XXIX

*O demonio em Caçarelhos*

Estava D. Theodora presidindo á limpeza do lagar em que se havia de

fabricar o azeite, quando Braz Lobato, ainda empoado da jornada, assumou

á porta, e chamou de parte a fidalga.

--O meu homem veiu!--exclamou ella.

--Faz favor de me ouvir aqui fóra, disse elle á puridade.--E, retirados

ao escuro de um bosque de castanheiro, continuou:

--Seu marido está perdido, sr.^a morgada.

--Que me diz? bradou a pallida consorte.

--Estragou-se; d'alli ao inferno não tem mais que morrer.

--Credo! Então que é?

--Seu marido está tolhido! A mulher que o roubou á patria, e á esposa, e

aos amigos, está lá n'uma serra, cercada de arvores, e de grades de

ferro![21] Dizem que é a viuva de um general, e bonita como os serafins.

Eu ainda a enxerguei pelo braço do fidalgo; ia vestida de branco, e

parecia uma estrella.

--Ai! que eu estalo! clamou Theodora, apertando a cabeça entre as mãos.

--Seu marido, se a senhora o vir agora não o conhece. Está mais apanhado

do corpo; aquella barriga, que elle tinha, sumiu-se-lhe. Tem um bigode

muito grande, e aqui no queixo uma moita de pellos, como os bodes. Traz

os cabellos puchados para cima e retorcidos. Usa oculos á moderna, de

oiro, pendurados ao pescoço. O panno de roupa luzia como vidro, e andava

apertado n'ella e puchado á substancia que parecia espremido no peso do

lagar. Repito: a sr.^a morgada, se o vir, não o conhece.

--E então elle está lá com essa mulher? insistiu soluçando a quebrantada

senhora.

--É verdade, lá a tem como uma princeza. Agora já sabe a fidalga no que

elle estraga o dinheiro.

--E vocemecê não lhe disse que viesse para sua casa?

--Ora se disse! chamou-me parvo e asno. Asno a mim fidalga! E eu

acommodei-me, porque não quero testilhas com doidos. Afinal, eu estava a

vêr quando me empurrava pela porta fóra! Aqui tem o que ha a tal

respeito. Sirva-lhe de governo, sr.^a morgada. Agora, faça por ter mão

na manta. A casa é grande; mas tem-se visto acabarem casas maiores. O

que a fidalga deve fazer é não deixar ir pela agua abaixo o seu

patrimonio.

--Não, que eu vou a Lisboa!--exclamou ella batendo o pé, e vibrando

murros contra o ar.--Vou a Lisboa, e faço lá o diabo!... Então a tal

mulher está n'uma serra? Vocemecê disse que ella estava n'uma serra?...

--É serra; mas a terra é bonita. Ha por lá arvores do começo do mundo, e

cada pedaço de jardim que dava trezentos alqueires de centeio. Chama-se

Cintra, e está lá o rei e a fidalguia.

--Pois vou lá, que o meu homem é meu--vociferou ella voz em grita.--Se

elle não quizer vir para casa, vou fallar ao rei e aos governos.

--Fidalga, pense bem no que faz, e ouça o que lhe diz o senhor seu primo

Lopo de Gamboa, que sabe mais do que eu. D'aqui me vou a vêr a minha

gente, e até amanhã, fidalga.

Doida de afflicção, a traida esposa mandou logo um criado á casa da

Verdoeira chamar o primo Lopo de Gamboa.

Este Lopo, bacharel em direito, homem de trinta e tantos annos, e sagaz

até á protervia, vivia na companhia do irmão morgado, comendo o

rendimento da sua escassa legitima de filho segundo. Tinha máo nome em

materia de mulheres. A bruteza dos espiritos não lhe implicava o

exercicio de tramoias e bom palavriado com que mareara a reputação de

muitas moças, que, á conta d'elle, ficaram solteiras; e tambem de

algumas casadas, que não conservam as costellas todas.

Calisto desadorava este primo de sua mulher, em razão das suas ruins

manhas; não obstante, admittia-o ao seu trato familiar, e consentia que

Theodora, uma vez por outra, lhe désse alguns pintos para charutos, já

que o morgado lh'os não dava, sem lançar o emprestimo a desconto da

legitima.

Theodora, com quanto o excedesse em edade uns quatro annos, tinha sido

creada com elle, e por suas mãos lhe fizera o enxoval, que o primo Lopo

levou para Coimbra. Esta poesia de infancia converteu-se n'ella em

sentimentos benignos de generosidade para com as privações monetarias do

sujeito, algumas das quaes lhe remediou liberalmente a occultas do

marido. Mais se afervorou a estima da prima Theodora, quando viu que

Lopo, na ausencia de Calisto, amiudava as visitas, e lhe fazia companhia

ao serão nas noites de inverno.

Mandou, pois, a esposa angustiada chamar o primo Lopo de Gamboa. Já

raivosa, já em mavioso soluçar, contou Theodora o que ouvira ao

mestre-escola.

