N'esta aventura, eu fui o ùnico tôlo, em ter tido pensamento

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COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE

BENGUELLA Á CONTRA-COSTA.

A-TRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS;

DETERMINAÇÕES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.

Por SERPA PINTO.

Dois Volumes.

Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do

autor.

VOLUME SEGUNDO.

Segunda Parte--A FAMILIA COILLARD.

LONDRES:

SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,

EDITORES,

CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.

1881.

[_Tôdos os direitos sam reservados_.]

LONDRES:

NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA LIMITADA),

STAMFORD STREET E CHARING CROSS.

CONTEÜDO.

CAPÌTULO IX.

NO BARÔZE.

No alto Zambeze--O rei Lobossi--O reino do Barôze, Lui ou

Ungenge--Os conselheiros do rei--Grande audiencia--Audiencias

particulares--Parece que tudo me corre bem--Eu explicando

geographia a Gambela--Volta-se a face aos negocios--Intrigas--Os

Bihenos querem voltar--Uma embaixada a Benguella--Quimbundos e

Quimbares--A prêta Mariana--Tentativa de assassinato--6 de

Setembro--Incendio e combate--Retiro para as montanhas

CAPÌTULO X.

A CARABINA D'EL-REI.

A traição--Perdido--A Carabina d'El-Rei--Miseria--Novas scenas com

o rei Lobossi--Partida--No Zambeze--Caça--Moangana--O Itufa--As

pirogas--Sioma--Cataracta de Gonha--Bellezas naturaes--O basalto--A

região das cataractas superiores--Balle--Bombué--Na foz do rio

Gôco--Cataracta de Nambue--Os ràpidos--Viagem vertiginosa--Catima

Moriro--Quisseque--Eliazar--Carimuque--O rio Machila--Muita

caça--Tragedia--Embarira

Capìtulo Supplementar

* * * * *

Segunda Parte.--A FAMILIA COILLARD.

CAPÌTULO I.

EM LEXUMA.

Prêso em Embarira--O Doutor Benjamin Frederick Bradshaw--O campo do

Doutor--O Pão--Graves questões--Os chronòmetros não

param--Francisco Coillard--Lexuma--As damas Coillard--Doença

grave--Receios e irresoluções--Chegada do missionario--Tomo uma

decisão--Partida de Lexuma (em Inglez, _Leshuma_)

CAPÌTULO II.

MOZIOATUNIA.

Viagem ás cataractas--Tempestades--A grande cataracta do

Zambeze--Abusos dos Macalacas--Regresso--Patamatenga--M^{r.}

Gabriel Mayer--Tùmulos de Europêos--Chêgo a Deica--A familia

Coillard

CAPÌTULO III.

TRINTA DIAS NO DESERTO.

O Deserto--Florestas--Planicies--Os Macaricaris--Os Massaruas--O

grande Macaricari--Os rios no deserto--Morte da Córa--Falta de

àgua--O ùltimo chá de Madame Coillard--Xoxom (_Shoshong_)

CAPÌTULO IV.

NO MANGUATO.

Doença grave--Um Stanley que não é o Stanley--O Rei Cama--Os

Inglezes em Àfrica--A libra esterlina--M^{r.} Taylor--Os

Bamanguatos a cavallo--Cavallos e cavalleiros--Despedidas--Parto

para Pretoria--Acontecimentos nocturnos--Volto a Xoxom--¿Pararám os

chronòmetros?

CAPÌTULO V.

DE SHOSHONG A PRETORIA.

Catraio--Apparece o vagom--Despedida de M^{r.}

Coillard--Tempestades--O vagom tombado--Trabalhos de nôvo

gènero--Chuvas--O Limpôpo--Fly--Caçadas--No Ntuani--Um Stanley que

não presta--Augusto furioso--Adicul--Os leões--Stanley desanima--Os

Böers nomadas--Nôvo vagom--Peripècias--Doenças graves--Um

Christophe de mil diabos--Madame Gonin--O ùltimo

tùmulo--Magalies-berg--Pretoria

CAPÌTULO VI.

NO TRANSVAAL.

Ràpido esbôço da historia dos Böers--O que sam os Böers--Suas

emigrações e trabalhos--Adriano Pretorius--Pretorius--As minas de

diamantes--Brand--Burgers--Juizo errado á cerca dos Böers--O que eu

vi e que eu penso

CAPÌTULO VII.

NO TRANSVAAL (_continuação_).

M^{r.} Swart--Difficuldades--D^{or.} Risseck--Eu gastrònomo!--Sir

Bartle Frere e o Consul Portuguez M^{r.} Carvalho--O Secretario

Colonial M^{r.} Osborn--Jantares e saraus--O missionario Rev.

Gruneberger--M^{r.} Fred. Jeppe--O jantar do 80 de

infanteria--Major Tyler e Capitão Saunders--Insubordinação--M^{r.}

Selous--Monseigneur Jolivet--O que era Pretoria--Uma photographia

de pretas--Episodio burlêsco da guerra tràgica dos Zulos

CAPÌTULO VIII.

O FIM DA VIAGEM.

A chegada do Coronel Lanyon--Parto de Pretoria--Heidelberg--Um

_dog-cart_--O Tenente Barker--Dupuis--Peripecias de uma viagem no

Transvaal--Newcastle--A diligencia--Episodios

burlescos--Pietermaritzburg--Durban--Volto a Maritzburg--Didi

Saunders--Episodios em Durban--O Consul Portuguez M^{r.} Snell--O

Danubio--O Commandante Draper--Regresso á Europa

Conclusão

Breve Vocabulario

Indice

* * * * *

LISTA DAS ILLUSTRAÇÕES.

FIG.

94.--O Rei Lobossi

95.--Gambela

96.--Matagja

97.--Cachimbos de fumar o Bangue

98.--Vasilha para leite feita de madeira

99.--Objecto de Ferro forjado que serve de Lenço de assoar aos Luinas.

Especie de Espàtula

100.--Pratos e Escudellas para a comida

101.--Colhér

102.--Machado de cortar madeira

103.--Artigos de Barro

104.--Homem Luina

105.--Mulhér Luina

106.--Azagaias Luinas

107.--Machadinhas de guerra

108.--Porrinho

109.--Ataque contra o acampamento no Lui

110.--Casa na Itufa

111.--O meu Barco

112.--Acampamento na Sioma

113.--Cataracta de Gonha

114.--Passagem dos Barcos em Gonha

115.--Cataracta de Cale

116.--Ràpidos de Bombue

117.--Nos ràpidos

118.--Três Europêos atravessáram o rio

119.--O Campo do Doutor Bradshaw

120.--Monsieur e Madame Coillard

121.--Acampamento da Familia Coillard em Lexuma

122.--Interior do Campo de Monsieur Coillard em Lexuma

123.--Mozioatunia. A Queda de Oeste.

124.--Mozioatunia. Maneira pouco còmmoda de medir àngulos.

