Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquella alma me apparece,
Que para mim foi sonho nesta vida.
Lá n'uma soidade, onde estendida
A vista pelo campo desfallece,
Corro apos ella; e ella então parece
Que de mim mais se alonga, compellida.
Brado: Não me fujais, sombra benina.
Ella, os olhos em mim co'um brando pejo
Como quem diz que ja não pode ser,
Torna a fugir-me: tórno a bradar: _Dina_...
E antes que diga _mene_, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.
Diante deste desapparece toda a caterva de Sonetos que tem inundado Italia
e Hespanha. Impossivel parece que com palavras tão vulgares se podesse
pintar tão bella imagem, exprimir tal sentimento. Da outra banda do Lethes,
confinando com os Elysios, descortinou a imaginação de Virgilio umas
dilatadas campinas, a que na sua Lingua Latina chamou _Lugentes campi_, que
o nosso Franco Barreto traduzio: _Campos sem luz_, e nós diremos: _Campos
da Saudade_. Nestes campos e pela mesma Saudade parece que foi ditado este
maravilhoso Soneto, que em nossa fraca opinião inda não foi igualado, nem
será nunca excedido. E como este puderamos citar muitos.
Nas Canções deixou a perder de vista a Petrarca, Bembo, e a quantos a
este genero de composição se tem dado: o que melhor poderá ver quem
quizer comparar umas com outras.
Nas Odes, como em todo outro genero de poesia, todos sabem que ha diversos
estilos para os diversos assumptos. O que a cada um destes convem, a mesma
natureza delle o indica; e tanto erraria o que descrevesse um prado
florido, um ribeiro socegado, as graças de uma pastora, ou Diana exercendo
as dansas e choreas de suas nymphas pelos cabeços do monte Cynthio, no
mesmo estilo em que se deve descrever o mar impetuoso, o combate dos
Athletas, ou Jove fulminando os gigantes, como vice versa. Pindaro,
Anacreonte, e Horacio são os tres poetas que neste genero se nos propõe por
modelos. Mas que differença de estilo entre Horacio, Anacreonte, e Pindaro!
Certamente não he menor que a que vai do bucolico ao lyrico, ou do lyrico
ao epico. O nosso Camões, profundo conhecedor da natureza, e mestre em
todos os estilos, habilmente soube escolher aquelle que mais convinha ás
materias que tratava, sempre natural e facil, sempre elegante e florido, e
muitas vezes sublime. E as suas Odes, ainda que não tenhão o requisito, que
hoje se tem por essencial, de serem inintelligiveis, são pelos entendedores
summamente louvadas, e até não falta quem as prefira ás Canções; mas desta
opinião não somos, ainda que pensamos com Faria e Sousa, que a 4.ª, 6.ª,
9.ª e 10.ª tarde serão excedidas; e o mesmo diriamos da 1.ª se não andára
viciada.
No estilo bucolico, de que o poeta parece mais se aprazia, e em que des de
a puericia exerceo a sua Musa, he onde alguns lhe querem negar a palma,
para a concederem a Bernardes. Verdade he que Bernardes, depois da morte de
Camões, appareceo em publico mui bem ataviado; mas os que lhe conhecião os
cabedaes, admirados de o verem tão ricamente vestido, logo disserão uns
para os outros: _Donde vem a Pedro fallar gallego?_ e Manoel de Faria e
Sousa o chamou a juizo, e convencendo-o de furto, o condemnou a despir na
praça e restituir a seu dono parte dos vestidos roubados; sendo justo e de
razão que quem o alheio veste, na praça o dispa. Mas deixando a Bernardes
para outro processo, que intentamos fazer-lhe sobre estes mesmos roubos,
passemos a examinar se he ou não exacto o juizo, que Luis de Camões se não
mostrára tão grande poeta no genero pastoril, como no lyrico e heroico.
Surropita no seu prologo á primeira edição das Rimas foi o primeiro que
emittio esta opinião desfavoravel ao poeta, quanto ao estilo bucolico,
dizendo, depois de o louvar devidamente nos mais: _Oxalá pudera humilhar
a grandeza do seu engenho, conformando-se mais com o estilo bucolico!_
Da mesma sorte o julgou Faria e Sousa, a quem seguírão depois o Padre
Thomaz de Aquino e outros, que sem se darem ao trabalho de profundar as
cousas, querem decidir de tudo, sem appellação nem aggravo. Vejamos se
tem razão.
