CXLVIII.

Se me vem tanta gloria só de olhar-te,

He pena desigual deixar de ver-te;

Se presumo com obras merecer-te,

Grão paga de hum engano he desejar-te.

Se aspiro por quem es a celebrar-te,

Sei certo por quem sou que hei de offender-te;

Se mal me quero a mi por bem querer-te,

Que premio querer posso mais que amar-te?

Porque hum tão raro amor não me soccorre?

Oh humano thesouro! oh doce gloria!

Ditoso quem á morte por ti corre!

Sempre escrita estaras nesta memoria;

E esta alma viverá, pois por ti morre,

Porque ao fim da batalha he a victoria.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 180 / 391 题