PETRARCHA.

Ai! neste mundo só as lagrimas não têm termo!

Cantae, ternos passarinhos; voae, mariposas gentis!

É dia de noivado!

Rejubile a natureza; reviva, resplandeça a festa!...

Folgam, auras indiscretas, nos choupaes e nos silvedos! Tudo acode, sem

delonga, ao banquete dos bemaventurados! A aldeia exulta de vivaz festejo!

É vivo o reboliço: grinaldas de flores, perolas e diamantes, tudo, á

porfia, deslumbra os convivas!

Que doce aroma! que suave fragrancia!

Alada visão, fiel mensageiro do homem--o amor,--conforta o desgraçado e

sorri á opulencia. Expellem-se os cuidados, apavoram-se os temores,

rejuvenesce a humanidade!

Dia de solemne bemaventurança!--eu quero colorir teu quadro ingente, juncar

de variegadas côres teu sólo matizado!...

* * * * *

A nove kilometros de Aveiro existe a pittoresca villa de Eixo. É uma

deliciosa povoação! O Vouga espraia ali mansamente suas limpidas aguas,

formando como que um vasto lençol, por entre os formosos salgueiraes, que

lhe servem de margem e curiosa graciosidade!

Ha um não sei quê de vago e sympathico nos seus ignotos caminhos, tão

cheios de divina poesia e magica formosura, que nos seduz instinctivamente.

Em todos os paizes ha d'estas pequenas povoações, mais ou menos dilectas do

povo, e que parecem ter sido apontadas adrede para a representação dos

grandes dramas da humanidade. E esta foi realmente uma d'ellas, como abaixo

veremos!

Ha de haver dez annos, Eixo trajava de galas. A solidão transformara-se

subitamente em meigo theatro de harmonia e saudade. Os habitantes como que

resuscitavam do seu antigo marasmo. Desvaneciam-se as trevas do sepulchro,

perante o vivo esplendor d'uma aurora deslumbrante!

Era um dia de festa, emfim, dia de noivado, sancto alvoroço, candida

alegria!

Fernando, o moço querido da terra, esposara Luiza, a joven e sympathica

aldeã. E foi devéras uma suprema abnegação aquelle divino enlace! Fernando

possuia a riqueza do espirito e a riqueza do dinheiro.

Era uma joia!

Luiza, essa, coitadinha! limitava seus parcos cabedaes á rara e quasi

esquecida opulencia dos grandes sentimentos e vivas impressões. Amava com

ardente intensidade.

Era uma perola!

Fernando era tão amado, tão louvado! Ai! Senhor! que thesouro aquelle!...

Na sua frequente passagem pelas ruas da villa, os lavradores descobriam-se

respeitosamente. Depois lá se ficavam longos momentos a scismar, até que

por fim! diziam elles de si para si:--Pombinha sem fel!--e seguiam o seu

rumo.

Luiza grangeára a piedosa dedicação das suas patricias. Era em extremo

philantropica: e de muitas conseguira ella até a sincera veneração de

santinha, que realmente era.

Quando, por acaso, se fallava em Luiza áquella pobre gente d'aldeia, esta

retorquia logo com vivo interesse:--Ai! a Luizinha! a noiva do sr.

Fernandinho! isso é mesmo um anjo, meu senhor! E elle, que bondade, que

ternura! É mesmo ouro sobre azul!...

Imagine-se pois, que mago fulgor não irradiariam aquellas duas ternas

creaturinhas, ao estreitarem seus amorosos corações pelos vinculos

indissoluveis do matrimonio!...

Que sancta alliança aquella, meu Deus! Que innocente festa não ia pela

villa!...

Tudo folgava, tudo amava, tudo vivia!...

Apenas o mancebo sahira da egreja, levando sua angelica esposa pelo braço,

immediatamente, d'aquelle enorme conjuncto de povo, apinhado em massa pelas

ruas da villa, para assistir ao brilhante cortejo, rompeu a mais solemne

acclamação, o mais enthusiastico viva.

Fernando respondia com lagrimas, que symbolisavam o enthusiasmo e a

gratidão. Luiza, pela sua parte, julgara-se guindada a um paraizo de fadas,

onde a vida se assemelha ao grato arroio escoando-se de mansinho por entre

as mil verduras e fragrancias da natureza.

Porém surgíra a noite, e suas sombras temerosas, até ali occultas pelo

brilho das luzes, invadiram a mesma área, que, horas antes, fôra povoada

pelos raios diamantinos de mago encantamento e verdadeiro prazer!