125.--O Rio depois da Cataracta

126.--Os Tumulos em Patamatenga

127.--Os Desfiladeiros de Letlotze

128.--Ruinas da Casa do Rev. Price (Xoxom)

129.--No Deserto

130.--Fly, o meu Cavallo do Deserto

131.--Fly perseguindo os Ongiris

132.--Uma Vista do Alto Limpôpo

133.--Montes termìticos junto ao Limpôpo

134.--Os meus Bôis foram salvos

135.--O ùltimo enterro

136.--Magalies-berg

137.--O que restava da Expedição

138.--Eu em Pretoria (_De uma photo. de Mr. Gross_)

139.--Betjuanas (_De uma photo. de Mr. Gross_)

Mappa de Mozioatunia

Três Facsìmiles, de pàginas do Diario, dos Livros de Càlculos, e do Albo de

Cartas

COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA

* * * * *

Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.

CAPÌTULO IX.

NO BARÔZE.

No alto Zambeze--O rei Lobossi--O reino do Barôze, Lui ou

Ungenge--Os conselheiros do rei--Grande audiencia--Audiencias

particulares--Parece que tudo me corre bem--Eu explicando

geographia a Gambela--Volta-se a face aos negocios--Intrigas--Os

Bihenos querem voltar--Uma embaixada a Benguella--Quimbundos e

Quimbares--A prêta Mariana--Tentativa de assassinato--6 de

Setembro--Incendio e combate--Retiro para as montanhas.

A 25 de Agôsto levantei-me muito incommodado e ardendo em febre. Estava

no alto Zambeze, junto do 15^{to} parallelo austral, na cidade de

Lialui, nova capital estabelecida pelo rei Lobossi, do reino do Barôze,

Lui ou Ungenge, que tôdos estes nomes pode ter o vasto imperio da Àfrica

tropical do sul. Como se sabe pêlas descripções de David Livingstone, um

homem vindo do Sul á frente de um exèrcito poderôso, o guerreiro

Chibitano, Basuto de origem, atravessou o Zambeze junto da sua

confluencia com o Cuando, e invadio os territorios do alto Zambeze,

sujeitando ao seu dominio tôdas as tribus que habitavam o vasto paiz

conquistado.

Chibitano, o mais notavel capitão que tem existido na Àfrica Austral,

partira das margens do Gariep com um pequeno exèrcito formado de Basutos

e Betjuanas, ao qual foi aggregando os mancêbos dos povos que vencia, e

ao passo que caminhava ao norte, ia organizando essas phalanges, que

depois se tornáram tão terriveis, ja na conquista do alto Zambeze, ja na

defensa do paiz conquistado.

A êsse exèrcito, formado de elementos differentes, de povos de muitas

raças e origens, deu o seu chefe o nome de Cololos, e d'ahi lhe veio o

nome de Macololos que tão conhecido se tornou em Àfrica.

No alto Zambeze encontrou Chibitano muitos povos distinctos, governados

por chefes independentes, que não podéram, separados como estavam, oppor

séria resistencia ao terrivel guerreiro Basuto.

Tão sabio legislador, como prudente administrador, e audaz guerreiro,

Chibitano soube dar união aos povos conquistados, e fazer com que elles

se considerassem irmãos no interesse commum.

Estes podiam agrupar-se em três divisões, marcando três raças

distinctas.

Ao sul, abaixo da região das cataractas, os Macalacas; no centro, os

Cangenjes ou Barôzes; e ao norte, os Luinas, raça mais vigorosa e

intelligente, que devia substituir um dia os Macololos na governação do

paiz.

É propriamente no paiz do Barôze ou Ungenge, que se tem conservado as

sedes do govêrno desde o tempo de Chicreto, o filho e successor de

Chibitano; e tôdos os povos de Oeste chamam ao vasto imperio Lui ou

Ungenge, ao passo que os povos do sul lhe dam o nome de Barôze. Mais

tarde, n'este capìtulo, terei occasião de falar na historia d'este pôvo

desde a ùltima visita de Livingstone até á minha passagem ali;

proseguindo agora a narrativa das minhas aventuras sôb o reinado de

Lobossi, e do seu conselheiro ìntimo Gambela.

A organização polìtica do reino do Lui é muito differente da dos outros

povos que eu tinha visitado em Àfrica. Ali ha dois ministerios

perfeitamente definidos, o da guerra, e dos negocios estrangeiros; sendo

este ùltimo dividido em duas secções, cada uma com o seu ministro. Uma

d'ellas trata dos negocios de Oeste, outra dos do Sul. Isto é, uma trata

com Portuguezes de Benguella, outra com os Inglezes do Cabo.

Na occasião da minha chegada, os conselheiros do rei eram quatro, dois

dos quaes não tinham pasta; sendo ministro dos negocios estrangeiros de

Oeste um tal Matagja, e accumulando duas pastas, a da guerra e a dos

negocios estrangeiros do sul, Gambela, o presidente do consêlho do rei.

Aprendi bem estes detalhes, para regular a minha conducta nas graves

questões que tinha a tratar.

Logo de manhã, fui avisado, de que o rei Lobossi me esperava.

Larguei os meus andrajos, e vesti o ùnico vestuario que ja possuia,

dirigindo-me em seguida á grande praça onde devia ter logar a audiencia.

Elle estava sentado em uma cadeira de espaldar, no meio da grande praça,

e por de tras d'elle um nêgro fazia-lhe sombra com um guarda-sol.

Era um rapaz de 20 annos, de estatura elevada, e proporcionalmente

grôsso.

Vestia um casaco de cazimira prêta sobre uma camisa de côr, e em logar

de gravata, trazia ao pescôço um sem-nùmero de amulêtos.

As calças eram de cazimira de côr, e deixavam ver as meias de fio de

escocia, muito alvas, e o sapato baixo bem lustrado.

Um grande cobertôr de listas multicolôres em guisa de capote, e na

cabêça um chapéo cinzento, ornado de duas grandes e bellas pennas de

avestrús, completavam o traje do grande potentado.

Na mão um pedaço de madeira lavrada, ao qual estavam prêsas muitas

clinas de cavallo, servia-lhe para enxotar as môscas, acção que elle

fazia com tôda a gravidade.

Á sua direita, em cadeira mais baixa, estava sentado o Gambela, e na

frente os três conselheiros. Umas mil pessôas, sentadas no chão em

semi-cìrculo, deixavam perceber a sua jerarchia pelas distancias a que

estavam do soberano.

[Figura 94.--O Rei Lobossi.]

Á minha chegada o rei Lobossi levantou-se, e logo em seguida os

conselheiros e tôdo o pôvo. Troquei um apertar-de-mão com elle e com

Gambela, abaixei a cabêça a Matagja e aos outros dous conselheiros, e

sentei-me junto a Lobossi e a Gambela.

