosa, José

Maximo levava na algibeira, quando chegou ao Campo de Santo Ovidio, um

bilhetinho em que, por excepção, pedia a Anninhas que o lesse e voltasse

logo á janella, pois que, acontecesse o que acontecesse, precisava

fallar-lhe.

Anninhas adivinhara-lhe o pensamento ou antes tambem ella se não

contentaria com narrar-lhe por escripto as suas impressões d’aquelle dia;

quereria contar-lh’as de viva voz.

Por isso, certificando-se de que toda a familia da casa dormia, resolveu

demorar-se á janella, desobedecendo, por uma só vez apenas, á imposição

de José Maximo, que, desde que não voltára a casa de Frederico Pinto, se

limitava a trocar rapidamente uma carta por outra.

Anna de Vasconcellos acabava de dizer a José Maximo que ao menos n’essa

noite se demorasse um pouco mais, o que elle aliás vivamente desejava,

quando, na claridade, um vulto de homem surgiu d’entre as arvores do

Campo de Santo Ovidio, e parou em frente da janella.

José Maximo, de costas voltadas para o Campo, não o viu. Deu tento,

porém, de que D. Anna fizera um movimento brusco, aprumando o busto e

retraindo-se, ao mesmo tempo que dizia:

—É elle!

José Maximo suppoz a principio que D. Anna tivesse sido surprehendida

pelo irmão, mas não vendo apparecer ninguem á janella, e não sentindo

rumor no interior da sala, cuja vidraça se conservava aberta, voltou-se,

procurando explicar a si mesmo a razão de tão extranha occorrencia.

Viu então parado em frente da janella o vulto de um homem.

Atravessou em poucos passos a rua, e caminhou direito ao vulto.

Reconheceu-o. Era o estudante de Coimbra, o pintalegrete do arraial de

Mattosinhos, que, não contando certamente com tão audaz arremettida,

recuou dois passos.

José Maximo perfilou-se com elle, mediu-o sobranceiramente de alto a

baixo, e disse com desabrida provocação:

—Ah! é o mesmo palito das sécias, que eu vi hoje no arraial de

Mattosinhos!

Manuel Rodado não lhe respondeu; mas procurava affirmar-se nas feições

do homem que o insultava.

José Maximo tinha-o visto de dia; foi-lhe, portanto, facil reconhecel-o.

Manuel Rodado, que o via pela primeira vez, apenas podia valer-se do

auxilio do luar, para fixar-lhe a physionomia.

Se não fosse a lua, não o teria conseguido, porque as ruas do Porto eram

n’aquelle tempo tenebrosas por falta de illuminação publica. Atravez

de um «titulo» das _Ordenações_ enxergamos ainda hoje a escuridão das

antigas noites portuguezas, porquanto esse «titulo» dispõe: «E os que

forem achados depois do sino (de recolher) sem armas, e com candea

accêsa, ou lanterna, ou outro lume, indo pela rua para algum certo

logar... não serão presos, nem pagarão pena alguma.»

Ora só tempo depois de ter occorrido este encontro no Campo de Santo

Ovidio ordenou o governo, por decreto de 5 de outubro de 1824, que a

cidade do Porto e Villa Nova de Gaya fossem illuminadas por candieiros de

azeite todas as noites em que não houvesse luar, consignando-se a esta

despeza o rendimento da «ponte de barcas» e a imposição de dois réis em

cada arratel de carne de boi e de porco.

—O que faz aqui? perguntou José Maximo com maior desabrimento.

—Ora essa! replicou o estudante. A rua é do rei.

—Do rei! repetiu José Maximo ironicamente.

E arremessando-se sobre o filho do brazileiro empolgou-o em ambos os

braços, sopezando-o com musculos de aço.

Manuel Rodado procurava defender-se dos pulsos rijos de José Maximo, sem

o conseguir. Os seus olhos, brilhantes como os de uma féra na escuridão,

insistiam em reconhecer a physionomia do aggressor.

José Maximo, augmentando a pressão dos braços, revessou agilmente a perna

direita e, firmando-se solidamente, baldeou no chão o estudante, que

ficou estatelado sobre a relva do Campo.

Depois crusou os braços e, serenamente, disse:

—Se gritas, mato-te.

—Não grito, respondeu o estudante meio solevantado sobre o cotovêlo

esquerdo. Não grito, mas havemos de tornar a encontrar-nos.

—Quando quizeres, poltrão! Em Coimbra, por exemplo.

José Maximo viu impassivelmente levantar-se o estudante, apanhar o chapeu

que lhe tinha cahido da cabeça, e affastar-se coxeando.

Dados alguns passos, Manuel Rodado voltou-se para traz, e disse:

—Até á vista.

José Maximo respondeu:

—Até sempre.

Pouco depois pareceu a José Maximo que D. Anna de Vasconcellos tinha

voltado á janella. Aproximou-se; reconheceu-a.

A pobre menina perguntou, com voz tremula de commoção, o que tinha

acontecido. Estava agitadissima, n’um grande sobresalto. Receiava alguma

desgraça.

