_Vive l'amour! Vive le champagne!..._
O amor é o nosso heróe, mas um heróe _comme il faut_; o champagne o seu
condigno satellite.
A scena passa-se n'um baile, se bem me recordo.
O protogonista da acção é um mancebo de vinte annos, pouco mais ou menos;
alto, magro, de cabello e bigode alourado, testa rasgada e ampla, olhos
pequeninos e vivos, e com todos os signaes visiveis d'uma imaginação
eminentemente fogosa, mas, em parte, já obscurecida pelo contínuo perpassar
de medonhas orgias e pelo roçar de perigosas paixões.
Agora, com estes preludios, leitor amigo, acompanhemos o nosso personagem,
e perscrutemos, sem escrupulo, alguns episodios da sua tragica vida.
Silencio, pois!
Eil-o ali, áquelle cantinho! Lá caminha passo lento e medido! Os sons da
orchestra attráem-n'o irresistivelmente ao salão! Aquelle esplendor,
aquella voluptuosidade oriental, que se respira n'aquelle recinto ideal e
angelico, despertam em sua alma febril o enlevo de mais venturosos dias,
evocando á sua phantasia amortecida esses phantasmas crueis e fagueiros,
que outr'ora lhe alimentavam os doces sonhos do porvir.
Alvaro, dirigido para ali automaticamente, foi sentar-se na primeira
cadeira, que, ao acaso, encontrou.
A dança tornara-se delirante, e a sua alma, já de muito saturada com a
triste realidade do mundo, palpitava-lhe no seio com a violencia de
prolongadas e suaves sensações.
Senão quando, o som desconhecido d'uma voz argentina e doce lhe attraíu a
attenção desvairada por longinquas paragens.
Despertou do lethargo, o nosso galan. Acercou-se d'aquelle vulto gracioso e
nobre, e, convidando-o a dançar, entrou n'uma quadrilha.
Alvaro encarou tres vezes o seu mimoso par. Não sabia devéras, como encetar
a conversação. Dirigir-lhe alguns requebros frivolos e banaes, em que tanto
abundam estes bailes da nossa moderna sociedade, isso não. Não se coadunava
com a sua indole, em extremo sensivel, o compendiar meia duzia de palavras
semsabores, para entreter uma dama, cuja belleza elle, aliás, admirava.
Era dura a collisão, mas tinha de acabar, e acabou com effeito, explosiva,
mas real.
E senão, ouçamos o resto do dialogo, se nos apraz. Esqueçamos, por um
momento, os outros pares dançantes, e concentremos a nossa curiosidade
sobre os heroes d'esta pequena scena, que intentamos esboçar.
--Nem v. ex.^a é capaz de avaliar quanto foi poderoso e salutar o
feiticeiro sorriso de seus labios sobre o meu pobre coração, minha senhora.
Já esquecido, ha muito, d'este mundo hypocrita e ridiculo, estava longe de
me reputar feliz um momento sequer, quando divisei, na orla do meu
horisonte, a terna imagem de v. ex.^a E, com effeito, não houve
resistir-lhe. Cedi a um impulso intimo; compenetrei-me da gravidade do
caso, e agora aqui me tem completamente escravisado e rendido aos pés de v.
ex.^a
Emilia, e porque não? Seja-nos licito revelar aqui o seu nome, Emilia nada
respondeu; baixou sua loura cabeça em scismador enleio, e teve a loucura de
o acreditar, a desgraçada.
Horas depois, Alvaro, ao vêr os salões de todo desertos, saíu, como sempre,
tetrico e pavoroso.
Entrou no primeiro café, que se lhe deparou; mandou vir champagne e cognac;
e bebeu, bebeu até á embriaguez! O ultimo calix voou pelos ares, em pedaços
ao clamor estridulo e rouquenho de--_Vive l'amour! Vive le champagne! Vive
l'ivresse! Vive la folie!_...