Depois de uma troca de comprimentos e de finezas, que mais pareciam de

uma côrte Europea do que de um pôvo bàrbaro, eu disse ao rei, que não

era negociante, que vinha visital-o por ordem do Rei de Portugal, e que

tinha a falar-lhe em assumptos que não podiam ser tratados ali diante de

tão numerosa assemblea.

[Figura 95.--Gambela.]

Elle respondeu-me, que sabia e comprehendia isso, e que a recepção que

me mandara fazer na vèspera e a que elle mesmo me fazia ali, me

mostravam que eu não era confundido com um negociante qualquér; que eu

era seu hòspede, e teriamos tempo de falar em negocios, porque elle

esperava ter a felicidade de me possuir algum tempo na sua côrte. Depois

de me dizer esta amabilidade, despedio-se de mim, que voltei a casa

abrasado em febre.

No meu pàteo encontrei trinta bôis, que o rei me mandava de presente.

Disse-me o escravo favorito de Lobossi, que seria delicado da minha

parte, mandar matar os bôis, e offerecer a melhor perna de bôi ao rei, e

dar carne á gente da côrte.

Dei ordem a Augusto para fazer isso, e houve logo uma carnificina

enorme, sendo tôdos os bôis mortos, e a sua carne distribuida entre os

meus carregadores e a gente da côrte; tendo o cuidado de mandar ao rei e

aos quatro conselheiros a melhor parte, cabendo ainda assim o melhor

quinhão a Gambela, a quem fiz notar a distincção que fazia.

[Figura 96.--Matagja.]

As pelles, que ali sam muito estimadas, offereci eu a Matagja e Gambela.

Pêla 1 hora, fui recebido pêlo rei em audiencia particular, em uma casa

tambem semi-cilìndrica, mas de grandes dimensões, que não contava menos

de 20 metros de comprido por 8 de largo.

Lobossi estava sentado em uma esteira, e em frente d'elle os quatro

conselheiros occupavam outra, de companhia com alguns fidalgos, entre os

quaes estava um velho vigoroso, cuja physionomia sympàthica e expressiva

me impressionou. Era Machauana, o antigo companheiro de Livingstone, na

viagem que o cèlebre explorador fez do Zambeze a Loanda, e de quem elle

fala, no seu roteiro com tanto elogio.

Uma enorme panella de quimbombo foi collocada no meio da casa, e depois

de o rei ter bebido, bebêram tôdos com profusão, e nem me offerecêram,

sabendo que eu só àgua bebia.

Conversámos sôbre cousas indifferentes, e eu entendi não dever falar-lhe

ainda dos meus negocios. Entre outras cousas, falámos a respeito de

lìnguas differentes, e Lobossi pedio-me que falasse um bocado em

Portuguez, para elle ouvir. Recitei-lhe as Flôres d'Alma do poema "D.

Jayme," e os prêtos ficáram encantados ao escutar a harmonia da nossa

lìngua, que o mimôso e grande poeta, Thomas Ribeiro, soube imprimir e

fazer resaltar n'aquellas estrophes singelas.

Quando eu ia retirar-me, o rei disse-me baixo, de modo que ninguem

percebeu, que lhe fôsse falar depois de ser noute fechada.

Pouco depois de eu chegar a casa, apparecêu-me ali Machauana, com quem

conversei sôbre Livingstone, e que me fez os maiores protestos de

amizade.

Á noute, pelas 9 horas, fui á morada do rei. Elle estava n'um dos pàteos

interiores, sentado em uma esteira, junto a um grande fôgo, que ardia

n'uma bacia de barro de dois metros de diàmetro. Na sua frente, em

semi-cìrculo, uns 20 homens, armados de azagaias e escudos, conservavam

a maior immobilidade e silencio.

Pouco depois de eu chegar, chegou o Gambela, e começou a nossa

conferencia.

Eu principiei por lhe dizer, que tinha sido obrigado a deixar no caminho

os ricos presentes que lhe trazia, mas que, ainda assim, tinha podido

salvar algumas pequenas cousas que lhe daria, e entre ellas uma farda e

um chapéo, que lhe apresentei logo.

Era uma d'essas fardas ricamente agaloadas, que tôda Lisboa vio aos

lacaios postados nas antecàmaras do Marquez de Penafiel, e que fôram

vendidas quando o opulento fidalgo trocou a sua residencia luxuosa de

Lisboa, pelo viver mais buliçôso da capital da França.

Lobossi ficou encantado com a farda e com o chapéo armado, e fêz-me mil

agradecimentos. Depois de uma pequena conversa sem importancia, entrámos

em assumpto.

No Barôze falam-se três lìnguas. O Ganguela, a lìngua Luina, e o Sezuto,

idioma deixado ali pêlos Macololos, que modificáram os costumes

d'aquelles povos a ponto tal, que até lhes implantáram a sua lìngua, que

é a lìngua official e elegante da côrte.

Era n'este idioma que falavam Lobossi e Gambela, servindo-me de

intèrpretes Verissimo e Caiumbuca. Eu disse ao règulo, que vinha da

parte do rei de Portugal (o Mueneputo), nome pêlo qual sua Magestade

Fidelissima é conhecido entre tôdos os povos da Àfrica Austral, e que é

formado por duas palavras--_Muene_, que quer dizer Rei, e _Puto_, nome

dado em Àfrica a Portugal. Disse-lhe, que o meu fim principal era abrir

caminhos ao commercio, e que estando o Lui no centro de Àfrica, e ja em

communicação com Benguella, desejava abrir o caminho do Zumbo, e assim

um mercado muito mais perto, onde elles poderiam ir abastecer-se dos

gèneros Europêos de que precisassem.

Elle queixou-se muito da falta que nos ùltimos tempos lhe havia feito o

não virem ali negociantes de Benguella, não me occultando que, entre

outras cousas, estava sem pòlvora. Eu respondi-lhe, que elles viriam, se

com elles fizessem bons negocios, e que eu lhe podia affirmar, que o

Mueneputo estava dispôsto a proteger o commercio com elle, se elle se

compromettesse a não consentir nos seus estados a compra e a venda de

escravos.

Não lhe occultei a falta de meios com que eu lutava, e mostrando-lhe o

desejo e empenho que tinha em abrir o caminho do Zumbo, prometti-lhe, se

elle me coadjuvasse na emprêsa, fazer-lhe chegar de Tete, no menor tempo

possivel, a pòlvora e mais artigos de que elle carecia.

O Gambela, homem intelligente e fino diplomata (tambem os ha prêtos),

quiz por vêzes enredar-me, mas eu não sahia da verdade e da lògica, e

elle foi vencido.

No fim de muito discutir, ficou decidido, que o rei Lobossi mandaria uma

comitiva a Benguella, para guiar a qual eu lhe daria um homem de

confiança, com cartas para o governador e para Silva Porto, e que elle

me daria a gente de que eu precisasse para ir comigo ao Zumbo.

