XVII

*In Liborium*

Estavam cheias as galerias da camara.

Entre as mais formosas, extremava-se a filha do desembargador Sarmento.

A pedido de Calisto Eloy, fôra o abbade de Estevães levar as entradas ao

magistrado, e offerecer-se a conduzir as senhoras á galeria.

O vistoso coreto das damas exornavam-n'o, talvez mais que a formosura,

algumas senhoras doutas enfrascadas em politica, amoraveis Cormenins,

que aquilatavam o merito dos oradores com incontrastavel rectidão de

juizo e apurado gosto. Lisboa tem dezenas d'estas senhoras Cormenins.

Não dírei que o renome de Calisto attrahisse as damas illustradas: era

grande parte n'este concurso femeal a esperança de rirem. A nomeada do

provinciano, bem que favorecida quanto a dotes intellectuaes, cobrára

fama de coisa extravagante e impropria d'esta geração.

Entrou Calisto na sala um pouco mais tarde que o costume, porque fôra

vestir-se de calça mais cordata em côr e feitio. Não me acoimem de

archivista de insignificancias. Este pormenor das calças prende mui

intimamente com o cataclismo que passa no coração de Barbuda. Aquella

alma vae-se transformando á proporção da roupa. Assim como o leitor, á

medida que o amor lhe fosse avassalando o peito, escreveria paginas

intimas, ou ainda peor, cartas corruptoras á mulher querida, Calisto, em

vez d'isso, muda de calças.

As damas, que o esperavam vestido conforme a fama lh'o pintára,

desgostaram-se de vêl-o trajado no vulgar desgracioso, do commum dos

representantes do paiz.

Apenas Calisto Eloy se assentou, entrou-se na ordem do dia, e logo o

presidente lhe deu a palavra.

Cessou o reboliço e fallario d'aquella feira veneranda, assim que o

deputado por Miranda, começou d'este theor:

--Sr. presidente! Muito ha que se foi d'este mundo o unico sujeito, de

que me eu lembro, capaz de entender o sr. dr. Liborio, e capaz de fallar

portuguez digno de s. ex.^a. Era o chorado defuncto um personagem que

foi uma vez consultar o dr. Manuel Mendes Enchundia, ácerca d'aquella

famigerada casa que elle tinha na ilha do Pico, com um passadiço para o

Baltico. V. ex.^a e a camara, podem refrescar a memoria, lendo aquelle

pedaço de estylo, que presagiou estas farfalharias de hoje.

Sr. presidente, a mim faz-me tristeza contemplar a ribaldaria, com que

os belfurinheiros de missangas e lantejoulas adornam a lingua de Camões,

despojando-a dos seus adereços diamantinos. A pobresinha, trajada por

mãos de gente ignara, anda por aqui a negacear-nos o riso como moura do

auto, ou anjo de procissão de aldeia. Se acerta de lhe pagarem os

farrapinhos broslados de folha de Flandres em algum silvedo, a mesquinha

fica núa, e nós a córarmos de vergonha por amor d'ella.

É forçoso, sr. presidente, que a linguagem castiça vá com a patria a

pique?

Á hora final da terra de D. Manuel, não haverá quem lavre um protesto em

portuguez de João Pinto Ribeiro, contra os Iskariotas, Juliões,

Vasconcellos e Mouras, que nos vendem?

_Vozes_: Á ordem!

_O orador_: É contra o regimento d'esta casa, repetir o que está dito na

historia, sr. presidente?

_O presidente_: Sem offensa de particulares.

_O orador_: Authorisa-me portanto, v. ex.^a a crer que n'esta casa está

Iskariotas, e o bispo Julião, e Miguel de Vasconcelos, e...

_Vozes_: Á ordem!

_O orador_: Pois então eu calo-me, se offendo estes personagens a quem

me não apresentaram, ainda bem! As minhas intenções são inoffensivas, no

entanto, desconsola-me a camaradagem. Se eu soubesse que estava aqui

similhante gente, não vinha cá, palavra de homem de bem!

_O dr. Liborio_: Mais prestimoso fôra ao cosmos, se o sr. Calisto

estanceasse no agro do seu covil a lidar com a fereza dos javalis.

_O orador_: Não percebi o dito bordalengo: faça favor de explicar-se.

_O dr. Liborio_: Já disse que não desço.

_O orador_: Se não desce, cairá de mais alto. Refiro a v. ex.^a a fabula

da aguia e do kágado, na linguagem lidima e chan de D. Francisco Manuel

de Mello. É o _Relogio da Aldeia_, que falla no dialogo dos _Relogios

fallantes_: «...Lembra-me agora o que vi succeder a um kágado com uma

aguia, lá em certa lagoa da minha aldeia: veiu a aguia, e de repente o

levantou nas unhas, não com pequena inveja das rãs, e de outros kágados,

que o viam ir subindo, vendo-se elles ficar tão inferiores a seu

parceiro. Julgavam por gran fortuna que um animal tão para pouco, fosse

assim sublimado á vista de seus eguaes. Quando n'isto, eis que vemos

que, retirada a aguia com sua presa a uma serra, não fazia mais que

levantar o triste animal, e deixal-o cair nas pedras vivas, até que

quebrando-lhe as conchas com que se defendia...» não me lembra bem se D.

Francisco Manuel diz que a aguia lhe comeu o miolo.

Se o sybillino collega figura na moralidade d'este conto, offerece-se-me

cuidar que não é a aguia.

(_Pausa do orador: riso das galerias_.)

Sabido, pois, sr. presidente, que as citações historicas fazem

repugnancias ao regimento e á ordem, abjuro e exorciso os demonios

incubos e succubos da historia, pelo que rogo a v. ex.^a muito rogado

que me descoime de desordeiro.

Direi de Quintiliano, se este nome não desconcerta a ordem. Trata-se de

oradores, e de estylos viciosos. Diz este mestre dos rethoricos que «ha

um natural prazer em escutar qualquer que falla, ainda que seja um

pedante, e d'aqui aquelles circulos que a cada hora vemos nas praças á

roda dos charlatães» N'esta nossa edade, Quintiliano redivivo diria:

«nas praças e nos parlamentos.»

_Vozes_: Á ordem?

_O orador_: Pois tambem Quintiliano?!

Bem me quer parecer que rarissimas vezes o admittem aqui a elle!...

_O presidente_: Lembro ao nobre deputado, que a camara não é aula de

rethorica.

_O orador_: Assim devo presumil-o, vendo que todos a professam com

dignidade, exceptuado eu, que me não desdoiro, em confessar que sou o

discipulo unico e máo de tantos mestres. Eu direi a v. ex.^a qual

eloquencia considero necessaria n'esta casa da nação: é a eloquencia que

a nação entenda. A arte de bem fallar, _ars béne dicendi_, é o estudo da

clareza no exprimir a idéa. Os affectos, as galas da linguagem, que lhe

tolhem o mostrar-se e dar-se a conhecer dos rudos, não é arte, é

tramoya, não é luz, é escuridade. Os meus constituintes mandaram-me aqui

fallar das necessidades d'elles em termos taes que por elles v. ex.^a e

a camara lh'as conheçam, ponderem, e remedeiem.

Sou da velha clientela de Quintiliano, sr. presidente. Com elle entendo

que por de mais se enganam aquelles que alcunham de popular o estylo

vicioso e corrupto, qual é o saltitante, o agudo, o inchado, e o pueril,

que o mestre denomina _proedulce dicendi genus_, todo affectação

menineira de florinhas, broslados de pechisbeque, recamos de fitas como

em bandeirolas de arraial.

Eis-me já de força inclinado á substancia do discurso do sr. dr.

Liborio. Primeiro me cumpre declarar que não sei pelo claro a quem me

dirijo. Ha dias me regalei de ler o succoso livro de um doutor grande

lettrado que escreveu da _Reforma das Cadeias_. Achei-o lusitanissimo na

palavra; mas hebraico na locução. Tem elle de bom e singular que tanto

se percebe lendo-o da esquerda para a direita como da direita para a

esquerda. Soou-me que o sr. dr. Liborio, amador do que é bom, se

identificára com o livro, e aformosentára o seu discurso com muitas

louçainhas d'aquelle thesouro.

Não sei, pois, se me debato com o sr. dr. Ayres, se com o sr. dr.