José Maximo tranquillisou-a dizendo:

—Não houve nada, socega. Os pintalegretes são sempre cobardes; tão

atrevidos com as mulheres como pusillanimes com os homens. Foi ao chão,

mas levantou-se. E houve por bem retirar-se prudentemente.

Contou então Anninhas que, durante toda a jornada de Mattosinhos ao

Porto, o filho do brazileiro a perseguira com insistentes galanteios, e

que, desde que chegaram, tinha apparecido dezenas de vezes no Campo de

Santo Ovidio, o que ella sabia por lhe ter dito uma criada: «Ó menina!

anda ali um rapaz p’ra cima e p’ra baixo a olhar para as nossas janellas.»

—Foi talvez tua cunhada ou teu irmão que te mandaram dizer isso, observou

José Maximo.

—Elles? Não! respondeu Anninhas. Fallaram da nossa ida a Mattosinhos, e

nem sequer alludiram ao filho do brazileiro!

—É um plano, manifestamente. Trata-se de casamento rico, e é natural que

elles t’o aconselhem.

—Olha que me offendes... disse maviosamente D. Anna de Vasconcellos.

—Não fallo de ti; fallo d’elles. Eu sou um escripturario, um simples

amanuense; o pintalegrete, alem de rico, é estudante de Coimbra. Mas

tambem eu o hei de tornar a ser.

—Tu?!

—Sim. Tomei hoje em Mattosinhos esta resolução. Medi toda a extensão da

minha desgraça, e quero resistir-lhe. Lembraram-me as palavras de frei

Simão, que no Outeiro me aconselhou um dia a voltar para Coimbra. E

voltarei.

—Queres então separar-te de mim?

—Tontinha! Se é por tua causa que eu ambiciono um futuro brilhante! É

preciso não perder tempo. Muito tenho eu já perdido. D’aqui a cinco annos

poderás ser minha mulher. Terei então conquistado o direito a pedir a tua

mão, de cabeça levantada.

—Mas eu hei de ficar aqui?

—Onde quer que fiques, estarás sempre presente á minha alma e ao meu amor.

—No Outeiro estarei muito mais perto de Coimbra.

—Então sempre tu receias que teu irmão e tua cunhada procurem desviar-te

do meu destino!

—Não receio. Nem elles o tentaram por ora, nem o conseguiriam. Mas,

peço-t’o eu, quando fores para Coimbra, passa por Cezár, e dize a frei

Simão que eu desejava voltar para o Outeiro visto que tu sahes do Porto.

—Pois seja. E por que lhe não escreves tu?

—Porque costumo entregar a meu irmão Frederico as cartas que escrevo para

o Outeiro, e não quero que elle supponha que vivo aqui contrariada ou

desgostosa. Tinha ficado no Porto por tua causa. Estava bem emquanto tu

aqui estavas. Mas se vais para Coimbra, ficarei melhor estando mais perto

de ti.

—Pois amanhã mesmo cumprirei a tua vontade.

—Amanhã? Já?!

—Não devo demorar a minha resolução. Tenho pressa de me igualar aos que

se nobilitam seguindo a carreira das lettras. Não valho menos do que

elles, e não quero que no futuro elles pareçam valer mais do que eu.

Anna de Vasconcellos conhecia a firmesa de animo de José Maximo; não lhe

fez a menor objecção. E com o coração dilacerado de saudade e os olhos

afogados em lagrimas se despediu d’elle, descendo de mansinho a vidraça,

com os braços tremulos de commoção.

José Maximo foi, como prometteu, pela casa do Outeiro, caminho de Coimbra.

Abriu-se expansivamente com frei Simão contando-lhe minuciosamente tudo o

que se tinha passado no Porto. Revelou-lhe os seus desgostos e desalentos

politicos. O frade comprehendeu-o, porque tambem estava desalentado desde

que vira afundar-se em Villa Franca a liberdade nascente. Joaquim Maria

tinha naufragado com a liberdade; achava-se a esse tempo preso em Aveiro,

ainda vivo mas implacavelmente perseguido. Esta serie de dolorosos

acontecimentos acabrunhára o animo varonil de frei Simão.

A identidade de circumstancias aproximára mais uma vez, intimamente,

aquelles dois homens.

Depois das confidencias politicas, vieram as confidencias amorosas.

José Maximo fallou a repeito de D. Anna com a sinceridade de quem não

estivesse na presença de um irmão d’ella. Amava-a mais do que nunca, mas

tudo lhe fazia lembrar que não se encontrava em situação de desposal-a,

como tanto ambicionava. Até Frederico Pinto lh’o fizera recordar,

receiando que elle ousasse raptar-lhe a irmã. Contou que, por este

motivo, nunca mais tinha voltado á casa de Santo Ovidio.

—Não o sabia, disse frei Simão. Meu irmão não m’o mandou dizer, porque

calculou decerto que essa noticia me seria desagradavel. Mas parece-me

que Vossa Mercê viu indevidamente um aggravo pessoal no que era apenas

um aviso cauteloso de irmão mais velho. Frederico arreceiou-se talvez

do caracter fogoso de Vossa Mercê e da impetuosidade das suas paixões.

