ERGASTO.
Agora, ja que o Tejo nos redeia,
Neste penedo, donde mansamente
Murmurando se quebra a branda veia,
Espera, Delio, até que do Occidente
D'azul deixe a ribeira matizada
O sol, levando o dia a outra gente.
Entretanto daqui verás pintada
A praia de conchinhas d'ouro e prata,
E a ágoa dos mansos sopros encrespada.
Verás como do monte se desata
A vagarosa fonte por penedos,
Que pouco a pouco cava e desbarata;
E como move os frescos arvoredos
Favonio, que de flores pinta o prado;
E como s'estão rindo os campos ledos.
Ditoso o que do Ceo foi tão amado,
Que no campo alcançou passar a vida,
Livre de pena, livre de cuidado.
O rouxinol na vara, que vestida
De verdes folhas, sombra faz ao rio,
Lhe canta o doce verso sem medida.
Agora ao pé d'hum alamo sombrio
Vê como dous carneiros s'offerecem,
Os cornos inclinando, a desafio.
Como ao que vence todos obedecem
E folgão de o ver fóra de perigo;
E outros com face esquiva o aborrecem.
Ditoso aquelle, que co'o ferro antigo
Lavra os campos do pae, e se contenta,
Nos seus mólhos atando o louro trigo!
Este a furia do mar não exprimenta,
Nem corre, por achar a pedra rica,
A estranha praia, que outro sol aquenta.
Onde, quando a esperança o fortifica
Em adquirir mais ouro e mais riqueza,
Ouro, esperança, e vida a muitos fica.
Este vive quieto na pobreza;
E deste confiarei que a anteponha
A quanto o mundo mais procura e préza.
Comendo em mesa vil, não s'envergonha:
Antes bebe nas mãos a fonte pura,
Qu'em precioso metal cruel peçonha.
Oh feliz tempo d'ouro! Ind'aqui dura,
Inda conversa aqui com os humanos
A Justiça, fugindo á gente impura!
Quem visse bem tão claros desenganos,
E quanto mal nos vicios se apparelha,
No campo gastaria bem os anos.
Ao dia a nossa vida se assemelha,
Porque quando no mar o sol se banha
Se costuma tingir de côr vermelha.
Assi, se olharmos bem, sempre se ganha
Lá no occaso da mal gastada vida
Rubicunda vergonha em mágoa estranha.
DELIO.
A gloria, Ergasto meu, qu'he possuida,
Nunca sabe de nós ser tida em preço:
Só despois que se perde he conhecida.
E desta vida os bens, qu'eu não mereço,
Quando os perco e o mal da outra ja m'espera,
Com grandes mágoas d'alma os reconheço.
Oh se em ditosa sorte me coubera
Por favor ou destino das estrellas,
Qu'entre pastores, eu pastor vivêra!
Muitas vezes t'ouvira as luzes bellas
Cantar da linda Nise, nas quaes arde
Teu peito, sempre ufano d'arder nellas.
Buscae pastor, ovelhas, que vos guarde;
Que o Ceo não quer qu'eu mais vos guarde e conte,
E despois vos recolha, sôbre a tarde.
Nãovos verei saltar junto da fonte,
Cabras minhas, ja meu querido gado,
Nem da rocha pender no verde monte.
ERGASTO.
Consente agora, ó Delio, que chorado
Em triste verso seja apartamento,
Que assi me deixa triste e magoado.
DELIO.
Não: que se dobrará meu sentimento.
Mas se queres, Ergasto, que m'esqueça
Partida, que lembrada he só tormento,
Canta aquelle Soneto, que começa:
_Quantas vezes do fuso s'esquecia_.
Que digas hum dos teus, não sei se o peça.
ERGASTO.
Se com m'ouvir, a dor se te allivia,
Eu o direi. Mas eis cá vem Laureno,
Que a cantar vezes mil me desafia.
Cantando venceo ja Tityro e Almeno:
E eu, inda que sei certo ser vencido,
Apostar a cantar com elle ordeno.
LAURENO.
Ergasto, pois o tempo se ha offrecido,
Celebremos amor e formosura,
Emquanto o gado á sombra está acolhido.
ERGASTO.
Postoque ja a victoria tens segura,
Não cantarei sem preço, porque saia
Mais ledo quem cantar com mais brandura.
LAURENO.
Eu hum vaso porei de lisa faia,
Divina obra de Alceo, que celebrado
Será sempre por claro nesta praia.
A vide, de que em roda está cercado,
Os roxos cachos cobre; e primor teve
Em pôr no meio a Dama e Pan cansado.
Parece que a beija-la o deos se atreve,
E que ainda dos beijos mal soffridos
Inclinado lhe foge o tronco leve.
ERGASTO.
Outro vaso porei d'hera cingido,
No qual Orpheo das aves esquecidas
E dos suspensos bosques he seguido.
Não cuido que de faia são sahidas
De tal arte, lavor de tal maneira:
Tambem obra he d'Alceo, das mais polidas.
Esta, das que me deo, foi a primeira;
Que a dar-ma o velho Alcido emfim s'abranda,
Ouvindo-me cantar nesta ribeira.
Ouvio-m'então, estando desta banda;
E dando-ma, dizia-me: Este seja
O premio, Ergasto, dessa Musa branda.
LAURENO.
Delio o nosso cantar pondere, e veja
Qual dos dous a voz dá mais docemente;
Que huma tal causa tal juiz deseja.
DELIO.