--Bem t'o agourava eu, prima!--disse Lopo, concluidos os queixumes de

Theodora.--Eu sei o que são homens. Quando meu irmão morgado e outros

santarrões me apontavam como exemplo as virtudes de teu marido,

dizia-lhes eu: «Tirem-n'o da aldeia para Lisboa ou Porto, deixem-n'o lá

estar dois mezes, e fallem-me depois á mão.» O Calisto vivia bem com

todo o mundo e comtigo, Theodora, porque se apaixonou pela livralhada, e

encheu a cabeça d'aquellas velhas arólas dos seus classicos, e não

queria saber de mais nada. E, além d'isso, diz-me tu prima, que grande

amor era o d'elle por ti? Passavam-se dias e noites que o não vias,

senão enterrado na livraria. Nunca lhe vi fazer-te uma meiguice!

--Pois fazia; estás enganado, Lopo--atalhou D. Theodora, molestada no

instincto da sua vaidade de esposa.

--Parecia-te isso, prima, porque tu não viste ainda como os bons maridos

acariciam as suas mulheres. Nunca te levou aos banhos do mar, precisando

tu de tonicos; nunca te levou a festa nenhuma de Miranda nem de

Bragança; sendo tu a mais rica herdeira d'estes arredores, deixou-te

viver para ahi sujamente; a cuidar em sevados e gallinhas. As senhoras,

que não te chegam em fidalguia aos calcanhares, vivem á lei da nobreza,

visitam-se, tem os seus bailes, vão ás romarias ricamente vestidas; e

tu?... chorava-me o coração, quando vim de me formar, e te visitei, e

vim dar comtigo a cortar couves para fazer a comida dos patos.

--Isso é porque eu gosto.

--Muito embora gostasses; teu marido não devia consentir que o fizesses.

Trabalhar é bom e necessario; mas cada qual trabalhe segundo a pessoa

que é. As senhoras cozem, bordam, marcam, e dão-se a outros muitos

cuidados domesticos e limpos. Os serviços, que tu fazias, pertencem ás

criadas da cosinha. De maneira que a tua riqueza não te dava o descanço

e bem estar que desfrutam as pessoas da lavoira. Esta casa parecia-me

sordida; e, apezar das grandes sabenças de teu marido, ainda não vi

casados que tão estupidamente vivessem! Ahi está agora teu marido a

despejar sacas de dinheiro no regaço de uma amasia, e tu aqui de vestido

de chita e chinellas! Tu!... de chinellas!... Foi bom que levasses vida

de negra vinte annos para elle agora levar em Lisboa vida de principe!

--Não ha de levar, que eu vou lá!--bradou Theodora assanhada pelas

reflexões do primo.

--Não vaes, prima, que os teus parentes não consentem que tu vás ser em

Lisboa motivo de gargalhadas d'aquella gente, e maltratada por Calisto.

A morgada de Travanca, a filha de Francisco de Figueirôa, não vae, como

as mulherinhas da ralé, procurar o marido fóra de sua casa. Se elle

vier, veiu; se elle ficar, fique embora. Gaste o que quizer, mas que não

gaste a casa de sua mulher. N'este paiz ha leis que separam do máo

marido a esposa affrontada, e prohibem que os bens dos Figueirôas sejam

desbaratados em devassidões de um extravagante.

--Eu não quero separar-me do meu homem!--balbuciou ella afogada de

soluços.

--Tambem te não aconselho a que o faças por em quanto, prima. Ainda é

cedo. Póde ser que teu marido caia em si, e se arrependa. Isto da

separação é um remedio extremo, que se ha de applicar no caso de

continuarem os saques de dinheiro como até aqui, e os embustes infames

com que o Calisto te tem enganado. Ai! prima, prima, grande desgraça foi

para ti e para mim, que te esquecesses do nosso amor de creanças, e tão

depressa aceitasses o casamento com este homem! Eu estava a concluir a

minha formatura, resolvido a pedir-te, e casar comtigo, quer teu pae

quizesse, quer não. Nunca t'o disse; digo-t'o agora, porque a minha dôr

me obriga. Não serias tu mais feliz, se casasses com teu primo Lopo?

--Eu sei cá?...--disse ella, alimpando as lagrimas.

--Pois duvidas, Theodora?

--Tu tens sido um estroina com mulheres...

--E não sabes por que?

--Não...

--Desesperado por te encontrar casada, quando cheguei de Coimbra, não

tratei mais de me ligar seriamente ao coração de mulher nenhuma. Queria

distrahir-me, e fazia desatinos que me tornavam ainda mais desgraçado. A

minha consolação unica era estar alguns momentos ao pé de ti; mas

quantas vezes, eu saía do teu lado com o coração cheio de fel!... Nunca

te disse uma palavra por onde tu desconfiasses o meu estado, pois não?

--Tu o que me dizias ás vezes é que estavas afflicto por causa de

dividas, e eu dava-te o dinheiro que podia arranjar...

