A Pedrosa empenhava-se na conquista de Argemiro. Não contente de o
convidar com insistencia, arrebanhava-lhe os amigos para os seus
jantares das sextas-feiras, em que a sedução rescendia até nos molhos
do peixe. Adolpho Caldas, que se gabava aos intimos de fazer os
relatorios do ministro, traduzindo para portuguez castiço a linguagem
quebradiça do homem de Estado, não faltava nunca a essas reuniões; e
o deputado Telles, governista, assistia aos banquetes com o desassombro
de quem concorria poderosamente para a felicidade e o prestigio
d'aquella casa.
Argemiro, o mais solicitado, era incerto. Só o padre Assumpção se
esquivava sempre a essas honrarias, allegando que o seu sacerdocio o
afastava de todos os gosos profanos. Para se aproximar tambem d'este
amigo, a Pedrosa não lhe faltava ás suas missas das quartas-feiras,
allegando devoção particular a S. José, patrono do marido e
offerecendo pela mão da filha esmolas gordas para os seus pobres.
A esmola vinda d'aqui, d'alli ou d'acolá, mata da mesma maneira a fome.
É dinheiro. Padre Assumpção agradecia sinceramente. S. José que
valesse áquellas almas interesseiras, que outras menos dignas iam á
sombra do seu manto peccar na egreja, sem que do seu peccado resultasse
algum bem para os necessitados...
Que ambicionava afinal a Pedrosa? casar a filha com um homem de bem.
Expôr a menina áquelle desfrute, não era por certo acção digna de
uma mulher criteriosa; mas a boa justiça encontraria para ella certa
indulgencia... Desgostavam-n'o mais as outras, que á sombra dos altares
iam falar de amor, alli no interior sagrado da sua querida Matriz da
Gloria!
Pensaria por exemplo a Eugenia Duarte, que elle, padre, via com bons
olhos a sua assiduidade na egreja? Fôra sua confessada, sabia-a casada,
com filhos, um lar precisado da sua presença e do seu carinho...
E lamentava os filhos d'essa mãe, abandonados todos os dias, á hora
exactamente de saltar do leito e da bençam maternal... Outra, cuja
presença o inquietava alli, era a Joaquininha Lobo, sempre com os
pulsos cheios de rosarios, sempre a dobrar-se em profundas reverencias
deante das imagens dos santos. Tambem essa fôra sua confessada, e
debandara como as outras, affligidas pelos seus conselhos e pelas suas
admoestações... O marido d'esta vivia em viagens, como official de
marinha; ella rabeava pelas egrejas, dando entrevistas entre
padre-nossos, sempre envolvida em grandes obras de beneficencia.
Numa quarta-feira, sahia o padre Assumpção de dizer a sua missa,
quando foi abordado no adro pela Pedrosa e a Sinhá, que o aguardavam
com a competente esmola. Em baixo, junto aos degráus, esperava-as o
_coupé_. O dia estava magnifico.
--Reverendissimo!
--Minhas senhoras...
--Acabamos de receber a sua bençam e viemos esperal-o para darmos esta
esmolinha aos seus pobres...
--Meus ou dos outros, todos os pobres me merecem a mesma consideração.
VV. Ex.ᵃs devem têl-os tambem...
--Repelle então o nosso offerecimento?!--perguntou a Pedrosa
desapontada.
--Não tenho esse direito. Sómente, se me permittirem... eu ensinarei a
uma das minhas velhinhas o caminho da sua porta, e a esmola será
então, dada directamente, mais agradavel a ambas...
--Isso não obsta... darei outra esmola á sua velhinha!...
A Pedrosa continuava de mão estendida; e como o padre não a acceitasse
logo, ella disse com a sua costumada vivacidade:
--O sr. padre Assumpção desconfia de nós!... não crê por certo na
sinceridade da nossa sympathia. Tem sempre reluctancia em acceitar as
nossas esmolas!
--Engana-se, minha senhora, engana-se! Não posso recusar o que não é
para mim!... Todavia, desculpem-me a teimosia, a pessoa a quem eu
destinaria esse dinheiro procural-as-á amanhã. Posso morrer de um
momento para o outro... é bom que ella conheça as suas bemfeitoras...
--Morrer! Quem fala nisso, ainda tão moço!
Elle sorriu com ironia, sem responder.
--Diga-me, que fim levou o nosso amigo Argemiro? Não ha quem o veja!...
Não sei quem me disse têl-o visto ha dias com a filha... ella ainda
mora com a avó?
--Sim, minha senhora...
--Então elle vive sózinho... absolutamente sózinho?...
--Sózinho.
--Que barbaridade!... Aquella ovelha está tresmalhada do seu rebanho...
não lhe parece, padre Assumpção?
--Ao contrario, Argemiro consagrando-se á saudade da sua mulher, está
bem escudado contra os perigos do mundo... Mas, minhas senhoras,
perdôem-me VV. Ex.ᵃs estar a entretel-as aqui, com este sol!
--Ao contrario, eu...
Mas o padre apressou-se no cumprimento e as duas senhoras não
insistiram na conversa, percebendo que elle tinha uma preoccupação
qualquer.
Ficaram as duas ainda alguns segundos no alto da escada, vendo a longa
figura secca e angulosa do padre atravessando, a grandes pernadas, o
jardim.
