INTERLOCUTORES.

SOLISO e SYLVANO.

SOLISO.

De quanto alento e gôsto me causava

A vista da manhãa resplandecente,

Com que toda a tristeza s'alegrava;

Que quando vinha o sol claro e luzente,

Bem claro então em mi se conhecia

Huma nova alegria differente;

Tanto agora me offende o novo dia,

Vendo que me não mostra a formosura,

De que só me mantinha e só vivia.

E não me quiz deixar triste ventura

Esperanças de mais tornar a vella!

Oh destino cruel! oh sorte dura!

Oh querida Natercia! oh Nympha bella,

Em quem, emfim, mostrou a natureza

O mais que se podia esperar della!

Se lá no assento da maior alteza

Te lembras de quem viste cá na terra,

Para te magoar sua tristeza;

Lembre-te de contino a cruel guerra,

Que contínua me faz tua lembrança,

Esquecido do gado, valle e serra.

Lembre-te que perdi a confiança

De ver os olhos teus, e juntamente

De todo o bem d'Amor toda a esperança.

Lembre-te que por ti de mi ausente

A crystallina fonte me he nojosa,

Com que ja n'outro tempo fui contente.

Que por ti a manhãa clara e formosa

Males cada momento me accrescenta;

Sendo-me em outros dias deleitosa.

Por ti o puro sol me descontenta;

Com seu canto m'offende a Philomella:

Mas, porque nelle chora, me contenta.

Por ti, Natercia pura, Nympha bella,

Na verdura suave deste prado

Os males multiplico só com vella.

Por ti não curo ja do manso gado:

Com o mesmo qu'então meu bem crescia,

Agora vai crescendo o meu cuidado.

Não sou ja, ja não sou quem ser sohia;

Mudou-se-me a vontade co'a ventura;

Mudou-se co'os tormentos a alegria;

Trocou-se o claro dia em noite escura:

Nem he muito que tudo se mudasse,

Pois se mudou a tua formosura.

Não via outro reparo, que cuidasse

Poder aproveitar ao meu tormento,

Nem outra gloria alguma em qu'esperasse,

Senão em quanto o triste pensamento

Se punha a contemplar tua beldade,

Sem lhe lembrar tão longo apartamento.

Agora que me falta a claridade,

Que de ver-te a minha alma recebia,

Ficando-me só della a saudade;

Qual ficará hum'alma, que sabía

Somente desta gloria contentar-se?

Gloria de que gozar não merecia!

Qual poderá ficar quem com lembrar-se

Mortalmente do bem qu'he ja passado,

Só t[~e]e por melhor vida á morte dar-se?

E qual se póde ver quem hum cuidado

Sostem, que he só da dor certa morada,

E nelle vive só desesperado?

Qual ha de ver-se, ó Nympha delicada,

Hum'alma que te via; e em te vendo

O fio lhe cortou a Parca irada?

A causa deste mal eu não a entendo:

Só entendo que, perdida essa luz pura,

Por perdida a não ver, vivo morrendo.

Vejo que me roubou fortuna escura

Hum bem por quem meu mal me contentava:

Lembra-te tu de tanta desventura.

Lembra-te tu, que só de ti'sperava

Remedio aos males meus; e então verás

Qual ficou quem em ti só confiava.

Lembre-te adonde estou, adonde estás,

E que tudo sem ti cá m'aborrece:

Dest'arte o estado meu entenderás.

SYLVANO.

Não sei por que razão nos amanhece

Este dia dos outros differente,

Com que toda a alegria s'entristece.

O manso gado vejo, que contente

Buscando hia nos campos a verdura,

E dos rios a limpida corrente:

Agora triste errar pola espessura,

Alheio d'herva verde e d'ágoa fria;

Sinal d'alguma grande desventura.

Suspensa está das aves a harmonia;

E em certo modo mostra que lá chora

A mesma sequidão da penedia.

A candida, rosada, bella aurora,

Que sempre os altos montes vem dourando,

Com hum pallor mortal se mostra agora.

Está-se nestas hervas enxergando

Tão triste côr, que della se conhece

Que algum mal se nos vai apparelhando.

Emfim, vejo que tudo s'entristece;

A causa ignoro. O ceo piedoso queira

Que menos seja o mal, do que parece.

Porque, desde que habíto esta ribeira,

Não m'acórdo de a ver tão carregada,

Nem de a ouvir murmurar desta maneira.

Não m'acórdo que visse outra alvorada

Tão confusa sahir, como esta vejo,

De profunda tristeza acompanhada.

Agora aqui tomára quem sem pejo

A causa, se a soubesse, m'ensinasse,

Para satisfazer a meu desejo.

Porque não posso eu crer que resultasse

D'alguma baixa causa hum tal effeito,

Que até nos duros montes se enxergasse.

O coração cá dentro no meu peito

M'assegura, que tanta novidade

Não traz a origem de commum respeito.

Mas, por entre a confusa claridade,

Lá vejo vir Soliso com seu gado:

Delle espero entender toda a verdade.

