VIII

*Faz rir o parlamento*

Andava o animo de Calisto Eloy martellado pelo desejo de pôr cobro ao

luxo da gente de Lisboa, sendo grande parte n'este intento o haverem-lhe

os dois pisa-verdes do parlamento mettido a riso a sua casaca de briche.

Impugnavam-lhe a idéa o abbade de Estevães, e outros correligionarios

cordatos, mais entrados do espirito do seculo, e convencidos da

inutilidade de atravessar represas á torrente caudal da indole de cada

época. O deputado de Miranda respondia que viera de sua terra a

cauterisar as chagas do corpo social, e não a cobril-as de pachos e

lenimentos palliativos em respeito á sensibilidade dos doentes. Rebelde

ás admoestações sisudas de amigos, que lhe receavam alguma queda mortal

no conceito da camara, Calisto, provocado por um debate sobre importação

e direitos de objectos de luxo, pediu a palavra, e o mesmo foi alvorotar

alegremente a camara, desejosa de ouvil-o.

Concedida a palavra, e feito o silencio da curiosidade na sala,

ergueu-se o morgado da Agra, e orou d'este feitio:

--Sr. presidente! Os conselheiros dos antigos reis de Portugal, homens

de claro juizo e sciencia bastante, cortavam os abusos do luxo com

pragmaticas, quando os vassallos se desmandavam em trajos, regalos e

ostentações ruinosas do individuo, e, portanto, da cidade. O senhor rei

D. Sebastião, que santa memoria haja, promulgou justas e rigorosas leis

sobre o uso das sedas. E, n'aquelle tempo, sr. presidente, Portugal

ainda se banqueteava com a baixella d'oiro do Pegu: ainda as paredes das

salas nobres estavam colgadas de gualdamecins e razes da Persia. Era o

Portugal, já não robusto nem enthusiasta; mas ainda sopitado das

embriagadoras delicias dos reinados de D. Manuel e D. João III.

Nas Ordenações Filippinas, liv. 5.^o t. 82, § 4.^o, e seguintes, foram

incluidas as principaes leis da reformação da justiça de 27 de julho de

1582.

Lá se vê quão salutar era a vara ferrea da lei no castigo dos contumazes

em proveito da communidade. (_Um deputado boceja contagiosamente: outros

bocejam; e o presidente de ministros adormece_). Vejamos a pena dos

infractores: o peão perdia o vestido defezo, e pagava da cadeia quinze

cruzados; e o nobre pagava da cadeia mais quinze cruzados que o plebeu.

Note a camara que as reformas liberaes não complanaram tanto a egualdade

entre poderoso e fraco. Bradam por ahi os ignaros contra os privilegios

e exempções da fidalguia dos tempos ominosos. Estes democratas, se

acontece de cairem nas presas da justiça, gritam pelo codigo das

egualdades, e então experimentam o que vae da bonita redacção da lei á

execução d'ella. Recolho-me ao assumpto, sr. presidente....

_Um deputado_: Faz bem.

_O orador_: Não me lisongea o beneplacito do collega. Recolho-me ao

assumpto, sr. presidente. Lastimo este luxo que vejo em Lisboa! Por toda

a parte, oiro, pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades! Parece que

toda esta gente voltou hontem da India nas naus que trouxeram as parias

do Oriente! Essas ruas estrondeiam de carroagens, calechas e berlindas,

como se cada dia se estivesse commemorando a passagem do cabo

tormentorio ou o descobrimento da terra de Santa Cruz, atirando ás

rebalinhas os thesouros que de lá nos vem. Por entre estas soberbas

carroças...

_Um deputado_: Carroças são de lixo.

_O orador_: E bem póde ser que seja lixo o que vae n'ellas... Por entre

estas soberbas carroças, sr. presidente, vejo eu passar mal arrimados ás

paredes, e temerosos de serem esmagados, uns homens de aspecto

melancholico, e mal entrajados. N'estes cuido eu vêr D. João de Castro,

que empenhou as barbas, e tem duas arvores em Cintra; Duarte Pacheco,

que vae entrar no hospital; e Luiz de Camões que vem de comer as sopas

dos frades de S. Domingos. Cada época tem centenares d'estas illustres

victimas.

_Um deputado_: Vê coisas magnificas!

_O orador_: E tambem vejo o dedo do propheta escrevendo na parede o

lemma d'aquelle devasso festim... (_Pausa. O orador conserva o braço em

postura sculptural, apontando á parede. O presidente accorda

estremunhado, com a risada do ministro da fazenda_). O que eu vejo? quer

o illustre deputado saber o que eu vejo? É a industria agricola de

Portugal devorada pelas fabricas do estrangeiro; é o braço do artifice

nacional alugado á escravidão do Brazil, porque a patria não lhe dá

fabricas; é o funccionario publico prevaricado, corrupto e ladrão,

porque os ordenados lhe não abastam ao luxo em que se desbarata; é o

julgador dos vicios e crimes sociaes transigindo com os criminosos

ricos, para poder correr parelhas com elles em regalias; é a mulher de

baixa condição prostituida, para poder realçar pelos ornatos sua

belleza; é a alluvião de homens, inhabeis, que rompe contra os

reposteiros das secretarias pedindo empregos, e conjurando nas

revoluções se lh'os não dão. O que eu vejo, sr. presidente, são sete

abysmos, e á bocca de cada um o rotulo dos sete peccados capitaes que

assolaram Babylonia, Cartago, Thebas, Roma, Tyro, etc. É o luxo, sr.

presidente!

