O sangue pede sangue.
Era por uma d'essas noites tempestuosas e frias do mez de dezembro de 18...
O vento soprava rijo e medonho. Lá fóra ouvia-se o rugir da procella. O
ribombo do trovão echoava tremendo e severo, como um castigo de Deus. As
nuvens, prenhes de electricidade, revolviam os ares, de cada vez mais
espessas e rapidas. A natureza parecêra amesquinhar-se, perante o pavoroso
espectaculo, que, em breve, teria de representar-se por sobre a superficie
da terra.
Tudo cedia, sem remedio, á violencia de tão possante e irresistivel
inimigo.
O roble altivo dobrava sua fronte magestosa ao impeto do vendaval raivoso.
O cedro rojava-se humilhado ante a sua impotencia e fragil embaraço. No céu
mal se destacava o refulgir das estrellas, d'entre a densidade das brumas e
trevas espessas. A humanidade, em silencio, parecera adormecida n'um leito
de funeral tristeza, e o prazer profundamente engolphado n'um abysmo de
terrivel melancholia.
Dir-se-ía a hora de eterna vingança, o dia de suprema verdade!
Em Lisboa, nessa cidade luxuosa e rica, era prolongado o silencio. Apenas o
vozear confuso e indistincto d'um ou outro pregoeiro poderia tomar-se,
talvez, como um signal de vida e movimento ephemeros, por entre o tumultuar
d'aquelle estranho labyrintho.
N'uma pequena e exotica habitação da rua dos Douradores agitava-se violento
e apressurado, d'um para outro lado da casa, um vulto alto e nobre, de tez
morena, barba preta, longa até ao peito, e com a fronte sulcada de
profundas e salientes rugas.
De quando em quando, Lourenço Viegas corria pressuroso pela sala, abria a
vidraça da janella, com impeto não vulgar, e observava impaciente aquelle
estado de cousas, que refervia, lá por fóra, nas ondas da procella. Depois
voltava para dentro, e continuava a passear agitado e trémulo.
N'um dos intervallos, porém, Lourenço caíu quasi automaticamente sobre uma
velha cadeira de espaldar, ali existente, unico movel que guarnecia aquelle
triste e humilde recinto, e que tivera a dita de escapar á sua espantosa
prodigalidade. Após alguns momentos, como se pensamento estranho, de
subito, lhe houvesse subjugado a fronte entumecida pelo continuo
redemoinhar de idéas, quasi sempre oppostas, puxou por um punhal, que nunca
esquecia ao seu lado esquerdo, e colerico arremessou-o para longe de si,
sem outro instincto que não fosse o da propria salvação. A lamina de aço
fusilou um instante, e foi cravar-se n'uma porta fronteira onde bruxuleava
ainda o clarão quasi extincto d'uma candeia, ali cravada. Ao contacto de
tão perigoso aggressor a porta estremeceu, e a luz, mal segura, caíu.
Nesse momento estrugiu os ares o latir agudo de enorme rafeiro, inseparavel
companheiro d'este nosso _Othello_ em miniatura. Lourenço apenas levantara
a cabeça, para tornar a caír n'aquelle mesmo estado de medonha lethargia.
No entretanto a tempestade havia serenado algum tanto. As brumas começavam
a dissipar-se no horisonte, e a estrella d'alva rompia bonançosa e feliz.
Lourenço levantou-se então, allumiado ainda pelo continuo e rapido fusilar
dos relampagos, e foi arrancar o punhal do logar em que, momentos antes, se
tinha cravado. Olhou para elle com a firmeza d'um heróe, e introduziu-o no
bolso.
Tu me salvarás!...--dizia elle, empurrando cautelosamente a portinhola
d'aquelle cubiculo, que nem já chave possuia. Acompanhava-o o
seu--_Terra-Nova_.
Mas que iria elle fazer a deshoras da madrugada? Que designio era o seu?
Vel-o-hemos mais tarde. Por agora, limitar-nos-hemos a seguir-lhe seus
passos incertos, se tal nos aprouver.
Da rua dos Douradores, Lourenço Viegas caminhou até o Caes do Sodré, onde
parou junto do _Grand Hotel-Central_.
--É preciso partirmos já, sem mais demora. Remos ao mar, e nada de
hesitações. Vamos a isso. O teu premio está nas minhas mãos.
Isto dizia Lourenço Viegas, dirigindo-se a um desconhecido, que ha muito o
esperava n'aquelle mesmo logar.
--Receio muito pelo mar, meu amo. Mas, emfim, uma vez que é da sua vontade,
vá lá. A Virgem Nossa Senhora nos acompanhe.
Assim fallava o arraes, saltando, prestes e desempedido, para dentro d'um
pequeno escaler, que se vergava submisso sobre as ondas enfurecidas.
Depois de varias e perigosas peripecias, de todo inuteis á curiosidade do
leitor, o escaler abicou finalmente á praia de Cacilhas. D'um pulo estava
Lourenço em cima do caes, tendo exposto d'antemão ao arraes todo o plano de
seus futuros designios.
Vejamos, pois, o que succedeu.
Lourenço subiu apressado a longa e difficultosa encosta, que conduz á villa
de Almada, e parou no cimo, lá, onde alveja uma casinha graciosa, rodeada
de espesso arvoredo, e fragrancias sem conto.
A um signal convencionado, abriu-se uma das janellas d'aquella airosa e
solitaria vivenda, e logo após assomou a ella uma figura de mulher, que mal
se destacava ainda por entre as sombras quasi desvanecidas da madrugada.
--Es tu, Lourenço?--perguntou Beatriz n'um tom receioso e baixo.
--Sim, meu anjo, é o teu amante, que te espera. Convém não demorar, de modo
algum, a nossa partida. A claridade começa a romper, e os nossos esforços
serão frustrados, se não fugirmos antes do dia.
--Então já, meu amigo. Fujamos, emquanto é tempo. Meu pae dorme
profundamente, e creio até que ninguem mais véla nesta casa.
Neste comenos, Beatriz atou um lençol á beira da janella, procurando ter
nelle um esteio seguro para a sua rapida fuga. Desceu, em seguida, até uma
certa altura, em que Lourenço a pôde suster em seus possantes braços, não
consentindo, por este modo, que seu pésinho aristocrata tocasse sequer esta
terra ingrata e rebelde, que só pisam humildes mortaes.
Momentos depois as pedras da calçada iscavam fogo ao rapido perpassar d'um
brioso alazão, que tomara o caminho do caes com celeridade inaudita.
Quem era o cavalleiro, ou antes, quem eram os cavalleiros, já o leitor, de
certeza, o terá imaginado. E como Lourenço pôde haver á mão aquelle meio de
transporte, facil nos será tambem conjecturar, mormente se nos lembrarmos
de que elle havia transmittido, muito antes, as suas ordens ao arraes João.
Apearam-se no caes. Beatriz, quasi desmaiada, dando apenas accôrdo de si,
foi conduzida ao escaler nos braços de Lourenço, que a envolveu
sollicitamente no seu _chale-manta_, para evitar que sua melindrosa saude,
d'algum modo, se alterasse com os rigores do tempo e intemperies da
estação.
O escaler, depois, remou ao largo, e foi atracar a um brigue, que estava
ancorado, defronte da torre de Belem, para onde Beatriz foi levada, a
custo, com o salutar auxilio de Lourenço Viegas. D'ahi a duas horas já o
navio se fazia de véla, com destino para New-York.
Mas, emfim, é tempo de sabermos quem são estes dois
personagens,--dir-nos-ha a amavel leitora, já um tanto agrilhoada por
desesperadora curiosidade.
Pois tem v. ex.^a muita razão, minha senhora. E para o que vou procurar,
desde já, sanar este inconveniente, apresentando, o mais ligeiramente
possivel, a photographia dos nossos viajantes.
Lourenço Viegas era bacharel formado em direito pela universidade de
Coimbra, e exercia, ha dois annos, um logar de professorado em Lisboa.
Procurando debalde obter a mão de sua adorada Beatriz, filha unica do
abastado lavrador--José de Brites Lencastre Serrão,--Lourenço resolveu-se,
por fim, a sacrificar toda a sua vida e paz de espirito, intentando o rapto
d'aquella angelica _sabina_, em que se estreou evidentemente feliz, como
acabámos de vêr.
Beatriz, que, a principio, vacillara em acceitar a temeraria e audaz
proposta do eximio professor. não pôde abafar, mais tarde, o grito
espontaneo do seu apaixonado coração, consentindo, de boa mente, nos
sinistros desejos de tão aleivoso amante.
Eis aqui, pois, como, por uma natural coincidencia, nos foi licito assistir
áquelle espectaculo, devéras commovente e fatal para ambos, que, ainda ha
pouco, vimos ser representado dentro dos muros da villa de Almada.
Chegado que foi á America, Lourenço procurou logo empregar-se; e conseguiu
effectivamente uma posição modesta e decente, sobejamente capaz para
antecipar toda e qualquer eventualidade, que, inopinadamente, lhe podesse
sobrevir pelo decorrer dos annos.
A saude, porém, não lhe fôra de todo favoravel, sob a influencia d'aquelle
clima. Por isso, ao cabo de alguns mezes, jazia elle enfermo, no leito da
desgraça e da miseria.
Beatriz bem lhe quiz valer com o seu trabalho, é verdade. Mas, coitada!...
como o poderia ella fazer, se todo o tempo lhe era pouco para velar pelo
moribundo e saudoso amante?
Portanto, quando Lourenço obteve algumas melhoras, os seus recursos estavam
completamente esgotados. Era dolorosa a posição d'aquelle desventurado! As
suas forças mal lhe consentiam ainda qualquer genero de trabalho, por menos
violento que elle fosse.