--É verdade: foste sempre o meu bom anjo, prima; mas olha que essas

mesmas dividas as fazia eu para poder sair d'estes sitios; ia para as

feiras, para as caldas, por toda a parte á busca de distracções, e não

achava coisa que me distraisse de ti o pensamento. Toda a gente da nossa

parentella me aborrecia, menos tu. Ora imagina, prima, que tormentosa

vida a minha desde os dezenove annos! Amar-te, amar-te sempre, e vêr-te

mulher de outro homem; e, de mais a mais, de outro homem indigno de ti!

Céos! que martyrio! que martyrio!

Lopo cobriu a cara deslavada com as mãos enormes.

Theodora estava como idiota a olhar para aquillo, sem poder atinar com

as sensações atrapalhadas que aquellas palavras lhe causavam.

Ergueu-se o velhaco de golpe, e disse:

--Adeus, prima: eu estou profundamente magoado com a tua desgraça;

doem-me mais os teus pezares que os meus. Disse-te o que me pareceu

rasoavel a respeito de teu marido, d'esse cruel que me roubou a mulher

do meu coração, da minha alma, da minha vida, e da minha morte. Adeus,

prima!

--Tu vaes afflicto, Lopo!--exclamou ella, resahindo do spasmo tolo em

que estivera--Vem cá; se te aconteceu alguma desgraça, remedeia-se como

poder ser.

--Ha doenças sem remedio, prima. A minha é mortal.

--Então que tens, primo? que te dóe?

--Doe-me a certeza de que estou morrendo desde o primeiro dia da tua

união com este homem!... a certeza de que o has de amar sempre, ainda

que elle te despreze como já te desprezou.

--Pois se elle é o meu homem recebido á face do altar!...

--Por isso, por isso, é que eu perdi o teu amor, Theodora!...

--Pois eu sou casada, bem no sabes, senão teria casado comtigo.

--Não fallemos mais n'isto--atalhou com muita serenidade Lopo--Já

chorei, e fiquei melhor!--continuou elle esborrachando os olhos até

elles reverem agua--Estas lagrimas estavam aqui no peito ha vinte annos.

Foi bom que tu as visses para que saibas que o homem que chora por ti,

bem mais te merecia que o outro que te despreza... Queres mais alguma

coisa de mim, prima? Queres que eu escreva a teu marido, e lhe diga que

seja honrado e digno da melhor das esposas? Queres que eu mesmo o vá

procurar a Cintra?

--Se tu lá fosses, Lopo, não seria máo!--disse ella.

Lopo de Gamboa, como grande farçola que era, sentiu impulso de desfechar

uma risada na cara da prima. O homem viu-se ridiculo até onde a

consciencia de um bargante se póde vêr a si mesma.

Reteve-o, porém, a coherencia do seu plano. Resolutamente disse que iria

a Cintra, bem que nenhum sacrificio lhe podesse ser mais cruelmente

imposto ao coração.

--Irei, disse elle, irei buscar o marido da mulher que adoro. Venha mais

esta punhalada da tua mão, prima.

---Valha-me Deus!--exclamou ella afflictivamente.--Tu dizes-me coisas

que me fazem endoudecer! Pois tu não vês que eu já não posso dar o meu

coração a outro em quanto fôr casada com um?

--Vejo que me não amaste nunca, Theodora. Diz a verdade... Nunca me

tiveste amor?

--Eu sei cá, primo!... Se me casasse comtigo, tinha-te amor... Assim

como casei com o meu marido, que hei de eu fazer agora?

--Matar-me!--disse com vehemencia Lopo, deixando cair os braços, e

descendo ao chão os olhos amortiçados.

--Ai! que peccados os meus! exclamou Theodora--Eu não sei o que te hei

de fazer, Lopo!

--Diz-me quando queres que eu parta para Lisboa--tornou elle gravemente.

--Então sempre queres ir, primo?

--Ámanhã, hoje, quando quizeres.

--E não te custa?

--E a ti não te custa que eu vá?

--Eu queria que fosses, a vêr se trazias para casa aquelle perdido.

--Irei, já t'o disse.

--Então eu vou buscar-te dinheiro, primo, quanto queres tu levar?

--Nada, prima. Se alguma vez aceitei as tuas franquezas, foi por que tu

ignoravas quanto eu te amava, e eras minha proxima parenta, filha de uma

prima de minha mãe. Hoje que sabes que te amo, não posso, não me

consente a minha honra que receba de ti o mais pequeno favor de

dinheiro.

--Então não quero que vás--accudiu ella--que tu não podes ir á tua

custa...

N'este comenos, Theodora escuta muito attenta um rumor de campainhas, e

brada:

--É uma liteira! Será o meu homem?

Corre a uma janella; o primo vae depoz ella: affirmam-se na liteira que

desce uma congosta, e reconhece Calisto Eloy, não pela figura; mas por

que uns rapazes vinham adiante gritando que era o fidalgo. Theodora

espede tres ais, que pareciam de ave nocturna, e perde os sentidos. Lopo

amparou-a nos braços, foi sental-a n'uma cadeira incourada de espaldar

alto, e desceu ao pateo a receber nos braços o primo Calisto de Barbuda.

A Queda d'um Anjo: Romance · 第 44 / 53 题