Era uma hora da noute quando eu me retirei, e ainda que sempre

desconfiado de prêtos, não posso deixar de confessar que me retirei

satisfeito.

O dia foi tôdo muito occupado, e depois de á uma hora me recolher,

sobreveio-me um enorme accesso de febre.

Levantei-me muito doente no dia seguinte, e mandei logo Quimbundos e

Quimbares construirem um acampamento meio kilòmetro ao sul de Lialui,

para o quê obtive autorização do rei.

Pêlas 10 horas, fui visitar Lobossi, que encontrei n'uma grande casa

circular, cercado de gente, e tendo diante de si seis enormes panellas

de capata. O meu Augusto, Verissimo, Caiumbuca e a gente do règulo,

dentro em pouco estavam bêbados a cahir, e ninguem se entendia ali. Eu

voltei a casa, e tive de deitar-me, de tal modo me recresceu a febre.

Foi immensa gente visitar-me, e como eu não tinha remedio senão ouvir

uns e outros, porque aquelles nêgros não t[~e]m a menor consideração por

um doente, peiorei muito.

Lobossi mandou-me seis bôis, cuja carne foi tôda furtada pêla gente

d'elle, porque a minha estava longe construindo o acampamento, e

Augusto, Verissimo e Camutombo completamente bêbados, não quizéram saber

d'isso.

No dia immediato, Lobossi veio visitar-me logo de manhã; eu estava um

pouco melhor, mas a febre era constante e não queria ceder aos

medicamentos.

Ás 10 horas, Lobossi mandou-me pedir para comparecer diante do seu

grande consêlho, que fizera convocar expressamente para eu expor os meus

projectos.

Outra vez Gambela, que presidia á assemblea, me quiz embaraçar, e outra

vez se saío mal. Tive de explicar Geographia a Gambela e aos

conselheiros da corôa.

Tracei-lhes no chão o curso do Zambeze, e a leste parallelo a elle o

curso do Loengue, que, com o nome de Cafúcué, vai entrar no Zambeze a

jusante dos ràpidos de Cariba.

Mostrei-lhes que em 15 dias alcançaria a povoação de Cainco, situada em

uma ilha do Loengue, e que descerìamos o rio embarcados até ao Zambeze,

e por este ao Zumbo.

Afirmei-lhes, que o Loengue não tinha cataractas, e que o Zambeze de

Cariba ao Zumbo era perfeitamente navegavel.

Insisti pois n'este ponto, demonstrando-lhes, que apenas com uma

travessia por terra de 15 dias, que se podia reduzir mesmo a 10

(citando-lhes para isso um facto de uma expedição Luina que, partindo de

Narieze, tinha alcançado Cainco em 8 dias), com uma pequena travessia

por terra, elles estariam em ràpida, communicação com os

estabelecimentos Portuguezes de Leste, por vias fluviaes completamente

navegaveis.

O pùblico estava admirado da minha erudição, e Gambela, que sabia mais

geographia Africana do que muitos ministros d'estado Europêos, e que

conhecia ser verdade o que eu expunha, cedeu ás razões.

Depois de longa e acalorada discussão, foi resolvido, que se enviasse a

comitiva a Benguella, e que me fôsse dada a gente sufficiente para

atravessar o Chuculumbe até Cainco, deixando três ou quatro fortes

postos no caminho, para segurar a passagem áquelles que, indo comigo até

ao Zumbo, tivessem de regressar. No fim da sessão, houve grande

enthusiasmo, e fôram logo nomeados os chefes que deviam ir a Benguella,

e os que me deviam acompanhar.

Voltei a casa com um tal accesso de febre que perdi a razão, melhorando

ás 6 horas da tarde.

Á noute, annunciáram-me a visita de Munutumueno, filho do rei Chipopa, o

primeiro rei da dinastia Luina.

Mandei-o entrar, e vi um rapaz de 16 a 17 annos, muito elegante e

sympàthico.

Trazia uma calça prêta e uma farda de alferes de cavallaria ligeira, em

muito bom estado. Fez-me profunda impressão ver aquella farda! ¿A quem

teria pertencido? ¿Como teria ido parar ao centro d'Àfrica?

Talvez alguma viuva necessitada encontrasse na venda d'aquelle objecto,

que pertencêra a um espôso estremecido, algumas migalhas de pão para

matar a fome.

Perguntei a Munutumueno ¿como tinha obtido aquella farda? e elle

respondeu-me, que tinha sido presente de um sertanejo Biheno, havia ja

muito tempo.

Indaguei, se não lhe havia encontrado nada nos bolsos, e elle

respondeu-me, que não tinha bolsos. Uma farda de official sem bolsos,

era impossivel.

Pedi-lhe para m'-a deixar examinar, e tendo elle desabotoado o peito,

effectivamente vi que não tinha bôlso ali.

Roguei-lhe, que se voltasse, e comecei a explorar-lhe os bolsos das

abas. Elle estava admirado, porque não sabia que tinha bolsos ali. Em um

d'elles os meus dêdos encontráram um pequenino bilhête.

¿Iria saber a quem tinha pertencido aquella farda?

¿O que conteria aquelle papelinho dobrado que eu tinha diante dos olhos

e não me atrevia a abrir?

Cheio de commoção, desdobrei o papél, e vi n'elle algumas linhas

escritas a lapis, que li àvidamente.

Não pude conter uma gargalhada.

O papél dizia assim:--

"Se lhe não sou indifferente, rogo-lhe o obsequio de me indicar o modo

de nos correspondermos."

Por baixo um nome e uma morada.

Sabia de quem fôra a farda.

O nome era o de um dos meus amigos e antigo condiscìpulo, que hôje

occupa uma distintissima posição n'uma das armas scientìficas do

exêrcito Portuguez.

Um dia em pùblico commetti a indiscrição de pronunciar o nome do

signatario do bilhête, que eu possuo, e ainda que indiscreto fui, não

creio ter de modo algum offendido aquelle nobre official e distincto

cavalheiro.

Uma farda que o talento e a applicação ao estudo fizéram trocar por

outra, mais distincta; que, abandonada ou dada a algum criado, pêla

instabilidade das cousas, foi parar ao centro de Àfrica, creio é cousa

que não desdoura ninguem. Em quanto ao bilhête de amôres, creio bem que

ainda menos o deve vexar.

Infelizes d'aquelles que, aos desoito annos, não escrevêram bilhêtes

assim, e mais infelizes os que depois dos trinta ja os não podem

escrever.

"Aquillo, meu amigo, foi cousa que um _papá_, ou uma _máma_, sempre

impertinentes em taes casos, te não deixou entregar, ao sahir do theatro

ou de um baile, á tua Dulcinea d'aquella noute, ou que a tua timidez dos

desoito annos fêz recolher ao bôlso. Imagino, meu amigo, que te deves

ter rido, sabendo que aquelle bilhête esquècido, depois de atravessar os

mares, atravessou aquelles inhòspitos paizes, e andou em companhia de um

prêto no alto Zambeze. É verdade, que, para te consolares, sabes que

esse prêto era filho de rei."