--É um homem difficil de conquistar... já não sei quantas esmolas lhe
temos dado, não sei quantos convites lhe temos feito... parece
antipathisar comnosco...
--Se eu fosse a senhora não lhe dava mais nada, nem o tornaria a
convidar para ir lá a casa. Por ser padre não deve ser grosseiro...
--É o melhor amigo do Argemiro... Comprehendes que o não convido só
pelos seus bellos olhos.
--Ah...
A Pedrosa olhou para a filha com certo espanto.
--Mamãe espera mais alguem?!
A Pedrosa, por unica resposta, começou a descer a escada, e ao entrar
no _coupé_ gritou para o cocheiro:
--Estação do Corcovado!
Sinhá, sentando-se a seu lado, indagou curiosamente:
--Vamos ao Corcovado! a esta hora! fazer o que?
--Almoçar...
--Sózinhas? E papae?
--Teu pae não almoça hoje em casa.
--Mas elle sabe?
--Ha de saber, quando eu lhe disser.
--E se elle não gostar?...
--Tolinha... vejo que não tenho outro remedio senão ir-te dizendo já
o que adiava para mais tarde. Não sahiste a mim na perspicacia...
Sinhá olhava para a mãe com uma linda expressão de estupidez.
--A razão por que vamos almoçar ás Paineiras não pôde ser
desagradavel a teu pae. É esta:
Está lá em cima no hotel o encarregado dos negocios da Inglaterra.
Fui-lhe apresentada ha dias rapidamente: convém fazer-me lembrada...
Aquelle homem póde ser muito util a teu pae. Apparecendo lá, como por
acaso, elle forçosamente virá cumprimentar-nos. Almoçaremos talvez á
mesma mesa e terei ensejo de lhe repetir o offerecimento de nossa casa.
É uma relação util. A vida, minha filha, é como uma caixa vasia que
os soffregos e os tolos enchem com tudo que topam, e os atilados só com
coisas escolhidas.
Se não fosse a minha tactica, pensas que teu pae teria alcançado as
posições que tem tido?!
--Julguei que fossem só os seus merecimentos que...
--Tontinha! Só pelos merecimentos, sem um pouco de manha, ninguem faz
nada neste mundo!...
--Mas, sendo papae ministro a utilidade das relações é toda para o
tal inglez!
--Não, filha; o homem é consideradissimo no alto commercio e só por
iniciativa d'elle podem advir para teu pae grandes sympathias... e
choverem-lhe manifestações de apreço, que são sempre de um optimo
effeito. Um banquete, por exemplo, offerecido pelo alto commercio a um
ministro, pensas que não lhe accrescenta a importancia? É preciso ter
faro para se perceber bem isso.... Catando-se seixinhos podem-se fazer
castellos... Este é um proverbio inventado por mim e de que te não
deves esquecer...
--Mamãe não receia...
--Quem tem medo não vae á guerra. E depois, medo de que?
--Que percebam...
--Faço tudo com muita diplomacia; sei disfarçar a minha vontade,
fazel-a triumphar sem que ninguem a perceba. É um dom peculiar e que eu
desejo transmittir-te. Mas acho-te muito frouxa; és ainda muito
innocente, muito ingenua. Lá para deante, quando tiveres os teus trinta
annos, me comprehenderás. Apesar de que eu, desde que me conheço sou
assim... atilada e corajosa. Quando me casei, teu pae não passava de um
advogado pobre... Quem o lançou na politica? Fui eu. Quem trabalhou
para a sua eleição de deputado e que maior numero de votos alcançou?
Fui eu. Quem o levou pela primeira vez ao paço de Suas Magestades? Fui
eu, e tinha apenas vinte e dois annos!... Quem, depois de proclamada a
Republica, o persuadiu de adherir e lhe arranjou uma cadeira no Senado?
Eu. Quem o fez ministro agora? Eu. Eu sempre, servindo-me d'estas
estrategias, aproveitando todas as occasiões e todas as sympathias,
obsequiando um dia para insinuar no outro uma protecção que parecesse
vir espontaneamente; realçando os méritos de teu pae, quer de espirito
quer de coração, seguindo-o como um cão de caça segue o caçador,
através de todos os perigos, corajosamente.
--Se papae não tivesse qualidades extraordinarias, a senhora, por mais
que fizesse, nada alcançaria!... interrompeu Sinhá, defendendo os
brios paternos.
--Ah! eu não havia de ser tão tola que me casasse com um
insignificante. Casei por amor, mas tambem por vêr em teu pae um homem
de altas tendencias. As mulheres são mais ambiciosas e mais activas.
Homem que casar com mulher accommodada, está perdido. É outra maxima
das minhas. Toma nota.
--Homem que se casar com mulher accommodada... repetia Sinhá, quando a
mãe continuou:
--Já minha avó era assim. Casou todas as filhas com quem muito bem
quiz. Os homens com herdeiras ricas, as filhas com senadores e
conselheiros...
--Com homens velhos...
--Homens de posição. Que vale a mocidade sem dinheiro e sem brilho?
--Oh! mamãe...
--Não vale nada!
--Papae era moço...
--Nem tanto... Em todo o caso, maridos querem-se como os fructos:
maduros. Teu pae era de familia distincta, excellentemente relacionado;
percebi logo muito bem que seria feliz. E effectivamente elle tem sabido
deixar-se levar.
--Por quem?!
--Que pergunta! Pelas circumstancias... e por mim! Olha que saber levar
alguem a um destino desejado, sem que nem mesmo esse alguem perceba que
vae sendo impellido por mãos alheias... é uma grande arte! É a minha.
Mas, credo! em que disparada nos leva o João!... isto cança os
animaes!
--Leva-nos sem arte... disse a Sinhá, sorrindo.
Ella tinha agora a fronte velada por uma sombra de tristeza. O vestido
escuro, abotoado até ao queixo, fazia-lhe resaltar a pallidez do rosto
emoldurado por dois ondeados bandós pretos.
--A casa do Argemiro não deve estar longe... Ahi está o Argemiro! já
não é muito moço... os cabellos começam a pintar. Entretanto,
conheces algum rapaz mais distincto?!
Sinhá não respondeu. A mãe, depois de ter esperado um pouco,
continuou:
--Elle fará a tua felicidade. É dos taes que precisam de ser
estimulados... Tendo tantos recursos, não se serve de nenhum! Nem
deputado é.
--A eterna mania da politica...
--Não ha nenhuma mais patriotica. Mas advirto-te que não deves
alcunhar de _manias_ as minhas opiniões...
--Mamãe desculpe...
--Olha! a casa d'elle é aquella... é bonita... é própria... repara!
Será tua...
--Já reparei, mamãe!...
--O unico inconveniente é a filha...
--E elle não gostar de mim! accrescentou Sinhá.
--Queiras tu! Para mim isso seria até um estimulo. Sempre gostei de
vencer difficuldades...
--Eu sou muito mais fraca...
--Deixa isso por minha conta...
--Mamãe!...
Sinhá fez-se vermelha e não conseguiu dizer mais nada. Aquella palavra
dita em tom de supplica parecia tel-a engasgado. Estava com os olhos
cheios de agua.
A Pedrosa continuou:
--Trabalharei para a tua felicidade, como tenho trabalhado para a
felicidade de teu pae. Digo-te isto só a ti e exijo que o não repitas
a ninguem! É uma lição de experiencia, que te deve aproveitar.
Infelizmente, no mundo só os expertos alcançam bom logar. Quem não
tiver cotovellos não se metta nas multidões...
--Outro adagio, mamãe?
--Não é, mas póde servir... O padre Assumpção ainda ha de fazer o
vosso casamento; e quero-lhe então ver a cara! Acha o pateta tão justo
que o amigo exgote a mocidade a choramingar pela mulher defunta!
--Deve ser bom, ser chorada assim!
--Qual o que! nem a outra vê nada! Ella já em vida parece que não via
grande coisa... Era tão vaga... tão vaporosa!
--Bonita?
--Hum... Delicada... Precisamos arrancal-a do coração de Argemiro.
--Deixe-a... Não devemos guerrear os mortos!
--Nem nos deixar vencer por elles. Endireita o teu chapeu... repara para
o meu... está bem?
--Está bem...
O carro rodou ainda alguns minutos. Quando chegaram á estação, a
Pedrosa recommendou ao cocheiro que as viesse esperar ás quatro horas,
e subiram para o trem que estava a partir.
Sinhá, perturbada pelas theorias da mãe e procurando uma das
extremidades do banco, voltou o rosto para fóra e fez toda a viagem
olhando para o matto. A Pedrosa não interrompeu o silencio; tambem ella
precisava recolher-se, arregimentar as idéas, preparar a sua scena...
Ás onze horas no jardim do hotel das Paineiras, não havia ninguem.
A sombra das arvores derramava-se silenciosa sobre mezinhas núas. Só
numa estavam restos de apperitivo em dois copos. A Pedrosa calculou logo
que aquelle vermouth tivesse sido ingerido pelo encarregado dos negocios
da Inglaterra--e olhou com sympathia para os calices sujos...
Sinhá seguira até a extremidade do jardim e olhava para deante, para o
valle despido de neblinas, resplandecendo no azul do dia. Entretanto, a
Pedrosa encommendava o seu almoço alli mesmo, no ponto mais visivel do
jardim, inquirindo ao mesmo tempo com a vista se o inglez estaria
almoçando na sala de jantar...
Não estava; e o criado, geitosamente interrogado, declarou ter Sua
Excellencia descido no primeiro trem, para ir buscar um amigo a bordo do
_Magdalena_.
A Pedrosa olhou com raiva para os dois copos de vermouth e apressou o
almoço!
Sinhá contemplava a paizagem magnifica, afastada da mãe, perturbada
por um sentimento que não saberia explicar. Era como se meia despertada
de um sonho extravagante a sua consciência não pudesse determinar
ainda bem a realidade da vida, presentindo-a apenas...
Um dia de setim, macio, vasava sobre montes e mares uma luz clara,
destacando as copas das arvores e os pedregulhos das praias,
escorregando pelas encostas acolchoadas de matto, de onde irrompiam pios
de aves e manchas alvinitentes das umbaúbas. Duas grandes borboletas de
um azul doirado intensissimo, perseguiam-se, indo e vindo, ora ao pé,
ora longe da moça, que as acompanhava com o olhar deslumbrado. Para
onde ia uma, partia logo a outra, para voltarem juntas, pousarem no
mesmo galho, beijarem a mesma flôr.
