ECLOGA V.

_Falla hum só pastor._

A quem darei queixumes namorados

Do meu pastor queixoso e namorado?

A branda voz, suspiros magoados,

A causa porque n'alma he magoado?

De quem serão seus males consolados?

Quem lhe fara devido gasalhado?

Só vós, Senhor famoso e excellente,

Especial em graças entr'a gente.

Por partes mil lançando a phantasia,

Busquei na terra estrella, que guiasse

Meu rudo verso; em cuja companhia

A santa piedade sempre andasse

Luzente e clara, como a luz do dia,

Que o rudo engenho meu m'allumiasse;

E em vossas perfeições, grão Senhor, vejo

Ainda além cumprido o meu desejo.

A vós se dem, a quem junto se ha dado

Brandura, mansidão, engenho e arte,

D'hum esprito divino acompanhado,

Dos sobrehumanos hum em toda parte:

Em vós as graças todas se hão juntado;

De vós em outras partes se reparte.

Sois claro raio, sois ardente chama;

Gloria e louvor do tempo, azas da fama.

Em quanto eu apparelho hum novo esprito,

E voz de cysne tal, que o mundo espante,

Com que de vós, Senhor, em alto grito

Louvores mil em toda parte cante;

Ouvi o canto agreste em tronco escrito,

Entre vaccas e gado petulante:

Que quando tempo for, em melhor modo

Ha de m'ouvir por vós o mundo todo.

As vãas querellas, brandas e amorosas,

Sejão de vós tratadas brandamente;

Verdades d'alma pouco venturosas,

Sahidas com suspiro vivo e ardente:

Em vossas mãos s'entregão valerosas,

Porqu'ao futuro vivão entr'a gente,

Chorando sempre a antigua crueldade,

Para mover as almas a piedade.

Ja declinava o sol contra o Oriente,

E o mais do dia ja era passado,

Quando o pastor co'o grave mal que sente,

Por dar allívio em parte a seu cuidado,

Se queixa da pastora docemente,

Cuidando de ninguem ser escutado.

Eu que o escutei, n'huma árvore escrevia

As mágoas que cantou; e assi dizia:

Ou tu do monte Pindaso es nascida,

Ou marmor te pario formosa e dura:

Não póde ser que fosse concebida

Dureza tal de humana creatura:

Ou quiçá qu'es em pedra convertida,

Ou tens da natureza tal ventura;

Porém não fez em ti boa impressão,

Só de marmor tornar-te o coração.

Ja, ja com minha voz rouca e chorosa

A gente mais austera moveria;

E com esta corrente lagrimosa

Os tigres em Hyrcania amansaria.

Se não fosses cruel, quanto formosa,

Meu longo suspirar t'abrandaria:

Mas suspirar por ti, mas bem querer-te,

Que fazem senão mais endurecer-te?

Se deixáras vencer a crueldade

De tua tão perfeita formosura;

Hum pouco víras bem minha vontade,

E víras a fé minha, limpa e pura,

Por ventura, que houveras ja piedade,

E tivera eu quiçá melhor ventura:

Mas nunca achou igual tua belleza,

Se não se foi em ti tua dureza.

Ja hum peito abrandára, que não sente,

Este meu grave mal, segundo he forte;

Se descêra do inferno ao Polo ardente,

A piedade movêra a propria morte.

Pois se huma gotta d'agua brandamente

Torna brando hum penedo, duro e forte,

Tantas lagrimas minhas não farão

Hum pequeno sinal n'hum coração?

Na testa fonte viva tenho d'ágoa,

Que por meus olhos tristes se derrama;

E no peito de fogo viva fragoa,

Que tudo em si converte, tudo inflama:

Amor em de redor, por maior mágoa,

Voando mais accende a ardente chama.

Se queres ver se ardentes são seus tiros,

Ólha se são ardentes meus suspiros.

Quando grita e rumor grande se sente,

Porque fogo se ateia em casa, ou torre,

De pura compaixão vai toda a gente,

Ágoa ao fogo gritando; e cada hum corre.

Dest'arte anda o meu peito em chamma ardente,

E com a ágoa dos olhos se soccorre;

Que quem me abraza, outra ágoa me defende,

Porque com esta o fogo mais se accende.

Quando vemos que sahe lá no Oriente

O sol, seu curso antigo começando,

Formoso, intenso, puro, refulgente,

O monte, o campo, o mar, tudo alegrando;

Quando de nós s'esconde no Ponente,

E em outras terras sahe, allumiando,

Sempre, em quanto vai dando ao mundo giro,

Chórão por ti meus olhos, e eu suspiro.

