A A. DO QUENTAL

Tal é a confiança que te inspira

Estes reis, estes povos, esta gente,

Que é para o céo que appella e se retira

Tua alma já de triste e descontente.

Mas Deus então seria ou impotente

Ou seria um Deus barbaro: mentira!

Não póde suspirar eternamente

Quem ha já tantos seculos suspira.

Vai ganhando terreno a luz brilhante,

Luz toda liberdade e toda amor

Que ha-de salvar o mundo agonisante.

A idéa, esse Verbo creador

Ha-de fazer que um dia e não distante

Só o nome de imperio inspire horror.

Messines.

* * * * *

Meu casto lirio,

Terno delirio,

Gloria e martyrio

Do meu amor!

Amo-te como

A haste o gomo,

O labio o pomo

E o olho a flôr.

Se ao meu ouvido

Sôa um rugido

Do teu vestido,

Que ouço roçar;

Que som me vibra

Não sei que fibra

Que me equilibra

A mim no ar!

E que harpa santa

É que me encanta

E enche de tanta

Consolação,

Quando uma falla

Terna se exhala

D'onde se embala

Teu coração!

Quando te vejo

D'um simples beijo

Córar de pejo,

Mudar de côr,

Que susto é esse

Que me parece

Te empallidece,

Rosa d'amor!

Quando no leito,

Teu niveo peito

Sonho que estreito

E aperto ao meu;

Vendo tão perto

O céo aberto,

Porque desperto...

Anjo do céo!

Não fujas, rosa!

Não fujas, goza

Manhã mimosa,

Manhã d'amor;

De folha em folha

A flôr se esfolha

Bem cedo, e olha

Que és como a flôr!

Coimbra.

* * * * *

Flores do Campo · 第 56 / 142 题