Liborio. _Se me debato_, desavisadamente disse! O discurso não dá péga a

debates que não sejam philologicos. Estes não vem aqui de molde.

Rethorica, grammatica e logica, se alguem quizer tratal-a n'este predio,

entretenha-se lá em baixo no pateo com o porteiro, ou com as viuvas e

orphãos, que pedem pão com a logica da desgraça, e com a rethorica das

lagrimas: grammatica não sei eu se a fome a respeita: parece-me que não,

por que na representação nacional ha famintos que a não exercitam

primorosamente. (_Murmurio e agitação na direita. Applausos na galeria.

Um «bravo» estridulo do desembargador Sarmento. Um cautelleiro dá palmas

na galeria popular. A tolice é contagiosa. O presidente sacode a

campainha. Restabelece-se o silencio. Calisto Eloy tabaqueia da caixa do

radioso abbade de Estevães_.)

_O presidente_: Relembro, já com magoa, ao sr. deputado que se abstenha

de divagações alheias do debate.

_O orador_: De maneira, sr. presidente, que v. ex.^a quer á fina força,

subjugar as minhas pobres idéas em _aprisoamento_, como disse

gentilmente o illustre collega!

Pois assim sou esbulhado de um sacratissimo direito? É então certo, como

disse o sr. dr. Liborio, que não ha direito em Portugal? V. ex.^a sem o

querer, está sendo, na phrase ingrata do illustre deputado, o

_substituto do anjo S. Miguel_! (_Riso_) Oh! V. ex.^a não será algoz do

pensamento, já de si tão intanguido que não é mister matal-o: basta

deixal-o morrer... Callar-me-hei, se estou magoando v. ex.^a.

_Vozes_: Falle! falle!

_O orador_: O illustre collega referiu o que vem contado no livro do sr.

dr. Ayres de Gouveia: _que o nosso rei D. Miguel já mancebo, saido da

puericia se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser

encontrado, arrancando as tripas a uma gallinha com um sacarolhas_. É

pasmoso, sr. presidente, que os dois doutores, protestando pela

legitimidade do seu rei, um no livro, outro no discurso, refiram a

sanguinaria historia do sacarolhas nos intestinos da deploravel

gallinha! Eu suei quando ouvi este canibalismo, suei de afflicção, sr.

presidente, figurando-me o desgosto da ave!

Protesto, sr. presidente, protesto contra a suja aleivosia cuspida na

sombra de um principe ausente, indefeso e respeitavel como todos os

desgraçados. Que historia villã é esta? Quem contou ao sr. dr. Ayres o

caso infando do sacarolhas nas tripas da gallinha?! Em que soalheiro de

antigos lacaios de Queluz ou Alfeite ouviram os refundidores da justiça

estas anedoctas hediondas, e mais torpes no squalôr de recontal-as?

E, depois, sr. presidente, que me diz v. ex.^a e a camara áquelle filho

da rainha da Grã-Bretanha, que é um rapinante: _uma pêga humana_! Que

musa de tamancos! _uma pêga humana_! Que imagem! que allegoria tão

ignobil, e extractado do vocabulario da ralé!...

Em desconto d'estas repugnantes noticias, fez-nos o sr. doutor o bom

serviço de nos dizer que homem em latim é _vir_, e mulher é _mulier_, e

que, em alguns casos, _homo_ tambem é homem. Ficamos inteirados e

agradecidos. Uma lição de linguagens latinas para nos advertir que a lei

não legisla para a mulher!... Teremos ainda de assistir á repetição do

concilio em que havemos de averiguar se a mulher é da especie humana? Se

os srs. drs. Ayres ou Liborio, alguma vez, dirigirem os negocios

judiciarios e ecclesiasticos em Portugal, receio que os legisladores

excluam a mulher das penas codificadas, e que os bispos lusitanos as

excluam da especie humana!... E peior será se algum d'estes ministros,

no intento de punil-as, as classificam nas aves, e nomeadamente nas

gallinhas! O horror dos sacarolhas, sr. presidente, não me desaperta o

animo!

