LXXXV.

Foi ja n'hum tempo doce cousa amar,

Em quanto me enganou huma esperança:

O coração com esta confiança

Todo se desfazia em desejar.

Oh vão, caduco e debil esperar!

Como, em fim, desengana huma mudança!

Que quanto he mor a bem-aventurança,

Tanto menos se crê que ha de durar.

Quem ja se vio com gostos prosperado,

Vendo-se brevemente em pena tanta,

Razão t[~e]e de viver bem magoado.

Mas quem ja t[~e]e o mundo exprimentado,

Não o magôa a pena, nem o espanta;

Que mal se estranhára o costumado.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 117 / 391 题