Flor do Támega

Amor quiz.................

Unir vontades que separa a guerra.

Braz Garcia de Mascarenhas—«Viriato tragico», canto XVIII.

Os Vasconcellos, de Cezár, gente de boa raça, aparentados com muitas

familias illustres, entre as quaes os Pintos de Parámos, os Tavares e

Pereiras da Terra da Feira e os Côrte-Reaes de Gafanhão, tinham como

representante, no fim do seculo passado, José Bernardo Pereira de

Vasconcellos, marido de D. Anna Margarida de Almeida Cabral.

D’este casamento nasceram cinco filhos e quatro filhas.

Sobejavam a José Bernardo meios de farta subsistencia para tão numerosa

próle, pois que as suas propriedades se estendiam desde Cezár, na comarca

da Feira, até á villa de Arouca, onde possuia a quinta do Outeiral.

José Bernardo fixára residencia, depois de casado, na casa do Outeiro, em

Cezár, e, graças á sua abastança, podéra dar uma collocação decente aos

cinco filhos varões, destinando uns á vida monastica, outros á carreira

das armas, segundo a tradição grada d’aquelle tempo.

Simão, que nascêra a 28 de setembro de 1789, entrou na ordem de S.

Bernardo, e professou em Alcobaça. José vestiu o habito benedictino no

mosteiro de Refoyos de Basto.

Joaquim Maria e Frederico sentaram ambos praça no regimento de infanteria

6. Eram duas creanças, quando em 1808 foram reconhecidos cadetes. Fizeram

a guerra peninsular, sendo Joaquim Maria gravemente ferido, em uma perna,

na acção de 31 de julho de 1813.

Antonio, o filho mais novo, ficou, em rasão de sua pouca idade, sob a

tutella paterna, quando os irmãos, seguindo cada qual seu destino, se

ausentáram da casa do Outeiro.

No fim do anno de 1814, Joaquim Maria foi promovido a tenente para

infanteria 13. Mas obteve depois transferencia de arma, passando a servir

em cavallaria.

Frederico era, em 1819, alferes ajudante de infanteria 18, aquartelada

no Porto. Casando com D. Margarida Fontana, pediu a demissão, pura e

simples. Mas o governo concedeu-lhe a reforma em attenção aos bons

serviços, que tinha prestado durante a guerra peninsular. Devia ter sido

o coronel commandante d’aquelle regimento, Bernardo Corrêa de Castro e

Sepulveda, dedicado protector de Frederico Pinto, quem, junto do governo,

interveio para que a demissão fosse substituida pela reforma.

Em 1820 rebentava a revolução liberal do Porto, e Frederico, apesar

de ter renunciado á vida militar, interessou-se, com enthusiasmo e

convicção, pelo bom exito do movimento revolucionario, que os portuenses

haviam preparado.

É de presumir que as ligações de Frederico com o coronel Sepulveda o

acirrassem nos ideaes do constitucionalismo.

Joaquim Maria, promovido a capitão e collocado em cavallaria 6, _dragões

de Chaves_, resistiu, obstinado, ás suggestões absolutistas dos

Silveiras, recusou-se em 1823 a acompanhal-os no movimento que principiou

em Villa Real no dia da procissão de Passos.

Seriam apenas rasões de caracter politico as que crearam ao capitão de

dragões essa dura situação de intransigencia em que teimosamente se

conservou até á morte?

Não. Quando um homem pertinazmente salta por cima de todas as

conveniencias pessoaes, com os olhos fechados, esse homem obedece, por

via de regra, mais ao impulso do coração que do espirito.

N’aquella epocha de fluctuações e incertezas politicas, as opiniões

transformavam-se com os acontecimentos do dia, ao sabor dos interesses de

cada individuo ou de cada familia. O proprio monarcha dava o exemplo aos

que o tinham visto jurar a constituição nas Necessidades e haviam de vêr

depois ir a Villa Franca ao encontro do filho. Mas os que não abdicavam

de suas crenças, e preferiam o martyrio á transigencia, esses tinham o

coração dilacerado por algum golpe profundo, que resultára de vinganças

partidarias exercidas contra elles mesmos ou contra as suas familias.

As feridas do corpo podem esquecer-se, depois que cicratisáram; mas as

da alma parece reverdecerem com o tempo.