Assenta este juizo principalmente sobre a Egloga 1.ª, que o poeta reputava
pela melhor de quantas havia feito, e sobre a 6.ª, que elle de certo não
tinha pela peor. E este voto do mesmo autor, que era tão grande homem, e no
julgar de suas proprias obras nenhum interesse podia ter em exaltar umas
para abater outras, ja he de algum momento. Porque, sendo a poesia, como a
pintura, uma imitação da natureza, segue-se necessariamente que os melhores
poetas e pintores são os mais profundos observadores e conhecedores da
natureza, porque ninguem a póde perfeitamente imitar, sem que profundamente
a conheça. Grandes imitadores, e portanto profundos conhecedores da
natureza forão na poesia Homero, Virgilio, Camões etc., e na pintura
Apelles, Raphael e Miguel Angelo; e mais val o voto de qualquer destes
poetas ou pintores, que o de muitos milhões de versejadores ou borradores.
Disse Camões que a sua Egloga de Umbrano e Frondelio, que Surropita e Faria
tachárão de lavantada no estilo mais do que convinha ao genero bucolico,
lhe parecia a elle a melhor de quantas fizera, isto he, que nella estava
melhor imitada a natureza, que em todas as mais; e nós (se tambem nos he
permittido interpor nossa humilde opinião) a temos não só pela melhor de
quantas o poeta escreveo, mas de quantas havemos lido. E diremos o porque.
Preceito he, ditado pela mesma natureza, que tenha cada genero de poesia
seu estilo particular, e que o som da frauta se não confunda com o da lyra
ou da trombeta; mas tambem he preceito da natureza que, pois a choça e o
throno estão igualmente sujeitos aos revezes da fortuna, e na vida pastoril
pódem occorrer varios casos que dem assumpto ao poeta; se levante ou abaixe
o estilo segundo for mais ou menos alto o assumpto, e que se o pastor se
propõe louvar o Consul se tornem as florestas dignas delle.
_Si canimus sylvas, sylvae sint Consule dignae._
Assim o entendeo e fez Virgilio, assim o entendeo e fez Camões, e assim
o estabeleceo depois em preceito o judicioso Boileau na sua arte poetica.
_L'Églogue quelquefois
Rend dignes du Consul la campagne et les bois._
E contra estas autoridades e a razão em que se ellas fundão mal podem
sustentar-se em campo os que pretendem que neste genero de poesia se não
possa tratar senão assumptos de lana caprina na lingoagem dos trivios.
Na sua Egloga 1.ª lamenta o nosso poeta as mortes de Dom Antonio de Noronha
e do Principe Dom João, que profundamente sentio, aquella como verdadeiro
amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as consequencias de
tão desastrado acontecimento. E como o forte sentir produz o forte e
elevado pensar, algumas vezes se eleva, assim na sentença como na dicção,
até tocar as raias prescriptas a esta especie de poesia, mas não as
transcende nunca; nem as figuras e imagens de que se serve, as estranha o
estilo bucolico; e muito mais n'uma lingua, em que essas mesmas imagens e
figuras de tal sorte estão recebidas, que até os mais rudos camponezes rara
vez se exprimem sem ellas. Mas inda quando fossem alheias da linguagem
vulgar, quem as estranharia na poesia, que de sua natureza se deve levantar
do uso commum de fallar? Permitte-se a Virgilio dizer n'uma Egloga:
_Ipsae te, Tityre, pinus,
Ipsae te fontes, ipsae haec arbusta vocabant._
Estes pinheiros, Tityro, estas fontes,
Estes mesmos arbustos te chamavão.
e não se hade consentir a Camões dizer:
Canta agora, pastor, que o gado pasce
Entre as humidas hervas socegado,
E lá nas altas serras onde nasce,
O sacro Tejo á sombra recostado
Com seus olhos no chão, a mão na face,
Está para te ouvir apparelhado;
E com silencio triste estão as Nymphas
Dos olhos destillando claras lymphas?
Emfim nesta admiravel Egloga nada falta da parte do poeta; se alguma
cousa faltar, será da parte do leitor. Passemos agora á 6.ª
Nesta Egloga mistura o poeta o estilo pastoril e o piscatorio, de que elle
foi entre nós o primeiro introductor, e que levou a tal perfeição, que
desanimou os que depois se seguírão a ponto, que ficou quasi de todo
esquecido. He o seu argumento uma contenda entre um pastor e um pescador
sobre qual dos estilos deve ter a preferencia, cantando cada um a belleza
da sua amada. E ja daqui se vê que um e outro deve levantar o estilo quanto
puder, e pôr nesta porfia todo o seu cabedal, para não ficar vencido. Esta
Egloga he onde Faria mais se funda para dizer que o poeta se não podia
domar na força do seu enthusiasmo. Mas tão longe está de justificar este
juizo, que della mesma nos queremos servir para mostrar a pasmosa
facilidade, com que o poeta sabia variar de tom e passar de um estilo a
outro. E sem gastar mais palavras, passemos a analysar cada uma de suas
Estancias, porque a verdade he facil de ver-se, e por si mesma saltará aos
olhos.
Dá o pastor princípio á contenda, invocando as divindades campestres
deste modo: