Manda-me Amor que cante o qu'a alma sente,
Caso que nunca em verso foi cantado,
Nem d'antes entre a gente acontecido.
Assi me paga em parte o meu cuidado;
Pois que quer que me louve e represente
Quão bem soube no mundo ser perdido.
Sou parte, e não serei da gente crido:
Mas he tamanho o gôsto de louvar-me,
E de manifestar-me
Por captivo de gesto tão formoso,
Que todo o impedimento
Rompe e desfaz a gloria do tormento
Peregrino, suave e deleitoso;
Que bem sei que o que canto
Ha d'achar menos credito qu'espanto.
Em vivia do cego Amor isento,
Porém tão inclinado a viver preso,
Que me dava desgôsto a liberdade.
Hum natural desejo tinha acceso
D'algum ditoso e doce pensamento,
Que m'illustrasse a insana mocidade.
Tornava do anno ja a primeira idade;
A revestida terra s'alegrava,
Quando o Amor me mostrava
De fios d'ouro as tranças desatadas
Ao doce vento estivo;
Os olhos rutilando lume vivo,
As rosas entre a neve semeadas;
O gesto grave e ledo,
Que juntos move em mi desejo e medo.
Hum não sei que suave respirando,
Causava hum desusado e novo espanto,
Que as cousas insensiveis o sentião.
Porque as garrulas aves, entretanto
Vozes desordenadas levantando,
Como eu em meu desejo, s'encendião.
As fontes crystallinas não corrião,
Inflammadas na vista clara e pura;
Florecia a verdura,
Que, andando, co'os ditosos pés tocava;
As ramas se baixavão,
Ou d'inveja das hervas que pizavão,
Ou porque tudo ant'elles se baixava:
O ar, o vento, o dia,
D'espiritos continuos influia.
E quando vi que dava entendimento
A cousas fóra delle, imaginei
Que milagres faria em mi que o tinha:
Vi que me desatou da minha lei,
Privando-me de todo sentimento,
E em outra transformando a vida minha.
Com tamanhos poderes d'Amor vinha,
Que o uso dos sentidos me tirava.
E não sei como o dava
Contra o poder e ordem da natura,
Ás arvores, aos montes,
Á rudeza das hervas e das fontes,
Que conhecêrão logo a vista pura.
Fiquei eu só tornado
Quasi em hum rudo tronco d'admirado.
Despois de ter perdido o sentimento,
D'humano hum só desejo me ficava,
Em que toda a razão se convertia.
Mas não sei quem no peito m'affirmava
Que por tão alto e doce pensamento,
Com razão, a razão se me perdia.
Assi que quando mais perdida a via,
Na sua mesma perda se ganhava.
Em doce paz estava
Com seu contrário proprio em hum sogeito.
Oh caso estranho e novo!
Por alta e grande certamente approvo
A causa, donde vem tamanho effeito,
Que faz n'hum coração
Que hum desejo, sem ser, seja razão.
Despois d'entregue ja ao meu desejo,
Ou quasi nelle todo convertido,
Solitario, sylvestre e inhumano,
Tão contente fiquei de ser perdido,
Que me parece tudo quanto vejo
Escusado, senão meu proprio dano.
Bebendo este suave e doce engano,
A trôco dos sentidos que perdia,
Vi que Amor m'esculpia
Dentro n'alma a figura illustre e bella,
A gravidade, o siso,
A mansidão, a graça, o doce riso.
E porque não cabia dentro nella
De bens tamanhos tanto,
Sahe por a boca convertido em canto.
Canção, se te não crerem
Daquelle claro gesto quanto dizes,
Por o que se lhe esconde;
Os sentidos humanos (lhe responde)
Não podem dos divinos ser juizes,
Senão hum pensamento,
Que a falta suppra a fé do entendimento.