Caminha o dia todo o caminhante,

E, emfim, lhe chega a noite, em que descança;

Trabalha na tormenta o navegante,

Traz-lhe a clara manhãa feliz bonança;

Recobra o fructo fertil e abundante

Da terra o lavrador, se nella cança:

Mas eu de meu cuidado e mal tão forte

Tormento espero só, só crua morte.

D'ouvir meu damno as rosas matutinas,

Condoidas se cerrão, s'emmurchecem;

Com meu suspiro ardente as côres finas

Perdem o cravo, o lyrio, e não florecem.

Co'a roxa aurora as pallidas boninas,

Em vez de se alegrarem, s'entristecem:

Deixão seu canto Progne e Philomena;

Que mais lhes doe, que a sua, a minha pena.

Responde o monte concavo a meus ais,

E tu como aspid, cerras-lhe o ouvido;

Os indomitos feros animais,

Sem humano sentir, mostrão sentido:

Mas em ti minhas dores desiguais

Nunca movem o peito endurecido:

Por muito que te chame, não respondes;

E quanto mais te busco, mais t'escondes.

Naquella parte donde costumavas

Apascentar meus olhos e teu gado;

Alli donde mil vezes me mostravas,

Qu'era o pastor de ti mais desejado,

Vezes mil te busquei, por ver se davas

Algum breve descanso a meu cuidado.

Busco-te em vão no valle, em vão no monte,

Qual o ferido cervo busca a fonte.

Este lugar de ti desamparado,

Com cujas sombras frias ja folgaste,

Agora triste, escuro he ja tornado;

Que todo o bem comtigo nos levaste.

Eras tu nosso sol mais desejado;

Não temos luz, despois que nos deixaste.

Torna, meu claro sol; torna, meu bem:

Qual he o Josué que te detém?

Despois que deste valle t'apartaste,

Não pasce ja algum gado, com seccura;

Seccou-se o campo, des que lhe negaste

Dos teus formosos olhos a luz pura;

Seccou-se a fonte, donde ja te olhaste,

Quando menos, que agora, aspera e dura;

Nega sem ti a terra, ouvindo gritos,

Ás cabras pasto e leite a os cabritos.

Sem ti, doce cruel minha inimiga,

A clara luz, escura me parece:

Este ribeiro, quando a dor m'obriga,

Com meu chorar por ti contino crece.

Não ha fera, a que a fome não persiga;

Algum prado sem ti ja não florece:

Cegos estão meus olhos; nada vem,

Porque não podem ver seu claro bem.

O campo, como d'antes, não s'esmalta

De boninas azues, brancas, vermelhas;

Falta ágoa ao pasto, e sentem d'ágoa a falta

As candidas pacíficas ovelhas:

Bem conhecem tambem que o ceo lhes falta

As doces e solícitas abelhas:

Com lagrimas, que manão dos meus olhos,

A terra nos produz duros abrolhos.

Torna pois ja, pastora, ao nosso prado,

Se restituir-lhe queres a alegria:

Alegrarás o valle, o campo, o gado,

E aquelle espelho teu da fonte fria.

Torna, torna, meu sol tão desejado,

Faras a noite escura, claro dia;

E alegra ja esta vida magoada,

Em que só tua ausencia he Parca irada.

Vem, como quando o raio transparente

Deste nosso horizonte, qu'escondido,

Deixa hum certo temor á mortal gente,

Causado de ver o Orbe escurecido;

E quando torna a vir claro e luzente,

Alegra o mundo todo entristecido:

Que assi he para mi tua luz pura

Claro sol, como a ausencia noite escura.

Mas tu 'squecida ja do bem passado,

E do primeiro amor, que me mostraste,

Teu coração de mi t[~e]es apartado,

Não menos que do valle t'apartaste.

Não te quero eu a ti mais qu'a meu gado?

Não sou eu mesmo aquelle que tu amaste?

Onde o meu êrro viste, ou desvario,

Que pôde merecer-te hum tal desvio?

Bem vês que por Amor se move tudo,

E que delle não ha quem seja isento;

O mais simple animal, mais baixo e rudo,

O demais levantado pensamento:

Debaixo d'ágoa fria o peixe mudo

Tambem lá t[~e]e d'ardor seu movimento.

Pois as aves, que no ar cantando vôão,

Não menos humas d'outras s'affeiçôão.

A musica do leve passarinho

Que sem concêrto algum sólta e derrama,

De hum raminho saltando a outro raminho,

Mostra que por amor suspira e chama.

Em quanto no secreto amado ninho

Não acha aquelle, que só busca e ama,

No canto, a nós alegre, triste chora,

Porque teme perder a quem namora.

A fera, que he mais fera, e o leão,

Sempre acha outro leão, sempre outra fera,

Em quem possa empregar huma affeição,

Que o conversar no peito seu lhe gera:

Tambem sabe sentir sua paixão,

Tambem suspira, morre, desespera;

Acena, salta, brada, ferve e geme;

E não temendo a nada, a Amor só teme.