Mas eu não teria dado o conselho porque conheço tão bem o seu coração

ardente como a sua honradez inabalavel. Comtudo—accrescentou o frade—se

me achasse collocado na situação de Vossa Mercê, eu teria procedido como

Vossa Mercê procedeu.

José Maximo contou o episodio da romaria de Mattosinhos.

O frade sorriu, mas d’ahi a pouco disse, referindo-se ao filho do

brazileiro:

—É notável! Sempre que os amigos sahem por uma porta, os inimigos entram

por outra! É o que tambem me tem acontecido. Fica Vossa Mercê tendo mais

um inimigo.

O assumpto culminante d’esta entrevista era a resolução que José Maximo

tomára de ir continuar os seus estudos em Coimbra, resolução com a qual

se relacionava o pedido, que D. Anna de Vasconcellos mandava fazer, para

regressar á casa do Outeiro.

Frei Simão applaudiu com jubilo aquella resolução, recordando as palavras

que, annos antes, n’essa mesma casa, havia dito a José Maximo.

—Mas, perguntou o frade, de que tenciona Vossa Mercê viver em Coimbra?

—Do meu trabalho. Ensinarei o que me ensinaram de latim, philosophia

racional e moral e rhetorica; e, emquanto não firmo creditos de

leccionista, viverei do meu pé de meia. Com improbo trabalho poderei

habilitar-me a ultimar ainda este anno o estudo da geometria, sem cujo

exame já não é permittido a ninguem matricular-se agora no primeiro anno

juridico.

Frei Simão admirava cada vez mais a corajosa e nobre alma d’aquelle

rapaz, já tão contrariado, em verdes annos, pelos duros trabalhos da vida.

—Mas uma vez na Universidade poderá Vossa Mercê receber o subsidio, que a

muitos estudantes é concedido, do cofre da Intendencia e da Casa Pia.

—Não me repugna esse auxilio, justamente inspirado pela necessidade de

soccorrer os estudantes que se encontram nas minhas circumstancias;

porém n’um regimen em que a camarilha predomina, só os aulicos poderiam

obterm’o, e eu não conheço os aulicos, nem quero conhecel-os.

—Nem só os aulicos teem valimento. Além do que, eu sei que muitos

estudantes desprotegidos teem solicitado e obtido o subsidio por um ou

outro cofre.

José Maximo encolheu os hombros, como significando que desejava pôr de

parte aquelle assumpto.

Depois transmittiu a frei Simão o pedido de D. Anna de Vasconcellos

repetindo as rasões allegadas por ella.

—Fique Vossa Mercê tranquillo, respondeu o frade, que a sua commissão

terá bom despacho. Anninhas é um anjo, e eu irei ao Porto fazer sentir

a meu irmão, com a delicadeza que o caso requer, que nós os do Outeiro

temos tanto direito como elle á companhia de um anjo. Se meu irmão

vier, porém, a perceber que o pedido partiu d’ella, aconselhal-o-hei

a desculpal-o, porque o amor sincero merece o respeito de quem o

comprehende. E a Anninhas é uma alma sincera. É um anjo, creia; um anjo

digno de Vossa Mercê.

José Maximo despediu-se effusivamente do frade, cujo animo forte já havia

despertado de um desalento passageiro, e que por isso lhe disse ao limiar

da porta, como se não receiasse ser ouvido:

—Até á liberdade, meu amigo.

—Que não voltará mais, replicou José Maximo.

—Ha de voltar, porque está no coração do homem, é uma aspiração ingenita

da natureza humana.

—Ha muitos seculos, respondeu ainda José Maximo, que o espirito do homem

vive escravisado. A sua força de resistencia é menor que a pressão

esmagadora dos factos.

No caminho José Maximo avistou um criado de seu tio. Era o Manel Zarôlho,

que estava ali a espional-o, porque tinha constado que José Maximo

passára para o Outeiro.

Ao contrario do que costumava fazer, José Maximo parou o cavallo, e

chamou pelo camponez.

—Meu tio está bom? perguntou-lhe.

—Vae indo como Deus é servido. E o sr. José Maximo vae para Coimbra?

—Não. Vou para o Porto.

José Maximo quiz desviar da sua passagem por Cezár a suspeita de que a

noticia de regressar a Coimbra significasse uma reconciliação com o tio

pelo arrependimento do seu procedimento anterior.

A pequena distancia iria José Maximo, quando frei Simão se sentou á

carteira para escrever a frei Antonio Lino, seu antigo condiscipulo e

confrade, cuja familia tinha alta cotação na côrte, pedindo-lhe que

obtivesse para José Maximo da Fonseca, natural do Fundão, o qual se

habilitava á matricula na faculdade de leis, o subsidio pecuniario

destinado a estudantes pobres.

«Eu, um vencido, que nada pediria para mim aos vencedores—dizia frei

Simão de Vasconcellos—ajoelho n’esta supplica, com as mãos postas,

implorando o teu valimento e de teus parentes.»

A guerrilha de Frei Simão: romance historico · 第 26 / 71 题