SALOMÃO

--Que enlevo, que formosura!

A pomba não tem de certo

No olhar tanta doçura:

E fóra o que anda encoberto.

O cabello, em quantidade

E tamanho, é singular;

E não me lembra senão

Das cabras de Galaad

Que lhes rola pelo chão

Em ellas indo a andar.

Os dentes, em tu abrindo

A tua boca, que lindo!

Nem um rebanho d'ovelhas

Todas brancas e parelhas

Quando, em sendo tosquiadas,

Veem saindo do banho

D'uma em uma, enfileiradas,

E atraz d'ellas, cada uma

Seus dois gemeos d'um tamanho,

Sem ser maninha nenhuma.

Pois a bocca é comparada

A uma fita encarnada.

A voz ouvil-a é um gosto:

Parte a romã pelo meio

Verás as rosas do rosto;

E fóra no que eu receio

Fallar que me não é dado.

O pescoço, pensa a gente,

Em o vendo de collares,

Que é a torre exactamente

De David, n'esses ares,

De baluartes, e toda,

Lá cima, escudos á roda.

Os peitos é um casal

De corcinhas, que o seu pasto

São açucenas do val:

Nada mais timido e casto.

E deitam um cheiro á goma,

Da myrrha mais do incenso,

A ponto que ás vezes penso

Que elles são duas collinas

Por onde aquellas resinas

Espalham aquelle aroma.

És formosa sem senão,

Amada do coração!

E que fazias tu lá

Pelo Libano, pombinha!

Deixa o Libano, anda cá.

Vaes ser coroada rainha

No mais alto d'Amaná

Ou d'Hermão ou de Sanir,

Onde ha leões e onde ha

Leopardos... deves vir.

Trespassou-me o coração

O teu olhar; o cabello

Prendeu-me como um grilhão.

O teu peito, basta vêl-o,

Para embebedar d'amor.

E só o cheiro que exhala

O teu corpo, não ha flôr,

Não ha rosa, não ha cravo

Capaz de cheirar melhor.

A tua bocca é um favo

De doçura quando falla;

A tua lingua, uma sopa

De leite e mel; essa roupa

Cheira a incenso, regala.

Não ha nada comparado:

Agua a mais pura e suave

De fonte fechada á chave,

Não é mais suave e pura.

Esse rosto, essa figura...

E só o bem que tu cheiras!

Não me parece senão

Um jardim todo plantado

De romeiras e maceiras,

Canfora, nardo, assim como

Açafrão, canna de cheiro

Aloes, myrrha e cinnamomo:

O que ha no Libano em fim;

Não ha fruta nem aroma,

Que se ahi não cheire e coma.

És a fonte d'um jardim

Toda pureza e frescura:

Torno d'agua que rebenta

Inda mais viva e mais pura

Lá no Libano, e ninguem

Lhe tem mão nem aguenta

A força com que ella vem.

Fizesse já sul e norte

No meu jardim, de tal sorte

Que alegretes e pomares

Andasse tudo nos ares.

Flores do Campo · 第 126 / 142 题