Mas não posso cuidar neste cuidado,

Que nos olhos não mostre onde me chega

A dor de o ver de dores traspassado.

Mas aquelle, que a Amor cruel s'entrega,

Não he muito que passe hum tal tormento;

Porque todo mal dá, todo bem nega.

Em quanto este pastor o pensamento

Logrou, sem qu'em amores o empregasse,

Senão só em buscar contentamento;

Festa não se fazia em que faltasse

A sua frauta, qu'elle assi tangia,

Que outra nunca se ouvio que lhe igualasse.

Ja agora não he aquelle que sohia;

Vejo-o na condição todo mudado;

Mudada tambem delle está a alegria.

Não cura ja do seu querido gado;

Aborrecem-lhe as plantas, hervas, flores;

Aborrece-lhe a gente e o povoado.

Não lhe lembrão as festas dos pastores;

Apartando se vai pola espessura,

Enlevado somente em seus amores.

Contenta-se da noite triste e escura;

Odio t[~e]e com o sol puro e luzente.

Quem vio nunca tamanha desventura?

Com esta vai passando tão contente,

Que diz que, quando o mal mais o atormenta,

Se gôsto sentirp óde, então o sente.

Neste bosque huma Nympha se aposenta,

Por quem elle na vida anda morrendo;

E he causa desta dor que lhe contenta.

E segundo o que delle agora entendo,

Se a vista não m'engana o pensamento,

Ou de vãa phantasia estou pendendo;

Quando fôra maior o grão tormento,

Que Soliso padece, não pudera

Igualar-se com seu merecimento.

Quero chegar-me a elle, em quanto espera

Que vá descendo o vagaroso gado:

Saberei delle o que saber quizera.

Venho, Soliso, a ti com hum cuidado,

Que todo m'entristece; e com grão medo

De grão mal sôbre nós inopinado.

Vês tu como está agora este arvoredo

Triste e pezado, lugubre e sombrio?

Como o vento parece que está quedo?

Vês a commum corrente deste rio

Que ora tanto se pára, ora anda tanto,

Deixando de seu curso o certo fio?

Vês como a Philomella deixa o canto,

Com que incita os pastores namorados,

E multiplica Progne o triste pranto?

E vês, emfim, por todos esses prados

Desmaiadas as hervas, que sohião

Viçoso pasto dar aos nossos gados?

Todos estes sinaes, que não se vião

Nas Auroras a esta antecedentes,

Algum damno mortal nos annuncião.

Eu não sinto o que seja: se o tu sentes,

Não te seja o dizer-mo mui penoso;

E entenderei por ti taes accidentes.

SOLISO.

N'outro tempo me fôra deleitoso

Por extremo, Sylvano, gôsto dar-te;

Mas todo gôsto agora me he nojoso.

Bem quizera poder communicar-te

A causa deste horror; mas antes quero

Anojar-me a mi proprio, que anojar-te.

Porém ja sinto o fado tão severo,

Que quanto mais me ponho a declará-lo,

Mais então d'entendê-lo desespero.

E se acaso o entender para contá-lo,

Se quero começar, quer a ventura

Á fôrça de soluços atalhá-lo.

Que despois que me falta a formosura

Daquella illustre Nympha, que contente

Pudera bem fazer a noite escura,

Foi-me faltando o esprito juntamente:

Em suspirar só gasto a noite e dia,

Sem me fartar de ver-me descontente.

SYLVANO.

Novidade maior em mi sería

O espantar-me de ver-te estar queixando,

Que o ver em ti desejos d'alegria.

Responde-me ao que t'hia perguntando

Da causa desta singular tristeza:

Não gastes todo o tempo lamentando.

SOLISO.

Sempre em ti conheci huma dureza,

E austera inclinação, que bem declara

Quão conforme he teu nome á natureza.

Porque se o meu tormento t'alcançára,

O mor bem para ti o mor mal fôra;

E todo o mal maior te contentára.

Deixa que chore quem com gôsto chora:

Deixa-me lamentar meu triste fado;

Que a hum triste a hora de chôro he melhor hora.

Tu não trazes agora outro cuidado

Mais que buscar no valle a sombra fria,

Quando te offende o sol mais empinado.

Coitado de quem passa a noite e dia

Porfiando em morrer, e a sorte dura

Em fugir-lhe co'a morte só porfia!

Oh formosa Natercia! a excelsa altura

Do glorioso Olympo andas pizando;

E eu ausente da tua formosura!

SYLVANO.

Qu'he isso, que do ceo estás fallando?

Parece-me que ja não es Soliso,

Ou que de puro amar vás delirando.

SOLISO.

Quem ja perdeo aquelle doce riso,

Que siso produzia e dava vida,

Não he muito que perca a vida e siso.

SYLVANO.

Declara-me que cousa tens perdida,

De que tanto te queixas; que ao que sento,

Natercia destes valles he partida.

SOLISO.

Quão livre falla aquelle que o tormento

Alheio vê de fóra, mas não sente

Onde chega tamanho sentimento!

A gloria qu'eu perdi não me consente

Palavras naturaes, razões expertas,

Que possão declarar a dor presente.

