Á ex.^ma sr.^a D. Mathilde

Isto excitou a curiosidade de Arthur, que continuou a lêr em voz alta:

No céu divinal nascida,

Tão querida!...

Entre os homens és rainha!

No teu olhar enlevados,

Pelo encanto avassallados,

Todos suspiram: sê minha!...

De manhã o sol luzente,

Vem ridente!...

A natura illuminar;

Assim tu, com teu fulgôr,

Vens n'um sorriso d'amor

Minha alma purificar!

No céu a estrella ondulante,

Tão brilhante!...

A cada passo é toldada!

Mas tu brilhas sempre pura,

Qual a rosa com frescura

Pelo sol illuminada!...

--_C'est assez!..._--exclamou Arthur, contendo um longo abrimento de bocca,

e depondo discretamente o _album_ sobre a mesa. É um optimo narcotico para

quem precisar d'elle: eu, por mim, declaro, estou satisfeito e mais que

satisfeito.

Neste momento entraram na sala as duas filhas do conselheiro, acompanhadas

de sua respeitavel mãe.

Trocadas as cortezias do estylo, tornámos a tomar novos logares.

Arthur começou, dizendo que aproveitava aquella occasião para ir agradecer

pessoalmente o benevolo acolhimento e fraternal sympathia com que se tinham

dignado tractal-o na noite antecedente, confessando-se eternamente grato

por todos aquelles obsequios, que tão do intimo lhe tinham sabido

prodigalisar, e que elle jámais poderia esquecer em dias de sua vida.

A isto respondeu mui laconicamente a dona da casa, intentando provar-lhe

que não tinha feito mais do que cumprir um dever para com os seus hospedes

e amigos, que tanto folgava em ver reunidos, como em familia, n'aquellas

poucas noites de sancta alegria e jubilosa reminiscencia.

Arthur, por um momento silencioso, continuou logo n'aquelle mesmo estylo

parlamentar, com que havia encetado a sua conversação, manifestando

igualmente o seu profundo sentimento pela ausencia do conselheiro, a quem

desejava fallar urgentemente para tractar d'um negocio importante, cuja

solução deveria interessar a toda a familia.

Nesta occasião, confesso, tive um horrivel calafrio. _Tractar d'um negocio

importante, cuja solução deveria interessar a toda a familia?!..._

Nem eu sabia que pensar d'aquellas suas palavras. Pois dar-se-ha o caso, na

realidade, que este homem vá pedir a mão de Malhilde, não tendo fallado com

ella senão uma vez, ignorando completamente os seus sentimentos e

qualidades moraes?!...

Veremos!...--dizia eu a mim mesmo, abrangendo em toda a estreiteza d'esta

palavra um raio de esperança no futuro.

Após alguns momentos, como vissemos que não chegava o dono da casa, saímos,

promettendo voltar n'essa mesma noite.

Quando depois nos encontrámos, cá fora, ao ar livre, sem haver nenhuma

pessoa que podesse espiar os nossos passos, Arthur encarou-me com um olhar

furtivo, mixto de susto e alegria, perguntando-me disfarçadamente:

--Então que te parece a minha resolução? Não julgavas, talvez, que fosse

tão precipitado nos meus planos; não é assim? Pois olha, eu previra tudo

isso, e, todavia, não o pude dissimular. Quiz evitar todos os escolhos, que

me podessem sobrevir, no decurso d'esta minha difficil peregrinação, mas

cheguei nimiamente tarde. Agora entrego-me á Providencia de alma e coração.

O futuro nos dirá o que fôr.

Estas ultimas palavras foram proferidas n'um tom severo e decisivo, e de

tal modo, que julguei inutil toda e qualquer replica, que a minha amizade,

porventura, podesse suggerir-lhe. Limitei-me apenas a fazer-lhe alguns

reparos sobre o casamento, apontando sempre ao futuro, como uma sombra

pavorosa, diante da qual elle teria de recuar um dia, se a fatalidade, por

acaso, porfiasse em perseguil-o. Elle, pela sua parte, fingiu nada ouvir do

que eu lhe dissera, e calou-se.

N'essa mesma noite, o casamento ficara definitivamente tractado, para ter

logar dentro em quinze dias, o mais tardar. Esta resolução do moço

provinciano propalou-se logo pela cidade, e todos pasmavam ao ouvil-a,

acreditando uns na sua realidade, e outros negando-se em acceital-a como

verdadeira.

O que é certo é que d'ahi a dez dias os jornaes da localidade registavam

nas suas columnas o casamento de Arthur, do modo seguinte:

--«Hontem, pelas 10 horas da manhã, na egreja de Santo Ildefonso,

contrairam os sagrados laços matrimoniaes o ex.^mo sr. Arthur de Campos e a

ex.^ma sr.^a D. Mathilde de Andrade Castello Branco, menina de subidos

sentimentos e elevadas qualidades. Os ditosos noivos retirar-se-hão

brevemente para Lisboa, onde irão passar a lua de mel. D'aqui mesmo lhes

enviamos os nossos parabens, fazendo votos pela sua felicidade futura, e

eterna união.»

O ideal de Arthur realisara-se, pois, neste mundo. N'aquelle dia tudo lhe

sorriu fagueiro e jovial. A primavera tornara a despontar no seu coração,

cheia de galas e encantos. A sua imaginação, povoada de tudo quanto ha de

mais bello e sublime, neste valle de lagrimas, nada mais enxergara além da

existencia presente. O sol da sua felicidade, até então sepultado nas

trevas de um desditoso porvir, surgiu emfim magestosamente no horisonte da

vida, purpureado de bem vivas côres e rescendentes perfumes.

E, diga-se a verdade, n'aquelle dia, ao menos, Arthur julgou-se feliz, e

muito feliz. Por entre as rosas do amor não distinguiu elle os goivos da

existencia; através a pureza do seu horisonte de todo lhe fôra impossivel

notar a orla sombria e fatidica. Sentiu-se deslumbrado por um não sei quê

de vago e mysterioso, que o arrastava involuntariamente para um abysmo

tremendo, onde tinha de resvalar mais tarde, a despeito mesmo da sua vida

regrada e habitos morigerados.

Por esta occasião memoravel foi servido um lauto banquete em casa do

conselheiro F.

Opiparos manjares guarneciam as mesas, rodeadas de amigos e parentes.

N'essa mesma noite houve um baile, esplendidamente servido, e que se

prolongou até ás 6 horas da manhã.

Passados que foram tres dias, Arthur partiu para Lisboa, acompanhado de sua

esposa e sogro. Ali se demorou tres mezes, ao cabo dos quaes regressou á

invicta cidade, mais ditoso ainda do que lhe fôra licito imaginar.

A felicidade, porém, como o destino, tem os seus revezes neste mundo. Um

amor excessivo aterra-nos e confunde-nos. Os extremos são sempre anomalias,

mais ou menos perigosas, na vida humana.

Miniaturas Romanticas · 第 34 / 52 题