V. HUGO.

Caíu o anjo bom, ficou o anjo mau!

Já não havia valer-lhe, á triste victima. A quéda foi tanto mais fatal,

quanto mais audacioso tinha sido o vôo a que loucamente se arrojara.

Dentro de pouco tempo, Mathilde ganhara o desprezo da sociedade. Seu pae

havia succumbido a tão dolorosa crise. Arthur retirara comsigo a sua

protecção e o seu dinheiro.

No meio do esplendor e louçanias d'este mundo tudo nos sorri prospero e

seductor. Não faltam amigos; multiplicam-se os parentes. Vem depois o

phantasma da tristeza, o espectro da desventura, e a victima, odiada por

todos, á beira do abysmo, terá, apenas, a Providencia por unico e

derradeiro recurso.

Nada mais verdadeiro. É assim a nossa sociedade: ataviada de galas no

exterior, e contaminada de podridão no intimo.

Por algum tempo, Roberto continuou ainda a dispensar os seus disvelos e

favores áquella desgraçada mulher; preparou-lhe uma pequena habitação, a

alguma distancia da cidade, e lá conseguiu encarceral-a, durante algum

tempo.

Commettido o crime, o primeiro cuidado do malfeitor é occultal-o, sem

demora, aos olhos dos seus similhantes. As trevas fogem da luz; o sol odeia

a noite.

Isto, porém, foi de pouca dura: com a saciedade veiu o odio, com o odio o

abandono.

Mathilde ficou só no mundo, sósinha, com as suas lagrimas, com a sua dôr,

com a sua miseria! E que poderia ella fazer, coitadinha!... Depois de ter

empenhado e vendido tudo o que possuia de mais valor, vexada de si mesmo,

com a febre do desespero, amaldiçoou o sol que a aquecia, e foi procurar na

sombra o refrigerio á sua alma attribulada.

A sociedade cavou-lhe o sepulchro, e soltou uma gargalhada estulta e

perfida! O homem covarde esmagou o verme impotente, e tripudiou incolume

sobre todos os sentimentos e qualidades moraes! A materia venceu o

espirito! a força bruta subjugou o movimento!...

Hontem censurámos em Malhilde a mulher social; hoje podemos e devemos

justifical-a, sem que n'isto sejamos contradictorios.

E, de feito, o que era aquella mulher, senão uma d'essas desgraçadas, a

quem a sociedade havia enxovalhado com a lama do desprezo, sujeitando-a a

mercadejar o melhor dote que Deus lhe concedera--a honra?! Era uma d'essas

mulheres estouvadas, no sentir de muitos, que, zombando de tudo, tambem

ousam profanar com mãos sacrilegas o sanctuario do pudor e da virgindade,

contribuindo assim para a sua inteira ruina e completa perdição!

E no entretanto, esses são os homens _bons_, que mais tarde fingem não

reconhecer a victima de seus nefastos interesses, lançando o escarro do

desdem na sua passagem. São estes os homens _bons_, que, longe de alliviar

o pobre com uma esmola, filha de um nobre coração, pelo contrario, tropeçam

impunemente nas suas chagas, ennodoando-as com a baba asquerosa do seu

orgulho!...

Assim decorreram alguns annos. Mathilde, a mulher perdida, lá foi encontrar

n'um prostibulo a expiação severa e ardua d'uma falta injusta, embora

toleravel. O holocausto começara então; devia de ser bem negro o seu fim.

A aridez do deserto, depressa a superou, a triste romeira. As difficuldades

foram-se-lhe tornando habituaes de dia para dia. O seu halito _alcoolisado_

captivara a attenção de muita gente.

O corpo, já de si pestilente, transformara-se repentinamente em podridão

nauseante. Ao longe, pairava o corvo, immundo e contente, por sobre as

exhalações infectas d'aquelle charco putrido, aguardando occasião opportuna

para cevar ali a sua espantosa avidez.

E assim aconteceu, realmente. Um dia, atravessava indifferentemente as ruas

da cidade um camponez, levando um caixão ás costas. Dirigia-se para o

_Prado do Repouso_! Lá o lançaram para uma cova, e com elle os restos

mortaes d'uma mulher desditosa.

A terra occultava uma infeliz no seu seio obscuro; os homens acolhiam no

seu gremio um leproso vil e incuravel!...

Nem uma lagrima! nem um suspiro! nem um ai compassivo!...

Roberto, ao saber do funebre passamento de Mathilde, neste mundo,

limitou-se muito ingenuamente a vomitar uma bafurada de fumo de seu enorme

cachimbo, acompanhada de sinistra gargalhada!

E melhor foi assim, talvez!...

A mulher ludibriada havia desapparecido para sempre de sobre a superficie

da terra! Era tempo de procurar outra victima!...

Rejubilae, satrapas da corrupção e da licença! erguei as cabeças, parasitas

ignobeis!...

Vinte, trinta ou quarenta mortes, que importa tudo isso, uma vez que nós

vivamos contentes e satisfeitos?!...

Arda muito embora o universo! De que vale essa triste ninharia, se as

chammas mesmo de leve nos não tocarem?!...

Neros do egoismo! preparae a vossa argilla immunda! A hora soará uma vez, e

os vossos cadaveres, por seu turno, agitar-se-hão ensanguentados ao longo

das vossas miserias e villanias!...

No entretanto, em quanto as coisas assim se passavam, Arthur regressara

finalmente á patria, após uma longa viagem, que havia emprehendido á

Inglaterra, com o intuito provavel de recuperar no estrangeiro a ventura,

que lhe fôra impossivel encontrar no meio d'aquelles que mais amava e

queria. Quem o visse, depois da sua chegada, passear as ruas do Porto n'uma

perfeita serenidade de espirito e jovialidade quasi espontanea, que tão

peculiares se tornavam ao seu caracter indifferente e

generoso--reputal-o-hia, á primeira vista, um homem feliz, sem receio

de errar.

As grandes commoções variam de individuo, segundo a diversidade de

circumstancias que as podem originar. A desgraça de Mathilde convertêra-se

n'um manancial de felicidade para Arthur. O homem, aviltado por um amor

insensato, reconheceu, alfim, a sua dignidade, e ergueu a cabeça, cheia de

luz e esplendor. O holocausto de sua mulher resgatára-o para a vida e para

o mundo.

Antes assim!

Após esta grande evolução do espirito humano, a transformação operára-se

rapida e completa. Apagaram-se odios ruins; deslembraram-se velhos

rancores.

O esquecimento da victima e o cynismo tornavam dois homens ditosos sobre a

terra, em quanto o céo acolhia, talvez, no seu seio uma peccadora

arrependida, e regenerada pelo amor e pela virtude!

E de facto, Mathilde, quando se viu assim ludibriada, e afastada da

sociedade, chorou muitas lagrimas de arrependimento sincero, derramou nas

trevas muita perola occulta, tragou até ás fezes o absintho d'aquella taça

denegrida e empestada pela sociedade, a que alguns muito erradamente

chamavam vida. Vida! para aquelles que a não conheceram outr'ora opulenta e

a trasbordar de pura seiva vital!... Vida, sim, mil vezes terrivel e

amargurada!...

Antes o inferno, a solidão, o abandono, a inercia, do que o sacrificio de

tão ignobil vegetação!...

Agora, é tempo de terminarmos a nossa historia. Fica ao arbitrio de cada

um, o ajuizar da bondade ou maldade da nossa heroina. Nem isso nos causará

assombro. Para nós, Mathilde symbolisa uma perfeita imagem da mulher

actual; nem mais nem menos.

Arthur foi, pois, despejadamente abraçar o seu amigo Roberto Guimarães, que

de muito bom grado o acolheu em sua casa, cheio de gaudio ingente, e

espontaneidade feliz. Congraçaram-se as duas velleidades; o veneno

amalgamou-se com a peçonha n'um grosseiro deleterio; o piar do mocho

agoureiro contrastou singularmente com a avidez do abutre esfaimado!

Fazia-se mister uma occasião opportuna, a fim de cada um poder expandir

convenientemente os seus sentimentos.

É o que vamos ver.

O moço provinciano, já a este tempo purificado no cadinho d'uma civilisação

depravada e falsa, foi readquirindo as suas antigas relações. Os seus

salões continuaram a estar patentes a todos os velhos amigos e parentes. O

seu nome tornara-se sobejamente conhecido no paiz. A sua fortuna augmentara

consideravelmente com a ida á Inglaterra. Não lhe faltavam paes, que o

desejassem ver bem collocado no seio de suas familias.

E o certo é que as circumstancias se combinaram de tal modo, que, dentro de

pouco tempo, Arthur de Campos fôra feito barão de... E era justo, com

effeito; tinha dinheiro: ao menos podia contribuir para a prosperidade do

paiz.

A riqueza rehabilitou o homem covarde, perante as cataractas d'uma

sociedade meia em dissolução. É assim que vemos muitas vezes a virtude

supplantada, e o egoismo triumphante e victorioso!...

Tudo isto, porém, era pouco ainda, ante o glorioso porvir que lhe estava

reservado. O baronato metamorphoseara o nosso provinciano a ponto de lhe

incutir no animo um acervo de sentimentos depravados e baixos, de uma certa

aristocracia ignara, que por ahi tropeça a cada canto.

Feito barão, o seu primeiro cuidado foi escolher uma mulher da alta

sociedade, que lhe lisongeasse devéras o paladar, já de si delicado e

corrupto. Para isso procurou elle unir-se em segundas nupcias com a filha

d'um acreditado visconde, que ainda hoje reside em Lisboa.

De resto, nada mais é notorio, a não ser que o sr. barão de... emprehendeu,

ainda ha pouco, uma nova viagem ao estrangeiro, em companhia de sua amavel

esposa, com quem dizem gosar perfeita felicidade e verdadeira união.

A reparação, embora tardia, não foi intempestiva. Possa, ao menos, a

Providencia prolongar-lhes os dias da sua ventura e do seu amor!...

Presentemente, de toda a familia do conselheiro F. existe apenas Maria,

irmã de Mathilde, que nós encontrámos no principio d'esta narrativa. Vive

do seu trabalho e das suas lagrimas, porque, segundo a tradição mais

geralmente seguida, a sua reputação tambem não corre isenta de grandes

manchas.

Emfim, é desculpavel o seu erro: _quando a necessidade entra pela porta, a

virtude sae pela janella._

Consta que Roberto lhe estabelecera uma mesada nada inferior, a fim de lhe

minorar as suas penas, e restabelecer, talvez, a tranquillidade da sua

consciencia!

Emquanto a este mal-intencionado cavalheiro, nada temos a accrescentar,

senão que continúa a ser o mesmo homem, e sel-o-ha sempre!...

_Ce qui a été, sera_,--dizia Eugenio Huzar....

Agora, leitor amigo, é occasião de me dirigir a ti. Desculpa o auctor

d'estes _Cambiantes_, e continúa sempre a ver n'elles uma imagem fiel da

_comedia humana_!

*ESTRELLAS E NUVENS*

Miniaturas Romanticas · 第 38 / 52 题