Porque não ha de ser castigada a mulher por egual com o homem? Resposta

séria á pergunta que tresanda a paradoxo: «Porque, no delicto, as

faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um periodo de evolução.» A

mulher, que mata, por ciume é que mata; a mulher, que propina venenos,

por ciume é que despedaça as entranhas da victima. Isto é crime, ao que

parece; crime, porém, de _faculdades que se agitam perturbadas, e

periodo de evolução_. Se o termo fosse parlamentar, eu diria

_farelório_!

Quem ha de enristar armas de argumentação contra estes odres de vento?

O que eu melhor entendi, graças á linguagem correntia e pedestre da

arenga, foi que o illustre collega, avençado com o sr. dr. Ayres, querem

_que todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave o rosto e

mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello cortado á escovinha, e beba

agua com abundancia, e não beba bebidas fermentadas, nem fume_.

N'este projecto de lei a pequice corre parelhas com a crueldade. Que o

preso lave a cara duas vezes por dia, isso bom é que elle o faça, se

tiver a cara suja, mas obrigal-o a lavatorios superfluos, é risivel

puerilidade, juizo pouco aceiado que precisa tambem de barrela.

Privar do uso do tabaco o preso que tem o habito de fumar inveterado, é

requisito de deshumanidade que sobreleva á pena de prisão perpetua ou

degredo por toda a vida. Tirem o cigarro ao preso; mas pendurem logo o

padecente, que elle ha de agradecer-lhe o beneficio.

Estes reformadores de cadeias, sr. presidente, parece que tem d'olho

apertar mais as cordas que amarram o condemnado á sentença; picar-lhe as

veias, e desangral-o gota a gota, na intenção de o regenerar e

rehabilitar! Optima rehabilitação! humanissimos legisladores! Querem que

o preso se regenere hydropaticamente. Mandam-n'o lavar a cara duas vezes

por dia. _Agua em abundancia_, conclamam os dois doutores. Fazem elles o

favor de dar ao preso agua em abundancia; mas descontam n'esta

magnanimidade prohibindo-os de fallarem aos companheiros de infortunio,

com o formidavel argumento de que _sáem das cadeias delineamentos de

assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos_!...

«Delineamentos de assassinatos»! Que é isto? _Assassinato_ é coisa que

me não cheira a idioma de Bernardes e Barros. Seja o que fôr, é coisa

horrivel que sáe das cadeias com seus delineamentos, contra homens que

os _presos sabem ricos_. Aqui, sr. presidente, n'este _sabem ricos_,

quem soffre o _assassinato_ é a grammatica. O alticismo d'esta phrase é

grego de mais para ouvidos lusitanos.

O que é um preso descomedido, sr. presidente? Dil-o-hei? _Vox faucibus

haesit_!...

_É febricitante despedido do leito, que, como setta voada do arco,

exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_. Que se ha de fazer a

um patife que é setta voada do arco? Faz-se-lhe lavar a cara terceira

vez!

Que desperdicio de poesia para descrever um preso bulhento!

_Setta voada do arco_! Que infladas necedades assopram estes estylistas

de má morte!

_Inclinando rasoamento_ (peço venia para me tambem enriquecer com esta

locução do sr. dr. Ayres) inclinando rasoamento a pôr fecho n'este

palanfrorio com que dilapido o precioso tempo da camara, sou a dizer,

sr. presidente, que a melhor reforma das cadeias será aquella que

legislar melhor cama, melhor alimento, e mais christã caridade para o

preso. Impugno os systemas de reforma que disparam em accrescentamento

de flagelação sobre o encarcerado. Visto que Jesus Christo, ou seus

discipulos, nos ensinam como obra de misericordia visitar os presos,

conversal-os humanamente, amaciar-lhes pela convivencia a ferocia dos

costumes, não venham cá estes civilisadores aventar a soledade aos

ferrolhos, o insulamento do preso, aquelle terrivel _voe soli_! que

exacerba o rancor, e os instinctos enfurecidos do delinquente.

Tenho dito, sr. presidente. Não redarguo ao mais do discurso, porque não

percebi. Sou um lavrador lá de cima, e não adivinhador de enygmas.

_Davus sum, non OEdipus_.

_O orador foi comprimentado por alguns provincianos velhos_.

A Queda d'um Anjo: Romance · 第 32 / 53 题