N'esta aventura, eu fui o ùnico tôlo, em ter tido pensamentos tristes, á

vista do bilhête encontrado no bôlso da farda de um alferes de

cavallaria, porque logo devia suppor, que tal bilhête só podia ser um

bilhête d'amôres.

Um alferes de cavallaria, em Portugal, como em tôdos os paizes, é sempre

um fogacho onde as maripôsas v[~e]m queimar as azas douradas.

Pensando na proposição que acabo de formular, deitei-me cheio de

tristeza, lembrando-me que ja era major.

No dia immediato, recresceu a febre a ponto de eu não poder andar.

Lobossi foi visitar-me, e levou com-sigo o seu mèdico de confiança.

Era um velho, pequeno e magro, de barba e cabello branco.

Principiou elle por tirar do pescôço um cordão onde tinha enfiado oito

metades de caroços de uma fruta qualquér que eu não conhecia. Começou,

com grande recolhimento, a pronunciar umas palavras màgicas, e atirou

com os caroços ao chão. D'estes, uns ficáram com a parte interna voltada

para a terra, outros com a externa. Elle leu n'aquella disposição,

concluindo da leitura, que os meus parentes mortos se tinham apossado de

mim, e que era preciso dar-lhes alguma cousa para elles me deixarem. Eu

aturei tudo com a maior paciencia, fingindo acreditar o que elle me

dizia, e dei-lhe um pequeno presente de pòlvora.

N'aquelle dia o Gambela deu-me um presente de dez cargas de milho e

massambala.

Estando concluido o meu acampamento, mudei para elle.

No dia 29 de Agosto, a febre cedeu um pouco ás fortes doses de quinino

que tomei, e senti bastantes melhoras. O meu estado moral é que peiorava

de instante a instante.

Tinha alguns momentos de desalento inexplicaveis. A minha energia cedia

ante a fraqueza moral que se apossava de mim.

Estava sôb o pêso esmagador de um terrivel ataque de nostalgia.

O rei mostrava muitos cuidados pêlo meu estado, mas cada portador que

vinha encarregado de saber da minha saude, era emissario de um pedido

cada vez mais impertinente.

N'aquelle dia mandou elle os seus mùsicos tocarem e cantarem para me

enterter, mas mandou em seguida pedir-me dois cartuxos de pòlvora por

cada mùsico.

N'essa tarde ouvi grandes toques de tambores na cidade, e o rei

mandou-me pedir, que mandasse dar alguns tiros na grande praça, desejo

que eu satisfiz mandando doze homens dar fôgo.

Sube depois que aquillo era uma convocação á guerra, e antes de falar

nos motivos d'ella, direi em poucas palavras a historia do Lui, desde o

ponto em que ficou narrada pêlo D^{or.} Livingstone, isto é, desde a

morte de Chicrêto.

O imperio, poderosamente sustentado pêla mão de ferro, sabia prudencia e

fina polìtica de Chibitano, marcou-se com uma profunda pègada de

decadencia no reinado de seu filho Chicrêto. David Livingstone, muito

grato aos favôres de Chicrêto, que lhe deu os meios de ir a Loanda e a

Moçambique, é talves bastante suspeito nos elogios que dispensa a este

rei; e mesmo na narrativa da viagem que ali fez depois com seu irmão

Carlos e o Doutor Kirk, não pôde deixar de narrar a desordem e profunda

decadencia em que encontrou o imperio Macololo.

Das gentes vindas do sul com Chibitano, isto é Macololos, poucos

existiam ja, tendo sido decimados pêlas febres do paiz, que nem os

naturaes poupam. A embriaguez e o uso do bangue, de mistura com os

desregramentos dos chefes, tinham feito perder tôda a autoridade aos

invasores. Môrto Chicrêto, succedeu-lhe seu sobrinho Omborolo, que devia

reinar durante a minoridade de Pepe, irmão muito mais nôvo de Chicrêto,

e filho ainda do Grande Chibitano.

Os Luinas conspiravam, e um dia Pepe foi assassinado. Omborolo não

tardou a ter a mesma sorte, e tendo sido ordenada uma _Saint Barthélemi_

por os Luinas, os restos d'esse forte exèrcito invasor foi assassinado,

escapando apenas poucos, sôb o commando de Siroque, irmão da mãe de

Chicrêto, que fugio para Oeste, passando o Zambeze em Nariere.

Os Luinas, depois d'essa carnificina traiçoeira, acclamáram seu chefe

Chipópa, homem de tino, que não deixou desmembrar o paiz, e procurou

conservar o imperio, poderoso como em tempo de Chibitano.

Chipópa reinou muitos annos, mas as ambições apparecêram e, em 1876, um

tal Gambela fel-o assassinar, e acclamar seu sobrinho Manuanino, criança

de 17 annos.

O primeiro acto do poder de Manuanino foi mandar cortar a cabêça a

Gambela, que o tinha feito rei, e desprezando tôdos os parentes e amigos

do pai que o eleváram ao poder, chamou para junto de si só os parentes

maternos. Aquelles conspiráram, fizéram uma revolução, e tentáram

assassinal-o, em Março de 1878; mas Manuanino, tendo alguns fiéis, pôde

escapar-se, e fugio para o Cuando, onde assaltou e devastou a povoação

de Mutambanja.

Lobossi, acclamado rei, enviou contra elle um exèrcito, e Manuanino têve

de retirar d'ali, e repassando o Zambeze em Quisséque, internou-se no

paiz do Choculumbe, atravessou este paiz, e foi juntar-se a uns brancos,

caçadores de elephantes, que estavam na margem do Cafuqúe. Lobossi

entendeu, que a sua segurança dependia da morte de Manuanino, e mandou

contra elle um nôvo exèrcito. Foi do resultado d'aquella expedição que

n'esse dia chegáram noticias.

Chegados perto do logar onde estava o ex-soberano com os brancos, que

elles chamam _Mozungos_, intimáram estes a que lhes entregassem

Manuanino para o matarem, e como houvesse recusa, elles os atacáram,

mas, com tanta infelicidade, que fôram completamente batidos pêlos

brancos; escapando muito poucos, que n'essa tarde chegáram a Lialui a

narrar o seu desastre.

Eis aqui o motivo porque os tambores tocavam convocando á guerra; e

porque o rei Lobossi me pedio que mandasse dar tiros na grande praça da

cidade.

Ja que falei na historia do Lui, não dêvo proseguir sem narrar um dos

seus episodios mais interessantes, porque se refere a um typo

verdadeiramente sympàthico.

É Siroque, aquelle Macololo, que, na occasião da Saint Barthélemi dos

Macololos, conseguio escapar com um grupo de gente, passando o Zambeze.

Siroque, intrèpido e audaz, caminhou a oeste até encontrar o Cubango,

onde se estabeleceu, vivendo da caça dos elephantes.

