Despotismo cruel! tua face vejo...
Com Joye te mediste.
Altivo levantando a voz sem pejo:
Antropóphago crú, lavado em sangue,
Monstro sem lei, que as leis todas despreza,
E arrastra sem vergonha
O código da sabia Natureza
Marqueza d’Alorna—«Obras poeticas».
Margarida Candida entrou no mosteiro de Arouca com a firmeza dos
martyres, que não tremem deante do sacrificio.
Depois que em Chaves trocou com Joaquim Maria aquelle saudoso olhar
afogado em copiosas lagrimas, nunca mais tornou a chorar. A sua angustia
concentrára-se n’um silencio doloroso, estrangulado. Liam-se-lhe
no semblante os signaes de um grande soffrimento, mas os olhos
conservavam-se enxutos e o olhar sereno contrastava com as frequentes
contracções nervosas do rosto excessivamente pallido.
Toda a communidade de Arouca, com excepção d’uma unica pessoa, era
absolutista.
Margarida Candida foi, portanto, recebida com uma irritante seccura,
quasi hostilidade.
Percebe-se. Era um adversario que chegava; mais um, porque no mosteiro
já havia outro, D. Ernestina de Carvalho, ainda aparentada com o coronel
de milicias reformado, Manuel Monteiro de Carvalho, um dos justiçados do
Campo de Sant’Anna, em 1817.
Esta senhora era orphã de um guarda-livros do Porto, que nenhuns bens
tinha deixado. Foi soccorrida, bem como a mãe, por um tio viuvo que vivia
em Lisboa e tinha apenas um filho, que se destinava ao curso de leis.
Mas como este tio morresse, tendo gasto com a propria familia e com a do
irmão todos os seus honorarios de funccionario publico, Ernestina teve de
solicitar a entrada n’um convento, até que o primo se formasse e podesse
ganhar dinheiro pela advocacia. A viuva do guarda-livros ficára residindo
no Porto, e vivia pobremente de dar lições de primeiras lettras por casas
particulares.
Ernestina de Carvalho, constitucional por tradição de familia, foi a
unica pessoa que no mosteiro de Arouca disse a Margarida Candida uma
phrase amoravel. E só muito de fugida lh’a poude dizer, porque toda a
communidade vigiava attentamente os passos das duas recolhidas, que
entraram precedidas da reputação de constitucionaes.
Ernestina, no momento de abraçar Margarida Candida, segredára-lhe com
solerte disfarce: «Pode contar comigo.»
Esta simples phrase foi para a sobrinha de André Pinto como que uma
promessa de amisade e auxilio, que lhe deu maior coragem para o
sacrificio.
Ernestina sentiu-se desde logo attraída para aquella pobre menina de
Chaves, que tinha a seus olhos o duplo prestigio de ser constitucional e
de o ser por amor de um homem. Bastaria a primeira circumstancia para a
recommendar á condolencia de quem estava ligada por laços de parentesco
á memoria de um dos justiçados de Lisboa; mas o facto de se inscrever
voluntariamente no martyrologio dos constitucionaes por dedicação ao
capitão de dragões Joaquim Maria de Vasconcellos, era um tão galante
heroismo, que sobredourava, aos olhos de Ernestina, aquelle predicado.
No mosteiro de Arouca sabia-se, de antemão, toda a biographia de
Margarida Candida.
Fôra André Pinto que informára a freira sua parenta sobre o delicto
amoroso da sobrinha, historiando-o miudamente. É certo que pedira
segredo, e sóror Maria das Cinco Chagas, ao receber a extensa carta do
primo de Chaves, talvez quizesse guardal-o. Mas, a meio da leitura, ou
os óculos se lhe começaram a embaciar ou ella achou tão monstruosamente
interessante a narrativa, que reconheceu a necessidade de desabafar com
alguem. Ambas as coisas seriam talvez. Sóror Maria das Cinco Chagas
mandou chamar sóror Genoveva do Espirito Santo para que se encarregasse
de continuar a leitura da carta de André Pinto.
Ora sempre que uma freira mandava chamar outra á puridade, havia caso
grave no mosteiro, fosse de politica domestica, algum assumpto de portas
a dentro, ou de politica externa, alguma noticia importante que tivesse
vindo de fóra.
Sóror Genoveva correu trigosamente ao chamamento. Estava rezando aos
santos predilectos da communidade, S. Bernardo, S. Pedro, S. Paulo e
Santa Mafalda, quando a criada de sóror Maria das Cinco Chagas lhe
bateu á porta da cella. Ouvido o recado, sóror Genoveva deixou em meio
o Padre-nosso que todos os dias rezava a Santa Mafalda, certa de que
esta Santa corôada, por ser pessoa de casa, não se offenderia com a
interrupção.