A prostração, comtudo, não o tornou em completa demencia, nem tão pouco as
forças physicas se lhe esgotaram.
Passeou a vista pelas mezas da casa, e apenas avistou dois meliantes ainda
profundamente encarniçados no delirio do jogo.
Levantou-se, e foi direito a elles. Apontou a uma carta, e perdeu; apontou
a outra, e tornou a perder; á terceira, entisicando-se-lhe a bolça, soltou
um derradeiro e sentido suspiro!
Já não havia mais recursos: saíu, pois, do botequim.
A aurora começava, então, a roxear o oriente com o clarão da sua divina
poesia. Ao longe, a cotovia annunciava um dia ameno e bello. A brisa mórna
do crepusculo bafejava de mansinho, ao brando contacto de solitaria
violeta, que se espreguiçava indolentemente, qual indiana lasciva na sua
rede de pennas!
Alvaro nem sequer se commoveu com aquelle espectaculo.
Pobre desgraçado! como seria elle capaz de poder comprehender essa epopeia
gigante, que tão evidentemente nos revela a existencia d'um Deus
omnipotente e justo, n'aquelle estado deploravel e asphyxiante?!
Passou, como se tudo lhe fôra indifferente.
Subiu, depois, uma longa e sinuosa escada, que conduzia a uma agua furtada,
cuja era a sua residencia. Veio abrir-lhe a porta uma joven mulher pallida
e alta, de feições distinctas e ainda delicadas, mas já quasi extinctas
pelo marulhar tenebroso do gêlo da desventura!
Uma luz baça allumiava o humilde aposento. Pela fresta da janella apenas se
coava um tenue raio de luz, que contrastava singularmente com a pobreza e
nudez d'aquelle exiguo e acanhado recinto.
Mas quem era aquella mulher? Que vida era a sua? Que fazia ella ali?
Aquella mulher era uma d'essas creaturas, como muitas, que Deus arrojou ao
mundo, para justa punição do homem, e opprobrio eterno da humanidade.
Filha de paes abastados, aquella mulher, teria sido rica, outr'ora,
nimiamente formosa e sublimemente ditosa, se a fatalidade do destino, peior
que a fatalidade das paixões, não tivesse vindo macular para sempre a sua
reputação ephemera.
Paulina amara Alvaro ardentemente; mas o traidor, longe de sanctificar
aquelle amor com uma união licita, prostituiu torpemente a victima indefesa
de seus nefastos designios, sempre indifferente ás suas agonias e ás suas
dôres.
Paulina aproximou-se do seu amante, com o intuito de o beijar docemente,
segundo o seu costume, quando elle a arremessou brutalmente ao meio da
casa:
--Afasta-te, mulher vil! Para sempre! Não me tornes a beijar! Não queiras,
ainda mais, manchar a minha fronte com o teu osculo impudico e pestilente.
Julgara-te uma mulher, e não passas d'uma desgraçada! Reputei-te um anjo, e
és um demonio! Cri, por algum tempo, na sanctidade do teu amor, e
illudi-me, illudi-me sim, vibora dolosa e maldicta!
Triste verdade!...
Ah! Ah! Ah!
Neste ponto, Alvaro soltou uma d'essas gargalhadas estridentes e medonhas,
que causam horror até ao maior heróe d'este mundo. Depois caíu sobre um
canapé esfarrapado e sediço, que elle herdara de seus paes, em tempos mais
ditosos, e ao lado do qual existia uma mezinha tosca e ligeira, onde se
accommodava invariavelmente uma botija de genebra, que elle collou aos
labios, tractando de a sorver diligentemente.
Paulina, embrulhada n'um roupão rôto e velho, com as suas longas madeixas
em completo desalinho, foi-se arrastando insensivelmente no pó da sua
ignominia, até chegar ao pé de Alvaro, cuja mão ainda tentou beijar mais
uma vez.