Depois subio o rio até ao Bihé, e fixou-se ali por muito tempo, chegando

por vêzes a ir a Benguella em comitivas sertanejas. Um dia porem, tendo

umas questões em que bateu os que o atacáram, retirou por prudencia para

o interior; indo acampar no rio Cuando abaixo do Cuchibi, onde continuou

a vida de caçador.

Siroque era intelligente e bravo, e de uma familia que tinha reinado,

não podia deixar de ser ambiciôso.

Sonhou com o restabelecimento da monarchia Macolola no Lui, e foi-se

approximando d'ali pêlo Cuando.

Um pombeiro do Bihé, seu amigo e que lhe tinha fornecido pòlvora,

denunciou-o, e Manuanino, então acclamado de pouco, fel-o assassinar

junto da povoação de Mutambanja, pêla mais cobarde traição.

Tôdos os seus fôram vìctimas, e a azagaia do assassino de Siroque abrio

o tùmulo ao ùltimo dos Macololos.

Aquelle dia amanhecido tão bonançoso para o adolescente monarcha, que só

via sorrir-lhe a vida, tornara-se de repente sombrio e carregado,

envolvido em nuvens de tempestade.

As noticias más succedem-se, e corria o boato, de que Lo Bengula, o

poderoso rei do Matebeli, projectava um ataque contra o Lui.

Andavam tôdos desorientados, tôdos emittiam alvitres, todos pensavam

loucuras; só dois homens se conservavam serenos no meio d'aquelle pôvo

semi-louco. Eram Machauana e Gambela--Gambela o ministro da Guerra,

Machauana o General em chefe.[1]

Ordens acertadas e ràpidas eram dadas por elles a emissarios fiéis, que

partiam para povoações distantes.

¿O que seria de mim no meio dos novos acontecimentos que agitavam o

paiz?

Diziam e repetiam, que fôram os _Muzungos_ que matáram os sicarios de

Lobossi, enviados contra Manuanino, e se ali se soubesse que eu era

_Muzungo_, estava irremediavelmente perdido. Estes povos felizmente

ignoram isso, e pensam que os Portuguezes de leste sam de outra raça

differente dos Portuguezes de oeste.

No Lui, os Portuguezes das colonias de oeste sam chamados _Chiudéres_,

nome que lhes dam os Bihenos; os das colonias de leste, _Muzungos_; e os

Inglezes do sul, _Macúas_. A tôdo e qualquér prêto que vem das colonias

Portuguezas chamam _Mambares_, de certo corrupção da palavra

_Quimbares_, com que sam designados os prêtos semi-civilizados de

Benguella. D'ahi proveio o erro do Doutor Livingstone, arranjando a

oeste das serras de Tala Mugongo uma raça de _Mambares_.

Os _Quimbares_ sam prêtos de qualquér procedencia, geralmente escravos

ou libertos, que ja sam meio-civilizados. Sam, finalmente, a gente das

senzalas de Benguella e as escravaturas dos brancos da costa.

Em Benguella chamam _Quimbundos_ ao gentio selvagem do interior,

designando com esse nome mais particularmente os Bihenos.

No dia 30, logo de manhã, Lobossi mandou dar-me parte de que se ia fazer

a guerra, e dos motivos que a isso o obrigavam.

O emissario foi o proprio Gambela, que me disse logo, que, sendo o

Chuculumbe o theatro da guerra, era impossivel a minha viagem por ali; e

por isso, que tudo o que havìamos combinado estava prejudicado.

Aquelles acontecimentos tornavam muito crìtica a minha posição.

N'essa tarde, estando eu com um nôvo e violento accesso de febre, viéram

prevenir-me, de que os pombeiros Bihenos me queriam falar.

Levantei-me a custo e fui ouvil-os.

Depois de variados preàmbulos, disséram-me, que me iam deixar, porque

viam o mao caminho que as cousas tomavam no Lui, e só desejavam voltar

ao Bihé.

Cobardes! Abandonavam-me no momento em que eu mais precisava d'elles!

Miguel, o caçador de elephantes, o pombeiro Chaquiçongo, e dois

carregadores, Catiba e um carregador, e o Doutor Chacaiombe, viéram

protestar-me a sua amizade, e declarar-me que ficavam comigo. Tôdos os

_Quimbares_ me viéram fazer igual declaração.

Aquella resolução inesperada dos Bihenos fêz-me recobrar o sangue frio

que ja não tinha ha dias. Augmentavam as difficuldades, era preciso

lutar, e eu sacudi o entorpecimento moral que se ia apossando de mim.

Immediatamente despedi os Bihenos, que puz fora do acampamento,

entregando-os ao prêto Antonio, o velho Antonio que eu tinha designado a

Lobossi para ser chefe e guia da comitiva que elle ia mandar a

Benguella.

Fiz em seguida a conta á minha gente, e achei-me com 58 homens.

No dia immediato, Lobossi veio a minha casa, e fêz-me repetidas

exigencias de cousas que eu não possuia, e elle queria por fôrça que eu

tivesse e lhe desse. Estava cada vez mais importuno. Era uma criança,

mas criança impertinentissima. Precisava de uma paciencia sem limites

para o aturar.

Lobossi mandou-me chamar n'essa noute. Fui la, e elle disse-me, que a

minha viagem pêlo Chuculumbe era impossivel, mas que me daria guias e

alguma gente para eu tornear pêlo sul e ir ao Zumbo.

Disse-me, que o boato a respeito dos Matebeles não tinha fundamento, que

d'aquelle lado havia paz e elle terminaria facilmente com Manuanino.

Queixou-se muito amargamente de eu lhe dar poucas cousas, dizendo, que

se eu nada mais tinha, lhe desse tôdas as armas e a pòlvora que possuia,

porque, seguindo para o Zumbo com gente d'elle, seria defendido por

ella, e não precisava levar tanta gente armada.

Offereci-lhe as armas dos Bihenos que me tinham deixado n'esse dia, e

que tive o cuidado de lhes tirar, e sete barris de pòlvora, mas

neguei-me formalmente a dar-lhe uma só que fôsse das outras, dos homens

que me ficáram, ou das minhas particulares.

Retirei-me pouco satisfeito d'aquella entrevista.

No primeiro de Setembro, levantei-me muito doente, e depois de ter feito

as observações da manhã, tornei a deitar-me; quando o Verissimo entrou

espavorido na barraca, e me diz, que Lobossi mandara chamar tôda a minha

gente, e lhe exposera, que eu tinha vindo ali de propòsito para me ir

juntar aos _Muzungos_ que estavam no Cafuque com o Manuanino, e

fazer-lhe guerra a elle. Isso estava demonstrado pêla minha insistencia

em querer ir ao Chuculumbe. N'essa noute fôra elle prevenido dos

projectos que eu meditava, e por tanto, me ia obrigar a sahir dos seus

estados, e só me deixaria livre o caminho do Bihé.