Mas nesse teu error vejo que acertas;

Porque com nenhum mal deve turbar-se

Quem só delle esperanças logra certas.

SYLVANO.

A quem, Soliso meu, de declarar-se

Com outro em casos taes falta vontade,

Nunca faltão razões para escusar-se.

Não sei donde te vem tal novidade;

Pois negando-me agora o que te peço,

Suspeito que me negas a amizade.

Se pola que te guardo te aborreço,

Sabe que só hum cego entendimento

Ás amizades faz perder o preço.

Eu te deixarei só com teu tormento;

Mas não sem dor de ver que tanto a peito

Tomes hum tão damnoso pensamento.

SOLISO.

Outra he, certo, a razão, outro o respeito

Que negar-te me fez o que pedias:

Não creias que de ti tão mal suspeito.

Bem sei que o meu descanso pretendias;

E a mesma confiança faz negar-te

O que destes sinaes saber querias.

SYLVANO.

Não queiras mais, Soliso, prolongar-te;

Pois pende o gôsto meu da tua vida:

Se corre risco, dá-me delle parte.

SOLISO.

De todo a sinto ja desfallecida

Nas lembranças daquella breve historia,

Que foi para meus males tão comprida.

Ja me vence a tristissima memoria

Da gloria que presente me animava.

Quem pudera voar traz tanta gloria!

Natercia qu'estes montes alegrava,

E que á casta Diana fez inveja,

E que com sua vista o sol cegava;

Aquella a quem render-se só deseja

Aquelle que de bella mãe presume,

E a quem as armas dá com que peleja;

Natercia, que no mundo foi hum lume,

Onde a belleza de maior estado

Incendios aprendia por costume;

Natercia, por quem ando acompanhado

De mágoa tal, que só da morte dura

Espero o feliz fim de meu cuidado;

Ao ceo se foi co'aquella formosura,

Qu'era mostra do ceo, gloria da terra;

Qu'era o sogeito mor da mor ventura.

Ja não fara no prado ás almas guerra

Com a vista, senão com a lembrança;

Guerra em que o damno mais cruel s'encerra.

Ja de vê-la não tenhas esperança;

Qu'esta vida trocou de mal cercada

Por outra, em que do bem não ha mudança.

E a causa vês aqui de que a alvorada

Visses desta manhãa tão differente

De outra qualquer, de ti mais ponderada.

Dizer-te o mais não posso, porque sente

Est'alma no que disse tal tormento,

Qu'esta memoria apenas me consente.

O espirito ja debil, sem alento,

No pouco que te tenho referido,

Nas azas se sostem do pensamento.

Oh mundo! qual he aquelle tão perdido,

Qu'em ti crê, qual aquelle tão insano,

Vendo-te todo em damno instituido?

Deixas passar hum gôsto d'anno em ano,

Porque, com nosso opprobrio e tua gloria,

Nos faças mais patente o teu engano.

Sempre assi vai comtigo a mor victoria,

Deixando-nos somente por herança

D'hum possuido bem triste memoria.

Quem faz de ti alguma confiança,

Sabendo ja que quem de ti confia,

D'hum engano penoso emfim se alcança?

Aquelle da belleza novo dia

Cegaste, quando mais resplandecente

Triumphos mil d'Amor nos promettia.

De qual tigre cruel peito inclemente

Não se rompe de mágoa, morta aquella,

Que a tristeza mil vezes fez contente?

Quem, que vê eclipsada a vista bella,

Despois de visto haver sua beldade,

E não sabe morrer por hir traz ella?

Como não te applacou tão tenra idade

Ao cortar do seu fio, ó Parca dura,

Que agora o mundo matas de saudade?

Deixae, deixae, pastores, a verdura;

As frautas deixae ja, e os mansos gados;

E chorae todos vossa desventura.

E vós, sylvestres Faunos namorados,

Tambem chorar podeis, pois ja perdêrão

O objecto mais gentil vossos cuidados.

Nymphas, a quem os deoses concedêrão

Destes sagrados bosques a morada,

E em quem tamanhas graças escondêrão;

Se aquella piedade costumada,

De que mais vos prezais, não esquecestes,

Que sempre foi de vós tão venerada;

Se ja d'alheio damno vos doestes,

Do vosso proprio vos doei agora,

Pois com Natercia todo o bem perdestes.

Oh Naiades! das ágoas sahi fóra;

E de vós ágoa saia em mal tão forte,

Pois de vê-lo tambem o monte chora.

Oh Napêas! chorae a triste sorte

Dos miseros pastores, a quem nega

O fado por mais pena o mortal córte.

Oh Dryas! vós, a quem Amor s'entrega,

Tomae todo o cuidado deste pranto,

Pois sabeis onde a causa delle chega.

Deixae, ó Amadryas, entretanto

As plantas que guardais, por ajudar-me,

Pois deixa a Philomella o doce canto.

E vós, ó vida minha, pois curar-me

Ja não podeis, deixae-me juntamente,

Porque lembranças taes possão deixar-me.

Mas se dellas morreis, morro contente.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 351 / 391 题