No dia immediato ao do seu noivado Fernando despertára triste e pezaroso;

isolára-se voluntariamente de sua esposa, e apparecêra envolvido em

profundo meditar. Os éstos da sua primitiva alegria haviam-se-lhe

convertido medonhamente n'um oceano de torturas. Os sons melodiosos da

orchestra nupcial eram agora para elle um motivo de pungente agonia e de

atroz supplicio. Silvavam-lhe no cerebro as negras viboras da loucura. Era

forçoso afastar de si o vil e gélido phantasma, que o perseguia sem cessar.

Assim se passaram muitos e longos dias. Todos indagavam sollicitamente a

causa de tão inesperada catastrophe, de tão cruel agitação; e, todavia,

ninguem ousava responder, ninguem proferia sequer uma palavra.

Fernando corria todas as tardes os sitios reconditos da villa. Com os

cabellos eriçados, a lividez nas faces, o olhar scintillante, as mãos

nervosas, os punhos sempre cerrados, lá se ia o pobre doido, o desgraçado

moço--para quem a fortuna fôra um sonho fallaz de alguns momentos apenas--a

conversar com as arvores, que tanta vez lhe ouviram seus queixumes de

amor,--a ralhar com o placido regato, que o atormentava ferozmente,--a

rir-se, emfim, de si mesmo, da descompostura do seu trajo, das suas

palavras!...

E era tremenda e pavorosa a sua gargalhada!...

Luiza conquistára, a par da sciencia do amor, a sciencia da resignação: por

isso vivia, e supportava o agudo espinho, que lhe trespassava o coração.

Um dia, em que intentara approximar-se de seu marido, este repellira

energicamente sua mão, e, sem dó nem piedade fugira para longe de suas

caricias e afagos!

Estavam as cousas neste ponto, quando Fernando foi accommettido d'um

delirio mais violento e doloroso. A sua constante monomania, o seu desejo

incessante, era assassinar todas as mulheres, que, por acaso, encontrava.

Tornou-se mister o auxilio de toda aquella gente, para o encerrar

cautelosamente n'um quarto subterraneo, onde lhe era ministrada a comida,

que mal provava.

No auge da loucura, conheceu-se, então, a causa do seu infortunio, por

alguns poucos monólogos, que elle soltava de quando a quando, taes como

este:

--«Ser eu feliz, alegre, bom, docil; amar uma mulher ternamente, com a

intensidade d'um seraphim; e vêr-me tristemente illudido por esse demonio

maldito!... Oh!... por Deus! nem pensar n'isso!...

«E aquella vibora, aquella Lui... i...--Ai! Senhor! Senhor! seja o seu nome

para sempre esquecido!--a ostentar tamanho pudor, tamanha virgindade e

honestidade, e tudo com o hypocrito fim de me amortalhar covardemente!...

«E toda a gente a acreditava piamente; sim! todo o mundo, até eu!...

«Eterna maldição sobre o desgraçado, que foi procurar na mulher, que

escolhera para esposa, a deshonra da sua propria familia!...

«Ha! Ha! Ha!...

E n'isto o desventurado moço soltava uma cynica gargalhada!

Frequentemente repetia elle o nome de sua esposa, uma e muitas vezes; e

logo após, n'um acto de medonho desespero, chorando desabridamente,

arrancava de si um punhado de cabellos ensanguentados, e rojava-se no

lagedo do carcere.

E eram bem tristes as suas lagrimas, bem acerbo o seu pranto!

Pobre Fernando! Quem não teria pena de ti?!...

Um anno decorrido exactamente desde o dia em que se havia festejado o

noivado de Fernando e Luiza,--pelas ruas da pequena e triste povoação

seguia compassadamente um funebre prestito.

O doido havia cessado de existir n'aquella madrugada!...

Mal julgara aquella gente, que tivera ido brindar tão esplendido

noivado--que tão cedo havia de acompanhar o cadaver do sympathico Fernando

á sua derradeira morada!

É assim o infortunio d'este mundo!...

A corôa de grinaldas, essa desfizera-a o vento desapiedadamente! Hoje só

restam corôas de perpetuas, e alguns goivos tristemente derramados sobre a

ignota lousa do desditoso mancebo!

Luiza vive resignada, e lá vae lavrando quotidianamente o epitaphio, que ha

de guarnecer a lage sepulchral de seu marido, com as sinceras e ardentes

lagrimas da saudade e do arrependimento! Aguarda pacientemente a hora da

sua partida para ir fruir no céo aquillo que lhe foi vedado na terra!

Deus é compassivo, e de certo não olvidará a sua redempção

celeste!...

Miniaturas Romanticas · 第 50 / 52 题