_Um deputado do Porto_:--Peço a palavra.

_O orador continuando_:

--De que desconhecida lua choveu ouro sobre estes paraltas enluvados e

encalamistrados que pejam os theatros, praças, e botequins de Lisboa?

Foi para estes tempos que um sabio e claro varão d'outro seculo

escreveu: «Desde o bico do pé até á cabeça anda um d'estes cavalheiros

bizarros (ou qualquer d'estes bizarros ainda que não sejam cavalheiros)

armado de vaidade e de estudos de sua compostura, que são captiveiros de

espirito, corrupções dos costumes, da republica, e despezas da sua

fazenda, ou talvez da fazenda que não é sua.»

Aqui é que bate o ponto: _da fazenda que não é sua_. Á custa de quem se

vestem estes Narcisos e Adonis? Que incognitos veios de ouro exploram?

Qual é sua arte, se não devo antes perguntar quaes sejam suas manhas ou

ronhas? Que sabe a policia d'elles?

E eu já vi, sr. presidente, andarem as senhorias e excellencias, as

pobres esfarrapadinhas, por meio d'estes peralvilhos, que saem de casa

do alfayate com o fôro grande e o desaforo maior. Que desbarato e

corruptela é esta dos tratamentos em Lisboa? Abandalha-se tudo para

passar a rasoira por sobre um lamaçal plano? Isso é congruente; mas

então tapem lá o rôto cofre das graças, que a toda hora nos está

despejando corôas e veneras, cruzes e mais cruzes, cruzes onde a honra

de Portugal geme cravejada! Fechem lá esses decretos de permanente

carnaval, que nos trazem sempre acotovellados com mascaras, que eram

hontem os nossos fornecedores de bacalhau, e hoje nos não conhecem a

nós, receiosos de que os conheçamos a elles!

Sr. presidente! v. ex.^a conhece a pragmatica do Sr. D. João V, ácerca

de tratamentos. Eu tenho de a ler ámanhã a um tendeiro, que me vendeu

figos de comadre, por que o homem se offendeu de receber um _vossemecê_,

que eu longanimamente lhe dei. O alvará resa assim: «Que aos viscondes e

barões, aos officiaes da minha casa, e aos das casas das rainhas, e

princezas d'estes reinos; aos gentis-homens das camaras dos infantes;

aos filhos e filhas legitimos dos grandes, dos viscondes e barões...

como tambem aos moços fidalgos... se dê o tratamento de senhoria.»

Senhoria aos ministros no estrangeiro; senhoria aos governadores das

praças; reitor da universidade; senhorias ás dignidades prelaciaes e

civis; sr. presidente, falta uma senhoria legal para o homem, que me

vendeu os figos. Creêmos esta senhoria, para alliviarmos de escrupulos

os que lh'a derem a medo. Legislemos a podridão dos tratamentos

nobilitarios. Atiremos ao esterquilinio com esta moeda refece. Isto já

não vale nada, não prova nada, não estrema coisa nenhuma. Latissima

licença de condecorar-se a gentalha! Se algum mesteiral, uma vez,

praticar feito nobre, que lhe conquiste justo galardão, havemos de

honral-o chamando-lhe homem do povo, d'aquella raça de povo, que D.

Diniz e D. João I amaram cordialmente.

Desviei-me algum tanto, sr. presidente. Vou chegar-me á questão, e

concluir, porque a hora me não permitte delongas, nem a camara terá a

benevolencia de m'as tolerar.

Invoco a attenção dos representantes do paiz para a mortal peçonha, que

vae cancerando o machismo vital da nossa independencia. Rédeas ao luxo!

Tranquem-se as alfandegas ás drogas estrangeiras. Carreguem-se de

direitos as mercadorias, que incitam o appetite e prevertem as condições

melhormente morigeradas. Vistamo-nos do que podemos colher de nossas

possessões, e do estofo, que nossas fabricas podem dar. Sigam-se as leis

velhas do ultimo rei da dynastia de Aviz. Coimem-se e castiguem-se os

que venderem tecidos estrangeiros e os que os puzerem em obra.

_Um deputado_: Como redigirá o illustre deputado similhante absurdo de

lei?

_O orador_: Como redigirei? Facilmente. Como D. João II legislou a

respeito das mulas dos frades. Ora aconteceu que os frades teimaram em

cavalgar mulas. Que fez então o estomagado rei? Deu sentença de morte

aos ferradores, que ferrassem as mulas dos frades. E o caso foi que os

desmontou.

Conclui, sr. presidente.

_O presidente_: Fica reservada para amanhã a palavra ao sr. dr. Liborio

de Meirelles, e está fechada a sessão.

O dr. Liborio de Meirelles era o deputado portuense, que pedira a

palavra, durante o discurso de Calisto Eloy.

--Que sairá d'aquelle arganaz?--perguntou o morgado de Agra ao abbade de

Estevães.

--Dizem que é moço de muita sabedoria, e que já escreveu livros.

Calisto sorriu-se e disse:

--Estou bem aviado, se elle escreveu livros!

A Queda d'um Anjo: Romance · 第 17 / 53 题