O cervo, qu'escondido e emboscado,

Temendo ao cobiçoso caçador,

Está na selva, monte, bosque, ou prado,

Alli donde anda e vive, vive amor.

De temor e d'amor acompanhado,

Com justa causa amor t[~e]e e temor:

Temor a quem para feri-lo vinha,

Amor a quem ja, ja ferido o tinha.

Pois se a fera insensivel, que não sente,

Tambem sente d'Amor a frecha dura,

Porqu'a ti não t'abranda hum fogo ardente,

Que procede da tua formosura?

Porqu'escondes a luz do sol á gente,

Que nesses olhos trazes bella e pura?

Mais pura, mais suave, mais formosa,

Que, lyrio, que jasmim, que cravo e rosa.

Póde ser, se me visses, que sentiras

Ver liquidar hum peito em triste pranto;

E bem pouco fizeras, se me viras,

Pois eu só por te ver suspiro tanto:

As mágoas, os suspiros, que m'ouviras

Te puderão mover a grande espanto,

A dor, a piedade, a sentimento,

E a mais, que para mais he meu tormento.

Os pensamentos vãos, que o vento leve:

O suspirar em vão tambem ao vento;

Hum esperar á calma, á chuva, á neve,

E nunca poder ver-te hum só momento;

Tormento he, que somente a ti se deve.

E se póde inda haver maior tormento,

Quem te vio, e se vê de ti ausente,

Muito mais passará mais levemente.

Faz mossa a pedra dura em sua dureza

Com a ágoa que lhe toca brandamente;

Abranda o ferro forte a fortaleza,

Se lhe toca tambem o fogo ardente:

Em ti só desconheço a natureza;

Que, a ser de pedra ou ferro totalmente,

Ja teu peito cruel fôra desfeito

Das ágoas e das chammas do meu peito.

Quando a formosa Aurora mostra a fronte,

Alegra toda a terra, vendo o dia;

Quando Phebo apparece no horizonte,

Manifesta tambem grande alegria;

Contente pasce o gado ao pé do monte,

Contente a beber vai na fonte fria:

Está tudo contente, alegre tudo;

Eu só, só pensativo, triste e mudo.

Se ja d'alma e do corpo tens a palma,

E do corpo sem alma não tens dó,

Ha dó do corpo só, qu'está sem alma,

Pois sem alma não vive o corpo só.

Nas chammas e no ardor, no fogo e calma,

Na affeição, no querer eu sou hum só:

Não acharás vontade tão captiva;

Nem outra como a tua tão esquiva.

Se te apartas por não ouvir meu rôgo,

Onde estiveres te hei d'importunar:

Postoque vás por ágoa, ferro, ou fogo,

Comtigo em toda parte m'has d'achar;

Que o fogo em que ardo, e a ágoa em que m'affogo,

Emquanto eu vivo for, hão de durar;

Pois o nó, que m'enlaça, he de tal sorte,

Que não se ha de soltar em vida, ou morte.

Neste meu coração sempr'estaras,

Emquanto a alma estiver com elle unida:

Tambem o meu esprito possuirás

Despois que a alma do corpo for partida.

Por mais e mais que faças, não faras

Que deixe o amar-te nesta e ess'outra vida:

Impossivel sera qu'eternamente

Ausente estês de mim, estando ausente.

Cá m'acompanhará vossa memoria,

Se o rio, que se diz do esquecimento,

Da minha não borrar tão longa historia,

Tão grave mal, tão duro apartamento.

Até quando vos veja entrar na gloria,

Viverei n'hum contino sentimento:

E ainda então vereis (s'isto ser possa)

Esta minh'alma lá servir a vossa.

Aqui com grave dor, com triste accento,

Deo o triste pastor fim a seu canto:

Co'o rosto baixo e alto o pensamento,

Seus olhos começárão novo pranto:

Mil vezes parar fez no ar o vento,

E apiedou no ceo o coro santo:

As circumstantes sylvas s'inclinárão,

Condoidas das mágoas qu'escutárão.

Com h[~u]a mão na face, reclinado,

Tão enlevado em sua dor estava,

Que, como em grave somno sepultado,

Não via que ja o sol no mar entrava.

Berrando andava em roda o manso gado,

Que o seguro curral ja desejava:

Nas covas as raposas, e em seus ninhos

Se recolhem os simples passarinhos.

Ja sôbre hum sêcco ramo estava pôsto

O mocho com funesto e triste canto:

Ao som delle o pastor ergueo o rosto,

E vio a terra envolta em negro manto.

Quebrando então o fio de seu gôsto,

E o fio não quebrando de seu pranto,

Por não se descuidar de seu cuidado,

Levou para os curraes o manso gado.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 329 / 391 题