Se o meu juizo cada qual consente,
Tu, Ergasto, ao doce canto dá comêço;
Tu responde, Laureno, juntamente:
E eu fico que nenhum perca o seu preço.
ERGASTO.
Alcida, que na côr o leite puro,
E a rosa da manhãa deixas vencida,
Culpa he dos olhos teus, nelles o juro,
Est'amor de qu'estás tão offendida.
Castiga-os com me verem; qu'eu seguro
Que a vingança será delles sentida:
Nem temas tu d'os meus alegres serem,
Vendo tristes taes olhos por me verem.
LAURENO.
Violante minha, cuja côr iguala,
Mas antes vence os cravos, vence a neve;
Desta dor, que atéqui minha alma cala,
Teu amoroso riso a culpa teve.
Se só por viver della e por amá-la,
Julgas que algum castigo se me deve,
A ver-te sempre rindo me condena,
Pois crescendo o amor mais, mais cresce a pena.
ERGASTO.
Com a mãe, que maçãas colhendo andava,
Inda pequena, a bella Alcida vinha:
Eu os ramos da terra ja tocava,
Ja facil para amar o tempo tinha.
Não sei que fogo ou neve se passava
Daquelles olhos seus a est'alma minha,
Que me deixárão pôsto em tal extremo,
Que até de cuidar nelles ardo e tremo.
LAURENO.
No bosque a Violante vi hum dia,
Doce princípio destas doces dores;
A flor cahia nella, e parecia
Dizer cahindo: Aqui reinão amores.
Humilde em tanta gloria ella se ria,
E errando hião sôbre ella as várias flores:
Eu, que vencido fui d'hum error cego,
Áquelle honesto riso est'alma entrego.
ERGASTO.
Pastores deste bosque, que buscais,
Anoitecendo, o lume por costume;
Chegae a mi; qu'eu fico, se chegais,
Que destes meus suspiros leveis lume.
Accesos sahem d'alma os doces ais
No ardor, que pouco a pouco me consume;
Mas nem as chammas, qu'em suspiros deito,
Accendérão jamais hum frio peito.
LAURENO.
Pastores, que buscais na sombra amada
A fonte, por fugir o ardor do estio,
Vinde a mi, porque d'ágoa destillada
Por meus olhos, se sólta hum largo rio;
Tal, que a sêde d'Amor nunca apagada,
Fartá-la ja de lagrimas confio.
Mas com chôro de tanta quantidade
Não movo aquelles olhos a piedade.
ERGASTO.
Se quando a minha Alcida est'alma visse
Nos meus olhos, d'Amor tão maltratada;
Se quando a grave dor fóra sahisse
Entre suspiros mil rôta e quebrada,
Sequer com brandos olhos m'admittisse,
Ficando de vergonha mais córada;
Ditoso fôra, vendo-a, juntamente
Com ser mais bella, deste amor contente.
LAURENO.
Se á vista de Violante derramadas
As lagrimas d'amor, que vive nellas,
Tal fôrça lhe fizessem, que orvalhadas
Lhe ficassem de dor ambas estrellas,
E as rosas entre a neve semeadas,
Co'o piedoso orvalho, inda mais bellas;
Ditoso me fizera. Hora ditosa,
Se a víra ser mais bella e ser piedosa!
ERGASTO.
Claros olhos, que ao sol fazeis inveja,
Que brandos vos mostreis ja vos não peço;
Mas que poder-vos ver paga me seja,
Se por tamanho amor tanto mereço:
Armados d'esquivança então vos veja
Cheios d'hum não sei que, com que pereço;
Que doce me será tal esquivança.
Doce o morrer, qu'em olhos taes s'alcança!
LAURENO.
Olhos, que vos moveis tão docemente,
Que traz vós todo o mundo ides levando,
Eu não sei se tomais do ceo luzente
O movimento seu, se lho estais dando:
Sei certo (e não m'engano,) sei somente
Que a vós de mi minh'alma ides passando:
Mas não posso entender como deixais
Ao descuido o que vós em vós levais.
ERGASTO.
Por mais que a minha soberana Alcida
(Minha não, porque só sua belleza
Vem a ser minha em ser de mi querida)
Me trate vezes mil com aspereza;
Huma só vez que della acho admittida
Minha pequena vista na grandeza
Da luz do rosto seu, sinto tal gloria,
Que de todo o penar perco a memoria.
LAURENO.
Quando a minha mais que unica Violante
(Se minha póde ser a que he tão sua)
Aquella santa luz hum breve instante
Me deixa ver, por mais que a veja crua;
A vista tanto em mi vejo a diante,
Que não he muito, não, que m'attribua
A soberba de ser hum'aguia nova,
Que do ceo no ôlho claro a vista prova.
DELIO.
Pastores, que alcançar pudestes tanto
Com vossa branda Musa, que ja nesta
Idade renovais o antigo canto;
Para vosso louvor, que verso presta?
Qu'hera digna será? que louro dino
Qu'em premio a cada qual adorne a testa?
Em parte paga Amor, se de contino
Por dentro a cada hum gasta os espritos,
Pois co'o divino canto o faz divino.
Nós veremos por annos infinitos
Nos altos troncos destas faias bellas
Os nomes vossos por memoria escritos.
De unicas flores mereceis capellas:
T[~e]e Alcida e Violante sós taes flores;
E, pois ellas as t[~e]e, dem-vo-las ellas.
Os vossos premios recolhei, pastores:
Cada qual igualmente o seu merece;
E ambos d'Apollo os mereceis maiores.
Recolhamos o gado; que anoitece.