MARGARIDA

Oh que formosos dias, Margarida!

Esses da tua vida;

E que nublados

Meus dias desgraçados!

Nasci tambem assim risonho e meigo,

Mas hoje apenas chego

O calix da ventura

Á bocca ancioso,

Torna-se a agua impura

E o liquido que bebo

Venenoso,

Sim, venenoso o liquido que bebo.

Nem eu concebo

Como Deus me creasse

Para tormento eterno;

Elle que tão affavel, meigo e terno

Te beija a ti a face

E te embala no collo, Margarida!

A mim dar-me esta vida...

Mas vejo á sombra d'altos edificios

Miudissimas flôres

De tão subtís e delicadas côres

Que se o sol lhes chegasse

Talvez que nem resquicios

Lhes ficasse.

Com uma d'essas azas, estendida,

Me tapavas tu todo,

E d'esse modo,

Com esse escudo,

Eu ria-me de tudo

E levava esta vida alegremente.

Tenho essa fé.

Vejo tambem a flôr que nasce ao pé

D'agua corrente,

Ir tão suavemente

Levada pela agua!

Talvez até sem magua

De deixar sua mãi.

D'esse modo tambem,

Amparando-me tu a mim nos braços,

Eu seguia-te os passos,

Fosse por onde fosse;

E d'essa sorte

Até a morte

Me seria dôce.

Messines.

* * * * *

Flores do Campo · 第 46 / 142 题