Um baile!...
Delirio da mocidade! gloria d'um amante! receio das mães! enojo da
velhice!...
Um baile!...
Quantas vezes sonhamos, ainda crianças, com aquelle novo mundo ideal e
angelico, com aquella visão dulcissima, enlevo de amantes, com aquelle
rodopio vertiginoso e inebriante!...
Um baile!...
Mixto de ideas e sentimentos oppostos! Sorrisos e prantos! suspiros e
lagrimas! amor e saudade! lyrios e goivos!...
Um baile!...
Desgraça de muitas familias! orphandade de muitos corações! inveja de
muitas creaturas!...
Um baile é a photographia da humanidade, assim como o theatro é o espelho
da sociedade.
Tem-se dicto muito sobre bailes. Todos lhe reconhecem os perigos, e,
todavia, ninguem os evita.
A donzella corre ao precipicio, attrahida pelo canto seductor d'esta
implacavel sereia. O mancebo alimenta ali sua phantasia ardente. Os velhos
assistem a elles, como meros espectadores, realçando as glorias dos seus
tempos, em menospreso das modernas velleidades civilisadoras e
progressistas.
Emfim, tudo anceia por um baile; todos rejubilam na sua presença; todos
esquecem, por momentos, as ulceras do proprio corpo, para dar largas ás
vélas da sua imaginação.
Seja, pois, bemvindo o salão onde teremos de encontrar um dos principaes
personagens da narrativa que vamos encetar!...
Estava eu em Fafe, no mez de agosto de 1860. Ali, fugindo ás ardencias do
estio e monotonia da cidade, me fui recrear, durante alguns mezes, á sombra
d'aquellas viçosas amoreiras, completamente descuidado do bulicio d'este
mundo, para a sós comigo me entregar ao prazer de alguns dias serenos e
beatifico scismar.
Foi tambem n'uma d'essas occasiões, creio eu, que me foi licito sondar uma
das almas mais formosas e um dos genios mais modestos que tenho encontrado
em dias de minha vida. Arthur de Campos era realmente um moço affavel e de
uma fina educação; bom até ali. Havia um não sei quê de mysterioso e
sympathico n'aquelle seu vulto insinuante e bello, que me attraía
irresistivelmente para elle.
Para logo, procurei travar relações com o joven provinciano, e de tal modo
o consegui, que, dentro de pouco tempo, já vivia nas suas proprias
alegrias, e chorava nas suas tristezas. Entre nós a amizade era mais que
fraternal. Quasi todos os dias nos juntavamos de manhã, para só nos
separarmos ao recolher para casa.
Oh!... com que saudade me não lembra ainda aquelle tempo!... como os dias
se deslisavam então brandos e suaves! como era puro o azul do nosso
horisonte, e feliz a nossa existencia, juncada pelas rosas do amor, e
matizada de flores, que nos enfeitiçavam a mente enlouquecida pelas larvas
da phantasia!...
Ás vezes passavamos horas inteiras, um ao pé do outro, sem articularmos uma
unica palavra; e, comtudo, os nossos pensamentos pareciam adivinhar-se
mutuamente n'aquelles meigos e puros anceios de paz e felicidade.
Um dia, lembra-me ainda como se hoje fôra, eram talvez duas horas da
madrugada. A lua, aureolada de mystica luz, campeava no seu eterno throno
de magia e formosura. Reinava um silencio sepulchral. Apenas se presentia
ao longe o grato arroio, serpeando de mansinho por entre as dispersas
arvores, de que as folhas se agitavam frouxas, ao perpassar da fresca brisa
da madrugada.
Senão quando veiu ferir-me o meu ouvido vigilante a voz de Arthur, que me
chamava de fóra da porta. Corri a elle, curioso por saber o que se teria
passado. Nada me disse. Entrou pensativo. para dentro de casa, e sentou-se
melancolico e triste.
--Sei quem és, meu amigo; falla francamente, que tens tu, que te
aconteceu?...
Elle, comtudo, conservava-se silencioso, sem nada me responder. Eu, por
mim, julguei prudente não insistir em tão pertinaz proposito, e aguardei
melhor ensejo para esse fim, certo de que elle se não recusaria a
revelar-me o seu segredo.