Chegada, sem demora, á cella de sóror Maria, e sabendo do que se tratava,
não se limitou apenas a continuar a leitura da carta; quiz recomeçal-a,
glosando-a periodo a periodo com muito piedosas exclamações, taes como
esta:
—Que rica peça nos mandam para cá! (referia-se a Margarida Candida). É lé
com cré! Ha de fazer uma boa parelha com a outra! (a outra era Ernestina
de Carvalho).
Sóror Maria das Cinco Chagas recommendou o maior segredo a sóror Genoveva
do Espirito Santo, e ambas estavam convencidas de que, para não dar maus
exemplos á communidade, era de toda a conveniencia que fossem ignorados
os factos escandalosos narrados na carta de André Pinto.
Fizeram pois o pacto de guardar sobre o caso absoluta reserva.
E, sempre com a discreta intenção de manter o sigillo ajustado, sóror
Maria das Cinco Chagas contou muito confidencialmente a historia de
Margarida Candida á madre escrivã, que era um poço sem fundo para
guardar segredos, e sóror Genoveva do Espirito Santo, não menos
confidencialmente, revelou o contheúdo da carta a outras madres, que,
posto escrevessem menos do que a escrivã, fallavam mais do que ella, por
serem muitas.
Dentro de duas horas, toda a communidade de Arouca conhecia a biographia
amorosa da menina flaviense, que lhe iam mandar, por ordem de el-rei,
para que a tivessem bem guardada e bem vigiada no mosteiro. A noticia,
com todos os seus pormenores, incluindo o de Joaquim Maria ser irmão
do frade apóstata de Cezár, até chegou ao conhecimento de Ernestina de
Carvalho, que, pelo labéo de constitucional, não «bebia do fino» em
bisbilhotices de convento. Mas outra sóror qualquer achou que seria
conveniente avisal-a do que se passava, com o fim altamente moral de a
admoestar dizendo:
—Veja agora a menina, que tem a cabeça cheia de minhocas constitucionaes,
se mostra mais juizo do que a tal Margarida Candida, de Chaves.
Não se offendeu Ernestina de Carvalho, ao contrario do que se poderia
esperar, com a picaresca phrase: «minhocas constitucionaes». Perdoou-a,
contente com a boa nova de lhe annunciarem uma companheira, que pensava
politicamente como ella, e que tinha uma historia amorosa muito
suggestiva de sentimentalidade romantica.
Sóror Maria das Cinco Chagas, quando soube que já corria em todo o
mosteiro a noticia da proxima chegada da sua parenta de Chaves, e das
secretas razões que a motivavam, agastou-se com sóror Genoveva do
Espirito Santo, que costumando aliás ser tambem um poço sem fundo,
d’aquella vez alcatruzára indiscretamente um segredo baldeando-o de cella
em cella.
Mas sóror Genoveva do Espirito Santo repelliu energicamente a accusação
de que se dizia victima innocente, accusando por sua parte sóror Maria
das Cinco Chagas de lhe ter recommendado silencio, indo, pouco depois,
metter tudo no bico á madre escrivã, que, na opinião de sóror Genoveva,
era mais falladora do que uma gralha.
A phrase que Ernestina de Carvalho poude segredar disfarçadamente ao
ouvido de Margarida Candida, logo no dia da chegada, deu alento á pobre
menina de Chaves, porque lhe deixou entrevêr a esperança de ter uma
confidente sempre que o seu attribulado espirito carecesse de expansão, e
muitas vezes seria.
Quanto se enganava, porém, Margarida Candida! Fraco auxilio lhe poderia
prestar Ernestina de Carvalho, sempre espionada pela communidade. A
phrase «Pode contar comigo» revelava apenas um impulso de espontanea
sympathia, de instinctiva condolencia, mas difficilmente poderia
traduzir-se em factos, e a prova não se fez esperar muito.
Como a biographia de Margarida Candida já era conhecida no mosteiro
quando a abbadeça recebeu a ordem do prelado, acompanhada de uma copia
do respectivo aviso regio, para ser admittida a sobrinha de André Pinto
_não só ao noviciado, mas tambem á profissão_, a communidade redobrou de
vigilancia com o fim de não deixar aproximarem-se uma da outra as duas
meninas constitucionaes.