Amam-se, e o amor deve ser aquillo, o não poder estar uma sem a outra,
na ancia do beijo definitivo, do laço que as prende até á morte!...
Felizes as borboletas, que procuram sózinhas os seus casaes...
--O homem foi-se! exclamou a Pedrosa, approximando-se da filha. E logo
depois:
--Estás com os olhos chorosos!
--É de olhar para a luz...
--Bem, vamos almoçar. Ora que contrariedade! O bebado não podia
escolher outro dia para ir buscar o amigo! Diz que foi buscar um amigo a
bordo. Emfim, é um passeio... ha de fazer-nos bem... ficará para outra
occasião...
--A senhora não desiste?
--Não. Nunca desisto do que emprehendo.
Senta-te. Mas elles estão pondo alli outra mezinha... Tens fome? Eu
perdi o appetite. Isto aqui sem companhia é insipido... E eu que dei
ordem ao João para me esperar ás 4 horas.
A outra mezinha era para um casal, a mulher morena e robusta, o marido
já grisalho e magrinho.
A Pedrosa reconheceu-os logo que os viu e disse á filha:
--É a Marianninha Serpa, do Rio Grande... foi minha collega nas
_Irmãs_. Deus queira que não me reconheça!...
--Porque?!
--Filhinha, assim como devemos procurar certas relações, devemos
evitar outras... esta senhora é casada com um medico e tem d'elle não
sei quantos filhos... abandonou a familia e participou agora a toda a
gente o seu casamento com este...
--O outro morreu de desgosto?
--Não; em primeiro logar, porque o desgosto não mata; depois, porque
elle tambem se casou com outra!
Sinhá arregalou os olhos, espantada.
A manhã era de revelações! Ella cuidára sempre que os laços do
matrimonio eram indissoluveis... A grande poesia do casamento
parecia-lhe estar na perpetuidade do amor e na perpetuidade do voto. Que
era o casamento, então? um contracto quebradiço, sujeito a ser violado
logo ao primeiro amúo?
As idéas embaralhavam-se-lhe na cabeça. Ainda na vespera discutira-se
á mesa, era sua casa, a lei do divorcio. E o proprio pae affirmára que
ella jámais seria decretada no Brazil... Interrogou a respeito a mãe,
que respondeu quasi em segredo:
--Elles estão olhando para nós... disfarça... não convem falar nisso
agora... A Marianninha já me conheceu... não fosse eu a mulher do
ministro... verás como me abraça!
Assim aconteceu.
Pelos fins do almoço a Marianninha atirou o guardanapo para a mesa e
arrastando o marido correu a falar á Pedrosa.
--Petronilha! exclamou ella num arranco enternecido.
A Pedrosa levantou-se com um sorriso cerimonioso e um ar de quem não
atinava com o nome da outra...
--Não se lembra da Marianninha Serpa! das irmãs? O _diabrete azul_,
como me chamavam?
--Ah! sim!... o diabrete azul... lembro-me!... Desculpe-me... mas estava
tão longe!...
--Mesmo depois d'isso encontrámo-nos varias vezes em casa do...
Mas a Marianninha interrompeu-se para apresentar o marido.
Pedrosa apresentou, por sua vez, a filha e os outros voltaram para o seu
logar; faltava-lhes o café.
--A vida é uma comedia... commentou a ministra. Vá a gente fiar-se...
Eu não te disse? Viu que tinhamos acabado e não quiz deixar-nos sahir
sem se apresentar. E agora teremos de ir cumprimental-as. Mas vão
esperando que lhes offereça a casa... não por mim, que afinal não
desgosto d'ella... A Marianninha é pianista, entretem; mas por causa da
sociedade!
Reuniram-se depois, passeando ao longo do aqueducto; era preciso fazer
horas para descer. Marianninha tinha vivacidade, falava muito. O marido
colhia avenças que Sinhá deixava cahir dos dedos distrahidos. Á hora
da partida, o casal, obsequioso, offereceu a Sinhá uma caixa de passas
de pecego do Rio Grande, lembrança acabadinha de chegar da sua terra.
Logo que o trem se poz em movimento, a Pedrosa suspirou de allivio. Que
dia!
E, abrindo a caixa de pecegos, contemplou-os com approvação e disse:
--A unica coisa boa do dia! Vê como estão bem arranjadinhos e como
são bonitos. O fabricante tem arte... estes lacinhos de fita estão bem
dados...
E ella antes de fechar a caixa cheirou os pecegos.
--Esta gente agora, seja onde fôr que nos encontre, ha de se atravessar
deante de nós... Entendem lá comsigo que já nos obsequiaram. É o que
se chama vir buscar lã...
--Pare no n.° 273, disse a Pedrosa ao João, ao entrar no carro.
--Na casa do dr. Argemiro? Para que, mamãe? Eu não entro!
--É só por curiosidade... a esta hora elle não está em casa...
deixo-lhe um cartão e a caixa dos pecegos... dir-lhe-ei depois que ia
passar-lhe tambem um bilhete de caridade...
--Mamãe, os pecegos são meus!
--Não sejas gulosa. Aquillo fez-se só para presentes. E, afinal, para
quem quero eu o Argemiro? _Les petits cadeaux entretiennent l'amitié_,
dizem os francezes. Elle irá agradecer-m'os a casa e tu o receberás...
--Mamãe!
--A mamãe só quer a tua felicidade, descança!
Quando o carro parou, a Pedrosa desceu e ordenou á filha que a
acompanhasse. Sinhá hesitou antes de obedecer.
O vestibulo da casa de Argemiro, resguardado da rua por um largo
paravento de vidros lavrados, tinha uma porta lateral abrindo sobre o
jardim e outra ao fundo, dando para uma saleta de espera. A Pedrosa
dirigiu-se com a filha para a porta do fundo e ia tocar a campainha
quando ouviu uma voz de mulher dando uma ordem. Depois, a porta abriu-se
e a figura de Alice appareceu entre os humbraes.
A Pedrosa arregalou os olhos, espantada:
--Vejo que me enganei... não mora aqui o dr. Argemiro?!
Alice acenou que sim, com a cabeça e um leve sorriso.
--A familia... a filha... está?
--A filha não mora aqui...
A Pedrosa, percebendo que não falava a uma criada, observou Alice com
extranheza, da cabeça aos pés. Sinhá murmurou:
--Vamos, mamãe...
Adivinhando a confusão das senhoras, Alice, despeitada, voltou-se para
o Feliciano, que se approximava, e disse:
--Feliciano, receba as ordens d'estas senhoras!
Depois, cumprimentando-as, atravessou o vestibulo e sahiu pela porta do
jardim.
A Pedrosa acompanhou-a com a vista.
Feliciano esperava impertigado, com um arzinho malicioso na fisionomia
experta. A Pedrosa escreveu a lapis num bilhete de visita:
«Dr. Argemiro.--Passando pela sua porta quiz deixar estes pecegos para
a sua Gloria. Tinham-me informado que ella estava aqui. Cumprimentos.»
Feliciano recebeu a caixa e o cartão e apressou-se em ir adiante abrir
o guardavento e a portinhola do _coupé_.
No carro a Pedrosa explodiu:
--Que tal o viuvinho, hein?! E o bandido do padre, que ainda hoje
affirmou que o hypocrita vive só com a sua saudade! Será o nome
d'ella?! Deixa-a estar... vamos a vêr quem vence!...
--Mamãe!
--Mamãe! Mamãe! lá estás tu a balir como uma ovelhinha assustada!
Ora o ladrão do Argemiro!... Este Rio de Janeiro está perdido! É por
isso que ficam tantas moças solteiras... O _ménage_! já é com um
descôco que falam na sua _ménagère_!... Se as mães não tomam
sentido, ficam-lhes as filhas em casa... havemos de defendêl-as, custe
o que custar... Ladrões!
--Mas não pense mais no Argemiro... mamãe...
--Hein?! que idéa, não pense no Argemiro! mas se elle é o marido que
te convem! Julgas que é muito facil encontrar um homem que reuna tantos
predicados? Só por ter uma _ménagère_? Desistir de um marido por
causa de uma _ménagère_! Tolinha... isto até prova em seu favor...
já não cheira á defunta... Depois, essa especie de mulheres só
embaraçam os tolos. Acredita que muitas vezes é a amante quem atira,
inconscientemente, um homem para os braços da esposa... Tu... bem! mas
por emquanto não te posso dizer mais nada. Já falei demais.
Sinhá olhava para a mãe com olhos de espanto.
X
Era uma fortuna cahir o anniversario de Maria num domingo. Sempre era um
dia roubado á companhia da outra. O consumidor ciume trazia a baroneza
doente, de uma tristeza sem remedio. Os beijos da neta sabiam-lhe a
falsidade, os seus abraços, amollecidos, tinham perdido o impeto
selvagem dos tempos de que a via ir fugindo tão depressa. Qualquer dia
leval-a-iam de todo, sem que nem ella ao menos voltasse a cabeça para
tráz, para um ultimo sorriso...
Nem por ser exercitado no amor, o coração deixa de desvairar se o
contrariam!
Ás vezes, para o desabafo, a queixa subia-lhe aos labios descorados;
mas o marido, inflexivel, acudia logo, com a crua lei do destino:
--Acostuma-te: mais tarde ella terá de acompanhar o marido, como a avó
acompanhou o avô, e a mãe acompanhou o pae.
E ella então gemia, desconsolada:
--Até lá, onde estarão os meus ossos! como se a idéa da morte a
tranquillizasse.
Se os pensamentos a atormentavam de dia, á noite perseguiam-n'a os
sonhos. Alice, sempre a Alice, apresentava-se-lhe sob diversas fórmas,
mas sempre com as mãos que nem garras.
A insistencia da idéa penetrava-a de crenças novas. Debateu-se em
vão, concentrada no seu canto, com os olhos no retrato da filha, que o
tempo ia desvanecendo num descolorido suave. Assim se attenuasse na sua
alma a dôr, como aquella sombra no papel! Por que ha de haver coisas
eternas na vida transitoria? Já viu alguem reflectir-se uma imagem com
fixidez em aguas de grande correnteza? A vida não faz outra coisa
senão passar, e a d'ella então immobilisara-se num momento de horror?
Uma noite, em sonhos, a filha appareceu-lhe lavada em pranto. Seus
olhos, como dois ramos, de myozotis inundados, vinham varados pela
tristeza moça do amor. Não houve outra queixa. A mãe comprehendeu-a.
Era tempo de agir. Consultaria os espiritos, já que na terra não a
ajudava ninguem.
Lembrou-se de uma tal D. Alexandrina, da estação do Rocha. Contavam-se
d'ella maravilhas, revelações estupendas!
Preparou-se cedo. Vendo-a sahir do quarto, de chapeu e de capa, o marido
espantou-se, tão raramente ella punha os pés na rua.
--Vou á missa pedir a Deus saude e juizo para Gloria. Ella faz annos
hoje...
--Sei...
A baroneza não sabia mentir.
Ao mesmo tempo que falava, as faces tingiam-se-lhe de vermelho.
Mas o marido não deu por tal; e ella sahiu.
D. Alexandrina morava num sobradinho estreito, onde a baroneza entrou
envergonhada. Fizeram-n'a esperar numa salinha de jantar atravancada por
uma mesa coberta por um panno de aniagem, de franjas sujas, e uns
caixotes acolchoados, á guiza de divans.
Nas paredes, collados sobre os mandarins do papel desbotado, chromos de
folhinhas e uma gravura representando o Marechal Floriano Peixoto.
Depois de alguns minutos de espera, entrou D. Alexandrina, uma
mulherzinha magra e morena, quasi sem queixo, de olhos redondos.
A baroneza entrou, seguindo-a, para uma alcova, onde ardia uma lamparina
em frente a um oratorio. Como na sala de jantar, havia alli profusão de
imagens colladas ás paredes; sómente, estas eram apenas de santos. Uma
cortina de chita corrida encobria um leito de que se viam sómente os
pés. Ao cheiro do oleo da lamparina juntava-se o de manjericão, num
copo.
D. Alexandrina retirou um baralho de cartas de uma gaveta, pousou-o
sobre a mezinha redonda, junto á qual se sentaram e, pedindo com ura
gesto á baroneza que esperasse, voltou-se para o oratorio e rezou
baixo, com os olhos e o queixinho a tremer-lhe.
Finda a reza, a cartomante pediu á baroneza que partisse o seu baralho,
de grandes cartas, e começou a operação.
--A senhora tem uma inimiga...
A baroneza fez que sim com a cabeça.
--É uma mulher má, que abusa da sua confiança...
--Da minha confiança?!
--Repito o que está nas cartas... A senhora tem a receber uma grande
herança...
--Não...
--Sim... d'aqui a um anno... Mas deve mudar-se da casa em que está,
antes que lhe succeda um desastre... A sua inimiga é moça, é bonita e
é pertinaz; ella alcançará tudo que deseja, se a senhora não se
atravesar no seu caminho... Ella finge amar seu marido, por calculo...
--Meu marido, não... meu genro! rectificou a baroneza, offendida.
--A carta... diz um cavalheiro que a interessa... cuidei que se tratasse
de seu esposo. Será de seu genro...
--Póde saber-se quaes são as suas intenções?
--Ser amada por elle e exploral-o.
--Eu já desconfiava!...
--Não se apoquente... ella será desmascarada a tempo... Não é
livre... ama um rapaz pobre... com quem se encontra furtivamente... A
senhora receberá uma carta...
--Que mais?
--O mais não digo; a senhora poderia ficar impressionada, sem
vantagem... Seja prudente... queime a carta que receber... e esteja
álerta... não convém intervir já... espere um pretexto, que não se
fará esperar muito... a sua inimiga tem recursos...
--Se tem!
--E já conseguiu muita coisa... Recommende a seu genro cuidado,
sobretudo com uns papeis lacrados que elle tem encerrados em um cofre!
--Tenciona roubal-o?!
--Por hoje não lhe posso dizer mais nada; concluiu D. Alexandrina,
cerrando os olhos.
A baroneza sahiu tonta. Era a primeira vez em sua vida que se
abalançava a consultar uma adivinha. Envergonhava-se do seu acto; o
marido censural-a-ia... fôra alli buscar um pouco de socego e sahia em
maior confusão--aterrada!
Fizera mal até então em não acreditar nas cartomantes: como pudera
aquella adivinhar a existencia da inimiga e as suas idéas perigosas?
Mas, porque não lhe dera a ponta da meada, por onde ella pudesse
desfazer toda a teia? Tinha que esperar uma carta e só depois d'ella
lida e desfeita em cinzas teria de entrar em scena! Entretanto, a outra
iria tomando inteira posse do coração de Argemiro, que ella queria só
cheio do amor e da saudade da filha!
Era por causa d'aquelle coração que a sua doce Maria lhe apparecera
banhada em lagrimas! Havia de luctar até restituil-o á morta!
O carro entrava na larga rua das mangueiras da chacara, quando a
baroneza viu o Feliciano a pé, sobraçando um grande embrulho. Ella fez
parar o carro e chamou o negro.
--Feliciano! Bote esse embrulho aqui e ajude-me a descer. Quero fazer um
pouco de exercicio... E voltando-se para o cocheiro: Guarde isso no
carro até á minha chegada.
O carro partiu; a baroneza disse:
--Feliciano, quero saber toda a verdade:
Que se passa em casa de minha filha?
O rapaz fingiu-se mais espantado do que estava e balbuciou:
--Nada de mais... não senhora.
--Não é verdade. Estou informada de que D. Alice conversa com o senhor
doutor... nega, se és capaz.
--Quem informou a senhora?! perguntou Feliciano, para não dizer que sim
nem que não.
--Alguem... Ella tem dias certos para sahir?
--Sae com D. Gloria nas segundas-feiras...
--Que bem me peza! Mas além d'essas vezes?
--Nas quartas-feiras, á noitinha...
--Sózinha?
--Sózinha.
--Precisas acompanhal-a de longe, uma d'essas vezes, e vir dar-me o
resultado da tua espionagem... Deus me perdôe! mas é para bom fim!
--Não posso...
--Hein?!
--Nas quartas-feiras o patrão está em casa; é o dia em que os amigos
vão jantar e jogar com elle, e sou eu que sirvo...
--O demonio prevê tudo! Ella não recebe visitas?...
--Não senhora...
--Estás comprado por ella! Deu-te bola!
--A mim?! não! que a Feliciano Ermelindo Braga ella não engana... nem
enrola! É muito experta mas eu tambem não sou tolo...
--Feliciano, preciso que estejas sempre de olho vivo e vigiando a casa
da tua antiga senhora. Lembra-te de como ella era tua amiga e tão
condescendente!
--Não me esqueço...
--Se não te esqueces, dize a verdade: Argemiro não fala com essa
mulher?
--Á minha vista não, senhora.
--Julgas que se falem?...
A baroneza parou, envergonhada. O negro começou:
--Ante-hontem, mal o patrão sahiu, eu entrei devagarinho na sala de
visitas e vi D. Alice espiando, para o vêr, por detráz da cortina...
Outra vez, entrei no escriptorio e ella estava encostada no cofre...
--No cofre! É bom verificar sempre se o teu patrão se esquece de
fechar o cofre...
--Não era com o sentido no cofre, não, senhora; ella tinha tirado da
parede o retrato de D. Maria e estava olhando de perto para elle!...
--Que sacrilegio! com o retrato de minha filha nas mãos!
--Já por duas ou tres vezes eu pilhei-a assim... parece que ella tem
inveja... ou ciume...
--Por que não contou isso ao seu patrão?
--Deus me livre! Seu doutor parece que está enfeitiçado... não
admitte que a gente diga nada. Tambem, ella pôde fazer o que quizer!
Desde que aquella senhora entrou lá em casa, não fui mais senhor de
arrumar uma camisa do patrão nas gavetas, nem de mecher nos seus
papeis. Eu tenho de levar o taboleiro da roupa, para perto da commoda e
é ella quem ageita tudo. Outro dia pareceu-me, não affirmo, vêl-a
pôr um raminho verde em baixo das camisas de meia... A senhora sabe que
ha certas artes de feitiçaria que só o diabo as entende... ella depois
fecha tudo á chave... Quem poderá livrar o patrão?
--O anjo custodio de minha filha! Feliciano, consta-me que ella ama um
moço pobre e que o encontra de vez em quando. Falla verdade... elle
não vae lá nunca?
--Pobres vão lá... ás vezes até tenho vontade de enxotar aquella
canalha toda... mas o patrão deu licença...
--Impostora! Que dinheiro ella ganha para poder fazer tanta caridade!
--Não, senhora, são os restos... ella tem lá uns devotos para a
ceia...
--A despensa está bem sortida!
--A senhora não falle nisso ao patrão, porque elle disse outro dia ao
padre Assumpção, á minha vista, que nunca em sua vida teve casa tão
bem administrada como agora!
--Nunca, em sua vida?!
--Depois que D. Maria falleceu...
--Ah...
--Agora me lembro que foi lá um dia um moço procurar a D. Alice!
--E...
--Foi numa segunda-feira; ella tinha sahido com D. Gloria.
--Então não a viu?
--Não, senhora.
--Mas ao menos não lhe perguntaste o nome?
--Não quiz dizer...
--Era fino... bonito? Ha de ser o tal!
Estavam a curta distancia da casa quando Gloria sahiu correndo:
--Vovó! Por que não me levou! Venha depressa! Vovô não quer-me
deixar abrir o embrulho que veio no carro e eu sei que é para mim!
Adeus, Feliciano. Como está D. Alice?
--Em vez de perguntar por teu pae, perguntas ela... criada! Anda; vamos
vêr o teu presente!
--Papae virá logo... mas a D. Alice...
--Basta! não quero que me tornes a fallar nessa creatura... ouviste?
--Eu gosto d'ella... É bem boa!
--Para o fogo.
--Eu gosto d'ella muito!
--Mas D. Gloria lá em casa trata a D. Alice com seccura... Observou o
negro.
--É mentira! Você é um mentiroso! protestou a menina, com raiva.
--Gloria!
--Que é, vovó?
A baroneza não podia mais. Entrou e fechou-se no seu quarto.
Arrependia-se já d'aquellas acções que praticara. Deus a livrasse de
condemnar uma innocente, mas lhe désse forças para punir uma culpada.