Após alguns momentos, quando o vi sair, sem proferir sequer uma unica
palavra, durante o tempo que ali estivera comigo, tive a fatal idéa de o
acreditar demente. Para me certificar, porém, da verdade do facto, resolvi
seguil-o a todo o transe, commettendo a discrição de me occultar, o mais
cautelosamente possivel, atrás da espessura do arvoredo por onde elle tinha
de passar irremediavelmente.
Similhante a um reptil, lá me fui arrastando, como pude, por entre o matto
e silvedo, que delimitavam o estreito caminho.
Foi então, que sua tímida voz, de envolta, com o perfume do orvalho
matutino, me veiu estancar no peito um mysterioso receio. Suas palavras
foram tristes, como a solidão da sua alma, pavorosas como os milhares de
phantasmas, que lhe voejavam na mente tresloucada. Era assim o monólogo:
--«A sociedade! sempre a sociedade! Maldicta sejas tu, mil vezes
maldicta!... E o homem ha de respeitar necessariamente os teus decretos
vis, e lisongear a tua hypocrisia infame!
«Triste abjecção!...
«Não sei porque; mas, quando penso nessas sombras pavorosas, que, a cada
passo, me enluctam o espirito com as trevas deste mundo, sinto-me
enlouquecer terrivelmente. Odeio os homens; abomino o prazer da terra, e
não posso de maneira alguma acreditar na idéa d'um Deus infinitamente justo
e bom!...
«Muita lagrima, muita miseria e muita vingança: eis devéras a realidade das
coisas, eis a sociedade, em toda a sua nudez!
«Nasce a criança, de envolta com o cilicio do soffrimento, para expirar
depois no meio de agudas dôres e medonho agonisar!
«Um dia, quando já homem, aproxima-se da mulher, que ama loucamente, e essa
mulher, sem pejo, cospe-lhe nas faces a podridão da sua alma corrompida, o
veneno absorvido no seio da sociedade, o lodo, a corrupção, a vaidade!...
«E ainda ha quem sonhe no amor d'uma mulher?!...
«Pobre desgraçado, quem quer que tu sejas compadeço-me da tua innocencia.
Aprende antes a conhecer esses vermes nauseantes, e não creias jámais nas
palavras hypocritas d'uma mulher fementida! Afasta-te, em quanto é tempo,
d'essas viboras dolosas, que te podem acarretar a tua eterna ruina, e a
degradação da tua dignidade!...»
Não pude ouvil-o por mais tempo. O echo de suas ultimas palavras foi
perder-se a distancia nas azas da branda viração d'uma esplendida madrugada
de outono.
Retirei-me para casa bastante apprehensivo. De todo me fôra impossivel
atinar com a origem de similhante mysterio. Appellei, pois, para o tempo,
como melhor mestre e mais efficaz para me elucidar a esse respeito.
Quando me tornei a encontrar com Arthur, d'ahi a algumas horas, já o
reconheci mais sereno e agradavel. Affigurou-se-me ver dissipadas as
sombras, que pouco antes lhe offuscavam o espirito. Ainda assim, evitei
sempre o fallar-lhe sobre coisas, que de algum modo podessem offender o seu
melindre e elevados sentimentos. Procurei amigavelmente distrair-lhe os
seus pezares e profundas amarguras, mas vi quasi baldados os meus esforços.
No entretanto, o inverno ameaçava ser rigoroso. O mez de novembro
principiara frio e insupportavel.
Tudo se transtornara ali, com a chegada da estação invernosa. Aquelles
prados e veigas, até então tapetados de verde e flacida alfombra, começavam
a inundar-se com as cheias, que os tornavam geralmente intransitaveis. O
céu iriado da primavera havia desapparecido, deixando em seu logar um
montão de nuvens escuras e temerosas.
Neste comenos, negocios de familia me chamavam a casa, impedindo a
continuação da minha residencia n'aquelle encantado paraizo de amor e
felicidade. Despedi-me, pois, affectuosamente do meu amigo Arthur, e
regressei ao Porto.
