ECLOGA XIII.

_Phyllis._

Pascei, minhas ovelhas: eu, em quanto

Aquelle passarinho canta ou chora,

Chamarei Corydon com triste pranto.

Se entre vós, bellas plantas, amor mora

(Plantas, ja vós amastes) tende mágoa

De mi, pois que m'ouvis queixar agora.

Ai cruel Corydon! cruel a frágoa

Em que vivo por ti! Não tens piedade

Dever meu peito fogo, os olhos ágoa?

Ja não amas a Phyllis? Ah crueldade!

Ai triste! E que farei? Em poucos dias

Mudaste tu de mi tua vontade.

A Phyllis ja deixaste, a quem trazias

No formoso verão formosas fruitas,

Sinal do grande bem que me querias?

Sabes, cruel, que tenho causas muitas

Para te convencer, de que queixar-me;

Por isso vás fugindo e não me escuitas.

Puderão os teus rogos abrandar-me:

Os meus (triste de mi!) mais te endurecem.

Ja não acho em que possa confiar-me.

Aquelles doces versos ja t'esquecem,

Que tu nos lisos álamos cortavas,

Onde com teus enganos inda crescem?

Arder por meu amor nelles mostravas:

Eu, crendo que era assi, não entendia

Quanto fingiste amar, quão pouco amavas.

Tristes meus fados forão, triste o dia

Em que nasci: coitada de mi triste,

Qu'em mágoa se tornou minha alegria!

Logo que a tua Galatêa viste,

Vi eu deste meu mal grandes agouros;

E tu da parte esquerda hum corvo ouviste.

E não t[~e]e Galatêa mais thesouros,

Nem t[~e]e mais formosura, inda que seja

Ou d'alvo rosto, ou de cabellos louros.

Á negra violeta t[~e]e inveja

O branco lirio, porque tal não tem

O cheiro, que vencido não se veja.

Tityro arde por mi; Tityro, a quem

Mil Nymphas dão capellas de mil flores;

Mas elle a mi só chama, a mi quer bem.

Eu desprézo por ti muitos pastores,

E tu por Galatêa me desprezas!

Tal pago dás, cruel, a meus amores?

Em que te mereci tantas cruezas,

Quantas usas comigo? Por ventura

Usei comtigo d'ira, ou d'asperezas?

Prouvera a Deos que tão isenta e dura

Me víras para ti, que nunca víras

Em mi sinal d'amor, ou de brandura!

S'eu fugíra de ti, tu me seguiras;

Por mi ardêras, não por huma ingrata,

Por quem choras em vão, em vão suspiras.

Bem me vinga de ti, pois te maltrata:

Mas eu te quero tanto, que desamo

(Por mais que tu me mates) quem te mata.

Respondem-me estes montes, quando chamo

Por ti com triste voz; Ecco responde

Das lagrimas, movida, que derramo.

E tu não me respondes, nem sei onde

Te leva esse desejo; mas bem sei

Que amor e desamor de mi t'esconde.

Ai triste Phyllis! triste! Onde acharei

Remedio a tanto mal? O fogo puro

Em que m'abrazo, com que abrandarei?

Ja fugíra daqui por mais que duro

Fosse o deixar o ninho em que nasci:

Mas não ha contra Amor lugar seguro.

A morte só (mil vezes isto ouvi

Á nossa Celia) por remedio espere

Aquelle que a Amor fez senhor de si.

Então, porque de todo desespere,

Este cego, a quem cegos nós seguimos,

A mi por ti, e a ti por outra fere.

S'eu morrêra no ponto em que nos vimos,

Não víra tanto mal. Mas que da sua

Sorte fugisse alguem, nós nunca ouvimos.

Eu me queixo de ti, e tu da tua

Galatêa te queixas; e não vês

Que mais piedosa te he, quando mais crua.

Sendo tu tão cruel, (tão cego es!)

Queres achar piedade? Como queres

Que te creião teu mal, se o meu não crês?

Qu'eu viva com pezar, tu com prazeres,

Não quer o justo Ceo. Ou ambos tristes,

Ou ledos ambos, si: mais não esperes.

Selvas, que n'outro tempo nos cobristes

Com frescas sombras lá do ardor de cima,

Dizei, se a Corydon dizer ouvistes:

Primeiro ha de tornar o brando Lima

As ágoas de crystal á fonte clara,

Que no meu peito novo amor s'imprima.

Primeiro qu'eu te deixe, Phyllis chara,

Me ha de deixar a mi a propria vida.

Mas quem, por não deixar-te, a não deixára!

Pois tu, Phyllis, ma dás, eu offrecida

A tenho a teu querer; tu della ordena

Como, doce amor meu, fores servida.

Por ti me será branda a dura pena;

Por ti suave a dor, leve o tormento,

A que m'inclina o fado, ou me condena.

Ah falso Corydon! teu pensamento

Era enganar-me: dada a fé me tinhas;

E a fé co'as palavras leva o vento.

Mas (ai triste de mi!) tambem as minhas

O vento vai levando. O sol he pôsto.

Porque, ligeira luz, te não detinhas,

Em quanto em meu queixume achava gôsto?

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 346 / 391 题