A noite estava escura. Alice levantou a golla do casaco e, puxando o
véuzinho até ao queixo, desatou a andar em direcção ao largo do
Machado, sem paciencia de esperar o bond á porta de casa.
Atrás d'ella, a curta distancia, Feliciano não lhe tirava os olhos de
cima, cosendo ás paredes o seu corpo esguio. A sombra, protectora de
segredos, confundia-se com a côr do seu rosto, esvaindo-lhe a imagem.
Os tacões da moça batiam na calçada em pancadinhas miúdas e sonoras;
os delle dir-se-iam forrados de velludo.
A espionagem tem azas de morcego, teme a luz, mas espalma-se na treva
sem rumor nem receio. Seu elemento é o mysterio. O desejo do mal é
silencioso. Oh, se elle pudesse estender as unhas afiadas e fazer
sangrar na escuridão a carne branca d'aquella mulher!
Não fôra ella quem o desprestigiara diante dos outros que elle
dominara antigamente como senhor? Todas as suas fraquezas, os seus
crimesinhos de infidelidade não tinham sido farejados e descobertos por
essa creatura imperativa e doce a um tempo? Nem uma palavra lhe sahira
dos labios, mas a verdade salta pelos olhos quando a não deixam sahir
pela boca.
Ella sabia tudo. Tratava-o como um inferior, uma machina de serviço,
sempre necessitada de direcção. Não fôra para isso que elle
aprendera a ler na mesma cartilha da sua antiga Yayá!
Revoltado contra a natureza que o fizera negro, odiava o branco com o
odio da inveja, que é o mais perenne. Criminava Deus pela differença
das raças. Um ente misericordioso não deveria ter feito de dois homens
iguaes dois seres dissemelhantes!
Ah, se elle pudesse despir-se daquella pelle abominavel, mesmo que a
fogo lento, ou a afiados gumes de navalha, correria a desfazer-se d'ella
com alegria. Mas a abominação era irremediavel. O interminavel cilicio
duraria até que no fundo da cova o verme puzesse a nú a sua ossada
branca...
Branca! Era a mulher branca que elle preferia, desprezando com asco as
da sua raça.
A superioridade d'aquella que ia toc-toc na sua frente, exasperava-o. O
seu humor inalteravel, os seus habitos de asseio e de ordem não lhe
tinham dado ensejo para a intriguinha facil e perturbadora. Chegara o
dia de castigar a affronta d'aquella branca intromettida, que elle
odiava, e ardia por esmagar com a divulgação de algum segredo que a
compromettesse. Desprezava o ardil pela verdade; mas, se esta lhe
escapasse, então recorria a tudo, até ao feitiço de algum velho
parceiro africano...
Mas d'esse recurso extremo só lançaria mão quando não pudesse contar
com os da sua intelligencia e malignidade.
Tinha ainda na memoria uma sentença materna: «quem faz feitiço morre
de feitiço» e essa idéa affligia-o. A mãe era filha de mina. Devia
saber... Aquella branca pobre e presumpçosa, que era mais do que elle
na ordem das coisas, para o tratar assim por cima do hombro, com um
arzinho superior de patrôa fidalga?
--Ella ha de me pagar!
O que elle queria agora era saber bem da sua vida, penetrar no mysterio
d'aquella existencia fluctuante, sem raizes conhecidas; assenhorear-se
de um segredo que a tornasse escrava da sua vontade poderosa.
Como aos de Adolpho Caldas, ella tambem representava aos seus olhos o
encardido papel de especuladora.
Não era outra coisa; mas a intrusa teria o seu castigo, zurzido com
mão de ferro, na hora marcada pela sua justiça.
O arrependimento entraria então no coração de Argemiro.
O bond tardava e Alice não diminuia o rythmo dos passos. Antes assim;
elle gostava de ir andando a pé, atrás d'aquella figurinha nervosa e
fugidia.
Quem tanto se apressa, corre para a felicidade, que para o aborrecimento
o passo é tardo. Pensava o negro: ella vai para alguma entrevista de
amor...
Isso contrariava-o... e crescia-lhe com essa idéa a raiva pela
usurpadora dos seus regalados descanços e da sua autoridade de chefe!
Ella matara o seu prestigio. Viesse quem viesse depois d'ella,
encontraria lançada na casa a semente da desconfiança. Fôra um dia o
Feliciano, que lia jornaes nas cadeiras do amo, com deliciosos charutos
entalados entre os beiços!
Um bond! E o bond parou a um gesto de Alice, que subiu para um dos
bancos da frente, conchegando com um arrepio o casaco côr de mel ao
corpo friorento.
Feliciano, em pé na platafórma, não a perdia de vista.
No largo do Machado ella desceu e passando pela frente da igreja tomou a
direcção da rua Bento Lisboa.
O negro, a pequena distancia, ia atrás d'ella, dando graças ao vento
que fazia ulular o arvoredo da praça, abafando outros rumores. Na rua
Bento Lisboa, Alice accelerou a marcha. Parecia levada por um grande
desejo. Feliciano espiava-a afflicto, numa anciedade!
A sua admiração era não vêr apparecer um homem, a quem ella désse o
braço, que a compromettesse e o ajudasse na intriga... De resto, elle
não queria crêr, queria denunciar!
--De repente estacou; a moça sumira-se na portinha negra de uma casa
antiga, meio arruinada.
Feliciano passou, tornou a voltar, sondou com olhar atrevido o corredor
escuro, procurou vêr se estaria alguem a quem pudesse fazer qualquer
pergunta na vizinhança, encostou-se a um humbral fronteiro e esperou,
indignado, contra aquellas paredes, que um murro de homem deitaria
abaixo e que lhe escondiam o mysterio desejado!
O vento e o pó obrigavam os moradores do lugar á reclusão. As
janellas fechadas entristeciam a rua, ordinariamente animada. Que se
passaria lá dentro?
Feliciano esteve uma ou duas horas á espera, como um vigia cuidadoso,
firme no seu posto. Nem uma restea, um tenue fio de luz vinha cortar a
treva d'aquella fachada muda!
O negro tinha impetos de ir encostar o ouvido ás janellas ou penetrar
no corredor, cançado de esperar, numa impaciência que o adoecia.
Eram quasi dez horas quando ouviu rumor de vozes e reconheceu a de
Alice. Depois a moça reappareceu, puxando a porta sobre si.
A casa, impenetravel, guardava o seu segredo. Alice deslisava na sombra
com o mesmo passo apressado. Dir-se-ia que igual desejo a levava ao
ponto de onde partira tres horas antes!
Desnorteado, Feliciano hesitava se deveria acompanhar Alice, cujo
destino conhecia, se ficar mais alguns instantes esperando alguem que
por ventura sahisse d'aquella casa. Alice nunca entrava nas suas
quartas-feiras depois das dez horas; logo, ella marchava para o Cosme
Velho. Interessava-o agora quem ficava alli. Começaram a cahir grossos
pingos de chuva e a escuridão era apenas dissimulada pelos lampeões de
gaz. Já sem receio de ser surprehendido, Feliciano verificou o numero
da porta por onde Alice sahira, mas só se afastou quando ouviu que a
ferrolhavam de dentro.
«Quem estava, fica... logo, vou-me embora». E elle voltou, intrigado,
aborrecido, com maior odio ainda por aquella mulher que se lhe escapava
de entre os dedos fracos quando julgava prendel-a para toda a vida!
Emfim já sabia alguma coisa: aprendera o caminho da tóca, onde ella
vinha furtivamente todas as semanas, em horas e dias determinados...
Quem se fia em mulheres está bem servido!... pensava comsigo o negro,
desandando no seu caminho. Esta inda é peor do que as outras, porque é
fingida. Fingida como Judas!
--Ella ha de me pagar...
Alice deu volta á casa pelo jardim e entrou por uma porta do fundo,
evitando um encontro provavel com Argemiro, que falava alto no
escriptorio, junto á saleta da frente.
Cançada, sentou-se um momento na sala de jantar, antes de subir para o
seu quarto, vigiando a porta do escriptorio, prompta a fugir num
relance, caso elle apparecesse. Com as mãos abandonadas nos joelhos,
sorria com amargura ás palavras de Argemiro, que lhe chegavam
nitidamente aos ouvidos. Elle arengava contra as mulheres. Os outros
davam-lhe razão, citavam exemplos destacados de escandalos, riam-se
alto, declarando o casamento uma instituição prejudicada.
A uma phrase atrevida de Argemiro, respondeu Adolpho Caldas
maliciosamente:
--Emquanto pelo annuncio do _Jornal_ acudirem governantes moças para as
casas de viuvos sós... Mas é que nem todos são viuvos, meu caro!
Telles riu alto; a voz de Assumpção disse qualquer coisa que a
palestra dos outros suffocou.
Poderiam gritar. Alice tapara os ouvidos com os dedos e subiu correndo
para o seu quarto, onde se fechou por dentro.
Quem falava agora na sala era o padre Assumpção:
--Ainda ha mulheres tão puras como as mais puras de todos os tempos.
Tenho ouvido muitas Ruths no confessionario, e conhecido almas adoraveis
de innocencia e de bondade. Vocês conhecem-nas pelas exterioridades, eu
pelos sacrificios,--que são ordinariamente as sacrificadas que nos vêm
pedir conselho e consolação. Tenho encontrado em meu caminho sublimes
abnegações, sempre por parte das mulheres...
--Porque os homens não se confessam!...
--Confessam-se alguns, mas não dizem tudo, ou, quando o dizem, fazem
tremer! Tenho muito respeito pela mulher e sobretudo pela mulher pobre,
porque nunca a pobreza deixou de ser affrontada, nem a mulher
deprimida...
--Meu evangelico Assumpção, parece-me que a tua psychologia está
errada! Nós sacrificamo-nos muito mais...
--Nós sacrificamo-nos pelas idéas; ellas sacrificam-se por nós, que
somos menos compensadores e mais ingratos...
--Bonitas coisas você deve ter ouvido, padre! A mim o que me espanta e
revolta, é que ainda haja paes e maridos que consintam nessa
abominação do confessionario. A religião não poderia ter inventado
coisa mais vil nem mais repugnante. Vamo-nos embora.
--Vamo-nos embora, que a noite está negra que nem uma alma peccadora,
disse Telles, ao mesmo tempo que Adolpho continuava:
--A minha confissão é que tu não ouves, padre! que me mandarias pelo
telegrapho para o inferno. Basta que eu te confesse isto: amanhã darei
um assalto á tua bibliotheca. Preciso de Rodrigues Lobo...
D'aquelle--_Pastor Peregrino_.
Assumpção, procurando o chapeu, exclamou:
«Cabellos que na côr formosa e pura
Estaes ao mesmo sol fazendo inveja,
Que confiança em vós será segura...»
Mas o Telles interrompeu:
--Olhem que o Argemiro está com somno e eu morto por me ver na
pensão!...
Desceram, e, já na rua, o padre relembrou ainda uma phrase do classico:
--_Deixai-me enganosas alegrias, que eu não busco, na ventura senão, o
que a meu desterro sem esperança e á minha vida desesperada convém._
--Sinto cheiro a bafio quando ouço classicos, commentou o deputado.
Adolpho accendia um charuto. Assumpção adiantou-se para mandar parar o
bond.