Elle, quasi adormecido, soffreou aquelle golpe como lh'o permittiam as suas
debeis forças.
Paulina ajoelhou perante o seu algoz. Mal começara, porém, a introduzir
suas pequeninas e niveas mãos por entre os avelludados cabellos de seu
amante, prodigalizando-lhe toda a especie de blandicias e carinho, de que
só uma mulher é capaz,--Alvaro, como que tomado de subito desespero,
levantou-se, e, tomando do braço d'aquella pobre mulher, exclamou:
--Paulina, é preciso que tu me entendas, d'uma vez para sempre. Eu não te
amo, nunca te amei, nem te poderei jámais amar. Has de ser desgraçada toda
a tua vida, porque nunca me soubeste comprehender,--porque nunca foste
capaz de imaginar que, em logar d'um amante, só tinhas diante de ti um
leproso vil, a quem a sociedade contaminou com o seu halito corrompido,
para depois o deixar triste e solitario neste theatro ignobil da humana
corrupção. Tu, que foste boa e meiga para comigo, procura outro mais digno
de ti. Não faltarão homens, que te saibam estimar. Vae, vae correr mundo; e
deixa-me, deixa-me por uma vez!...
Neste instante, desabotoou-se, por acaso, o casaco de Alvaro, e de seu seio
caíu um leque, que lhe havia sido dado poucas horas antes por aquella joven
e espirituosa Emilia, de quem já nos occupámos no principio d'esta
narrativa.
Paulina empallideceu terrivelmente, e ia para apanhar aquelle objecto, tão
caro e saudoso, de seu amante, quando elle se interpoz á sua vontade,
collocando-se de modo a impedir a realisação, bramindo rancoroso e medonho.
Os olhos chispavam-lhe sangue, e a bocca espumava-lhe de satanica raiva.
Tambem não articulou nem mais uma palavra. Apanhou o leque com soffreguidão
inaudita; abriu-o, e começou a reparar n'uma borboleta que alli se achava
gravada. Depois sorriu-se, e, sempre com os olhos fitos no mesmo ponto,
exclamou:
--Qual te via sempre, mariposa gentil, adejando mimosa por sobre os meus
sonhos radiantes, appareceste-me hoje, mais bella e sublime como nunca te
havia imaginado. A tua imagem despertou ao longe os echos da minha alma;
consolou-me o fulgor da tua benefica luz, na esperança d'um ditoso porvir!
Sê grande, minha Emilia, dá-me a crença e a vida outra vez! Suavisa o meu
penoso soffrer, com o teu balsamo salutar, e, com o orvalho de teu doce
coração, refrigera as chagas da minha imaginação enferma!...
Alvaro saíu, então, com tenções de nunca mais voltar áquella casa.
Paulina, essa jazeu por muito tempo n'um abatimento deploravel, até que, ao
fim de alguns dias, se resolveu a ir mendigar de porta em porta o pão ázimo
da desventura e do arrependimento.
Enganara-se, porém, aquella pobre mulher, quando julgara ter perdido para
sempre o seu amante, que, ainda no opprobrio da sua existencia, não podera
olvidar.
Um dia Alvaro regressou a casa, completamente regenerado d'aquelles vicios
hediondos, que nós lhe conhecemos na sua mocidade estouvada, e
perfeitamente arrependido das passadas loucuras.
Emilia fôra o seu anjo da guarda. Quando soube da mulher vilipendiada,
d'aquella boa e angelica Paulina, longe de a rivalisar, pelo contrario,
tractou de lhe promover o seu maior bem. E foi tanta a longanimidade do seu
coração, que um mez depois Alvaro era legitimo esposo de Paulina e um dos
mais honrados e bemquistos cavalheiros da invicta cidade do Porto.
Deixal-os ser felizes. Que a benção do Senhor se compadeça dos seus
peccados, e faça descer sobre elles o anjo da felicidade e do amor.
O mundo é assim!
*UM DRAMA INTIMO*