Encarregara elle o Verissimo de me vir fazer a intimação; cousa que em

nada me desconcertou o espìrito, porque, desde a vèspera á noute, eu

esperava novidade grande.

Mandei chamar o Gambela, mas elle têve o cuidado de fazer com que o não

encontrassem em tôdo o dia.

Um recado que fiz chegar a Lobossi, mostrando-lhe a inconveniencia do

passo que dava, porque eu lhe podia fazer muito mal impedindo os

sertanejos do Bihé de virem ali, têve por ùnica resposta nôvo mandado de

despejo, e só livre o caminho do Bihé.

Á tarde, nova prevenção, de que as forças que estavam reunidas para a

guerra, não sahiriam sem eu ter deixado o paiz do Lui em caminho de

Benguella.

Respondi ao enviado, que dissesse ao rei Lobossi, que dormisse sôbre o

caso, porque a noute era bôa conselheira, e que esperava ainda a sua

ùltima decisão no dia immediato.

A 2 de Setembro, logo de manhã, recebi a visita de Gambela, que vinha da

parte do rei, ordenar-me que sahisse do seu reino immediatamente, e que

o ùnico caminho livre era o do Bihé. Não pode passar nem por ali, nem

por ali, nem por ali, me disse elle, apontando para o N., E. e S.

Contra tôdos os usos do paiz, o Gambela, em quanto estêve em minha casa,

conservou as armas na mão, e eu entretive-me brincando com um magnìfico

revólver Adams-Colt.

Fingi que meditei a minha resposta, e disse-lhe, "Amigo Gambela, vá

dizer a Lobossi, ou tome o recado para si, que eu não arredo um passo

d'aqui para seguir o caminho de Benguella. Tem ahi um numeroso exèrcito,

que me venha atacar; eu saberei defender-me, e se morrer, o Mueneputo

lhe tomará contas d'isso. Vocês estam indispostos com os Matebeles,

ameaçados pêla guerra civil levantada por Manuanino, indisponham-se

tambem com o Mueneputo, e estam perdidos. Outra vez lhe repito, que não

sahirei d'aqui senão para seguir o meu caminho."

Gambela sahio da minha barraca furioso.

N'essa noute Machauana veio furtivamente visitar-me. Previnio-me elle de

que Gambela aconselhara ao rei para me mandar matar, e que Lobossi se

negara a isso terminantemente. O caso foi passado em conselho, a que

assistia Machauana, que me fez mil prevenções para estar de sôbre-aviso.

A larga conversação que tive com o antigo companheiro de Livingstone,

mostrou-me que entre elle e Gambela havia reixa velha. O antigo

guerreiro de Chibitano, depois muito afeiçoado ao rei Chipopa, só

pensava em ver occupar o trôno do Lui ao filho d'este, seu pupillo e seu

protegido, o joven Munutumueno, o meu alferes de cavallaria ligeira.

Tendo podido ler no coração do velho aquelle odio e aquella affeição,

considerei-me salvo. O seu poder era grande, porque elle tinha

influencia n'uma enorme parte das tribus do Lui; e por isso as azagaias,

que tanto ferem ali nas revoluções, o tinham poupado. Fiz-lhe muitos

protestos de gratidão, e pedi-lhe, que me prevenisse logo que o rei

Lobossi determinasse matar-me. Elle prometeu, e retirou-se.

Eu fui deitar-me, levando a referver na mente, um plano singelo, que me

abstive de communicar a Machauana, para lhe evitar idéas cubiçosas, que

elle não tinha n'aquelle momento.

Resolvi, se acaso Lobossi decretasse a minha morte, chamar cinco dos

meus homens mais decididos, uma especie de cães que eu tinha comigo,

como eram Augusto, Camutombo e outros, e ir com elles logo á audiencia

do rei, onde tôdos estam desarmados, fazel-os, a um signal meu, saltarem

sôbre Lobossi, Gambela, Matagja e os outros dois conselheiros ìntimos, e

eu de um pulo acercar-me de Machauana o general em chefe, o homem que

tinha ali acampados dez mil guerreiros, e gritar-lhe bem alto "¡Viva

Munutumueno, rei do Lui, viva o filho de Chipopa!"

Uma revolução feita n'estes termos não podia deixar de dar bom resultado

n'um paiz que ama as revoluções, e onde se faria a primeira em que não

houvesse uma gôta de sangue derramado.

Acalentando este pensamento salvador, adormeci profundamente, para

acordar, no dia 3, ao chamamento do meu muleque Catraio, que me vinha

prevenir, de que Lobossi estava ali, e me queria falar.

Levantei-me e fui receber o rei. Elle vinha participar-me, que tinha

mudado de parecer, e que tôdos os caminhos estavam livres para mim.

Que me daria guias até ao Quisséque, mas que, em vista das cousas que se

estavam passando nos seus estados, não podia dar-me fôrça para me

seguir, nem se responsabilizava por qualquér desastre que me podesse

acontecer, indo eu com 58 homens apenas.

Agradeci-lhe aquella decisão, e declarei-lhe, que tinha por costume, só

eu mesmo me responsabilizar pêla minha vida, e não tornar ninguem

responsavel d'ella.

Antes de se retirar, fêz-me muitos pedidos, que ficáram sem satisfação,

por não ter nada do que elle queria. Um dos pedidos que me fazia tôdos

os dias, era o de seis cavallos. Tendo-me visto chegar a pe, e sabendo

que eu não tinha cavallos, era impertinencia tal desejo.

Sube depois, que a nova decisão tomada por Lobossi fôra filha de

reïteradas instancias do Machauana, que lhe mostrou a inconveniencia do

passo que dava, fazendo-me sahir dos seus estados a pesar meu.

No dia 4, de manhã, estando um pouco melhor da febre, fui assistir a uma

audiencia do rei, que se mostrou em extremo amavel para comigo. Logo ao

nascer do sol, Lobossi sahi dos seus aposentos, e ao som de marimbas e

tambores, dirige-se á grande praça, onde vai sentar-se junto a uma alta

sebe semi-circular, cujo centro é occupado pêla cadeira real.

Por de traz d'elle senta-se a gente que compõe a côrte, e á sua direita

Gambela e os outros conselheiros, se estam presentes.

Na frente do règulo, a 20 passos, a mùsica em linha, e aos lados, em

muitas fileiras, o pôvo.

Ali tratam-se um certo nùmero de negocios, que não precisam ser tratados

em conselho privado. Aquella audiencia é tambem judicial. N'aquelle dia

tratava-se de um crime de furto. O queixoso chamou o accusado, que veio

sentar-se em frente d'elle, e fez a accusação. O acusado negou o crime,

e logo de entre o pôvo sahio um homem que veio advogar em favor do réo.

Ali qualquér amigo ou parente pode defender o amigo ou parente.

Gambela tomou a palavra, e o accusado veio ajoelhar em frente d'elle;

fêz-lhe varias perguntasse mandou-o embora.

