Peço á camara que repare nos tres versos, que completam a quadra e a
prophecia:
Os instrumentos musicos deixando
Nos estranhos salgueiros penduramos,
_Hic_, sr. presidente:
Quando aos cantares que já em ti cantamos
Nos estavam imigos incitando.
Nos _cantares_, sr. presidente, é que bate o ponto do meu discurso:
(_Hilaridade: susurro nas galerias: o presidente tange a campainha_).
O _orador_:--Sr. presidente! que me não queiram persuadir de que estou
em casa de orates! Que é isto? Que bailar d'ebrios é este em volta de
Portugal moribundo? Como podem rir-se os enviados do povo, quando um
enviado do povo exclama: Não tireis á nação o que ella vos não póde dar,
governos! Não espremais o ubre da vacca faminta, que ordenhareis sangue!
Não queiraes converter os clamores do povo em cantorias de theatro! Não
vades pedir ao lavrador quebrado de trabalho os ratinhados cobres das
suas economias, para regalos da capital, em quanto elle se priva do
aprezigo de uma sardinha, por que não tem uma pogeia com que compral-a.
E vinte contos e trinta contos de subsidios que moralidade fomentam, que
lampadas accendem nos altares da civilisação? Eu peço á camara que leia
attentamente o discurso theologico do padre Ignacio de Camargo, lente no
real collegio de Salamanca, ácerca dos theatros. Não menos
fervorosamente peço a v. ex.^a e ás camaras que leiam as mirificas
paginas do nosso oratoriano Manuel Bernardes, sobre representações
theatraes. O que são comedias? Responda por mim o eminente moralista, e
mais que todos vernaculissimo escriptor: «Os assumptos das comedias pela
maior parte são impuros cheios de lascivos amores, de galanteios
profanos, de papeis amorosos, de rondas, passeios, musicas, dadivas,
visitas, solicitações torpes, finezas loucas, empenhos desatinados,
chimeras, emprezas impossiveis, que as solicita ordinariamente um
criado, uma mulher terceira, uma chave, um jardim, uma porta falsa, um
descuido do pae, ou do irmão, ou do marido da dama, e tudo isto costuma
parar em uma communicação deshonesta, em um incesto, ou em um adulterio,
em que ha muitos lances torpes, louvores lisongeiros da formosura,
expressões affectadas de amor, promessas de constancia, competencias de
affectos, temores, ciumes, suspeitas, sustos, desesperações, e em summa,
uma gentilica idolatria, ajustada pontualmente ás infames leis de Venus
e Cupido, e aos torpes documentos de Ovidio no livro de _Arte amandi_.»
_Vozes da galeria_: _Muito bem_! _Bravo_! (Espirram as risadas de varios
sujeitos. Gargalhada compacta).
_O orador_: Sr. presidente! Eu irei contar aos povos, que me aqui
mandaram, as gargalhadas com que fui recebido no seio da representação
nacional, por que ousei dizer que um paiz carregado de dividas não
instaura divertimentos attentatorios dos bons costumes com o dinheiro da
nação. Irei dizer aos meus constituintes que se desfaçam das arrecadas e
cordões de suas mulheres e filhas, para enfeitarem as gargantas
despeitoradas das Lucrecias Borgias que custam quarenta libras por
noite!
Sr. presidente, nossos avós, os coevos d'el-rei D. Manuel e D. João III,
tiveram theatros. Era no tempo em que as frotas da India rompiam Téjo
acima carregadas de oiro. O Plauto portuguez deliciava os paços dos
reis, e os pateos e tablados do povo. Quando se abriu o erario para
locupletar o alto engenho de Gil Vicente? Quando foi necessario ir mundo
fóra em cata de gritadores que vendem tão caro o ar dos pulmões vibrado
no mechanismo da garganta?
_Uma voz_: Fez-se a civilisação depois.
O _orador_: E a pobreza tambem. A civilisação que canta e dança, em
quanto tres partes do paiz choram. A civilisação dos civilisados que
dizem: _Coronemus nos rosis antequam marcessant_[9]. A civilisação do
perdulario irrisorio, que traja de luzente lemiste no exterior, e
aconchêga da pelle uma camisa surrada e fetida. Magnifica civilisação!
Não sei de selvagens que nol-a possam invejar, e queiram cambiar
comnosco a sua selvatiqueza!
Sr. presidente gosem nas boas horas os sátrapas da capital os deleites
da sua civilisação theatral. Dispendam-se, arruinem-se, doudejem com
essas ficções e visualidades, que relembram factos de alto escandalo que
não deviam ser vistos á luz da civilisação, que o meu illustre collega
preconisa. Se gostam, não serei eu, homem de outros tempos e gostos,
quem lhes impugne a racionalidade de seus passatempos. O que eu
requeiro, em nome da justiça e da pobreza do paiz, é que se não sizem os
povos provinciaes para manutenção dos divertimentos de Lisboa. O que eu
contesto é o direito de me fazerem pagar a mim e aos meus visinhos as
notas garganteadas dos ganha-pães, que não tem na sua terra officio
honesto em que vivam com seriedade e utilidade commum. O que eu
sobretudo lamento, sr. presidente, é o silencio desapprovador dos meus
collegas. Sou eu só: serei eu só o vencido. Não importa! _Victis
honos_![10] As pequenas coisas tratam-n'as os pequenos: _Parvum parva
decent_. Eu abro mão das glorias promettidas ao nobre collega, que,
pouco ha, pediu subsidio para o theatro do Porto. Dêem-lh'o. Desenrolem
a onda aurifera do Pactolo do nosso thesouro até Braga. Quem pede
subsidio para o theatro bracharense? A equidade reclama-o. O meu circulo
tambem quer um theatro. Theatro e subsidio para todo o logarejo onde
morar um contribuinte. Estamos em vida ficticia como paiz independente.
Somos como o sapateiro, que se veste de principe no entrudo. Pois bem!
Comedia geral! Seja Portugal um theatro desde Monção ao cabo da Roca!
Peço uma companhia italiana para a minha terra. Os meus constituintes
querem provar o sabor das delicias que tem estipendiadas em Lisboa. Se
eu não posso, sr. presidente, levar-lhes a boa nova de que vão ter
estradas que os liguem á sua nação, seja-me permittida a gloria de lhes
levar a Lucrecia Borgia, a incestuosa e envenenadora Lucrecia, que os ha
de edificar e converter á civilisação. Disse.
_Algumas vozes por entre frouxos de riso_: Muito bem! Bravissimo!
Eram as ironias dos sublimes engenhos, que, ás vezes, não sabem como hão
de havel-as com espiritos selvaticos do desplante montezinho de Calisto
de Barbuda.