_Meliso._
Encheo do mar azul a branca praia
Meliso pescador de mil querellas;
Meliso, que por Lilia arde e desmaia.
Despois que á luz da lua e das estrellas,
Sôbre dura fatexa o barco pôsto,
As redes recolheo, remos e velas:
Que gôsto, ó Lilia, (disse) ou que desgôsto
Te move a me negar, vendo qual ando,
Teus olhos côr do ceo, teu alvo rosto?
Se tu queres que pene desejando,
Se queres que no mar em fogo viva;
Ardendo sempre estê, sempre penando.
Mas ólha, ó branda Lilia, (antes esquiva)
Que não merece ser tão mal tratada
Hum'alma desses olhos tão captiva.
Vives dos meus cuidados descuidada:
Coitado de quem traz a duvidosa
Vida no mar e terra aventurada!
Bem podes com razão ser piedosa
Com quem não quer mor bem, que bem quererte,
Não sendo tão cruel como es formosa.
Ora deixa ja, ingrata, deixa ver-te
A meus cansados olhos, que de tantas
Lagrimas são movidos, sem mover-te.
Se tu me vences, e se tu m'encantas
Com tua doce falla, doce riso,
Porque foges de mi? porque te espantas?
Lembre-te a formosura de Narciso,
E qual pago lhe deo seu desamor:
Ólha que com amor disto te aviso.
Mas quando essa crueza tanta for,
Que mereça do ceo novo castigo,
Qual herva será digna de tal flor?
Amor que me persegue, Amor que sigo,
Me faz d'hum grave mal andar temendo;
D'hum mal, qu'eu sinto na alma e que não digo.
Quanto mais ledo ja te estive vendo
Aqui as mansas ondas esperando,
Que por chegar a ti vinhão correndo,
E da molhada areia despegando
Com a candida mão roxas conchinhas,
A fórma do teu pé nella deixando?
Daquellas, de que tu mais gôsto tinhas,
Muitas te trago aqui, postoque temo
Que menos o terás por serem minhas.
Hum temor tal me chega a tal extremo,
Que, vencido d'hum triste esquecimento,
No mar me cahe da mão o duro remo.
E quando a branca vela sólto ao vento,
Tão descuidado vou do fiel leme,
Que me leva a perder meu pouco tento.
Mas quem arde por ti, quem por ti treme,
Os seus maiores riscos não receia,
Os teus que sente mais, muito mais teme.
Despois que te não vi, (não sei que creia
Desta tardança tua e morte minha)
Sendo a lua vazia, he quasi cheia.
O tempo, que nos gostos passa asinha,
Detem-se neste mal da saudade,
Por me dobrar a dor que d'antes tinha.
Não desprezes, ó Lilia, huma vontade,
Que por te contentar tudo despreza,
Tudo julga, sem ti, por pouquidade.
Se pretendes amor, ja tens certeza
Que não podes ser nunca mais amada
Dos que vencidos traz tua belleza.
Se por ventura estás affeiçoada
A gentil parecer, a bom engenho,
A ninguem nestas partes devo nada.
Se fazes caso d'honra, ólha que venho
De geração d'honrados pescadores;
Se de riqueza, barco e redes tenho.
Por erros julgarás estes louvores;
E oxalá não os julgues por doudice!
Mas quem siso quer ter não tenha amores.
E mais tudo foi pouco quanto disse,
Pondo os olhos no muito que meu fado
Nos teus, que ver desejo, quiz que visse.
Aconteceo-me hum caso desusado,
(Inda que d'huma cousa n'outra salto)
Digno, por ser de amor, de ser contado.
Pescando hontem á tarde no mar alto,
Suspenso nessa rara formosura,
A quem com mil lembranças nunca falto,
Comecei a cantar: Lilia, mais dura
Que a mais inculta rocha rodeada
Do mar, de cujo encontro está segura;
Mais alva que jasmins, e mais córada
Que purpureas serejas polo Maio;
Mais loura que manhãa desentrançada;
Não vês... dizer queria que desmaio,
Quando (cousa que mal me será crida)
No mar, vencido d'hum, do barco caio?
Alli tivera fim a triste vida,
Se d'hum brando delfim, que me escuitava,
Não fôra, por ser tua, soccorrida.
Parece que tambem vencido estava
Do mal, de que me via andar vencido,
Quem em tamanho risco m'ajudava.
Trouxe-me sôbre si adormecido,
Nadando ao som das ondas mansamente,
Até que me sentio em meu sentido.
Livre deste mortal, bravo accidente,
Tal foi o espanto meu, tal meu temor,
Que d'outro me livrei escaçamente.
Mas logo o amoroso nadador
Me poz junto do barco, que tão perto
Esteve de ficar sem pescador.
O sol era de todo ja coberto,
Quando eu, entrando nelle, sahi fóra
Do perigo, onde tive o fim tão certo.
Porém outro maior me cansa agora,
De que mal sahirei, se te não vir
Amanhecer aqui co'a nova aurora.
Não póde ella tardar em descobrir
As suas louras tranças dasatadas,
Das quaes as tuas bem se podem rir.
Pois por cima das ondas, acordadas,
As Halcyoneas ouço lamentar-se,
Do seu antigo damno inda lembradas.
E sinto o fresco orvalho derramar-se
Mais congelado e frio; e Venus bella
Polo Oriente ja vejo levantar-se.
Bem podes, Lilia, competir com ella,
E com Pallas e Juno em gentileza;
Em amor não, pois elle nasceo della:
Desterrou-o de ti tua aspereza,
Que desterra de mi prazer e vida,
Deixando em seu lugar mágoa e tristeza.
No silencio da noite, que convida
A descanso commum, tanto me cança,
Que não sei se remedio ou morte pida.
Se tu quizesses dar-me huma esperança
De te servir de mi ou tarde, ou cedo,
Nunca me negaria o mar bonança.
Polas inchadas ondas, que põe medo,
Eu só, sem mais ajuda, levaria
Sempre á fôrça de braço o barco quedo.
Tão seguro por ellas andaria,
Como polo seu campo o lavrador
No mais quieto, claro e bello dia.
Ólha que não ha destro pescador,
Que mais manhoso as redes desencolha,
Nem os tortos anzoes isque melhor.
Os peixes deixarei em tua escolha:
Aquelles de que fores mais amiga,
Nunca te faltarão de fôlha a fôlha.
Não sei, Lilia formosa, que mais diga,
Que mova amor em ti, que mova mágoa;
Sei que mágoa, e que amor a mais obriga.
Mas antes que o sol dê naquella frágoa,
Onde meus ais dilata a triste Ecco,
Vou-me segurar mais o barco na ágoa,
Porque de baixa mar não fique em sêcco.