Joaquim Maria de Vasconcellos amára em Chaves uma menina, sobrinha de um

abastado proprietario realista.

Ahi por 1822 o idyllio derivava mansamente, meio velado pelo disfarce com

que o capitão de dragões queria occultar um segredo, que punha em xeque

as suas convicções politicas, aliás notorias.

André Pinto, o tio da menina, era absolutista ferrenho, muito nas boas

graças dos Silveiras; pessoa de tamanha confiança para elles, que não

duvidavam encarregal-o de importantes commissões politicas.

Não tendo filhos, a sua herdeira presumptiva era a sobrinha, uma rosada

transmontana de vinte annos, vasada nos moldes das mulheres fortes

d’aquella provincia alpestre, onde o ar, coado atravez das montanhas, é

puro e salubérrimo.

Não tinha que vêr com a vaporosa idealisação da Margarida de Gœthe

aquella Margarida Candida, de Chaves, a quem Antonio da Silveira,

futuro visconde de Canellas, pozera a alcunha de _Flor do Támega_ com

uma galanteria alfacinha que tinha aprendido em Lisboa, durante os

tormentosos dias em que, como presidente da junta do Porto, fez parte do

governo constitucional, de arrependida memoria para elle.

Realmente, floria nas faces de Margarida Candida, presumptiva herdeira

do abastado André Pinto, o carmim vivo dos cravos e das papoulas. Não

era a mulher que parece quebrar pela cintura, flexivel como a haste

de um lirio. Tinha a belleza da saude e da mocidade, algo serrana, mas

esculptural.

Joaquim Maria era um guapo homem. Alguns velhos de Cezár affirmam ainda

hoje que fôra «o homem mais bonito do seu tempo.» A farda de capitão de

dragões e o garbo militar com que sabia uzal-a, davam realce aos dotes

physicos que o distinguiam. Fica pois cabalmente explicada a fascinação

que elle exerceu no espirito de Margarida Candida, apesar de ser alguns

annos mais velho do que ella.

Mas o amor, se não conhece idades, desconhece tambem as balisas

partidarias, que extremam os campos politicos.

Assim foi que Joaquim Maria, tão constitucional como todos os seus

irmãos, á excepção de frei José, que era realista, se deixou captivar da

graça desaffectada da sobrinha de André Pinto, silveirista da gemma.

A mascara do disfarce cahiu, logo que as lavas do amor vulcanisáram o

coração dos dois namorados.

André Pinto percebeu a inclinação da sobrinha, contra a qual rompeu em

desabridos improperios por amar um pedreiro-livre.

Pretendeu desacreditar a familia de Joaquim Maria e, por isso, dizia em

voz alta que José Bernardo de Vasconcellos era filho de uma camponeza de

Santa Christina de Mansores, chamada Maria Josepha.

Um flaviense de boa fé, muito intimo do fidalgo de Paiva, Martinho Pinto

de Miranda Corrêa Montenegro, contestou que, por este seu amigo, sabia

de sciencia certa que o avô de Joaquim Maria mandára educar o filho, e

o deixára seu herdeiro; que, não obstante a creança ter sido baptisada

como filho de paes incognitos, José Bernardo requerêra e obtivera a

legitimação em 1819.

André Pinto barafustou contra esta réplica, insistindo em depreciar a

linhagem do capitão de dragões.

Mas o flaviense escreveu ao fidalgo de Paiva, o qual lhe respondeu por

escripto, dizendo:

«Muitas vezes ouvi a meu pae, o sr. Bernardo José Pinto Montenegro,

encarecer a genealogia do avô e pae de Joaquim Maria de Vasconcellos,

nossos parentes. São legitima geração de Sebastião Lopes Godinho, da casa

de Cezár, homem muito fidalgo e descendente de Gil Garcia, e de João

Carvalho, fidalgo da casa d’el-rei D. João III, casado com D. Anna Mendes

de Vasconcellos. A familia de Joaquim Maria está aparentada com a melhor

nobreza da sua comarca e provincia, e eu honro-me de ser seu parente.

«A legitimação de José Bernardo fez-se segundo o disposto nas leis

canonicas e civis. Nada ha que se lhe oppôr, a não ser qualquer má

vontade acintosa.»

