Á BEIRA-MAR

Por uma tarde calmosa de estio passeava eu distrahidamente á beira-mar,

sorvendo o doce aroma, que emanava das auras celeres e vaporosas, compondo

milhares de prismas seductores e phantasticos, ao som lúgubre das vagas

altisonantes, que se escoavam languidas por sobre a fulva, resplandecente

areia,--quando, inopinadamente, vi surgir do seio do oceano um longo

objecto, informe e opaco. Aproximei-me da superficie do mar, esperando que

este, no seu incessante impeto, o arrojasse á praia. Effectivamente, dentro

de pouco tempo, examinava nas minhas mãos uma enorme garrafa, de amplo

bôjo, que, a todos os respeitos, me parecera ter sido um echo disperso de

algum naufragio recente. E não me enganei, com effeito. Abri-a, com todo o

cuidado, e lá encontrei o curioso manuscripto, que vou hoje reproduzir

textualmente, por o julgar digno d'isso.

É a vida d'um homem audacioso, encerrada no verbo da ambição, e

sanctificada no prestigio da gloria!...

* * * * *

É possivel, minha mãe, que tenha esquecido o seu querido Ernesto? Dar-se-ha

o caso, por ventura, que haja apagado na sua memoria a imagem da loura

criancinha, que a fazia sorrir tão docemente n'aquellas horas de profunda

tristeza, quando, cheia de virginal ternura e temeroso receio, pranteava na

solidão a morte de meu chorado, bondoso pae?...

Oh!... não, não é possivel, mil vezes não!...

Pois bem, se assim é, se ainda vives, meiga visão da minha alma, ouve pela

derradeira vez as palavras de teu desditoso filho, que de certo terá

deixado de existir ao tempo em que receberes estas linhas, e sanctifica a

sua desventura, n'este mundo, com a prece angustiada do teu coração

atribulado.

Nada mais te peço, nem tão pouco ambiciono!

Desfolhou-se a ultima, sentida saudade da minha existencia: acolhe-a em teu

seio; aquece-a muitas e repetidas vezes junto de teu peito, e acceita na

pobre florinha emmurchecida o triste Evangelho da minha vida

desventurada!...

I

Ambição! é um sonho, uma phantasia, um enthusiasmo, uma centelha divina!...

Sonho de gloria, phantasia. povoada de innumeras chimeras, enthusiasmo

heroico e magnanimo, centelha do céo, que prende os homens ás grandes

emprezas, e arrojados commettimentos, arco-íris deslumbrante, no mundo das

idéas e dos factos, tudo emfim!...

Ambição e gloria são os dois elos extremos d'essa cadeia indissoluvel

chamada humanidade.

A mocidade é uma ambição sem limites.

Ter ambição é aspirar: um aspirar de continuo para a luz, para a vida, para

o amor, para a virtude!...

Era dominado por estes e outros pensamentos, que eu muitas vezes sentia o

vacuo da minha acanhada existencia; espraiava então, com avidez

incalculavel, meus olhos inconstantes por sobre uma extensa clareira, que

orlava um vastissimo pinhal, e lá, muito ao longe, por entre o verde negro

da sua espessa ramada, descobria o quer que era de vago e reflexivo, que me

seduzia instinctivamente.

Era o meu sonho quotidiano!

E tantas vezes se repetiram estas illusões, tornou-se tão frequente este

somnambulismo das minhas faculdades, que prestes reconheci a necessidade de

obedecer-lhe cega e fatalmente.

Cortar o espaço e o tempo,--voar, voar e voar muito!--tal era a idéa, que

me dominava!

Em meio, porem, d'este magnetismo attrahente, vertiginoso, indizivel,

languido, vaporoso, sentia eu um fio dourado, que me prendia á terra, um

echo longinquo e salutar, que tentava acordar-me á realidade do mundo.

Era a doce voz de Therezinha, que me chamava,--era o anjo do amor, que

estendia sobre mim suas candidas e mirificas azas de velludo.

Indescriptivel collisão! fadado momento!

Sem embargo, a minha aurora resplandecia-me no horisonte do futuro;

acenava-me de longe a estrella do Senhor. Era necessario partir.

Miniaturas Romanticas · 第 40 / 52 题