De modo que decorreram muitos dias sem que Ernestina de Carvalho e
Margarida Candida podessem trocar entre si outra qualquer phrase, tantos
e tão desconfiados eram os muitos olhos e ouvidos que constantemente as
espiavam.
A sobrinha de André Pinto poude reconhecer que a sua solidão n’aquelle
mosteiro teria de ser maior do que no primeiro dia se lhe afigurára.
E seria realmente assim, se, passados uns quinze dias, Ernestina de
Carvalho, sahindo do côro hombro a hombro com Margarida Candida, sem lhe
dizer palavra, lhe não tivesse intromettido rapidamente nos dedos da mão
direita um papelinho vincado em muitas dobras.
Logo que entrou na sua cella, a sobrinha de André Pinto fechou-se por
dentro, e leu sôfregamente o bilhete de Ernestina de Carvalho, que lhe
dizia:
«Escrevo com o meu proprio sangue e com o bico de um alfinete para lhe
repetir o que lhe disse no primeiro dia: Pode contar comigo. Sou a sua
unica amiga n’esta casa. Mas por isso mesmo que estamos rodeadas de
inimigas, não podemos fallar, como tem visto. Resta-nos apenas o meio de
trocarmos os nossos pensamentos por escripto. Mas como nos não dão papel,
nem pennas, nem tinta, aconselho-lhe que se não quizer ferir-se para
escrever com o seu proprio sangue, como eu agora faço, procure colhêr na
cêrca algumas amoras sem ser vista, para escrever com o summo d’ellas,
que produz uma tinta soffrivel. Eu pude encontrar este bocadinho de papel
em que lhe escrevo; mas a menina vá arrancando algumas folhas ou margens
dos livros de orações, que já lhe deram decerto, e aproveite-as para
escrever-me. As suas cartas e as minhas devemos escondel-as debaixo da
pedra curva no tanque da _Cozinha velha_. Mas é preciso todo o cuidado
para não sermos vistas. Mais uma vez lhe repito, minha boa amiga: «No
pouco que eu puder, conte sempre comigo.»
Este bilhete deu algum lenitivo ao coração amargurado de Margarida
Candida. Não lhe promettia, como ella desejava, uma franca convivencia,
sem péas e sem obstaculos, com a boa Ernestina de Carvalho, que a
Providencia lhe deparára ali, no carcere conventual de Arouca. Mas
dava-lhe ao menos a certeza de que sob as abobadas do mosteiro havia
um coração, que comprehendia o seu sacrificio, e que o lastimava
espontaneamente. Os grandes desgraçados parecem-se com os pequeninos
passaros que pousam sobre um fragil ramusculo: qualquer ponto de apoio os
aguenta. A vida humana conserva-se ás vezes suspensa sobre um abysmo por
um tenue fio de retroz.
Margarida Candida respondeu agradecendo reconhecida a commiseração de
Ernestina de Carvalho, e acceitando-a. Como era natural que acontecesse,
pedia-lhe que descobrisse um meio qualquer de se corresponder com
Joaquim Maria. Mas para onde? Para a cadea de Chaves, julgava Margarida,
porque nada mais sabia do que se tinha passado depois da sua entrada
no mosteiro. Receiava, porém, que Joaquim Maria, na qualidade de preso
politico, não recebesse a correspondencia, que lhe era destinada.
Lembrou-se então de que o melhor seria dirigir as cartas para a casa do
Outeiro, freguezia de Cezár, pelo correio de Oliveira de Azemeis.
Pobre menina! as cartas! Se nem papel teria para escrevel-as!
Ernestina de Carvalho respondeu por sua vez que era completamente
impossivel achar um meio de correspondencia com quem quer que fosse.