Continuou o debate, comparecendo testemunhas de accusação e defesa. O

crime foi provado, e o accusador pedio, que lhe entregassem a mulhér do

ladrão; ficando indemnizado da perda de uns fios de missanga, objecto do

roubo, pêla posse da mulhér.

Terminado este debate, apparaceu outro homem accusando a mulhér de lhe

não obedecer. Esta accusação foi seguida de muitas outras semelhantes, e

mais de vinte sùbditos de Lobossi fizéram amargas queixas contra as

espôsas; demonstrando-me, que as mulheres em Lialui estavam em completa

revolta domèstica. Depois de alguma discussão, foi resolvido, que tôda a

mulhér que não obedecesse cega e absolutamente ao marido, fôsse amarrada

e mettida na lagôa, onde passaria uma noute só com a cabêça de fora.

Aprovada esta nova lei, Gambela ordenou a alguns chefes, que a

promulgassem nas povoações.

Uma cousa muito curiosa n'aquellas audiencias é o modo porque Gambela

conferenceia com o rei em segrêdo, diante de tôdos. A um signal de

Gambela, começa a mùsica a tocar, e os oito batuques fazem uma bulha de

tal modo infernal, que é impossivel perceber uma palavra das que trocam

o rei e o ministro.

Em seguida á audiencia, o rei vai para um aposento proprio para se

embebedarem.

V[~e]m panellas e panellas de capata, e elle e os seus prestam um

verdadeiro culto ao deos Baccho. D'ali vai para a cama, e á tarde,

depois de novas libações, dá nova audiencia. Logo que, ao anoutecer,

termina a audiencia, vai comer, e segue para o serralho, d'onde

raramente sahi antes da uma hora, e recolhendo a casa para dormir, vahi

deitar-se ao som ruidoso dos tambores.

O cessar dos batuques annuncía que o règulo está recolhido, e então a

guarda, composta de uns quarenta homens, começa a tocar uma mùsica, que,

apesar de monòtona, é agradavel; e tôda a noute cantam um côro suave e

harmonioso a meia voz. Esta mùsica que no Barôze acalenta o sono do

soberano, serve para mostrar que a guarda vela em tôrno do seu aposento.

N'estes poucos traços dou uma idéa resumida do viver monòtono do

autòcrata Africano, viver repartido entre a lascivia tôrpe e a

embriaguez brutal.

N'aquelle dia, 4 de Setembro, sube, que devia a vida a Machauana, que,

em conselho privado, se opôz formalmente a que me mandassem assassinar;

dizendo, que elle tinha estado em Loanda com Livingstone, e ali tinha

sido muito bem tratado pêlos brancos, assim como os Luinas que o

acompanhavam; e por isso não podia consentir que fizessem mal a um

branco da mesma raça.

Chegou mesmo a ameaçar os poderes constituidos, o que era caso grave

para elles; porque no Lui os ministros morrem sempre na queda dos

ministerios; precaução tomada pêlos novos conselheiros, que com alguns

golpes de azagaia cortam pela raiz as opposições.

Cá na Europa, algumas vêzes, procura-se denegrir a reputação dos

antecessores, buscando desdoural-os aos olhos do pôvo, para lhes

diminuir a fôrça moral como opposição. Eu acho mais nobre, mais digno e

mais seguro o systema polìtico dos Luinas, o que não quer dizer que o

recommende.

O conselho, em vista da attitude e das razões de Machauana, decidio, que

eu não morrêsse; mas, parece que algum dos conselheiros por conta

propria decidio o contrario; porque, n'essa noute, estando afastado do

acampamento, preparando-me para tomar alturas da lua, uma azagaia de

arremesso passou tão perto de mim que a aste vergastou-me o braço

esquêrdo. Olhei para o lado d'onde partira a arma, e vi um prêto a vinte

passos, empunhando outra. Tirar o revólver e fazer fôgo sôbre elle, foi

acto mais instinctivo do que pensado. Ao estampido do tiro, o assassino

virou costas e correu em direcção a Lialui. Corri sôbre elle.

Sentindo-me no encalço, o prêto deitou-se por terra. Receei uma cilada,

e foi a passos medidos que me approximei d'elle, prompto a fazer fôgo.

Vi que o membrudo indìgena estava de bruços com as azagaias cahidas ao

lado.

Peguei-lhe n'um braço, e ao tempo que senti as carnes estremecerem ao

contacto da minha mão, senti um lìquido quente correr-me por entre os

dêdos. O homem estava ferido. Fil-o erguer, e elle disse-me, tranzido de

mêdo, umas palavras que eu não entendi. Apontando-lhe o revólver,

obriguei-o a acompanhar-me ao acampamento.

Ali não fizera sensação o tiro de revólver, porque tôdas as noutes se

ouvem mais ou menos tiros. Chamei dous muleques de confiança, e

entreguei-lhe o meu prisioneiro, cuja ferida examinei. A bala entrara

junto á cabêça superior do hùmero direito, perto da clavìcula, e não

tendo sahido, suppuz estar fixa na omoplata. Não lhe apparecendo sangue

nas vias respiratorias, calculei que o pulmão não tinha sido offendido,

assim como o fio de sangue que corria da ferida, pêla sua tenuidade me

mostrava que nenhum dos vasos importantes da circulação tinha sido

cortado. N'estas condições a ferida não apresentava gravidade, pêlo

menos de momento.

Depois de lhe fazer um ligeiro curativo, mandei chamar o Caiumbuca, e

ordenei-lhe que me acompanhasse a casa do rei, fazendo com que os

muleques conduzissem para ali o ferido.

Lobossi tinha voltado de casa das amantes, e conversava com Gambela

antes de se deitar. Apresentei-lhe o ferido e perguntei-lhe o que era

aquillo. O rei mostrou um grande terror, vendo-me coberto de sangue do

assassino, que eu nem tinha lavado; e um olhar trocado entre Gambela e o

ferido, mostrou-me quem tinha sido a cabêça que enviara aquelle braço.

Lobossi mandou logo retirar d'ali o prêto, e disse-me, que aquillo era

um grande agouro, e que ja não durmiria aquella noute socegado.

Narrei o acontecido, e Gambela apoiou muito o que eu tinha feito,

lastimando que eu não tivesse morto o prêto, e dizendo-me, que ia matar

meio mundo.

O prêto era desconhecido em Lialui, e os da guarda de Lobosi disséram

nunca o terem visto. Lobossi pedio-me, que guardasse sôbre o facto o

maior segrêdo, assegurando-me, que não me acontecia outra em quanto

estivesse nos seus estados.

Eu voltei ao campo mais desconfiado que nunca das amabilidades de

Gambela.

Por noute fora, senti que alguem tentava penetrar na minha barraca, e

puz-me a pe sem ruido, prompto a sorprender aquelle que julgava fazer-me

sorpresa.

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo · 第 1 / 23 段