No dia immediato, á hora aprazada, dirigi-me apressadamente para a rua do
Laranjal, conforme haviamos convencionado na vespera.
Seria talvez uma hora da tarde, quando entrei no _Hotel Central_. Fui assim
percorrendo a longa numeração dos quartos, até que se me deparou o
mencionado n.^o 9, a cuja porta bati duas vezes, sem obter a minima
resposta. Á terceira pancada, já conseguira mais alguma coisa, por isso que
me soára distinctamente o ranger descompassado d'um leito, e o bocejar
monótono d'algum sybarita, que se espreguiçava indolente, qual moderno
Sardanapalo. Quasi me julgara illudido no meu humilde proposito, quando
ouvi a voz de Arthur, clamando bem alto:
--Olé! quem está ahi? Entre quem é...
Abri a porta, e entrei. Arthur mal havia despertado ainda do contristante
lethargo que d'aquelle modo lhe entorpecera seus membros voluptuosos.
--Sim, senhor, muito bem, menino Arthur! isto é que se chama viver, o mais
é historia! Olha que lá por fóra já é dia ha muito tempo.
--Ora deixa-me, nem me falles n'isso. Estou perdido, estou morto! Amo uma
mulher apaixonadamente.
Ai! Mathilde! Mathilde! o teu olhar foi o demonio, que se introduziu na
minha alma. Preciso amar-te. D'ora ávante só quero viver para ti,
adorar-te, e chamar-te minha, finalmente. Que nos importarão, então, os
prazeres d'este mundo, quando nós, afastados da sua corrupção e miseria,
vivermos um só para o outro e nos alimentarmos na innocencia e suave
conforto dos nossos corações privilegiados?!...
Ai! Mathilde! meu amor! custe o que custar, tu has de pertencer-me um dia.
Embora tenha de arrancar-te aos braços de teu pae, tu serás minha e só
minha, doce perola do meu coração!
--Bravo! tudo vai a melhor. Á ultima hora appareces-me metamorphoseado n'um
elegante Romeu. Realmente, és um homem singular, um typo _sui generis_!...
--Sou um homem singular, dizes tu. Não preciso, nem quero comprehender-te.
Porque me não vês, como vós outros, verme impotente, rastejando impunemente
na podridão das proprias chagas, chamas-me um typo _sui generis_. Embora!
Prouvera a Deus todos assim fossem!...
--Lá por isso não vale zangar, meu amigo. Já vejo que não estás hoje de
muito bom humor. Este tempo chuvoso tambem não deixa de ter sua influencia
sobre o systema nervoso. Mas, emfim, fallemos n'outra coisa. Quando
chegaste de Fafe?
--De Fafe cheguei ha tres dias, e de sobejo têm elles sido para me
persuadir a que não devo voltar para lá.
--Não deves voltar para lá?!... Essa é melhor. Então por que?
--Porque já agora aborreço aquella vida solitaria da minha aldeia. Tenciono
comprar uma casa, casar-me breve, e continuar a residir aqui. Mas, olha lá,
isto devem ser horas de almoço: que me dizes?
--Até de jantar, meu caro: são quasi duas horas da tarde.
--Pois bem, n'esse caso, vou vestir-me quanto antes, e tu almoçarás comigo,
como espero.
--Eu?! almoçar a estas horas?! Estás perfeitamente enganado a meu respeito.
Eram 7 horas da manhã, já estava fóra de lençoes; ás 8 tinha o almoço
digerido; e ás 9 estava na rua a tractar dos meus negocios.
_C'est trop fort!..._ Far-me-has companhia, ao menos, estimulando-me o
appetite com dois dedos de succulento cavaco; depois iremos juntos a casa
do conselheiro F., onde se me faz mister da tua valiosa protecção.
--Nesse caso, uma vez que me queres para jantar, tomarei a liberdade de ir
já confortando as paredes estomacaes, para o que dér e vier.
--Á cautela, tambem t'o aconselho; porque, finalmente sempre é obra que
fica feita.
Almoçámos, pois, deliciosamente. Eu de cada vez admirava mais o meu amigo
Arthur. Dir-se-ia um ente incomprehensivel, na verdade: ora alegre, ora
triste, ora melancolico e sereno, ora folgasão e jovial; emfim, são coisas
d'este mundo!
Depois de termos entrouxado duas boas travessas de appetitosas costellelas
de porco e ovos, acompanhadas do saboroso e estomacal vinho de
Xerez,--saímos ambos, em direcção á rua de Sancta Catharina, onde morava o
nosso amigo conselheiro F.
Apenas haviamos subido alguns degraus da escada, cujo andar era habitado
pelo conselheiro e sua familia, quando nos soou distinctamente a voz de
Mathilde, altercando furiosa com sua irmã Maria. Hesitámos um instante no
nosso proposito, e por alguns momentos ficámos perplexos, sem saber o que
fazer. Por fim parámos juntos á porta da entrada, a cuja fechadura collámos
o ouvido cautelosamente, para assim, invisiveis, melhor podermos assistir
áquelle espectaculo de ciumenta fraternidade.
Dizia Malhilde, com as faces inflammadas em colera e subito desespero,
accentuando bem as suas palavras, vibradas do intimo do coração:
--Ora a mana sempre é muito invejosa!... que se importa com a vida do sr.
Arthur? que tem com elle? nunca o ouviu fallar a seu respeito, nem bem, nem
mal, não é assim?... pois então é melhor calar-se, e nunca mais tornar a
fallar em tal coisa.
--Sim, sim, tudo isso é muito bonito! eu já sei o que a mana quer: imagina
talvez que o sr. Arthur está a distillar de amores pela sua pessoa, e
illude-se perfeitamente. Nem elle tinha mais que fazer. Olhe, sabe que
mais, é melhor tirar d'ahi o sentido. Ainda d'esta vez não péga a labia,
minha senhora...
--Olhe bem a mana, veja lá o que diz; depois não se arrependa, porque pode
vir tarde e a más horas. Não estou disposta a aturar as suas creancices por
mais tempo. Parece que ainda cheira a coeiros! Que tal está o fedelho! já
viram coisa igual?...
Neste ponto, Arthur, vendo que a contenda ia a tomar proporções um pouco
serias e assustadoras, julgou do seu dever atalhar quanto antes os funestos
resultados, que d'ahi lhe podessem provir. Para isso tocou a campainha, e
logo após veiu um criado abrir-nos a porta, convidando-nos a entrar para a
proxima saleta.
Entrámos n'uma sala, elegantemente adornada e cuidadosamente disposta.
Sentámo-nos n'umas cadeiras de braços, ao acaso, e lançámos mão do primeiro
objecto que se nos deparou opportunamente sobre a mesa: era um _album_,
quasi todo manuscripto.
Abrimol-o distraídamente,--passeando a vista, ao mesmo tempo, por aquella
multidão de paginas, repletas de centenares de palavas semsabores e sem
sentido--quando vimos, no topo da pagina, a seguinte epigraphe: