PREFAÇÃO.

Os que são versados na historia terão feito esta observação, que em todos

os povos que no mundo tem figurado, as armas precedêrão sempre ás letras.

Para haver Homeros, necessario foi que houvesse primeiro Achilles. O amor

da patria e da liberdade, e aquelle innato desejo, que mais ou menos

violento segundo as diversas indoles, arde no coração de todo homem, de se

elevar acima de seus iguaes por meio de acções grandiosas e sublimes,

excitárão as almas nobres a tentar grandes empresas; e as façanhas dos

heroes impellirão depois os bons engenhos a transmitti-las aos vindouros,

elegantemente escrevendo em prosa ou verso. E nunca vimos que prosperassem

muito as letras n'um povo indigno de historia. Assim que bem se póde dizer

que sempre a penna dos Escritores foi aparada pela espada dos Guerreiros:

testimunhas Grecia e Roma.

Portugal, des de o berço educado para as armas e endurecido na guerra, a

todas as nações modernas se avantajou em gloria militar. Com poucas forças

e meios não somente sustentou longas e terriveis guerras, mas não contente

de reconquistar e manter gloriosamente a sua independencia, emprehendeo

mores cousas: devassou mares virgens, descobrio novas regiões, venceo e

sujeitou a seu jugo muitos e mui poderosos Reis e povos; e tendo estendido

o seu imperio até aos ultimos confins da terra, excitando a admiração das

gentes com nunca vistos prodigios de industria, de valor, e de constancia

por espaço de quasi cinco seculos, longo tempo se manteve no apice da

grandeza e gloria humana: até que o ultimo Henrique, dessemelhante em tudo

do primeiro, preparada ja nos dous antecedentes reinados a encosta por onde

a illustre nação devia descer da altura a que subira; reunindo em si o Bago

e o Sceptro e manchando as mãos sagradas nas cousas temporaes, a despenhou

no abysmo, donde até hoje não ha podido mais levantar-se.

Tendo, pois, florescido tanto nas armas, razão era que florescesse tambem

nas letras. E com effeito, despertados os engenhos com o estrondo dos

feitos militares, um pouco mais tarde começárão ellas de nascer, e achando

o chão propicio, pouco a pouco se forão arraigando de maneira, que ja no

decimo terceiro seculo, reinando ElRei Dom Denis, desabrochárão suas

primeiras flores; tendo aquelle grande Rei a gloria de lhes haver dado o

primeiro impulso, escrevendo elle mesmo com summa elegancia para o tempo

algumas obras, como um Tratado entitulado _Dos principaes deveres da

Milicia_, e dous Cancioneiros, um dos quaes appareceo em Roma, reinando em

Portugal João III. E no decimo quarto produzírão ja um tão sazonado fructo,

como o Amadis de Gaula, obra de Vasco de Lobeira, que traduzida por

Bernardo Tasso, pae do Epico Italiano, tamanho brado deo na Italia, e da

qual o mesmo Epico diz (Defens. di Goffredo): _Per giudizio di molti e mio

particularmente è la più bella che si legga fra quelle di queste genere....

Perche nell'affetto e nei costumi se lascia addietro tutte l'altre, e nella

varietá de gli accidenti non cede ad alcuna, che dapoi nè daprima fosse

stato scritta._ E como tal a exceptuou Miguel de Cervantes na revista que

fez o Cura dos livros de Dom Quixote, dizendo: _Este livro fué el primero

de Caballarías que se escrevió en España, y todos los demas han tenido

principio y origen deste.... Es el mijor de todos los que deste genero se

han compuesto._

No decimo quarto se escreveo a Chronica do Condestavel e grande capitão

Dom Nuno Alvares Pereira (primeiro ensaio historico de que temos

noticia) que se imprimio em Lisboa em 1520.

No decimo quinto escreveo ElRei Dom Duarte _O Leal Conselheiro_, que se

conserva na bibliotheca Real de París, e dous tratados entitulados, um _Da

Misericordia_, outro _Do Regimento da justiça e Officiaes della etc_. Seu

irmão o Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra, que veio a ser depois Regente

do Reino durante a menoridade de Affonso 5.º, tambem escreveo algumas obras

politicas e moraes em prosa e verso, algumas das quaes se imprimírão em

Leiria 6 annos depois da invenção da imprensa, e traduzio do Latim e

dedicou a seu irmão Dom Duarte _Cicero de Officiis_, e _Vegetius de re

militari_. Ayres Telles de Menezes, que por esse mesmo tempo floresceo, foi

elegante poeta; e delle nos conservou Rezende no seu Cancioneiro algumas

poesias; e para que se veja a que estado de cultura e perfeição havia ja

então chegado a nossa bella lingua, transcreveremos aqui a seguinte

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 13 / 391 题