CII.

De amor escrevo, de amor trato e vivo;

De amor me nasce amar sem ser amado;

De tudo se descuida o meu cuidado,

Quanto não seja ser de amor captivo:

De amor que a lugar alto voe altivo,

E funde a gloria sua em ser ousado;

Que se veja melhor purificado

No immenso resplandor de hum raio esquivo.

Mas ai que tanto amor só pena alcança!

Mais constante ella, e elle mais constante,

De seu triumpho cada qual só trata.

Nada, em fim, me aproveita; que a esperança,

Se anima alguma vez a hum triste amante,

Ao perto vivifica, ao longe mata.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 134 / 391 题