Um dia, Beatriz, depois de ter vendido e sacrificado tudo o que possuia de
seu, lembrou-se de appellar para a acção da caridade publica, como unico e
verdadeiro recurso no extremo d'aquella aterradora indigencia. Lourenço,
porém, apenas soube a fatal nova de que os alimentos, que ella lhe
ministrava diariamente, com tanta bondade e doçura, eram colhidos de porta
em porta, mediante as suas lagrimas e contristante humilhação, não ousou
supportal-os por mais tempo.
D'ahi em diante, tudo o que ella podia trazer-lhe para alentar o seu vigor
physico e robustez intellectual era arremessado á rua irremessivelmente.
Nunca o seu orgulho e independencia poderiam conceder tal baixeza e
opprobrio na mulher que elle desejara por esposa. Desde então o tédio
começou a apossar-se violentamente de seu angustiado espirito, e Beatriz, a
seus olhos, tornara-se um ente desprezivel e vil.
Assim pois, neste estado atrophiante e sensibilisador, pensou elle muitas e
longas horas. A loucura parecia dominal-o fortemente. E já não havia
valer-lhe, talvez, se, por acaso, uma circumstancia imprevista, o não
obrigasse subitamente a abandonar aquella immobilidade e desoladora
situação, em que, mau grado seu, o haviam encerrado suas forças e
abominavel desesperança.
Por um acaso inexplicavel de manifesta loucura, Lourenço Viegas não pôde
mais prolongar a febre vertiginosa, que lhe abrazava a mente enlouquecida:
levantou-se de salto, como se o desespero, de subito, lhe houvesse alentado
o corpo, enervado pela doença, e aproximou-se de Beatriz, cujos cabellos
beijou soffregamente:
--Ao menos, morrerás com o meu amor, anjo bemdito do Senhor!--exclamava
elle, afagando-lhe com delirio sua fronte mimosa.
Já não havia remedio, que lhe podesse abrandar o seu feroz instincto. Que
valeriam as supplicas da pobre mulher, em face da hediondez d'aquelle tigre
asqueroso e repellente,... se, minutos depois, ella tinha de jazer a seus
pés, victima expiatoria d'um pensamento infernal?!...
Consummou-se o sacrificio!...
Lourenço, cégo de raiva, sem atinar mesmo com a enormidade do crime, que
praticara, deu-se pressa em fugir para longes terras, passando sempre
incolume ás mãos da policia vigilante d'aquelle paiz.
Decorridos alguns annos, voltava elle a Portugal, em demazia opulento, para
poder grangear quaesquer d'esses titulos ou commendas, que tão malbaratados
andam por este nosso malfadado paiz. Onde elle conseguira tão rapida
transformação, isso ainda hoje passa como mysterio insondavel para todos os
que o conheceram outr'ora pobre e sem meios de vida. Diziam alguns que elle
se associara a uma quadrilha de bandidos na America do Sul; outros
affirmavam ter sido roubada aquella fortuna a um abastado proprietario, ao
serviço do qual elle se conservara por muito tempo.
Em conclusão, o que se sabe ao certo é que, estando elle um dia, muito
descançado, pacificamente encostado ao portal de sua casa, respirando
docemente as exhalações fragrantes das mil florinhas, que, então, apenas
começavam a vegetar, de subito parou junto d'elle um vulto desconhecido,
sopeando galhardamente um brioso e folgasão ginete.
--É o sr. Lourenço Viegas a quem tenho a honra de fallar?--dizia o
cavalleiro, dirigindo-se para elle com delicadeza e urbanidade.
--Um seu humilde servo,--replicou Lourenço, admirado.
--Pois, sr., saiba que aproveito esta occasião para vir pagar-lhe uma
divida antiga, que até hoje não tenho podido satisfazer.
--Uma divida?!... A mim?! Isso ha de ser engano, forçosamente. Creio que v.
s.^a nada me deve.
--Pois então saiba mais que me chamo José de Brites Lencastre Serrão, e que
tinha uma unica filha chamada Beatriz, a quem um infame assassinou e roubou
para sempre aos meus carinhos e affeições.
Palavras não eram ditas, e já Lourenço Viegas caía moribundo no chão com um
tiro de bacamarte, que lhe varara o peito de lado a lado.
Lourenço cahiu exclamando:--Mataram-me!... Fez-se a justiça de Deus!...
Quando, algumas horas depois, accorreu a gente da terra áquelle sitio, já
elle havia exhalado o ultimo suspiro.
No dia immediato alguns dos seus poucos amigos conseguiram, a grandes
rogos, que o parocho da freguezia desse o seu consentimento para elle ser
sepultado no adro da igreja.
Hoje a sua lousa jaz quasi ignorada. Algumas florinhas solitarias, que
derramam aromas nas horas do crepusculo, ou quando muito um cypreste
erguendo-se melancolico e severo, com as côres sombrias e esverdeadas da
sua eterna primavera, e uma cruz silenciosa e triste indicando que ali
repousam os ossos d'um desgraçado!...
*CAMBIANTES DA COMEDIA HUMANA.*