O domingo amanhecera de chuva; um bom dia para preguiça. Argemiro
escreveu aos velhos desculpando-se por não ir vel-os e deliberou
consagrar essa manhã aos seus papeis em desordem. Fôra uma providencia
Gloria não ter vindo.
Com tão feio dia...
A verdade, que elle sentia, que o penetrava por todos os póros, era que
a sua casa nunca lhe soubera tão bem. Havia um conforto novo, um aroma
de malva ou de pomar florido, melhor luz, melhor ar, por aquelles
compartimentos que o Feliciano, quando sózinho, enchia do cheiro de
cigarros e de charutos. Sempre era um fumante!
Agora não; percebia-se que o ar d'aquelles quartos tinha sido renovado
e o ambiente purificado pelas roseiras abundantes do jardim.
Argemiro sentiu nessa manhã, pela primeira vez, uma certa curiosidade
de ver Alice; mas não procurou pretexto para isso, certo de que,
estando muitas horas em casa, forçosamente esbarraria com ella por
acaso. Deixava pois, e de bom grado, a esse senhor a responsabilidade do
encontro. Dahi, a idéa da moça trazia-lhe á lembrança umas pobres
botinas cambadas...
O seu gabinete reluzia de asseio, cheirava bem, não precisava de mais
nada.
Começou tranquillamente a leitura dos jornaes.
Estava em meio de um artigo quando o padre Assumpção bateu á porta.
--Então! preguiçoso!
--Entra. Como vês! Tens razão, preguiçoso! E nunca tanto como
agora... absolve-me e senta-te.
--Cá estou... bravo, como esta cadeira está bonita!...
--Que cadeira? homem, é verdade... has de crêr? Ainda não tinha
reparado... agora me lembro, ella tinha o estofo do espaldar
esgarçado...
Este lirio seria pintado por D. Alice?
--Se t'o não pôz na conta do estofador...
--Posso verificar já. Hontem á noite recebi uma caderneta com a nota
das despezas do mez e... pasma, saldo a meu favor!
Eu não dizia que o Feliciano era um abysmo? Que differença! basta
olhar. Tu, que és mais observador, repara: está tudo luminoso, tudo
limpido, tudo bem arranjadinho... hein? Ha outra atmosphera nesta casa;
estou melhor aqui do que em parte nenhuma, porque em tudo me parece
haver o proposito de me ser agradavel. Abre essa gaveta, e verás como
está bem arranjadinha a minha roupa branca.
Um primor!
E o que me dilicia, é sentir a alma d'esta creatura, que aqui tenho
embaixo do meu tecto, sem que nunca os meus olhos a vejam nem de
relance... Ella esconde-se, ao mesmo tempo que se espalha pela casa
toda. É a mulher-violeta, positivamente, não ha outra comparação!
Esta será estafada em litteratura, mas na vida pratica talvez nunca
tivesse tão boa applicação... A Gloria, que é tão rebelde, já
aprendeu com ella alguma coisa... Faz _crochet_!
É uma coisa abominavel, o _crochet_; mas, emfim, é uma prenda... Eu
deveria ter tomado esta resolução ha mais tempo...
Talvez não tivesse vindo esta mulher... Outra seria assim?
--Não! Hontem, por exemplo, entrei em casa uma hora antes da do
costume; atravessava o jardim, quando senti accordes no piano; mas
accordes bem harmonicos, vibrados por dedos disciplinados, conscientes.
Ouvindo-me tocar a campainha, ella fugiu da sala; e quando eu entrei, um
pouco curioso, confesso-te, encontrei o piano aberto, mas a sala
deserta... Logo, esta mulher é uma mulher educada: desenha, ahi está
esse lirio, que o prova; sabe musica e escreve com firme calligraphia.
Gloria tem aqui uma excellente companheira e a minha casa uma alma
intelligente, que lhe faltava desde a morte de Maria, que aliás não
era tão prendada... Emfim, emquanto eu me visto, examina essa
caderneta, acolá, naquella mesa...
--Para que, meu velho? Só a ti compete isso. Eu não entendo de cifras.
Mesmo de almas, apesar de me ter dedicado a ellas, cada vez entendo
menos... Estou um ignorantão.
--Almoças commigo? Almoças, sim, e vaes vêr o que é uma mesa bem
posta; sempre com flôres e com fructas. Esta mulher deve ter sido criada
com luxo. Noto que ella gosta de rendas... Emfim, estou contente!
--Lamento.
--Hein?
--Lamento.
--Estás doido!
--Não.
--Explica-te. Ah! já sei! Pensas talvez que estou apaixonado?! Quem me
dera, Assumpção, que assim fosse! Não sei que filtro mysterioso tinha
a minha pobre Maria, que não me deixa amar mais ninguem!... Se eu fosse
espirita explicaria isso bem, dizendo-te que a sinto á roda de mim, e
que ella se interpõe mesmo entre os meus mais frivolos beijos!
Mas sabes que não sou espirita, nem religioso. O que me apraz, nesta
situação, é sentir em roda de mim a influencia de uma mulher moça,
sem comtudo a vêr nunca. Gosto do silencio e da ordem e a sua presença
me perturbaria; assim, ella preside á minha casa, sendo para mim como
um ser immaterial, que não me impõe a maçada dos cumprimentos, e eu
vivo rodeado de solicitudes, podendo conservar a minha impassibilidade.
Não acredites que me seja possivel amar outra mulher, como amei a
minha... O ciume d'ella creou tantos fantasmas que eu mesmo acabei por
temel-os!
--Pois foi para espantar um d'esses fantasmas, que tua sogra me chamou
hontem. Jantei lá em cima.
--Sim?! E Gloria? como a achaste?
--Perfeita, isto é, perfeita quanto ao physico. Parece uma maçã
madura. Até a pelle lhe cheira a fructa! Mas escuta: a baroneza, como
toda a gente, menos eu, desconfia que tens pela tua governante uma
adoração menos espiritual.
--Já me tardava, o ciume! Maria vive naquelle coração como no meu!
--Folgo que a comprehendas e a desculpes... que tencionas fazer?
--Nada. Affirma-lhe tu que não existe ligação absolutamente entre
essa pobre moça (que conheces muito melhor do que eu) e o viuvo da
filha...
--Já affirmei.
--E então?
--Não se contentou...
--Achas então que devo despedir esta senhora, que me torna a vida
agradavel, facil e boa, só por um capricho da minha sogra?
--Acho.
--Ora! isso é levar muito longe a minha affeição filial!
--É uma medida de prudencia...
--Mas se eu já te disse que estamos na mesma casa e é como se
morassemos a cem leguas um do outro! De que côr são os seus olhos? nem
sei. Dize a minha sogra que farei tudo por ella, menos isso... Com o
governo da minha casa ninguem tem nada que vêr. Nada! Lê a caderneta,
que é melhor. Verifica como tudo isso está em ordem, direitinho... Nem
um guarda-livros!
--Não digo que não. Amanhã terei de ir fallar com tua sogra, a
respeito de um logar que arranjei no Asylo, para uma criança sua
protegida. Desejaria levar-te em minha companhia. Ha algum tempo que
não appareces por lá. Ella adora-te. Farás bem em socegal-a... Por
hoje basta sobre o assumpto. És ainda moço, Argemiro, e o tempo fará
o milagre que desejas... Temos outra conversa de interesse: Terás
porventura entre as joias de tua mulher algum alfinetinho, ou broche,
não sei bem como se chama, que possas levar á nossa Gloria? Ella deu
bem as suas lições, segundo me disse o avô, e seria justo
recompensal-a. Para incitamento, prometti-lhe que lhe levarias uma
lembrança que tivesse pertencido á mãe... Sobretudo, é naquelle
coração que se deve cultivar a adoração _d'ella_...
Contraria-te a idéa?
--Não será cedo para dar joias á minha filha?
--Conforme a joia; vamos vêr... onde as tens?
--No cofre. Espera... ou antes, vem commigo.
Entraram para um gabinete contiguo e emquanto Argemiro escolhia a chave
do cofre, Assumpção estremeceu á idéa de poderem verificar um
roubo...
Feliciano vira no peito de Alice um alfinete de Maria... a baroneza o
dissera. Logo, se as joias faltassem...
Era uma andorinha de pedras...
Senhor! uma minuscula andorinha de pedras teria o poder de fazer tremer
um homem?!
A chave rangeu na porta do cofre e Argemiro tirou de dentro uma caixa de
setim branco, amarellecido, que levou para cima da mesa.
--Ha quanto tempo não mexo nisto! Faz-me saudades... Escolhe tu...
--Não... escolheremos juntos...
Argemiro abriu a caixa e logo Assumpção suspirou de allivio vendo
reluzir as pedrarias dos anneis e das pulseiras.
--Ella tinha muitas joias... gostava de brilhantes... e a Gloria, por
emquanto, ainda não póde usar brilhantes... disse Argemiro.
Collares, broches e pulseiras iam sendo retirados do cofre, com a maior
attenção, num silencio commovido.
Quantas vezes a dona lhes sorrira e os deslumbrára no meio d'aquelles
adereços?
Não brilhava tanto uma estrella, como os seus cabellos de ouro coroados
por aquelle diadema... os anneis faziam-lhes saudades dos seus dedinhos
pallidos e meigos.
De repente, Assumpção gritou com jubilo:
--Este!
--Este? É tambem de brilhantes...
--São uns diamantinhos modestos. E depois representa uma avezinha
innocente, symbolo da primavera... leva-lhe esta andorinha, e colloca-a
tu mesmo no peito de tua filha, em nome de sua mãe...
--Mas que tens tu? estás tremulo, com os olhos razos d'agua!
--Abraça-me, meu velho. Tambem eu tive saudades de Maria... Que queres?
--Eras o seu confessor... e agora, com franqueza, dize-me: um homem que
foi casado com um anjo d'aquelles, póde jámais pensar em outra mulher?
--Póde; e pensarás e has de ser feliz. Quem sabe? talvez mais!
Argemiro olhava para o padre, com certo espanto.
--Agora fecha a caixa e apressa a tua _toillete_. Lembra-te que estou em
jejum e com fome...
--Vae descendo... Eu irei ter comtigo num minuto.
Momentos depois sentavam-se á mesa. Alice armára uma cestinha de
flôres e fructos, entrelaçando-as com umas pontas de renda. Argemiro
apontou-as com o dedo:
--Lembras-te do que te disse lá em cima? Gostos finos... rendas...
flôres...
Padre Assumpção sorriu, acenou que sim, desdobrou o seu guardanapo e
começou:
--Um pouco de politica: ouvi dizer que o...
Um criado interrompeu a phrase, servindo os _hors d'œuvre_; mas logo
depois a palestra enveredou afoitamente pelos labyrinthos da Camara e do
Senado.