Arthur promettera escrever-me d'ahi em diante sem interrupção. Passaram-se,
comtudo, oito mezes sem que eu recebesse uma unica carta sua. Quasi o
julgara doente, se, porventura, não fôra um amigo d'aquelles sitios, que me
disse tel-o encontrado, poucos dias antes, de perfeita saude e invejavel
robustez. Dei-me por satisfeito, e de nada mais quiz saber.
Aconteceu, porém, um dia, ser eu convidado para um baile em casa do
conselheiro F., por occasião do anniversario natalicio de sua filha
Mathilde. Mal teria entrado no salão, quando, cheio de espanto e receioso
prazer divisei o meu amigo Arthur de Campos, por entre a multidão de
cavalheiros, que se apinhava a uma das portas, para a proxima quadrilha.
Fiquei estupefacto!
Ora vão lá conhecer o mundo,--dizia eu, repetidas vezes a mim mesmo, mal
acreditando ainda na realidade do que via. Pois aquelle homem que, ainda ha
pouco, amaldiçoava a sociedade, no meio d'um horrivel _spleen_, que lhe
atrophiava a dolorosa existencia; aquelle homem, para quem a mulher não
passava d'um espectro hediondo e feroz,--já então não hesitava em se
degradar d'aquelle modo, vivendo na sociedade, e procurando até o objecto
da sua antiga indignação e odioso desprezo?!...
Pois a isto chama-se--_saber viver_ e nada mais,--dirão muitos, e digo eu
tambem. Lá diz o proverbio:--_Qui ne sait pas feindre, ne sait pas vivre._
Passemos, porém, uma esponja por sobre estas miserias e humanas ninharias,
e voltemos ao salão.
Ao meu lado conversava calorosamente um grupo de convidados.
Dizia o primeiro, litterato de grande nomeada na invicta cidade:
--Quem será aquelle joven _Lovelace_, que traz captivos tantos olhares
modestos e apaixonados?...
--Pois, em verdade, ainda não o conheces, meu caro?--retorquia um adestrado
_Marialva_, muito conhecido pelas suas proezas e afamada mestria.--Aquelle
sugeito é um provinciano de Fafe, homem de grandes haveres, segundo me
dizem, e que vem agora residir para o Porto. É o que em boa sociedade pode
chamar-se _un homme distingué, un homme à bonnes fortunes_.
--Hum!... lá me parecia!...--prorompeu o primeiro. Isso assim é outro
cantar. Por isso a filha do nosso conselheiro não descura da sua missão.
Olha... que modos aquelles... como ella se quebra toda para lhe agradar...
ah! pois não, coitadinha!... Nem a formosa nympha da mythologia, surgindo
do seio do Oceano, seria mais bella e tentadora!...
--E bem haja. ella, continuou o segundo. Isto, hoje em dia, mulher esbelta
sem dinheiro é o mesmo que um cavallo bonito e manhoso: todos gostam de lhe
admirar a estampa, mas ninguem o quer para si.
Emquanto isto assim se passava, Arthur, de longe, pareceu reconhecer-me, e,
levantando-se de golpe do logar onde se sentara, ao lado de Mathilde, veiu
abraçar-me sem demora.
--Como tu estás gordo e bom, meu caro! Estava longe de te fazer hoje por
aqui, dizia elle, apertando-me fraternalmente em seus braços varonis.
--Pois olha, eu a ti muito menos; foi milagre, de certo. Mas conta-me lá:
que transformação foi essa tão rapida? Tu, o homem piegas e choramingas de
outr'ora, o Heraclito provinciano, a quem nada podia distrair, a não ser
uma ou outra pagina do milagroso _Werther_, appareces-me agora transformado
em Democrito feliz e folgasão, catechisando estes corações rebeldes ao teu
dominio e absoluto imperio?!...
--Isso é uma longa historia, meu amigo, que para aqui não vem a proposito.
A esse respeito tenho muito que te contar. Apparece ámanhã no _Hotel
Central_, quarto n.^o 9, e lá fallaremos.
--Está dicto: ámanhã lá me tens, sem falta. Apertámo-nos depois as mãos
reciprocamente, e cada um seguiu o seu rumo. Arthur voltou ao salão; eu
retirei-me socegadamente ao meu quartel.