A SULAMENSE

Estava a dormir... que importa?

Velava o meu coração.

Oiço o meu amado á porta:

--Ah formosa sem senão,

Minha pomba, minha amada!

Trago a cabeça molhada,

E os anneis do meu cabello

Todos escorrendo orvalho,

Estou mais frio que um gelo.

--Dá-me isto agora um trabalho...

Despi-me, lavei os pés,

Estou na cama deitada,

E é uma pena, bem vês,

Vestir-me agora outra vez,

Andar inda levantada.

Vai elle empurra o postigo,

E eu assusto-me de modo

Que, na verdade vos digo,

Tremia-me o corpo todo.

Salto da cama exhalando

Um cheiro delicioso:

Eu tinha-me estado untando

Com um oleo precioso

E inda as mãos me iam pingando.

Abro a porta, eis senão quando

Elle foge de repente...

Eu só de lhe ouvir a falla

Fui ás nuvens de contente.

E em paga de tudo, abala;

Bradei-lhe, não me acudiu,

Vou por essas ruas fóra

Á busca d'elle, até'gora:

Parece que o chão se abriu...

Encontro a ronda, espancou-me;

Um dos da guarda á entrada

Da cidade, esse, roubou-me

A capa onde ia embrulhada.

Peço-vos isto por bem,

Moças de Jerusalem!

Contai tudo ao meu amado,

Que elle é por amor de quem

Estou n'este triste estado.

Flores do Campo · 第 130 / 142 题