O que a affligia eram os meios de que lançara mão para conhecer a
verdade. A espionagem do negro... a intervenção da cartomante... oh!
como isso lhe repugnava agora, bem a sós com a sua consciencia! Valera
a pena viver toda uma vida pura e nobre, para na velhice fazer aquelles
desatinos?
O retrato da filha, suspenso á cabeceira da cama, absolvia-a d'aquella
culpa, sorrindo-lhe docemente d'entre a onda pallida dos cabellos
soltos.
A baroneza sentia nojo pelas armas que ia preparando para o combate.
Repugnava-lhe ter de servir-se da adivinha e do Feliciano. Receava
acreditar demasiadamente na primeira; temia fazer-se echo dos despeitos
do segundo... e todavia acceitava as indicações da cartomante,
espantada de lhe ter ouvido referencias tão verdadeiras... e déra o
passo repugnante de induzir o criado á espionagem!
--No dia em que eu receber a carta, revelarei tudo a meu marido, decidia
ella; e se nada receber... não tornarei a voltar á D. Alexandrina...
Que poderá aquella fraca creatura contra as disposições do destino?
Velha tonta que eu sou!
Á hora do jantar, quando a avó de Gloria appareceu na sala, notou toda
a gente que ella estava pallida, com olheiras pizadas e um sorriso
forçado que não conseguia levantar-lhe os cantos da bocca fatigada. A
carne pallida e flacida do pescoço descahia-lhe sobre as rendas da
gravata segura por um broche de esmalte representando a cabeça loira de
Maria, cópia do seu ultimo retrato, e em que o doce perfil da moça
parecia já velado por uma sombra de infinita tristeza. Os cabellos
brancos, presos á nuca por um pente de tartaruga, illuminavam de
reflexos de prata a sua fronte amargurada, em que o pensamento parecia
perder-se no labyrinto das rugas.
Argemiro correu a abraçal-a e sentiu-a fria ao beijo com que
correspondeu ao seu. Accudiram logo todos a rodeal-a de cumprimentos.
Adolpho Caldas fôra arrebanhado na rua, pedia desculpa para o seu
_veston_ de trabalho, pondo nas mãos bondosas da velha um ramo de
violetas, que ella prendeu junto ao broche da filha.
Dr. Telles beijou-lhe os dedos curtos, de unhas sem brilho; e o padre
Assumpção, lendo-lhe no rosto uma agonia extranha, fixou-lhe
penetrantemente os olhos, que se turbaram, como a agua clara de uma
lagôa a que uma pedra revolve o fundo.
Gloria avançou radiante, com os braços cheios de pacotes de bonbons,
de livros bonitos e de rosas. Tambem a D. Alice lhe mandara um presente
pelo padre Assumpção! Era um vazinho para flôres, de crystal branco,
mimosamente lavrado.
Gloria entregou-o á avô, gabando-lhe a delicadeza; mas, no instante em
que declarou o nome de Alice, os dedos da velha abriram-se tremulos, e o
lindo vaso fez-se pedaços no soalho.
Argemiro e o padre Assumpção trocaram um olhar rapido. Gloria
exclamou, num grito lamentoso:
--O meu vazinho! Ah! vovó!
--Perdôa, filha... eu te darei outro egual, perfeitamente egual... não
sei o que tenho nas mãos. Que sensaboria!
--Realmente, censurou o barão, sem comprehender; não sei como se pode
deixar çahir assim um objecto d'esses!... Foi pena, porque era um
bonito veneziano...
Gloria olhava para os destroços, com os olhos marejados e começava
outra lamentação quando o pae a chamou para o terraço e a aconselhou
a se mostrar resignada e alegre. Empurrou-a para a sala.
Caldas foi ter com elles, e, rindo-lhe na cara:
--Han! que te dizia eu, meu velho?! Eis-te em pleno romance, já no
capitulo dos zelos! Para quem está de fóra, o caso é bonito; chega
mesmo a ser interessante... _Ça marche_!
--Cala-te, abelhudo. Foi uma injustiça. Se os meus olhos a não
tivessem visto, não acreditaria nella. Tão delicada é quem a praticou
que chego mesmo a suppôr não ter havido proposito no desastre!
--Olha que a ingenuidade faz mal ao appetite, a acreditar no exemplo das
ingenuas... Vamos nós á sopa, que cheira melhor que a tua intriga...
--Vamos.
--O Assumpção fez-se livido. Reparaste-lhe para o rosto? Não
reparaste: tu estavas contemplando a tua alma! Não ha nada como ser
espectador... Vi tudo e cresceu-me a admiração por tua sogra... foi
transparente! Se amas a outra terás de luctar com esta. _Sapristi_!
Quando as mães...
--Estás doido! Eu lá amo a outra! Eu nem a vejo! Dou-te a minha
palavra de honra, que nem a conheço!
Caldas contemplava-o espantadissimo, repetindo:
--Sério? Sério?!
--Já te dei a minha palavra de honra! Que mais queres?
--Não quero mais nada, filho, estou enthusiasmado! Basta-me o espanto,
que é dos maiores que tenho tido em minha vida. É adoravel.
Gloria, já risonha, veio puxal-os para a mesa, que o avô enfeitara
toda de margaridas brancas. Dr. Telles discutia politica com o barão. A
baroneza, affastando-se do padre, com quem conversava, designou o logar
a cada um dos convivas e sentou-se á cabeceira.