ODE V.

Nunca manhãa suave

Estendendo seus raios por o mundo,

Despois de noite grave,

Tempestuosa, negra, em mar profundo

Alegrou tanto nao, que ja no fundo

Se vio em mares grossos,

Como a luz clara a mi dos olhos vossos.

Aquella formosura,

Que só no virar delles resplandece;

E com que a sombra escura

Clara se faz, e o campo reverdece;

Quando o meu pensamento se entristece,

Ella e sua viveza

Me desfazem a nuvem da tristeza.

O meu peito, onde estais,

He para tanto bem pequeno vaso;

Quando acaso virais

Os olhos, que de mi não fazem caso,

Todo, gentil Senhora, então me abraso

Na luz que me consume,

Bem como a borboleta faz no lume.

Se mil almas tivera

Que a tão formosos olhos entregára,

Todas quantas pudera

Por as pestanas delles pendurára;

E, enlevadas na vista pura e clara,

(Postoque disso indinas)

Se andárão sempre vendo nas meninas.

E vós, que descuidada

Agora vivereis de taes querellas,

D'almas minhas cercada,

Não pudesseis tirar os olhos dellas;

Não póde ser que, vendo a vossa entr'ellas

A dor que lhe mostrassem,

Tantas huma alma só não abrandassem.

Mas, pois o peito ardente

Huma só póde ter, formosa Dama,

Basta que esta somente,

Como se fossem mil e mil, vos ama,

Para que a dor de sua ardente flama

Comvosco tanto possa,

Que não queirais ver cinza hum'alma vossa.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 375 / 391 题