«Poucos dias depois de eu ter entrado no convento—dizia ella—quando
ainda governava a Constituição e as Côrtes funccionavam em Lisboa, facto
que cá dentro do mosteiro ninguem queria reconhecer, escrevi a minha
mãe um bilhete em que lhe pedia que empenhasse o conde de Rio Maior
em tirar-me d’aqui, porque as freiras me offendiam a cada momento, só
porque eu pertencia a uma familia liberal e sou a noiva promettida de
meu primo Jayme, estudante de Coimbra, liberal tambem. Um dia, estando
á janella, vi passar um almocreve e atirei-lhe, da grade abaixo, o
bilhete, embrulhado n’um crusado novo. Não sei se esse papel chegou ao
seu destino; mas ou minha mãe o não recebeu ou não conseguiu arrancar-me
d’este inferno. Esperei que o almocreve tornasse a passar e me trouxesse
alguma resposta. Nunca mais, porem, o tornei a vêr! Foi-se arrastando
o tempo com um vagar, que chega a causar desespero, até que a menina,
entrando aqui, veio ser minha companheira de infortunio. Poucos dias
depois da sua entrada vi passar um pastorsito. Fiz-lhe signal para que
esperasse. Atirei-lhe da janella outro bilhete para minha mãe e o
ultimo dinheiro que possuia, e era pouco. N’esse bilhete alludia eu ao
primeiro, prevenindo o caso de não ter sido recebido, instava com minha
mãe para que conseguisse a minha sahida, antes mesmo da formatura de meu
primo Jayme, e contava-lhe que estava aqui outra victima como eu, mas
recentemente chegada, e essa victima, escusado será dizer-lh’o, era a
menina. O pastor certamente entregou o bilhete, porque tornou a apparecer
d’ahi a dias, olhando muito para a minha janella. Perguntei-lhe por
gestos se trazia alguma resposta. Entendeu-me, e mostrou-me um papel.
Fiz-lhe signal para que esperasse, emquanto eu ia vêr se conseguia
encontrar uma fita, um cordel, qualquer cousa com que podesse guindar
o bilhete. Quando voltei á janella, já não vi o pastor. Sabe o que
aconteceu? Da portaria tinham visto o que se passára, arrancaram ao
pastor a resposta de minha mãe, porque a propria abbadeça m’a mostrou,
sem m’a deixar lêr, e eu conheci a lettra. E, berrando como uma possessa,
a abbadeça disse-me que nem eu tornaria a receber bilhetes de minha
mãe, nem minha mãe receberia de Arouca outras noticias alem d’aquellas
que a meu respeito ella abbadeça lhe quizesse mandar. Que desafôro! que
descaramento! e que tyrannia! Pois isto tudo passou-se assim mesmo. O
que será agora, que a façanha do Infante em Villa Franca subiu á cabeça
das freiras! façanha que ellas apregoáram ao mundo, durante trez dias
e trez noites, com ensurdecedores repiques de sinos. Minha pobre mãe
foi atrozmente enganada quando consentiu que escolhessem para mim este
convento, peior que a inquisição. Mas, quem sabe? talvez que todos os
outros sejam o mesmo! Pela morte de meu tio, ficamos desamparadas, e meu
primo, para frequentar a Universidade, teve de requerer um subsidio; mas
eu, emquanto Jayme não se forma, preferiria ser guardadora de cabras a
viver aqui recolhida, se soubesse o que isto era.»
Margarida Candida viu fugir-lhe a ultima illusão, e com ella a ultima
esperança. A sua desgraça era sem remedio. Só lhe restava enviar atravez
d’aquellas altas montanhas graniticas o seu pensamento, como uma ave
errante, ao encontro de Joaquim Maria, dizer-lhe de longe, sem que elle a
podesse ouvir, que o amava com a mesma firmesa e com a mesma dedicação.
Um anno se passou, lentamente, na absoluta ignorancia de tudo quanto
houvesse succedido fóra do convento.
Ernestina de Carvalho, n’um dos bilhetes que deixara no escondrijo
combinado, aconselhou Margarida Candida a que se recusasse a professar
violentamente. Dizia-lhe que o costume era reunir-se o capitulo,
convocado pela abbadeça, para declarar se queria acceitar a noviça como
religiosa. Que se o capitulo decidia, por votos, affirmativamente, a
noviça tinha de requerer ao prelado que nomeasse um commissario para
proceder ao interrogatorio, a que se chamava a _exploração de vontade_.
No dia em que o commissario chegava, a noviça era posta em plena
liberdade, fóra da porta principal do mosteiro, e ahi interrogada sobre
se era a mesma signataria do requerimento, se o fizera sem pressão
e violencia ou se havia sido persuadida, indusida ou constrangida a
professar o estado de religiosa.
Margarida Candida, que ignorava todas estas circumstancias, ficou,
desde o momento em que as conhecêra, firmemente resolvida a assignar o
requerimento para ter occasião de declarar alto e bom som ao commissario
que era constrangida a professar pela coacção de André Pinto. D’este
modo, conseguiria o seu fim na presença do commissario, porque o
requerimento tinha pouco valor: se ella se recusasse a assignal-o,
facilmente poderiam falsificar-lhe a assignatura. Melhor seria pois
mostrar-se submissa para ter occasião de que o commissario podesse ouvir
as suas categoricas declarações.