O flaviense mostrou esta carta em Chaves, e André Pinto, vendo-se

contraditado, mudou de rumo, no empenho de combater o capitão de dragões

por qualquer outro modo, mais efficaz e menos contestavel.

Enfurecido com o mallogro da sua propaganda de descredito contra a

familia de Joaquim Maria, correu as casas de muitos dos seus amigos

politicos, desabafando a berros desentoados.

Um d’elles, que gostava de recorrer a processos summarios quando

liquidava contas com inimigos, disse-lhe peremptoriamente:

—Homem! não ha nada como cortar as questões pela raiz!

—Mas a difficuldade está em desaterrar a raiz...

—Ora adeus! A raiz d’esta questão é o amor de tua sobrinha ao capitão

Joaquim Maria. É ou não é?

—Certamente que sim.

—Já vês que ficam assim muito simplificadas as coisas...

—Não percebo! Eu não as vejo nada simplificadas!

—Oh! homem! O capitão é a causa da inquietação em que vives, porque sendo

nosso adversario politico, dos mais intransigentes, fez andar á roda a

cabeça de tua sobrinha. É ou não é?

—Pois é mesmo! E d’ahi?

—Ora se o capitão desapparecer, tua sobrinha não ha de ficar eternamente

a amar um morto... Percebes?

—Percebo.

—O que dizes então?

—Que para isso não precisava eu de vir pedir-te conselho. É conveniente

proceder com certa diplomacia, chegar a uma solução sem assumir

publicamente a responsabilidade d’ella. Este negocio, encabeçado em

politica, corria melhor.

—Bem entendo. Gostas de pannos quentes. Pois eu cá não sou d’esses.

—É certo que o capitão me desinquieta a sobrinha, e este negocio é

particular, apenas diz respeito á minha familia. Mas, por outro lado,

o capitão é nosso adversario politico, e procede acintosamente para me

desgostar. Entendo, pois, que o negocio deve ser resolvido sob o ponto de

vista das conveniencias partidarias...

—N’esse caso, vae consultar os Silveiras. Elles que te aconselhem, que

teem obrigação de o fazer.

André Pinto foi a Villa Real consultar o conde de Amarante, mas com tanta

infelicidade que, quando entrou na casa da Calçada, estava Manoel da

Silveira n’um dos seus dias de obumbramento intellectual.

O conde ouviu-o, e não respondeu nada.

André Pinto sahiu dizendo com os seus botões:

—Está hoje tolo de todo! Fallei com uma pedra.

Lembrou-se de ir á quinta de Canellas consultar Antonio da Silveira, que

era mais atilado do que o sobrinho.

Expoz lhe o negocio. O fidalgo respondeu com promptidão:

—O que me diz, sr. André Pinto, envolve uma questão politica, que é

preciso ter em vista.

—Diz v. ex.ª muito bem. Assim mesmo é que é. Devemos proceder todos de

accôrdo.

—Ora, attendendo ás rasões politicas, sou de parecer que o capitão

Joaquim Maria não deve ser perseguido.

—Como?! perguntou, fulminado, André Pinto.

—O que a mulher não conseguir, ninguem o consegue! disse axiomaticamente

o tio do conde de Amarante. Eu me explico. Talvez o amor consiga trazer

insensivelmente o capitão ao nosso gremio. O amor costuma fazer milagres.

—Nunca de bom christão bom mouro, nem de bom mouro bom christão!

replicou, triumphantemente a seu vêr, André Pinto.

Antonio da Silveira, que enxergou n’esta phrase uma grosseira allusão

ao seu breve transito pelo constitucionalismo, replicou de sobrecenho

carregado:

—Todos os homens podem reconsiderar, quando não sejam tolos ou maus.

Adeus, sr. André Pinto.

O tio de Margarida Candida sahiu recuando, ás mesuras, sem ter percebido

bem o motivo do subito agastamento do fidalgo de Canellas.

O que é certo é que esta replica mal-humorada assegurou a vida de Joaquim

Maria.

André Pinto, em caminho de Chaves, matutou na rasão que teria Antonio

da Silveira para esperar um possivel reviramento politico do capitão de

dragões e, sem ousar oppôr-se formalmente á opinião do ex-presidente da

junta do Porto sobre a reconsideração dos homens, não deixou de achar um

pouco duro que se comprassem silveiristas á custa do dinheiro que era

seu, e que a sobrinha devia herdar.

Comtudo, tendo sahido de casa acceso em colera contra Margarida Candida

e o capitão, voltou, depois do que se passára com Antonio da Silveira na

quinta de Canellas, menos bravo, se bem que visivelmente concentrado.

Logo que teve ensejo, chamou á puridade uma criada a quem

confidencialmente havia encarregado de vigiar, na sua ausencia, todos os

passos de Margarida Candida.

—Ella viu-o? perguntou de afogadilho André Pinto.

—Viu-o, sim senhor. Viu-o do muro do quintal.

—E tu então que «fizestes»?

—Eu fui logo a correr, e disse-lhe: «Menina, veja o que faz, não queira

dar mais desgostos a seu tio».

—E ella o que respondeu?

—Ora o que respondeu?! Disse-me assim: «Eu cá não faço mal a ninguem. Meu

tio tambem namorou.»

—Mentira! replicou André Pinto. O meu casamento foi fallado. Não sabias

responder-lhe?

—Eu sabia cá, sr. André! Uma pessoa fica ás vezes embuchada com certas

respostas.

—És uma lesma! Tu e um pannal de palha valem o mesmo.

André Pinto ficou a pensar no caso e de si para si julgava-se ainda mais

tolo do que a criada.

—Andei em correrias, reflexionava elle, e emquanto andei por lá, a

rapariga fazia-me o ninho atraz da orelha. Se não tenho ido a Canellas,

estava habilitado a tomar a resolução, que muito bem me parecesse. Assim,

fiquei preso ao conselho de Antonio da Silveira, com os braços atados.

Preciso encher-me de rasão para levar o fidalgo a mudar de parecer. O que

me resta fazer é ficar de atalaya sem espantar a caça. Custa; mas não ha

remedio, depois do que se passou em Canellas.

Margarida Candida desconfiou da inesperada metamorphose de brandura,

que se tinha operado no tio; teve medo de que occultasse alguma perfidia

machiavelica.

Apezar da vigilancia de André Pinto, ella encontrava sempre meios de a

illudir. Ás noites, quando o tio ia concertar com os outros silveiristas

o plano da contra-revolução restauradora que devia rebentar em

Traz-os-Montes, Margarida Candida, subindo ao muro do quintal, trocava de

fugida algumas palavras com o capitão.

O assumpto d’esses rapidos dialogos continuava a ser a reserva,

apparentemente bonançosa, em que André Pinto se mantinha.

O capitão de dragões, apezar de querer tranquillisar o espirito de

Margarida Candida, denunciava-se, involuntariamente, tambem apprehensivo

e receioso, porque bem sabia elle que os odios politicos em Chaves,

quando por momentos se acalmavam, resurgiam a breve trecho mais

rancorosos.

E acabando por confessar um ao outro as suas apprehensões, suspeitavam de

desgraça imminente; mas separavam-se jurando inabalavel constancia, por

maiores que fossem os tormentos por que ambos houvessem de passar.

Mal podiam suppôr que a metamorphose de André Pinto fosse devida á

entrevista com Antonio da Silveira, então adversario politico de todos os

constitucionaes, porque se desaviera com elles em Lisboa, a ponto de ter

sido mandado recolher, no meio de uma escolta, á quinta de Canellas.

O capitão de dragões conheceu que estava sobre um vulcão, mas o seu

coração não vacillou um momento. Acontecesse o que acontecesse,

Margarida Candida continuaria a ser a unica mulher capaz de o fazer

affrontar a morte, se tanto fosse preciso.

Graças á lembrança de Antonio da Silveira, chamavam-lhe a ella a _Flôr do

Támega_. Pois bem! esse valoroso capitão de cavallaria 6, que tinha vindo

das campanhas da guerra peninsular, em que tantas vezes encarára a morte

de perto, estava resolvido a tomar por divisa, no resto da sua vida, a

bella _Margarida_ do jardim feminino de Traz-os-Montes, e a defendel-a

até ao sacrificio com o heroismo dos cavalleiros da idade-media, tão

romanescos como destemidos.

A guerrilha de Frei Simão: romance historico · 第 6 / 71 题